Para Leitores

[Resenha] A Máquina do Tempo – H. G. Wells

No século XIX, um cientista entra em uma máquina construída por ele mesmo e se transporta mais de 800 mil anos para o futuro. Lá, encontra uma realidade bastante diferente da que conhecia e, aparentemente, perfeita. Ao longo dos dias, o Viajante do Tempo descobre que tanta harmonia teve um custo.

No início do livro, o leitor observa uma reunião que acontece sempre às quinta-feira na casa de um cientista muito curioso e empenhado em criar engenhocas. Seus amigos são um jornalista, um psicólogo, um editor, e outros sujeitos identificados apenas pelas suas ocupações profissionais. Em suma, indivíduos de uma elite letrada que conversa sobre uma série de assuntos enquanto jantam e tomam uísque.

Certo dia, o anfitrião se apresenta com o aspecto moribundo, ofegante, e, após comer uma refeição como se não visse carne vermelha há muitos anos, começa a contar a sua história – a história de como foi viajar no tempo. A partir daí, os diálogos cessam porque seus convidados – e nós, os leitores – estão ouvindo atentamente o que ele tem a dizer.

O Viajante entrou em sua máquina e disparou 802.708 anos no tempo, desembarcando em uma Londres muito diferente daquela onde habitava.

A Máquina do Tempo (1960)

Nessa nova realidade, os seres humanos são pequenas criaturas simpáticas (imagine mais ou menos os minions), mas também estranhas. Têm pouca estatura, se alimentam apenas de frutas, dormem todos juntos em palácios, e vivem fora dos conceitos habituais de família e de propriedade privada – e até de pudor. Não trabalham, não produzem nada, mas também não guerreiam entre si. Não existe mais violência e nem doenças. Até os mosquitos foram dizimados.

“A segurança demasiado perfeita do Povo da Superfície os conduzira a um lento processo de degeneração, a uma diminuição geral de seus números, ao encolhimento de suas proporções, à diminuição de sua força física e à limitação de sua inteligência”.

Interessado em entender melhor como aquela sociedade funciona, o Viajante do Tempo explora o novo mundo em busca de respostas. Como bom pesquisador, observa, tece teorias, faz experimentos e faz conclusões. Conclusões essas modificadas quando novos elementos são introduzidos nos seus estudos, como a aparição de uma espécie que vive no subsolo e que muito destoa daquela que habita a superfície.

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O cientista logo descobre que os seres subterrâneos são quem produzem tudo o que as criaturas de cima consomem. Eles também apresentam uma fisionomia diferente, mais grotesca, e têm hábitos de vida próprios, como só se movimentar na escuridão e praticar o canibalismo.

“A natureza nunca apela para a inteligência até que o hábito e os instintos tenham se tornado inúteis”.

Com essa divisão de espécies, H. G. Wells faz uma crítica direta à divisão e exploração de classes, em um período que a Revolução Industrial já estava consolidada. O autor desenha um futuro em que muitos dos problemas sociais foram sanados, mas outros permaneceram, como o domínio do mais rico sobre o mais pobre.

Segundo o texto, a classe da superfície tem mais condições de manter a harmonia e a pacificidade, enquanto à classe subterrânea foram negados o mesmo conforto e equilíbrio civil. Para sobreviver, eles precisaram se brutalizar.

A Máquina do Tempo (2002)

Um outro tema discutido é a tecnologia. A narrativa nos convida a refletir até que ponto o avanço tecnológico é benéfico ao ser humano, uma vez que substituindo todas as capacidades físicas e intelectuais pela operação das máquinas, os indivíduos acabaram se transformando em criaturas atrofiadas, inclusive emocionalmente, o que impactou diretamente a produção artística da sociedade, agora nula. Em um museu, foram guardados livros e armamento, apenas como depósito de uma realidade já distante.

O texto sugere que a evolução do ser humano passa diretamente pela necessidade de superar obstáculos. Quando não existe mais o que vencer, o que melhorar, o regresso é o único caminho.

Ficção científica não está entre os meus gêneros favoritos, mas A Máquina do Tempo sim, é um dos livros de que eu mais gostei de ler, e, agora, reler. H. G. Wells apresenta uma narrativa com propósito, um texto objetivo, interessante e nem um pouco enfadonho.

Sobre o autor

Herbert George Wells nasceu em Bromley, no condado de Kent, na Inglaterra, em 1866. Estudou em uma escola particular em Bromley e posteriormente no Royal College of Science, onde teve aulas de biologia com T.H. Huxley, defensor das teorias de Charles Darwin. Simpatizante do socialismo, da ciência e do progresso, foi, nas palavras de Bertrand Russell, “um importante libertador do pensamento e da ação”.

Sobre o livro

Título: A Máquina do Tempo
Autor: H. G. Wells
Editora: L&PM
Páginas: 137
Ano: 1895
Avaliação: 5/5

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Escritora, jornalista e leitora assídua desde que se conhece por gente. Escreve por achar que a vida na ficção é pra lá de interessante.

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Sabryna Rosa