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[Resenha] Reparação – Ian McEwan

Reparação já começa apresentando Briony e seu gosto por alimentar a mente fértil com fantasias. Aos treze anos, ela gosta de escrever romances e peças de teatro, mas reconhece que lhe falta “aquele vital conhecimento do mundo”. Também no primeiro capítulo a narrativa aponta uma determinada característica em Briony, o fato de que ela não tinha maldade e que gostava de ver o mundo em ordem, sem destruição. E onde tudo isso entra na história? Naquele verão dos anos 30, a família Tallis se prepara para receber o filho mais velho, Leon, o amigo Paul, e os sobrinhos Lola e seus irmãos gêmeos, Pierrot e Jackson, para um fim de semana. Cecília, a filha do meio, já está na casa, e Briony, a caçula, trabalha em uma pequena peça de teatro que gostaria de apresentar aos convidados na noite do jantar. Robbie, o filho da empregada e quase membro da família, também está entre os participantes. No meio da noite, um crime sexual acontece e Robbie é acusado por uma testemunha ocular: Briony. A partir daí, muitas são as consequências dessa acusação, uma vez que Robbie é preso ainda na mesma noite. A vaidade de Briony O livro é dividido em quatro partes. Na primeira parte, a história dá o protagonismo a Briony, colocando-a como o olho que tudo vê e dando a ela o privilégio da palavra. Ela é quem assiste de longe à cena do vaso caindo na fonte; ela quem flagra Cecília e Robbie na biblioteca; ela quem testemunha o estupro de Lola. Quando o evento catastrófico acontece (ela acusar Robbie de ter estuprado a prima Lola), eu vejo que Briony se deixou levar por uma motivação bastante infantil de ser a heroína da história, como se, frustrada pela impossibilidade de ser a protagonista da peça que estava ensaiando, ela quisesse agarrar uma oportunidade de fazer a diferença no mundo real, no mundo dos adultos. Leia também [Resenha] As Brumas de Avalon Ainda impactada pelo flagrante de Robbie e Cecília na biblioteca – um evento consensual e não uma violência -, Briony constrói uma imagem de vilão em cima de Robbie, um vilão bastante caricato, com traços de psicopatia e crueldade. E é com essa imagem na cabeça, e com um desejo de proteger as pessoas do “mal”, que ela afirma com todas as letras que Robbie é o agressor de Lola, muito embora ela não tenha visto com clareza e nem a própria Lola possa dar essa certeza. Agora, tudo isso acontece em um dia em que Briony declara a si mesma que a partir dali não é mais criança, que os contos de fadas ficaram para trás e agora ela lida com problemas de adulto. Mas foi justamente a responsabilidade e a maturidade de um adulto que lhe faltaram quando foi necessário que ela analisasse a situação com clareza. É certo que talvez um adulto de verdade cometesse o mesmo erro, mas talvez não pelas mesmas motivações. A própria Lola, a vítima, com um pouco mais de idade, se reservou a dizer que não viu direito, enquanto Briony sente uma necessidade quase irresistível de estar certa porque quer ser relevante, porque quer fazer justiça, porque quer ser a protagonista daquela história, porque não quer ser taxada de criança boba e voltar atrás. “Briony caiu numa arapuca armada por ela própria, penetrou num labirinto construído por suas próprias mãos, e era jovem demais, estava impressionada demais, excessivamente sequiosa de agradar aos outros, para insistir numa retratação”. A reação de Robbie Na segunda parte, Robbie está na guerra. Depois de três anos preso, ele aceita servir porque é melhor do que estar na prisão. É uma parte bem longa (inclusive no filme), onde ele tenta sobreviver para reencontrar Cecília enquanto atravessa o país com as cartas dela no bolso. Ele nutre um rancor de Briony do qual não faz nenhum esforço para se livrar. “Não era razoável nem justo odiar Briony, mas ajudava”. A autopunição de Briony Na fase seguinte, vemos Briony já ali com seus dezoito anos, servindo na guerra como enfermeira de um hospital. Ela carrega a culpa do que fez e de certa forma tenta usar aquele trabalho como penitência. Um trabalho difícil, braçal e sangrento, como se ela quisesse achar algo mais cruel e feio para se sobressair ao seu passado. Ainda nessa mesma fase, Briony procura Cecília (elas se separaram desde o episódio do jantar) e a encontra em uma cidadezinha aos arredores de Londres ao lado de Robbie. Os dois a tratam com repulsa, mas o medo de Briony de que eles nunca mais se encontrassem é aliviado. Ela sai dali com a promessa de retratar seu depoimento e, quem sabe, retirar a condenação de Robbie – que ainda cumpria pena, estando apenas cedido para o Exército. A Reparação Atenção, spoiler! Porém, na quarta e última parte nos deparamos com Briony com 77 anos de idade, já no final dos anos 90, contando em primeira pessoa que a terceira parte dessa história só é verdade em partes. Ela nunca procurou Cecília e Cecília nunca reencontrou Robbie. Ambos morreram na guerra e Briony se sentiu no dever de reparar, ainda que ficcionalmente, uma história que não terminou feliz por interferência sua. O desejo de ser uma escritora se concretizou e ela fez carreira na profissão, trabalhando a vida inteira em um romance no qual o casal apaixonado vive seu amor, já que na vida real isso não foi possível. Um caminho sem volta Eu vejo que na transição de uma fase para outra há não só um amadurecimento dos personagens como um endurecimento das personalidades deles. O livro começa num dia quente, ensolarado, porque tudo está bem e animado. Cinco anos depois, Robbie é um homem castigado, Cecília alimenta amargura pela família e Briony se consome de remorso enquanto fecha feridas em carne viva dos soldados. Tudo ficou mais duro para todo mundo. A narrativa também lança uma pergunta: Até onde é possível usar a imaturidade (ou a pouca idade) como …

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[ Releitura ] O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

Esse é um texto que eu escrevi em 2018, primeira vez que li O Apanhador no Campo de Centeio (e me apaixonei!). Cinco anos é suficiente para você revisitar obras e encará-las com um outro olhar. Dito isto, o texto antigo continua válido, mas eu gostaria de acrescentar outras percepções. A primeira delas é que eu pude ver com mais clareza as peculiaridades que caracterizam a adolescência de Holden. Ele é expulso da escola – de novo – e fica perambulando pela cidade até chegar o dia em que inevitavelmente terá que enfrentar os pais. Para ele, a expulsão não é tão grave assim, pelo contrário, quanto menos tempo pudesse passar com aqueles cretinos (nas palavras dele), melhor.  Nesse meio tempo, ele faz coisas de “adulto” para talvez tentar se sentir menos errado. Uma coisa meio “eu cuido da minha própria vida, para quê escola?”. Mas a realidade é que ele não é tão crescido assim e isso é lançado na sua frente o tempo todo. Leia também [Resenha] Howards End – E. M. Forster Se ele vai de bar em bar, alguns garçons não querem atendê-lo por ser menor de idade; se ele dá em cima de alguma mulher, ela acha o papo dele esquisito; se ele contrata uma garota de programa, desiste em cima da hora por ser virgem. As únicas vezes em que ele consegue se desenrolar, é na companhia de outros adolescentes, por mais que ele não queira. Entrando na questão familiar, Holden dá trabalho, mas não chega a ser um jovem problemático. Ele tem uma boa relação com os irmãos e ainda sofre a morte de um deles. Ele pensa em fugir de casa, mas quando a irmã caçula cisma que vai junto, Holden percebe que às vezes a irresponsabilidade respinga em quem não tem nada a ver com a história. Você também já quis fugir de suas obrigações, já quis largar a escola, já quis fugir de casa, já aprontou, já se sentiu sozinho, já chorou, já se sentiu um merda, porque isso é ser adolescente. Agora vejam que interessante: a única coisa que faz Holden Caulfield se sentir bem é ser um possível apanhador no campo de centeio. Quando a irmã pergunta “Do que você gosta? Você não gosta de nada, está sempre reclamando de tudo”, ele responde que se garotinhos brincassem em um campo de centeio, ele gostaria de ser a pessoa que fica na beira do princípio cuidando para que ninguém caia. Ora, o que curaria todas as angústias de Holden – e de todo mundo que quer deixar de ser mentalmente jovem – é ser útil, amadurecer e não viver só para si e suas demandas. O outro ponto, e esse é o que me agrada mais, é que naturalmente eu sou alguém um pouco resistente a conteúdo de humor (livros, filmes…). Não consigo achar graça na maioria das coisas que se propõem a ser de comédia, e embora essa não seja exatamente a intenção de O Apanhador no Campo de Centeio, é o único livro até hoje que me fez dar sinceras gargalhadas. O humor ranzinza, sarcástico e debochado de Holden é fenomenal. Eu vou e volto no texto várias vezes e rio de verdade. É maravilhoso. “Esse que é o problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve ‘Foda-se’ bem na cara da gente. É só experimentar. Acho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemitério, com uma lápide e tudo, vai ter a inscrição ‘Holden Caulfield’, mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, alguém vai escrever ‘Foda-se’. Tenho certeza absoluta”. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Grandes Esperanças: sra. Havisham e o vício pela dor

Grandes Esperanças é um clássico da literatura mundial e faz parte do meu projeto de releituras em que eu revisito não só o enredo como tento perceber e interpretar melhor as nuances da narrativa, principalmente dos clássicos. Se você ainda não leu essa obra prima de Charles Dickens, neste artigo não há spoilers, mas eu sugiro que você leia primeiro o livro e depois acesse meu texto. Pip é um menino órfão que vive em uma aldeia com a irmã, uma mulher violenta, e com Joe, seu marido, um homem bastante gentil e amigável. Um dia, Pip é levado até a casa da sra. Havisham, uma senhora rica da cidade, para brincar. Não sabendo quais brincadeiras seriam essas, Pip sai assustado de casa, pensando no porquê desse convite inusitado, mas a figura com a qual se depara é mais assustadora do que qualquer ideia que ele pudesse imaginar. Em algum dia de sua vida, a sra. Havisham foi noiva e em algum outro dia, abandonada no altar, episódio que a levou a viver sua mágoa da maneira mais literal e performática possível, qual seja, permanecer vestida de noiva e deixar tudo ao seu redor exatamente do jeito que estava quando foi rejeitada. “Porém vi que tudo no meu campo de visão que era para ser branco fora branco há muito tempo, e perdera o brilho, e estava desbotado e amarelado. Vi que a noiva com seu vestido de noiva havia fenecido tal como o vestido, e como as flores, que não havia nela nada que brilhasse senão os olhos fundos”. A intenção da sra. Havisham em deixar tudo intocável era manter, prolongar, a dor o mais viva possível, como que para não se esquecer de que um dia foi vítima. Contudo, na minha percepção, vejo que tanto quanto não esquecer, ela queria também punir alguém pelo que ela viveu. Quem? O ex-noivo? Ela mesma? As pessoas ao redor? Em primeiro lugar, percebo que quando se coloca em uma situação extravagante, a personagem tenta de certa forma chamar a atenção para si, como se fosse inaceitável viver aquela dor sozinha, trancada em um quarto. Ela quer que as pessoas saibam que ela está naquela casa escura, que ela não superou; quer que a vejam amarga, cruel e desacreditada. Leia também [Resenha] Howards End – E. M. Forster Em tempos modernos, não seria difícil imaginá-la se expressando no story com músicas e publicações sugestivas sobre sua dor. “‘Sabes onde ponho a mão, aqui?”, perguntou ela, pondo as mãos, uma sobre a outra, no lado esquerdo do peito.‘Sei, sim, senhora’.‘Onde estou pondo a mão?’‘No seu coração’.‘Partido!’” Além de manter suas feridas abertas, a sra. Havisham se empenha em desestimular as pessoas sobre o amor – muito parecida com aquela amiga que está sempre repetindo por aí que nenhum homem presta. Junto com ela, vive Estella, uma menina mais ou menos da idade de Pip, e por quem ele se encanta desde a primeira vez que a vê. A sra. Havisham, por sua vez, desde já estimula Estella a partir o coração de Pip. “‘[Estela] Por que não choras de novo, criaturinha desgraçada?’‘Porque nunca mais vou chorar pela senhora’, respondi. O que, creio eu, foi uma mentira deslavada; pois por dentro eu estava chorando por ela naquele exato momento, e sei o que sei da dor que ela me proporcionou depois”. Outro símbolo da ruína física e psicológica da sra. Havisham é o salão onde um dia seria a festa de casamento. No dia do seu aniversário, ela leva Pip até lá e apresenta a ele um lugar jogado às baratas, aos fungos e aos ratos. O bolo, ainda presente em cima da mesa, é o sinal maior de como alguém pode se deixar consumir e não ter coragem de se desfazer daquilo que lhe faz mal. “‘Neste dia do ano, muito antes de nasceres, esse monte de podridão’, apontando com a bengala a pilha de teias de aranha na mesa, mas sem tocá-la, ‘foi trazido aqui. Ele e eu decaímos juntos. Os ratos o roeram, e dentes mais afiados que os dos ratos me roeram”. Penso eu que essa obsessão da Sra. Havisham em permanecer naquele estado – até mesmo os ponteiros dos relógios foram parados na exata hora em que ela foi abandonada – é também uma forma de comodismo sentimental. Por mais saudável que fosse superar a mágoa, seria um passo doloroso a se dar e ela precisaria deixar de se colocar na posição de vítima depois de tantos anos, deixar de pensar sobre o assunto e encarar as pessoas com a cabeça erguida. Durante uma visita, uma mulher diz a sra. Havisham que ela não está muito bem, e eis que ela responde “Sim! Estou só pele e osso”. Na cena do salão, ela diz a Pip “É aqui que vão me deitar quando eu estiver morta, eles virão aqui me ver”. Transformar sua vida em um espetáculo é uma maneira de não ter que se esforçar para viver uma realidade diferente. Não é muito distante de quando insistimos em ficar presos a memórias ruins, a episódios humilhantes ou àquela narração aos outros sobre a vez em que fomos injustiçados. Raiva é um sentimento muito fácil de fazer nascer e de se alimentar, principalmente se podemos espalhá-la, fazendo os demais sentirem repulsa pelo mesmo objeto que sentimos, e dando-nos a falsa sensação de que aqueles pequenos instantes de vingança podem se transformar em uma vitória sobre o provocador de nossas mágoas. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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[Resenha] O Sol Mais Brilhante – Adrienne Benson

Sinopse Leona, Simi e Jane são três mulheres de origens diferentes que têm suas vidas entrelaçadas no Quênia em uma jornada em busca de realizações pessoais e do sentimento de pertencimento. Cada uma com seu passado – às vezes tentando fugir dele, às vezes tentando entendê-lo – elas seguem adiante e a história ecoa na geração seguinte, onde suas filhas se aproximam e vivem suas próprias atribulações. Resenha Leona, uma antropóloga, saiu dos EUA para pesquisar os massai, uma tribo tradicional queniana, e estudar seus costumes e tradições. Em Nairóbi, ela conhece John, um habitante local com raízes inglesas. De uma noite sem compromisso onde eles sequer sabiam o nome um do outro, nasce Adia, uma filha que Leona não desejou, e por não desejar, entregou-a em adoção a Simi. Simi é uma típica massai e cresceu sabendo que um dia seria circuncidada e dada em casamento a alguém. Ainda assim, sua mãe sustentou até onde pôde o desejo de ver os filhos – principalmente a filha – alfabetizados, fazendo de Simi uma das poucas mulheres da aldeia que sabia ler, escrever e falar inglês, habilidade que a aproximou de Leona quando ela chegara à tribo. Contudo, depois de se tornar a terceira esposa de um membro da tribo, Simi descobre que é infértil, e nem os rituais e oferendas mudaram sua condição de agora mulher menos valiosa. Enquanto as outras esposas pariam um filho por ano, Simi via sua condição ir se deteriorando e ter como sorte não ser expulsa de uma comunidade que via a infertilidade como maldição. Dessa forma, quando Simi adota formalmente Adia, ela passa a ser mãe de verdade, e sendo mãe de verdade, seu lugar na tribo está reconhecido. Porém, no futuro, ela e Leona entrarão em conflito por conta da garota meio-americana, meio-massai. Paralelamente, em algum lugar dos EUA, Jane investe seu tempo na carreira de bióloga para esquecer que perdeu a mãe cedo e que seu irmão caçula é esquizofrênico e mora, isolado, em uma clínica. Partindo para a África com o objetivo de pesquisar e mapear os hábitos de elefantes ameaçados pela caça ilegal, ela conhece Paul, futuro embaixador americano e seu futuro marido, com quem terá Grace, seu ponto de apoio em meio às constantes mudanças que terão quando ela deixar a profissão para acompanhar Paul. Alguns anos depois, Grace e Adia serão adolescentes e melhores amigas. Leia outras resenhas Dividido em três partes, O Sol Mais Brilhante narra de maneira sensível e envolvente a história dessas três mulheres, todas com um ponto em comum: são mulheres com passados que deixaram marcas e influenciaram fortemente nas decisões que elas tomaram no futuro. Leona sofreu abuso sexual do pai na infância sob conhecimento da mãe, que nada fez para impedir ou punir o marido. O trauma desencadeou a introspecção em uma garota que cresceu acreditando que ninguém era confiável o bastante para ela se envolver, e por isso sua fuga mal disfarçada pós-noite com John. Por isso seu desejo desesperado em entregar Adia a alguém que pudesse ter e ser uma referência melhor. John, por sua vez, acaba sendo um personagem coadjuvante de peso nessa história. O pai, alcoólatra e agressivo, foi o estopim para uma tragédia que marcou a vida da família, e a mãe, na velhice e com Alzheimer em meio às dores do passado, gerou uma confusão que repercutiu por mais de dez anos na vida do filho. Simi decidiu desde muito cedo que suas filhas também teriam acesso à educação, pois a oportunidade que ela teve, embora interrompida na adolescência, mudou quem ela era e a forma como ela via a si e aos seus pares. Ainda assim, erra quem pensa que Simi negou suas origens e sua cultura em nome de uma suporta emancipação feminina. Ela continuou querendo ser uma boa mãe e esposa massai, continuou querendo ter muitos filhos e dar alegrias à comunidade. A infertilidade provocou feridas e mexeu com sua autoestima, mas Simi jamais quis fugir do seu destino ou da sua gente e tudo suportou. Viu em Adia um alento, amando-a e educando de uma maneira que fazia a garota gostar mais da sua vida na tribo do que ao lado da mãe biológica. Adia tem voz na última parte do livro e é uma menina com suas próprias questões (não vou dar spoilers), que tenta se encontrar no meio de visões e posicionamentos tão diferentes. De um lado, uma aldeia enraizada nos costumes locais, no outro, uma quase pressão em ser americana “de verdade”. O estranhamento dos demais – “Como pode uma africana ser branca?”, “Por que você usa acessórios esquisitos?”, em certo momento causa dúvidas nela mesmo sobre quem ela é a que povo ela pertence. Ela deveria continuar se comportando como uma massai ou deveria aprender de uma vez por todas os modos estadunidenses? O contato com Grace gera um choque ainda mais potente, pois Grace tem pais afetivos, uma mãe cuidadosa – até demais – e uma casa que não tem barro pelo chão. Ela assiste a filmes tipicamente americanos e fala coisas que Adia não entende ou nunca ouviu falar. A amizade das duas vai dar uma virada na história que pode tocar até os corações mais duros. Eu gostei de como os personagens de Adrienne Benson, que iniciou sua carreira de escritora com esse romance bastante elogiado, são moldados sem estereótipos, com originalidade, mas também com familiaridade. Quem de nós já não se sentiu perdido em um primeiro dia de aula na escola nova? Agora ponha isso em perspectiva macro e se imagine no lugar de Jane, em outro país, com pessoas e idiomas estranhos. Da mesma maneira, Adia, acostumada a ter o pé no chão, vê-se às voltas com os hábitos arraigados de Grace, super protegida pela mãe e totalmente alheia ao mundo ao seu redor. Conhecer a cultura do Quênia, mais especificamente dos massai, pode ser estranho no começo, principalmente quando entramos em contato com a circuncisão feminina, costume proibido desde 2011 no …

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[Resenha] Um Estudo em Charlotte – Brittany Cavallaro

Sinopse Charlotte Holmes e James Watson são descendentes do detetive mais famoso da Inglaterra e seu fiel amigo. Colegas de classe no ensino médio, os dois acabam suspeito do assassinato de um aluno e para provar suas inocências precisam encontrar o verdadeiro culpado. Durante a investigação Watson precisa lidar com a paixão que sente pela peculiar Holmes. Resenha Posso começar falando de como me desagrada esse fetiche em fazer de Holmes e Watson um casal. A primeira vez que me deparei com tal disparate foi na série Elementary, uma versão americana e moderna de Sherlock Holmes, onde Joan Watson (Lucy Liu) é uma espécie de dama de companhia barra terapeuta barra assistente de Sherlock (Jonny Lee Miller), um consultor da polícia de Nova York em tratamento contra o vício de drogas. Na segunda temporada surgiu um sentimento nebuloso na cabeça de Watson e ela se perguntou se não seria um amor platônico por aquele sujeito de inteligência acima da média e sociabilidade abaixo do mínimo. Não sei se por uma resposta negativa do público ou por uma sensatez atrasada, os roteiristas mudaram o rumo dessa história e os dois voltaram a ser bons e inseparáveis amigos desvendando crimes. Preciso abrir um parênteses e dizer que detestava essa série no começo, mas cinco temporadas depois eu já estava completamente apaixonada por esse Sherlock. Voltando a Um Estudo em Charlotte, o pobre Watson é quem conta a história e já revela, bem no comecinho, seus sentimentos pela garota estranha e antissocial cuja família esteve sempre ligada a sua. James é um aspirante a escritor e Holmes é uma viciada em drogas que foi enviada para os EUA para ficar longe de quaisquer influências do tipo. Além de ser uma entusiasta das ciências e ter seu próprio laboratório no internato. Leia outras resenhas Bem aqui já inicia o meu incômodo com releituras. Eu vejo como uma maneira meio preguiçosa de prestar uma homenagem aos clássicos e quase sempre gera umas incongruências narrativas cuja soluções às vezes convencem, às vezes não. Neste caso, eu entendo que jovens possam usar cocaína ou outros tipos de droga, mas estar em tratamento aos dezesseis anos e tratar isso com um certo nível de normalidade me parece um pouco demais. Assim como uma adolescente ter contatos de alto nível na Scotland Yard e contribuir com a investigação da polícia americana. Eu vejo que quando o autor reescreve um clássico e faz sua própria versão, ele tem dois caminhos: ou ser muito criativo e ressignificar todo o conteúdo ou dar seu jeito de não fugir das características originais e inventar artifícios para justificá-las. Pessoalmente, eu prefiro as referências às releituras. Quem faz isso muito bem é Mark Haddon em O Estranho Caso do Cachorro Morto, livro onde um adolescente autista investiga a morte de um cachorro da vizinhança e como bom fã de Sherlock Holmes usa as estratégias que aprendeu com as histórias. Por falar em investigação, a narrativa policial no livro de Brittany Cavallaro não é nada empolgante, traz uma vilã muito sem sal e apaga totalmente a figura de Moriarty. Podem argumentar em contrário e dizer que sou ranzinza com a obra de Sherlock Holmes, mas para mim Um Estudo em Charlotte precisou de muito feijão com arroz para gerar um sentimento parecido nos fãs do detetive. Sobre a autora Brittany Cavallaro é poeta, escritora de ficção, e admiradora antiga de Sherlock Holmes. A autora best-seller da série Charlotte Holmes nasceu em Springfield, Illions e morou lá até entrar na Academia de Artes de Interlochen, para estudar escrita criativa. Atualmente, ela está concluindo o PhD em literatura de língua inglesa pela Universidade de Wisconsin-Madison. Brittany vive em Wisconsin com seu marido e seu gato, além de uma coleção de boinas. (Fonte: Site Rocco) Sobre o livro Título: Um Estudo em CharlotteAutora: Brittany CavallaroAno: 2019Editora: RoccoPáginas: 384Avaliação: 1/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (Link afiliado. Comprando através dele você ajuda o blog sem pagar nada a mais por isso). Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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[Resenha] A Casa Dourada – Salman Rushdie

Sinopse René é um jovem cineasta em busca do primeiro roteiro perfeito. Quando conhece a família Golden, uma rica e excêntrica família que se muda para o seu bairro, René encontra neles a inspiração perfeita para o seu enredo. Depois da morte de seus pais ele se muda para a mansão e passa a observar os eventos e tomar notas. O que era um exercício de análise aos poucos se torna um envolvimento maior do que ele imaginava. Resenha Rushdie deu a René o poder supremo da narração e este soube aproveitar bem suas possibilidades. Com uma narração que dá voz a todos os personagens, passeia por pontos de vista diversos e mistura tom literário com roteiro de cinema, a história vai sendo contada com uma lógica que nem sempre fica clara, mas, no todo, faz todo o sentido e cumpre seu papel de maneira inteligente. Nero Golden, o patriarca viúvo, saiu da Índia para os EUA em condições bastante suspeitas com seus três filhos adultos e peculiares: Apu, D e Petya. Em solo americano ele se envolve com Valisia, uma mulher sedutora que nunca escondeu suas reais intenções ao se relacionar com um homem de idade avançada, rico e solteiro. “O que é uma vida boa? Qual o seu oposto? São perguntas às quais dois homens nunca darão a mesma resposta”. René começa essa história em um núcleo familiar feliz e saudável. Um acidente de carro quebra a magia e o deixa órfão. Nero o conforta – com o seu jeitão não muito paterno – e o acolhe em sua casa, onde René encontra o ponto de observação perfeito para escrever o seu roteiro. Contudo, os planos fogem de controle tanto em tempo de execução (ele leva mais de dez anos para escrever e preparar o filme) como em proximidade dos seus objetos. De repente, René está próximo de todos os problemas dos filhos de Golden, começa a descobrir a verdade sobre a saída deles da Índia e não só testemunha como participa de eventos que vão mudar o rumo da família. Leia outras resenhas Ao redor desse eixo giram temas como política, arte, amor, vingança, identidade de gênero, autismo, fobias, inocência, perdão, segredos, cinema, e, de quebra, um grande esquema mafioso. “Mais uma lição a ser aprendida: nunca subestime seu próximo. O teto de um homem é o piso de outro”. Eu fiquei confusa com a narração no início, mas depois pensei “Uau, isso foi inteligente”. A demora na minha leitura (cerca de 4 meses) foi uma consequência da dificuldade em entender de primeira qual era a “pegada” do livro – e fez eu me sentir quase parte da família Golden de tanto tempo que passei em sua companhia. Gosto como René, enquanto narrador, dá espaço para os personagens serem eles mesmos e deixa por conta deles a narração de alguns episódios. Também é muito interessante como ele adianta eventos, supõe pensamentos e faz suas próprias conjecturas de tudo que acontece, às vezes acertando, às vezes errando. O livro é uma boa pedida para quem não tem medo de leituras fora do padrão narrativo, e, claro, adora referências cinematográficas. Sobre o autor Salman Rushdie nasceu em Bombaim, na Índia, em 1947, de onde saiu aos 13 anos para estudar na Inglaterra, país onde morou boa parte da sua vida. Teve uma breve carreira como ator e então passou a se dedicar à escrita, a partir de 1971. Venceu o Booker Prize em 1981, o Booker of Bookers em 1993 e o Best of The Booker em 2008. Seu livro Os Versos Satânicos (1988) foi acusado pelas lideranças extremistas islâmicas de ofende Maomé o Corão, acusação que rendeu a Rushdie uma sentença de morte. Sobre o livro Título: A Casa DouradaAutor: Salman RushdieEditora: Companhia das LetrasAno: 2018Páginas: 456Avalição: 4/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (link afiliado, comprando através dele você ajuda o blog sem pagar nada a mais por isso). Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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[Resenha] A Metamorfose – Franz Kafka

Sinopse Gregor Samsa era um homem comum. Filho mais velho de uma família de quatro pessoas, caixeiro-viajante, pagador de dívidas e um funcionário compromissado. Um dia, Samsa acorda e está se transformando em um inseto. A partir desse evento sua vida profissional, social, e seu desenvolvimento interior passam por profundas mudanças. Resenha O fato de Gregor estar se metamorfoseando em uma espécie de barata é apenas um detalhe nessa história. Franz Kafka trabalha essa narrativa de maneira tão genial que isso parece um evento possível de acontecer com qualquer um de nós. Como acordar e perceber que está com catapora. Seria um dia comum de trabalho se no lugar das pernas o caixeiro não tivesse agora patas fininhas e suas costas não tivesse se transformado em um casco duro e difícil de transportar. Gregor estranha e, conforme o tempo vai passando, começa a se preocupar com as impossibilidades de ir trabalhar daquele jeito. Leia outras resenhas Aqui Kakfa inicia sua crítica ao papel do homem dentro do sistema capitalista. A confirmação vem quando o chefe de Samsa aparece em sua casa para saber o motivo da sua falta no trabalho. Um disparate um homem deixar de ir trabalhar porque virou um inseto, vejam só. Até então o homem metamorfoseado ainda não aparecera para ninguém em casa, e no instante em que todos se dão contam do motivo de Gregor estar trancado dentro do quarto, vemos a metamorfose acontecer no resto da família. Em primeiro lugar, Samsa já não é mais uma força de trabalho possível de ser aproveitada, portanto metade do seu valor se perde. Seu dinheiro sustentava a casa e sem ele a família precisa se mexer para prover o sustento por sua própria conta. O pai, já aposentado há alguns anos, volta a trabalhar, a irmã, até então criada no zelo e no mimo, passa a fazer alguns trabalhos, e em pouco tempo os dois e a mãe viram funcionários da sua própria casa, que passa a receber hóspedes e vira uma espécie de pensão. À medida que a família vai dependendo cada vez menos de Gregor, os cuidados e auxílio também diminuem. Ele deixa de ser um filho para se tornar um estorvo dentro de casa. Um peso, um fardo para seus pais e irmã. Isso vai consumindo sua mentalidade e sua vontade de se isolar, de sumir, só aumenta. Não é difícil testemunhar episódios como esse ao nosso redor. Tendemos a excluir o que não nos acrescenta, principalmente quando se trata de pessoas. É muito simples deixar de dar atenção, de amar, de cuidar, e de se importar. Podemos não suportar alguns indivíduos dentro de nossas casas, ou no nosso contexto, mas enquanto eles nos oferecem algo de útil, conseguimos aturar. Quando isso rompe nosso esforço não faz mais sentido. Ler A Metamorfose pode gerar um sentimento de revolta. Olhamos para aquela família e pensamos “Como podem ser capazes?” assim como avaliamos episódios de maus tratos com idosos, deficientes intelectuais ou físicos, entre outras condições. Mas estaremos nós tratando nossos entes com a atenção devida? Cada um carrega em si um defeito repugnante, um erro desastroso ou uma característica deplorável. O que fazemos com isso? Quem de nós está ileso? A narrativa de Kafka é direta e cirúrgica. Não tem muitos floreios, descrições ou cenas de enfeite. Vai direto ao ponto. Toca logo na ferida e gira o dedo dentro até você gritar. E é assim que se cria uma história boa o bastante para se chamar de clássico. Sobre o autor Franz Kafka (1883-1924) foi um escritor tcheco de Literatura Moderna. Escreveu romances e contos e tratou de temas que criticavam a sociedade da época, em seus temas sociais, políticos e psicológicos. A relação conflituosa com o pai permeou boa parte de seus escritos, inclusive A Metamorfose. Morreu devido à complicações da tuberculose. Sobre o livro Título: A MetamorfoseAutor: Franz KafkaAno: 2013Editora: MelhoramentosPáginas: 96Avaliação: 4/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos Esse artigo contém links afiliados, ao comprar através deles você contribui com o blog sem pagar nada a mais por isso. Muito obrigada!

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[Resenha] O Morro dos Ventos Uivantes – Emily Brontë

Sinopse Heathcliff foi encontrado maltrapilho nas ruas de Liverpool e adotado por Earnshaw, proprietário do Morro dos Ventos Uivantes, um lugar propício a tempestades e vendavais. Bem tratado pelo pai adotivo, Heathcliff logo gera ciúmes no filho mais velho, Hindley, de quem terá o desprezo pela vida inteira. Por outro lado, a segunda filha, Catherine, se tornará sua amiga, confidente, e seu primeiro e único amor. E é por causa dela que Heathcliff seguirá rumo a uma vida de vingança e ódio. Atenção, esse texto contém spoilers. Uma longa história Essa história começa não com Heathcliff criança, mas bem adulto e já dotado de todos os traumas possíveis. Tudo começa quando o Sr. Lockwood aluga a Granja dos Tordos e resolve visitar seu dono, Heathcliff, um homem frio e antipático. Saindo de lá com a pior das impressões, resolve perguntar à empregada Nelly o que ela sabe sobre esse homem mal-encarado e de humor inacessível. Pela voz e narração de Nelly o leitor vai conhecer toda a história dessa família. Heathcliff pode lidar com os maus tratos enquanto Earnshaw viveu e o protegeu. Contudo, depois de sua morte Hindley levou a sério sua intenção de transformar a vida do cigano – como era chamado – em um inferno. Colocou-o no nível dos empregados e se empenhou em maltratá-lo do jeito que pode, sendo a amizade com Catherine o único consolo do garoto. Uma das provas da insignificância social de Heathcliff é que esse era seu nome e sobrenome. Ou seja, ele não era ninguém, nem mesmo um membro oficial da família. Catherine, mimada, bem criada, se afeiçoou a Heathcliff e nutriu por ele um sentimento genuíno, mas conforme a pressão de se casar foi ficando mais forte com a idade, ela reconhece que, mediante sua condição, casar com ele está fora de questão. Que vida o pobre Heathcliff poderia lhe proporcionar? Então surge Edgar Linton, herdeiro da Granja dos Tordos e um pretendente muito mais viável. Com a intenção, e motivação, de Catherine se casar com Linton, Heathcliff foge sem olhar para trás ou dar qualquer satisfação, voltando algum tempo depois com uma fortuna inexplicável e muita vontade de devolver aos habitantes da sua antiga casa tudo que ele sofrera durante os anos que vivera ali. Sua primeira ação é se casar com Isabela, irmã de Edgar, e depois se revelar um marido inescrupuloso, arrogante e profundamente desprezível. Isabela foge, grávida (guarde esta informação), e só temos notícias dela muito tempo depois. Nesse intervalo Catherine dá à luz a uma menina, Cathy, e morre logo em seguida. Parte em decorrência do parto, parte por consequência de levar uma vida que escolheu por conveniência. Sabe quem também teve um filho? O “adorável” Hindley, que se entregou ao jogo e à bebida depois da morte de sua mulher e afundou sua família em dívidas. Aqui Heathcliff não perde tempo e executa mais uma parte de sua vingança. Toma o filho de Hindley, Harenton, para si e o cria da mesma maneira que fora criado: com maus tratos, má educação, ignorância, e desprovido de quaisquer privilégios. Além de ter se aproveitado da situação de Hindley para comprar O Morro dos Ventos Uivantes. Ufa! Ainda tem mais coisa ruim nessa história? Claro que tem! Continue. Cathy, a filha de Edgar e Catherine, cresce com o pai e é superprotegida, sendo inclusive tolhida de desbravar os limites da Granja, o que causa grande interesse na garota em saber o que tem de tão ofensivo do lado de lá, sobrando para Nelly – sim, Nelly viveu nas duas casas e acompanhou tudo de perto – segurar as pontas de sua curiosidade. Lembram da Isabela? Ela criou Linton Heathcliff até a adolescência, quando morreu e seu filho foi morar com o pai nota dez que já sabemos quem é. Linton era um menino fraco de saúde e, olhem só, tinha a personalidade parecida com a de quem lhe deu seu sobrenome. Mas alguém seria páreo para o grande Heathcliff? Como uma das cartadas finais, nosso anti-herói obriga o filho a se casar com Cathy e assim reunir em uma família só ambas as heranças. E quando digo obrigar, é obrigar mesmo! E é assim que o Sr. Lockwood encontra a casa no morro dos ventos uivantes: um lugar cheio de pessoas duras de coração, ressentidas, arredias uma com as outras e cheias de ódio para distribuir. Mas também pudera, né? Leia outras resenhas Onde O Morro dos Ventos Uivantes está na literatura? Com tantas características em uma obra só, O Morro dos Ventos Uivantes não chega a ser enquadrado em uma única escola literária. O livro tem traços da Escola Romântica como a valorização da natureza, paixões intensas e personagens individualistas, além de abarcar o papel do herói byroniano. Lord Byron foi um poeta do século XIX e uma figura importante no romantismo. Um herói byroniano seria o que hoje conhecemos como anti-herói, e poderíamos definir como alguém fora dos padrões morais da sociedade, mas com capacidade de se afeiçoar romanticamente a alguém. Além disso carrega características como poder de sedução, conflitos emocionais, arrogância, esperteza e passado problemático. Lembra alguém? Heathcliff, embora sendo como é, tinha por Catherine um amor explosivo, exasperado, e até mesmo doentio, eu diria – a ponto de mandar o coveiro abrir o caixão dela e cavar ali do lado o lugar onde ele próprio queria ser enterrado. A obra de Emily Brontë também apresenta algumas nuances da Escola Gótica como atmosfera melancólica e eventos atrozes. O livro ainda teria uma pontinha ali de Realismo, dada a construção dos personagens. Uma história de amor? Há controvérsias. Pessoalmente, eu diria que de amor tem muito pouco nessa história. Na verdade, trata-se mais de uma vingança estimulada por um sentimento desprezado. Podemos perceber que a maldade de Heathcliff começou como uma resposta ao que ele sofrera na infância. No afã de retornar o mal que lhe fizeram, ele acabou dando abertura para uma geração tão perturbada quanto, uma vez que ele educou Harenton com …

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[Resenha] Sempre A Mesma Neve e Sempre O Mesmo Tio – Herta Müller

Resenha Premiada com o Nobel de Literatura em 2009, Herta Müller reúne nesse livro uma coletânea de ensaios sobre sua vida de enfrentamento e resistência à ditadura romena. Perseguida, investigada, suspeita, Herta rebateu o regime com sua melhor arma: a literatura. Sinopse Talvez essa resenha fique curta para o que foi de fato a leitura desse livro para mim. Acontece que prefiro me preservar nas palavras do que correr o risco de dizer coisas que não estão à altura da obra de Herta. O regime do ditador comunista Nicolae Ceausescu durou anos no país e durante esse tempo Herta foi recrutada como espiã e ameaçada de morte depois da sua recusa. Do outro lado, era afastada dos colegas de trabalho por acharem que ela tinha, de fato, aceitado espionar. Enquanto isso ela e os próximos lidavam com o medo constante, a vigilância repressiva, os interrogatórios frequentes e o medo da morte, que era real. “[Saudação] A literatura fala com cada um individualmente – ela é propriedade privada que permanece na cabeça. Nada mais fala de maneira tão incisiva conosco que um livro. E não espera nada em troca, exceto que pensemos e sintamos”. Nos seus textos Herta traduz toda essa atmosfera em frases às vezes complexas, mas às vezes tão simples que nos arrebata pela poesia e metáforas certeiras. As palavras que ela escolhe para dar o tom são de uma genialidade e inteligência incrível. Ela quer nos contar o que aconteceu, quer contar para o mundo, quer externar, gritar, mas, por outro lado, parece que não quer nos chocar. Quer preservar o leitor da brutalidade escancarada. E para isso ela abre as próprias feridas, mas aguenta firme na dor. Leia outras resenhas A mãe de Herta passou cinco anos em trabalhos forçados na União Soviética, e seu pai fora membro da SS, o que fez com que ela alimentasse a figura do Estado como um inimigo, como uma sombra que rondou sua vida, escureceu o céu e impediu o sol de entrar. Um dos trechos em que isso fica claro é quando ela diz que lia os seus livros da maneira mais rápida possível, os engolia sem mastigar porque a qualquer momento um agente do governo poderia entrar e levá-la, e ela nunca saberia se iria voltar depois e terminar aquele livro. “[Na beirada da poça cada gato pula de um jeito diferente] Um dos meus amigos que cometeu suicídio gostava mais de viver do que eu e todos os amigos juntos. Ele procurava mais do que eu pela felicidade. Ao saltar pela janela, ele não procurou pela morte, mas apenas pela saída da infelicidade constante da vida. Quero não me esquecer dessa diferença”. Herta se exilou na Alemanha, onde também sofreu desconfianças, e seguiu sua vida denunciando um regime que tanto roubara dela e dos seus. Os amigos e personagens que aparecem em seus textos foram embora, alguns por atos externos, outros por atos próprios, e tudo que ela podia fazer era continuar escrevendo. Por isso seus textos são tão vivos e reais, porque ali está a história do lado que testemunhou e sobreviveu para contar o que viu. Sem dúvidas Sempre A Mesma Neve e Sempre O Mesmo Tio merece uma releitura, mas também quero conhecer a obra inteira de Herta e absorver pelo menos um pouco de tudo que ela tem a dizer. Sobre a autora Nasceu em 1953, na Romênia, e é escritora, poeta e ensaísta. Ainda jovem foi perseguida pelo governo de Nicolae Ceausescu ao recusar-se a colaborar com o serviço secreto e precisou mudar-se para a Alemanha, onde vive desde 1987 (Fonte: Site Companhia das Letras) Sobre o livro Título: Sempre A Mesma Neve e Sempre O Mesmo TioAutora: Herta MüllerEditora: Biblioteca AzulAno: 2012Páginas: 248Avaliação: 5/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui Essa publicação contém links afiliados e comprando através deles eu ganho uma pequena comissão sem custo adicional para você. Obrigada!

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[Resenha] Sangue na Neve – Jo Nesbo

Sinopse Olav é um matador de aluguel que presta serviços a Daniel Hoffmann, um dos maiores criminosos de Oslo. Todas as ordens são executadas prontamente até Hoffmann encomendar a morte da própria mulher, por quem Olav se apaixona instantaneamente. Resenha Meu primeiro contato com Jo Nesbo foi digno de colocá-lo entre os favoritos sem muito medo de me arrepender depois. A construção do personagem leva em conta não apenas a sua profissão, ou o que decorre dela, mas envolve traços de pessoas comuns, como ser um frequentador de bibliotecas públicas. Algumas outras características peculiares em Olav: ele é disléxico, não sabe dirigir devagar, é muito sentimental, se apaixona fácil e é ruim em matemática. O livro é narrado em primeira pessoa, então é o próprio Olav quem nos apresenta seus defeitos e qualidades logo no início, e cada uma delas acaba aparecendo em algum momento durante o livro. “E, de acordo com um tal de Hume, o fato de até agora eu ter acordado toda manhã no mesmo corpo, no mesmo mundo, onde o que aconteceu de fato aconteceu, não era garantia de que a mesma coisa voltaria a ocorrer na manhã seguinte”. Dirigir rápido é uma atitude suspeita, e se você está roubando algo é melhor disfarçar o quanto puder. E por falar em roubo, essa é uma das “profissões” que Olav experimentou e descartou da sua lista de habilidades por sentir um remorso muito grande com relação às vítimas. Ser cafetão também não era pra ele, uma vez que ele se afeiçoava às prostitutas e não admitia bater e nem vê-las apanhando. E traficar drogas é um ofício muito ruim para quem tem dificuldades com cálculos. Por isso, entre as atividades ilícitas de Daniel Hoffmann, sobrou uma vaga de matador de aluguel, que, para surpresa de Olav, ele conseguia executar muito bem. Assassinar a mulher de seu chefe parecia só mais um trabalho, por mais estranho que fosse, mas se tornou uma questão pessoal quando ele viu a linda Corina caminhar “como um gato” em seu apartamento e deixar seus sentidos bagunçados. Ele não era mais um homem a mando de um criminoso, mas alguém cuja disciplina foi transformada em compaixão e, em seguida, em paixão. “A vida parece ser simples quando você está doente”. Corina fora jurada de morte por estar traindo Daniel e a ideia de matar o amante, em vez da traidora, pareceu mais inteligente para Olav, que com essa simples decisão tomada por conta própria gerou consequências inimagináveis e selou seu destino num caminho sem volta. A partir daí sua vida dá um giro e ele se vê obrigado a partir em outra direção e com outros objetivos. Olav é um assassino por encomenda, mas adquiriu princípios que se transformaram em um código de ética inviolável, e seus sentimentos, mais do que sua razão, acabam guiando suas ações, não só no núcleo que envolve Corina, como nas lembranças da sua juventude, onde tudo começou, com o pai meliante e uma mãe alcóolatra. Minha conclusão sobre Olav é que ele é uma consequência do meio, e não exatamente uma vítima, porque teve oportunidades de não enveredar pelo caminho do crime. Por outro lado, não o vi como um monstro, irrecuperável e irredimível, e sim alguém que decidiu explorar suas habilidades, mesmo sabendo de sua imoralidade e ilicitude, e aceitou as consequências disso. Leias outras resenhas O desenvolvimento do personagem e o equilíbrio na exposição dos detalhes foi muito bem executado pelo autor. Olav tem como livro de cabeceira Os Miseráveis, e conta como é para ele, na sua condição de disléxico, se conectar com as palavras. Ele chega até mesmo a fazer um paralelo de sua história com a de Jean Valjean mostrando como absorve a sua vida num contexto que vai muito além dos crimes. Certamente uma leitura e tanto para começar a conhecer as obras de Jo Nesbo. Esse e muitos outros livros estão disponíveis no catálogo do Kindle Unlimited, o serviço de assinatura de livros da Amazon que custa apenas R$ 19,90 por mês. Para assinar clique aqui. Sobre o autor Nasceu na Noruega em 1960. É músico, compositor, economista e um dos escritores de policiais mais elogiados e bem-sucedidos da Europa (Fonte: Site Fnac). Sobre o livro Título: Sangue na NeveAutor: Jo NesboAno: 2015Editora: RecordPáginas: 154Avaliação: 4/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui. Esse post contém links afiliados e comprando através deles você colabora com o meu trabalho sem custo adicional no seu produto. Obrigada!

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