Para Escritores

Qual a diferença entre análise literária e crítica literária?

Você não precisa ser nenhum acadêmico das Letras para já ter ouvido falar nesses dois termos por aí. Mas qual a diferença entre análise literária e crítica literária? São a mesma coisa com nomes diferentes? Um é o termo chique do outro? Vem que eu te explico bem rapidinho. Análise Literária A análise se preocupa em entender a forma e o conteúdo da obra. Um livro pode ser analisado sob vários ângulos, como, por exemplo, a Filosofia ou a Sociologia, ou ainda a Teologia. Você pode pegar A Metamorfose, de Kafka, e analisá-lo a partir de alguma corrente filosófica ou psicanalista, ou ler O Retrato de um artista quando jovem à luz de uma doutrina religiosa. A Análise Literária seria então uma interpretação mais aprofundada de um texto. Leia também 3 dicas para escrever todos os dias. Crítica Literária Já a Crítica faz uso do elemento pessoal, de um juízo de valor que o crítico irá emitir sobre a obra literária. A crítica costuma influenciar a opinião do público e às vezes pode até mesmo ser responsável por alavancar a popularidade de um livro – ou destruí-la.  Um crítico literário de que gosto muito é o Cristóvão Tezza, suas críticas há muito tempo vêm sendo publicadas em jornais de renome pelo país. A Análise Literária e a Crítica Literária podem andar próximas, embora não possam se confundir. Podemos dizer que a primeira está mais alinhada com interesses acadêmicos enquanto a segunda com interesses comerciais ou editoriais.  De qual livro você gostaria de ler a análise e a crítica literária?

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Contos

Todos os dias bons

Minha irmã Ellen sempre foi muito organizada. Quando criança, eu não me preocupava em memorizar o dia da aula de Geografia porque ela colava um papel sulfite na porta da geladeira com todos os nossos afazeres. Segunda-feira, aula de inglês, quinta-feira, uniforme de Educação Física, sábado, catequese. Sempre foi um prazer pessoal dela se dedicar a deixar tudo em ordem. Liguei para Ellen na sexta-feira e perguntei se gostaria de jantar comigo no restaurante novo do bairro, um mexicano com luzes coloridas e música sertaneja.  – Hoje é dia do futebol do Érico, ele gosta que eu vá. – Nenhuma esposa vai assistir a essas coisas, não é o dia dele encontrar os amigos e fazer esses programas chatos de homens? – Mas ele gosta que eu vá, ele diz que eu dou sorte. – Por favor, tire um fim de semana para ver a sua irmã mais velha, faz tanto tempo que não batemos um papo. – Amanhã, pode ser? O Érico pode ir? Se bem que ele odeia comida apimentada, mas se pudermos ir em outro lugar… – Ellen, que tal deixar o Érico um diazinho sozinho em casa? Ele não vai morrer. Problema dele se ele não gosta de comida apimentada, é um bar mexicano que toca sertanejo, nada a ver com México, deve ser divertido. Ellen deu uma risada do outro lado do telefone. – Tá bom, tá bom. É que nós ainda estamos.. – Em lua de mel, eu sei. Ô lua de mel demorada, eu só quero ver a minha irmã – falei e ela riu mais uma vez, deixando o nosso jantar combinado. Ellen e Érico se conheceram na faculdade. Ele estudava Biologia e se interessava por botânica, ela fazia Matemática e se interessava por aritmética. Um dia, voltando para casa, o pneu do nosso carro furou e ele nos ofereceu ajuda. Usava uns óculos quadrados, estava ligeiramente acima do peso e era um sujeito extremamente simpático. Por algumas semanas, os dois se esbarraram nos corredores e trocaram sorrisinhos, ele a convidou para ir ao cinema, ela se apaixonou antes que o filme terminasse.  Leia também Fique na floresta – Como você está? – escolhemos uma mesa não muito perto da dupla sertaneja para evitar o som alto, mas também não muito longe para não desperdiçar o couvert. – Estou bem, animada com o novo emprego. – Achei que não gostasse de dar aulas para adolescentes – eu disse, bebericando minha caneca de cerveja. – O Érico tem mais paciência do que eu, é verdade, mas acho que posso me sair bem.  – O que tanto incomoda você? – Nos adolescentes? Eles estão sempre desesperados para chegar na vida adulta. Ficam conversando sobre coisas que não podem fazer, sobre a independência que não tem, sobre a pressão dos pais… tudo isso é nada quando comparado à vida adulta – subitamente, os olhos dela ficaram opacos e distantes, mas em um segundo recuperaram o brilho, ainda que fosse um brilho meio artificial – Mas o Érico me disse que se eu não der corda a irritação será menor. Eu abaixei o olhar e fiquei em silêncio, tentando deixar a voz dos cantores preencherem o espaço entre mim e minha irmã. – Sabia que ele vai iniciar uma pesquisa nova agora? – ela se expressou com bastante empolgação. – Quem? – perguntei, desinteressada. – O Érico, boba! Finalmente, ele conseguiu aquela bolsa científica que ele tanto queria. É uma pesquisa importante, o nome dele vai sair naquelas revistas que gente inteligente lê.  – O que acha de viajarmos? Só nós duas – a garçonete deixou dois pratos de nachos no meio da nossa mesa. – Vão querer algo para sobremesa? – a garçonete perguntou – Posso ir adiantando o pedido. – Acho que uma torta de limão – sempre foi a nossa sobremesa preferida, de todos os domingos na casa da vovó.   – Eu odeio torta de limão – Ellen enrijeceu os ombros e eu me desculpei instantaneamente, dispensando a garçonete. Ellen mastigou o nacho com o semblante nervoso e eu toquei a mão esquerda dela devagar, com cautela. – O que acha da Itália? Você sempre quis conhecer a Itália. Eu deixo você fazer o roteiro que quiser. – Acabei de me casar, não tenho dinheiro para ir até a Itália – ela respondeu com a voz seca. – Deixe comigo, eu consigo o dinheiro e você organiza tudo, metodicamente, como sempre fez. Prometo que não vou reclamar de nada – tentei parecer animada, mas por dentro ainda me sentia culpada pela torta de limão. Eu havia esquecido completamente. – Preciso ver com o Érico – ela relaxou um pouco e eu mordi os lábios, soltando o ar devagar. – Tá, tudo bem.  – Podemos ir? – certa vez, uma garota espalhou pela escola que Ellen fedia a estrume, por conta do nosso pai, que trabalhava em uma fazenda nos arredores da cidade. Um dia, ela saiu correndo da aula, me procurou e disse “Podemos ir?”, com o semblante choroso e as mãozinhas tremendo. Eu fui até lá e dei um soco na garota. Ellen fez aquela mesma cara agora e eu gostaria de dar um soco em Érico, mas eu não podia e nem era culpa dele. Durante o caminho, tentei conversar sobre amenidades, mas Ellen, monossilábica, olhava as ruas com o olhar vago e ansioso, como se quisesse chegar logo em casa. Antes de ela descer do carro, inventei uma desculpa. – Seria muito folgado da minha parte pedir aquele seu vestido emprestado de novo? – Não, eu pego num instante – ela não me convidou para entrar. – Ellen! Posso usar seu banheiro enquanto você acha o vestido? – Pode sim – ela respondeu, depois de hesitar por um instante. Ellen não convidava ninguém para entrar em casa, nem mesmo eu ou nossos pais. Tudo continuava exatamente igual como naquele dia, o par de tênis na soleira da porta, a camisa de time de futebol no braço do sofá, as …

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Para Leitores

7 trechos de “Cartas a Malcom” – C. S. Lewis

Em Cartas a Malcom, C.S. Lewis expõe cartas que trocou com seu amigo imaginário, Malcom, um homem parecido com ele no estilo de vida, mas com ideias divergentes sobre alguns assuntos, o que levou a produção desses textos que são verdadeiras preciosidades em matéria de religião. Veja 7 trechos de Cartas a Malcom: São necessárias pessoas de todos os tipos para se fazer um mundo — ou uma igreja. Talvez isso seja ainda mais verdadeiro com respeito a uma igreja. Se a graça aperfeiçoa a natureza, ela deve expandir todas as nossas naturezas para a plena riqueza da diversidade que Deus planejou quando Ele as criou, e o céu mostrará muito mais variedade do que o inferno. Carta II Não adianta pedir a Deus, com seriedade factícia, por A quando nossa mente está, na verdade, totalmente preenchida com o desejo por B. Devemos colocar diante Dele o que está em nós, não o que deveria estar em nós. Carta IV Pode bem ser que o desejo seja colocado diante de Deus apenas para ser um pecado do qual devamos nos arrepender; mas uma das melhores maneiras de aprender isso é colocar o pedido diante de Deus. Carta IV Venha o Teu reino. Isto é, que seu reinado seja realizado aqui, como é realizado lá. Mas eu costumo considerar o lá em três níveis. Primeiro, como em um mundo sem pecado, além dos horrores da vida animal e humana; no comportamento de estrelas e árvores e água, no nascer do Sol e no vento. Que haja aqui (no meu coração) o começo de uma beleza semelhante. Em segundo lugar, como nas melhores vidas humanas que conheci: em todas as pessoas que realmente carregam os fardos e parecem verdadeiras, as pessoas que chamamos de bom coração e, na vida tranquila, ocupada e ordenada de famílias realmente boas e de lares religiosos realmente bons. Que isso também seja “aqui”. Por fim, é claro, no sentido usual: como no céu, como entre os bem-aventurados mortos. Carta V Se Deus tivesse atendido a todas as orações bobas que fiz em minha vida, onde eu estaria agora? Carta V Volto a São João: temos de tranquilizar “nosso coração diante dele quando nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração”. E, de igual modo, se nosso coração nos adula, Deus é maior que nosso coração. Carta VI No mundo perfeito e eterno, a Lei desaparecerá. Mas os resultados de ter vivido fielmente sob ela não serão. Carta XXI

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Para Escritores

Como encontrar o leitor ideal para o seu livro

No decorrer da escrita de um livro podemos nos questionar se a nossa história vai agradar. Mas agradar a quem exatamente? Essa é a pergunta que pode fazer a diferença na hora de alcançar o seu público. Encontrar o leitor ideal, aquele que ao ler o seu livro vai sentir como se houvesse sido escrito para ele, pode ser feito por meio de uma técnica de marketing bem conhecida: a criação de um avatar. O que é um avatar? O avatar é um personagem fictício que servirá hipotéticamente como o seu leitor ideal. Ele deve ter características como nome, idade, profissão ou formação escolar, preferências pessoais, localização, idade, e quantos mais detalhes você puder atribuir a ele. Vamos pensar em uma comédia romântica cujos personagens principais são asiáticos. Quem você acha que irá se interessar mais pela história? Uma garota que assiste a doramas e é apaixonada pela cultura asiática ou uma garota que adora livros policiais e se interessa pelos países nórdicos? Leia também Como se destacar como autor independente A criação de um avatar serve para que ao escrever você pense no que exatamente pode agradar o seu leitor ideal. Isso não impede que outras pessoas, pouco ou nada parecidas com o seu avatar, se interessem pela narrativa, mas que leitores com aquelas características tenham uma chance maior de ler o seu livro. Como criar um avatar? Você pode dar características bem gerais ao seu avatar, mas quanto mais detalhado, melhor. Use as perguntas a seguir para construir o seu leitor ideal: Nome?Idade?Gênero?Estado civil?Tem filhos?Quais as idades dos filhos?Profissão?Qual a classe social?Qual a formação acadêmica?Onde nasceu?Qual o posicionamento político?Tem religião? Qual?Quais seus medos?Quem são suas inspirações?Qual o livro preferido?De quais filmes gosta?Que músicas ouve?Quais seus passatempos?Gosta de esportes? Quais?Gosta de arte?Quais lugares já visitou ou gostaria de visitar?Quais suas fontes de informação?Quais valores defende?O que lhe causa sofrimento?O que consome na internet?Usa redes sociais? Por que leria o seu livro?Qual opinião terá ao ler a sua história? A partir dessas respostas (você pode criar outras perguntas), você terá construído um leitor que se identificará com a história que você está escrevendo. O livro Ouro (Chris Cleave), por exemplo, é ambientado em competições esportivas e os personagens principais são atletas profissionais de ciclismo. Pense em como um ciclista deve ter gostado de ler essa história! Um avatar é absolutamente necessário? Na minha opinião não. Vários escritores obtiveram sucesso sem um avatar, e a criação de um pode engessar o processo de escrita se ao pensar tanto no que agrada o leitor ideal você deixar de aplicar a criatividade pessoal. Pode culminar nos famosos livros clichês. Um avatar é útil quando você não sabe por onde começar, ou não sabe que tipo de linguagem usar (pense: se você escreve para um público adolescente, escrever personagens com problemas de adulto pode desinteressar os seus leitores) ou ainda quando não quiser arriscar uma narrativa muito fora do que o seu público já está acostumado a ler (pense: é muito mais fácil escrever um romance clichê que funciona, do que escrever sobre ficção científica). O importante é que a partir desse pequeno guia você saberá como encontrar o leitor ideal para o seu livro, aumentando as chances de que a sua história seja lida pelas pessoas que você quer que leiam. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Bastidores

Mais aqui, menos acolá

Ser mais quem eu sou e menos quem eu gostaria de ser. Perdi muito tempo olhando para quem eu queria ser. Não de um jeito inspirador, como quem olha para uma estatúa e pensa: eu queria ser bom o bastante para merecer ter uma estátua, mas de um jeito fantasioso, infantil, como quem olha para um personagem de desenho animado cheio de poderes. Quero olhar mais para quem eu sou e para o que posso fazer a partir disto aqui. Jogar a régua fora, esquecer as métricas universais; meu caminho é só meu. Às vezes é cheio, às vezes tenho que abrir a mata fechada a machadadas, mas é meu. Olhar mais para o relógio e menos para o calendário. Um mês não é quase nada, mas até às 16h dá para fazer bastante coisa, é só reparar. Meu tempo também é só meu. Ser grata, humilde, realista. A vida nas revistas está a uma gota de chuva de se desintegrar. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Para Leitores

12 sugestões de livros para 2024

Quando chega o fim do ano, muitos de nós fazemos metas para o ano novo, dentre elas a de adquirir ou de manter o hábito de leitura. Se você é uma dessas pessoas que quer se tornar um leitor no ano que vem, mas não sabe por onde começar, aqui vão 12 sugestões de livros para 2024. 1. Contos – Tchekov Ler Tchekov foi uma belíssima surpresa para mim. Não conhecia o autor e me surpreendi com a genialidade dos seus contos. Se você ainda não tem ritmo de leitura ou não gostaria de começar por um livro de romance, esse título é uma boa pedida. 2. As Regras da Casa de Sidra – John Irving Não se assuste com o tamanho desse livro, é um calhamaço que vale tanto a pena que acabou indo parar nos cinemas, levando Oscar para casa e tudo. Na história, um garoto chamado Homer Wells cresce em um orfanato e tem seu amadurecimento transpassado por dramas pessoais e alheios. 3. O Clube do Livro no Fim da Vida – Will Schwallbe Essa é a história real sobre a relação de uma mãe em tratamento contra o câncer e seu filho, uma amizade ligada não apenas pelo laços sanguíneos, mas também pelos livros. Um livro profundamente delicado e encantador. 4. Alguém para Correr Comigo – David Grossman Mais uma narrativa sobre família, desta vez sobre uma garota que precisa resgatar o irmão de uma organização criminosa que escraviza crianças e adolescentes em Israel. Se você também gosta de conhecer outros países e culturas por meio da leitura, esse livro é uma boa opção. 5. Reparação – Ian McEwan Tentei fugir um pouco dos livros famosos, mas aqui eu não resisti. Gosto tanto de Reparação que o indico sempre que posso. Nesse romance, Robbie é acusado de um crime que não cometeu, injustiça que afeta sua vida e seu romance com Cecília Tallis. Você pode ler meu artigo sobre o livro clicando aqui. 6. O Tempo entre Costuras – María Dueñas Uma jovem apaixonada e traída de repente se vê envolvida em um esquema de espionagem na Segunda Guerra Mundial e usa o talento como costureira para ajudar na guerra contra os fascistas. Uma narrativa que mescla fatos históricos e ficcionais de uma maneira apaixonante.  7. Ouro – Chris Cleave Outro entre os meus queridinhos. Com uma temática esportiva, Ouro fala sobre duas ciclistas que estão no topo do ranking sendo ao mesmo tempo amigas na vida pessoal e rivais no esporte, tendo uma delas seu destino alterado por uma gravidez não planejada. Um livro para ler e reler sempre que puder. 8. A Garota das Laranjas – Jostein Gaarder O mesmo autor de O Mundo de Sofia apresenta aqui a história de um garoto que lê uma carta do pai, morto há onze anos, em que ele conta sobre sua paixão por uma garota que andava com um saco de laranjas pelas ruas de Oslo. Um romance para deixar o coração quentinho. 9. Silenciadas – Kristina Ohlsson Chegamos aos livros policiais com a indicação desse que é o primeiro livro de uma trilogia que trata sobre tráfico humano. Ideal para quem aprecia histórias investigativas com muitas pistas soltas e revelações. 10. Filha da Fortuna – Isabel Allende Esse não é o livro mais popular da Isabel Allende, mas também é um livraço. Conta a história de Eliza Sommers, uma jovem que sai para procurar o noivo atraído pela promessa de ouro e enriquecimento na Califórnia do século XIX.  11. C.S. Lewis: Do Ateísmo às Terras de Nárnia –  Alister McGrath Eu que nunca fui muito chegada a biografias adorei ler a do C.S. Lewis. Nesse trabalho, o autor narra o processo de conversão de Lewis, a amizade dele com Tolkien e muitos outros fato que só quem é fã do autor vai adorar conhecer. 12. A Sala de Vidro – Simon Mawer Onde estão os amantes de arquitetura? Esse livro é para misturar duas das sete artes em uma só tacada. A protagonista aqui é a casa imponente e majestosa construída especialmente para um casal recém-casado. A construção será palco de festas, bailes e também de eventos históricos como a invasão nazista. O que você achou das 12 sugestões de livros para 2024? Já conhecia algum desses títulos? Qual despertou mais seu interesse? Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Bastidores

Armários e Caixas

Numa caixa na prateleira de baixo guardei tudo o que me pertence, independente do valor. De uma marca-páginas marrom a um mouse quebrado. Também aquela saia laranja, aquele sonho para o qual me faltou coragem, os dias em que, ansiosa, não dormi, os itens que não pude comprar, os textos que não escrevi, as mágoas que engoli, o desespero que alimentei, os silêncios que não apreciei, as palavras que falei sem pensar, as belezas que não contemplei, os lugares aonde não fui, as flores que não plantei e muito menos colhi, as músicas que não ouvi, outras tantas que não cantei; o máximo que não fiz, os dramas que encenei, o muito que errei, o pouco que acertei, os vários que sequer tentei. Os dias que não vi, os sóis aos quais assisti, os nomes dos quais não me esqueci, as mensagens que não enviei e as que enviei, mas apaguei. As orações que não fiz, os perdões que não pedi, os remédios que não tomei, os sorrisos que escondi e os que ofereci. Os livros que li, os que quero ler, os filmes aos quais assisti e as fotos que tirei. É uma caixa bem grande e funda, pesada de tanta ausência, tanta supressão e covardia. Dentro, um pouco de exagero também. Tirei tudo e espalhei pelo chão como quem procura um pedaço de tecido bom no meio de retalhos. Não encontrei quase nada, então fui unindo os itens e tentando costurar alguma coisa para o ano novo.  A saia laranja fica, esse sonho parece realizável, vou pesquisar como que faz; respire fundo, conte até dez, nada vai ruir tão desastrosamente assim. Escrever mais, dar menos importância, não desesperar porque o poder de quem não desespera é enorme. Ficar em silêncio, reparar como o mundo é bonito que só. Plantar flores; não, não, comprar mesmo. Mais um, menos um. Comprar aqueles jogos de tabuleiro, deixar o sushi para a noite de sexta. Cantar em francês, italiano e latim. Dar o máximo e não se entristecer ao perceber que o máximo pode medir dez centímetros. Não ter medo de doer, tomar remédio. Olhar mais pela janela, o dia está passando. Enviar menos mensagens, receber, sim, e responder o quanto antes. Pedir e ouvir um sim, pedir e ouvir um não. Lembrar que tudo coopera. Agora a caixa está mais leve, posso mudá-la de lugar e pô-la para a prateleira de cima. A caixa de baixo agora é outra. Ano que vem eu conto o que tem dentro.

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Contos

[ Conto ] Um dezembro a mais

Naquele ano, ele apareceu na porta da casa dela com um buquê de oito gérberas e um livro de poemas. Na porta da casa havia uma guirlanda grande e desproporcional, ele observou, enquanto ela não atendia à campainha. Ele estava nervoso, namoravam há exato um mês e era Natal. Ele também levou um vinho para os pais dela, um vinho caro comprado com as economias de seis meses. Ela recebeu todos os presentes com o entusiasmo característico de quem está apaixonada. Era alérgica a gérberas, não gostava de poema e nenhum dos pais consumia bebida alcoólica, mas mesmo assim foi uma noite muito especial, ela o amava. No ano seguinte, viajaram para outro estado, onde os pais dele moravam. Ela comprou a camisa nova do time dele e ele usaria aquela roupa mais vezes do que ela gostaria. Ele deu a ela um dia em um spa chique da cidade. Acertou em cheio.  Naquele segundo ano de relacionamento, apaixonaram-se ainda mais, embora ambos fossem adeptos da teoria de que o primeiro ano era o mais bonito e intenso. Não foi. O primeiro ano foi corrido. Ela concluindo a faculdade, ele escrevendo a tese do mestrado. Entre uma linha e outra se falavam pelo telefone, saiam para caminhar na praia e visitavam o zoológico porque ela adorava girafas. No terceiro ano, ela foi pedida em casamento e dentro da caixa de alianças havia um tecido estampado de girafas. Foi tão engraçado, ela achou que ele não poderia ter sido mais inusitado, e foi no meio daquele risada, com o garçom procurando o melhor ângulo para registrar o momento, que ela se deu conta de que passaria a vida com aquele homem. Aquele homem bonito, engraçado e de muito bom gosto. Era antevéspera de Natal e o restaurante estava decorado com luzes delicadas e aconchegantes. Ela pensou que no ano seguinte gostaria de ter em casa uma decoração como aquela – a casa que também seria dele. Um ano se passou e eles foram juntos comprar os enfeites de Natal. Ela deu sorte, encontrou as luzes como queria. A cerimônia de casamento havia sido há dois meses e fizeram questão de receber a família para a ceia na casa nova. Como era bom vê-lo caminhar apressado pra lá e pra cá tentando deixar tudo pronto para o jantar. Ela se sentia em paz. Contudo, antes do primeiro aniversário de casamento descobriram que a teoria dos melhores dias não se aplicava muito bem quando a convivência era diária. Depois das semanas douradas, aqueles dias após lua de mel, depararam-se com as pequenas incongruências do dia a dia. Os defeitos alargados, as manias irritantes, os esquecimentos, às vezes a ponta de um desleixo surgindo aqui e ali. Nada que pudesse abalar o amor, apenas a vida acontecendo e a pouca experiência de lidar com ela num esquema a dois. Mas aquele Natal foi diferente. Ela não queria ver ninguém, ele queria ver os pais. Ela se chateou com o presente que ganhou dele, um vestido um número menor do que ela usava, e ele argumentou de maneira ríspida. Não houve ceia de Natal e dormiram brigados. Mais um ano. Ele recebeu uma proposta de emprego em outra cidade e ela não aceitou se mudar, ali estava perto da família, não queria se sentir só. Você não está só, ele disse, mas às vezes quero ter uma segunda casa para onde eu possa ir de vez em quando, ela rebateu. Ele não insistiu e recusou o trabalho. Tentaram se acertar, voltar a ser o casal que ia ao zoológico, mas nunca mais foram ao zoológico e ela deixou pra lá as girafas. De presente de Natal, ele deu a ela um anel, o anel que ela namorava sempre que ia ao shopping. Aquilo fez a diferença. Ela não havia comprado nada e chorou por isso, deveria ter se esforçado. Ele disse que não havia problemas desde que os dois continuassem bem e então o ano seguinte começou muito bom. Viajaram nas férias de janeiro e ela se sentiu cheia de amor outra vez. Experimentaram comidas novas, acamparam ao ar livre em uma cidade desconhecida e perderam um voo na volta. Foi muito divertido. Ela se sentiu agradecida por estar casada com ele. Foi um ano esplêndido. No Natal, ela lhe deu uma coleção de discos do seu artista preferido. Uma coleção rara, autografada, que ela havia arrematado em um leilão numa madrugada qualquer. Os olhos dele brilharam.  Mudaram-se para uma casa nova no primeiro dia do ano seguinte e ela manifestou o desejo de ser mãe, está na hora, está na hora, concordaram. Um ano que começou agradável, mas foi amargando com o passar dos meses. Ela não conseguia engravidar, ele não conseguia entender, os dois juntos procuravam respostas mas tudo que encontravam eram conflitos, autocobrança e desentendimentos que não levavam a lugar nenhum. A obrigação sufocou a esperança. A casa, antes atraente por ser espaçosa e bem iluminada, agora parecia grande demais e desesperadamente oca e obscura. Os cômodos eram tão distantes um do outro que passavam dias sem sequer se esbarrar. Em dezembro, ela recebeu uma carta anônima de uma aluna que confessava ter um caso com ele. Ele negou, a garota queria se vingar pela reprovação na matéria. Era uma justificativa plausível, mas ela também não acreditava totalmente na inocência do marido. Nunca soube se foi verdade ou não porque não resolveram esse impasse. Ela passou o Natal na casa da mãe, sozinha. Quando voltou, encontrou um presente que nunca chegou a abrir. O ano mais difícil e silencioso de suas vidas chegou. Não havia um casal, não havia uma família, havia duas pessoas dividindo as contas de casas. O plano de um bebê ficou para depois, talvez nunca mais, os planos de qualquer coisa se dissolveram como um recado na geladeira que vai perdendo a cor com o passar do tempo. Ele se aproximava, ela recuava, ela se arrependia do recuo, ele ignorava, ele se arrependia do orgulho, ela relembrava. …

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Bastidores

O que eu sei, o que eu imagino e o que eu invento

Suponho que eu saiba um terço sobre você; o outro terço eu imagino e o outro eu invento. Sei que você é contido, talvez tímido, mas não retraído. Imagino que olhe para as pessoas com o semblante sério, não zangado, e que quando está sendo simpático mexa os lábios ligeiramente. Abrir um sorriso, esse sorriso do qual eu tanto gosto, só quando vale muito a pena – isso eu inventei. Eu sei que seu paladar não é muito dado a doces então imagino que você aceite aquele pedaço de pudim por educação. Em minhas invenções, porém, sei que você não recusa mesmo é uma boa fatia de goiabada. Leia também O pedido Sei que seus braços são fortes, que seu corpo é ereto e que seus olhos estreitam quando você sorri. Eu imagino que se entrasse na minha sala agora, o ar daria licença para você passar. Tenho uma convicção quase concreta de que se me olhasse de perto, ah, se você chegasse bem perto, eu faria minhas malas e voltaria para casa com você. Mas essa casa não é minha. Eu não tenho uma cópia da chave pendurada em um chaveiro comprado numa loja de souvenirs, eu não tenho nada além de algumas informações coletadas aqui e ali, um sem-número de suposições e várias invenções irresponsáveis. Na minha cabeça, um dia você vem me buscar, mas sei que não vem.

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Para Escritores

3 textos que você pode escrever antes de escrever ficção

Em geral, muitas pessoas alimentam um desejo de escrever um romance, mas nunca delinearam um personagem, estruturaram uma narrativa ou descreveram uma cena. É uma atividade que exige dedicação, prática e estudo, mas não significa que você deva começar, necessariamente, por aí. Neste artigo eu sugiro 3 textos que você pode escrever antes de escrever ficção. Artigos opinativos Escolha um tema que você domine em alguma medida, ou sobre o qual tenha uma opinião bem fundamentada, e escreva sobre ele. Apresente seu ponto de vista, destrinche seus argumentos ou apresente uma solução, se o tema for um problema. Você não precisa publicar e nem mesmo divulgar para as pessoas perguntando se elas concordam ou discordam, apenas escrever. Exercite sua escrita, observe o seu vocabulário e teste seu domínio da gramática. Tudo isso será de muita utilidade na hora de escrever ficção. Leia também 5 lições para escritores Crônicas Uma crônica geralmente é um episódio capturado do cotidiano e acrescido de alguma reflexão ou final cômico. A ideia aqui é pegar algo do seu dia a dia e tomar como ponto de partida. Ainda que você tenha a rotina mais normal do mundo, certamente tem algo de interessante para contar do ponto de vista literário.  Aprimore seu olhar poético e arrisque alguns parágrafos. Você sempre pode se inspirar nos melhores, como Fernando Sabino. Notícias Não importa se você não é jornalista e nunca ouviu falar de uma técnica de escrita jornalística, apenas observe um fato e conte o que aconteceu, quando e com quem. Não se alongue em detalhes desimportantes, foque na informação principal e exercite o poder de síntese. Escrever textos de não ficção pode funcionar como ponto de partida para destravar o bloqueio do escritor que se sente pressionado em escrever cenas e criar personagens. É possível que passear por outros estilos traga um ânimo novo ou apenas sirva como um exercício, vale a pena tentar. Quais dos 3 textos que você pode escrever antes de escrever ficção você escolheria? Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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