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7 trechos de “Cartas a Malcom” – C. S. Lewis

Em Cartas a Malcom, C.S. Lewis expõe cartas que trocou com seu amigo imaginário, Malcom, um homem parecido com ele no estilo de vida, mas com ideias divergentes sobre alguns assuntos, o que levou a produção desses textos que são verdadeiras preciosidades em matéria de religião. Veja 7 trechos de Cartas a Malcom: São necessárias pessoas de todos os tipos para se fazer um mundo — ou uma igreja. Talvez isso seja ainda mais verdadeiro com respeito a uma igreja. Se a graça aperfeiçoa a natureza, ela deve expandir todas as nossas naturezas para a plena riqueza da diversidade que Deus planejou quando Ele as criou, e o céu mostrará muito mais variedade do que o inferno. Carta II Não adianta pedir a Deus, com seriedade factícia, por A quando nossa mente está, na verdade, totalmente preenchida com o desejo por B. Devemos colocar diante Dele o que está em nós, não o que deveria estar em nós. Carta IV Pode bem ser que o desejo seja colocado diante de Deus apenas para ser um pecado do qual devamos nos arrepender; mas uma das melhores maneiras de aprender isso é colocar o pedido diante de Deus. Carta IV Venha o Teu reino. Isto é, que seu reinado seja realizado aqui, como é realizado lá. Mas eu costumo considerar o lá em três níveis. Primeiro, como em um mundo sem pecado, além dos horrores da vida animal e humana; no comportamento de estrelas e árvores e água, no nascer do Sol e no vento. Que haja aqui (no meu coração) o começo de uma beleza semelhante. Em segundo lugar, como nas melhores vidas humanas que conheci: em todas as pessoas que realmente carregam os fardos e parecem verdadeiras, as pessoas que chamamos de bom coração e, na vida tranquila, ocupada e ordenada de famílias realmente boas e de lares religiosos realmente bons. Que isso também seja “aqui”. Por fim, é claro, no sentido usual: como no céu, como entre os bem-aventurados mortos. Carta V Se Deus tivesse atendido a todas as orações bobas que fiz em minha vida, onde eu estaria agora? Carta V Volto a São João: temos de tranquilizar “nosso coração diante dele quando nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração”. E, de igual modo, se nosso coração nos adula, Deus é maior que nosso coração. Carta VI No mundo perfeito e eterno, a Lei desaparecerá. Mas os resultados de ter vivido fielmente sob ela não serão. Carta XXI

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12 sugestões de livros para 2024

Quando chega o fim do ano, muitos de nós fazemos metas para o ano novo, dentre elas a de adquirir ou de manter o hábito de leitura. Se você é uma dessas pessoas que quer se tornar um leitor no ano que vem, mas não sabe por onde começar, aqui vão 12 sugestões de livros para 2024. 1. Contos – Tchekov Ler Tchekov foi uma belíssima surpresa para mim. Não conhecia o autor e me surpreendi com a genialidade dos seus contos. Se você ainda não tem ritmo de leitura ou não gostaria de começar por um livro de romance, esse título é uma boa pedida. 2. As Regras da Casa de Sidra – John Irving Não se assuste com o tamanho desse livro, é um calhamaço que vale tanto a pena que acabou indo parar nos cinemas, levando Oscar para casa e tudo. Na história, um garoto chamado Homer Wells cresce em um orfanato e tem seu amadurecimento transpassado por dramas pessoais e alheios. 3. O Clube do Livro no Fim da Vida – Will Schwallbe Essa é a história real sobre a relação de uma mãe em tratamento contra o câncer e seu filho, uma amizade ligada não apenas pelo laços sanguíneos, mas também pelos livros. Um livro profundamente delicado e encantador. 4. Alguém para Correr Comigo – David Grossman Mais uma narrativa sobre família, desta vez sobre uma garota que precisa resgatar o irmão de uma organização criminosa que escraviza crianças e adolescentes em Israel. Se você também gosta de conhecer outros países e culturas por meio da leitura, esse livro é uma boa opção. 5. Reparação – Ian McEwan Tentei fugir um pouco dos livros famosos, mas aqui eu não resisti. Gosto tanto de Reparação que o indico sempre que posso. Nesse romance, Robbie é acusado de um crime que não cometeu, injustiça que afeta sua vida e seu romance com Cecília Tallis. Você pode ler meu artigo sobre o livro clicando aqui. 6. O Tempo entre Costuras – María Dueñas Uma jovem apaixonada e traída de repente se vê envolvida em um esquema de espionagem na Segunda Guerra Mundial e usa o talento como costureira para ajudar na guerra contra os fascistas. Uma narrativa que mescla fatos históricos e ficcionais de uma maneira apaixonante.  7. Ouro – Chris Cleave Outro entre os meus queridinhos. Com uma temática esportiva, Ouro fala sobre duas ciclistas que estão no topo do ranking sendo ao mesmo tempo amigas na vida pessoal e rivais no esporte, tendo uma delas seu destino alterado por uma gravidez não planejada. Um livro para ler e reler sempre que puder. 8. A Garota das Laranjas – Jostein Gaarder O mesmo autor de O Mundo de Sofia apresenta aqui a história de um garoto que lê uma carta do pai, morto há onze anos, em que ele conta sobre sua paixão por uma garota que andava com um saco de laranjas pelas ruas de Oslo. Um romance para deixar o coração quentinho. 9. Silenciadas – Kristina Ohlsson Chegamos aos livros policiais com a indicação desse que é o primeiro livro de uma trilogia que trata sobre tráfico humano. Ideal para quem aprecia histórias investigativas com muitas pistas soltas e revelações. 10. Filha da Fortuna – Isabel Allende Esse não é o livro mais popular da Isabel Allende, mas também é um livraço. Conta a história de Eliza Sommers, uma jovem que sai para procurar o noivo atraído pela promessa de ouro e enriquecimento na Califórnia do século XIX.  11. C.S. Lewis: Do Ateísmo às Terras de Nárnia –  Alister McGrath Eu que nunca fui muito chegada a biografias adorei ler a do C.S. Lewis. Nesse trabalho, o autor narra o processo de conversão de Lewis, a amizade dele com Tolkien e muitos outros fato que só quem é fã do autor vai adorar conhecer. 12. A Sala de Vidro – Simon Mawer Onde estão os amantes de arquitetura? Esse livro é para misturar duas das sete artes em uma só tacada. A protagonista aqui é a casa imponente e majestosa construída especialmente para um casal recém-casado. A construção será palco de festas, bailes e também de eventos históricos como a invasão nazista. O que você achou das 12 sugestões de livros para 2024? Já conhecia algum desses títulos? Qual despertou mais seu interesse? Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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[Resenha] Reparação – Ian McEwan

Reparação já começa apresentando Briony e seu gosto por alimentar a mente fértil com fantasias. Aos treze anos, ela gosta de escrever romances e peças de teatro, mas reconhece que lhe falta “aquele vital conhecimento do mundo”. Também no primeiro capítulo a narrativa aponta uma determinada característica em Briony, o fato de que ela não tinha maldade e que gostava de ver o mundo em ordem, sem destruição. E onde tudo isso entra na história? Naquele verão dos anos 30, a família Tallis se prepara para receber o filho mais velho, Leon, o amigo Paul, e os sobrinhos Lola e seus irmãos gêmeos, Pierrot e Jackson, para um fim de semana. Cecília, a filha do meio, já está na casa, e Briony, a caçula, trabalha em uma pequena peça de teatro que gostaria de apresentar aos convidados na noite do jantar. Robbie, o filho da empregada e quase membro da família, também está entre os participantes. No meio da noite, um crime sexual acontece e Robbie é acusado por uma testemunha ocular: Briony. A partir daí, muitas são as consequências dessa acusação, uma vez que Robbie é preso ainda na mesma noite. A vaidade de Briony O livro é dividido em quatro partes. Na primeira parte, a história dá o protagonismo a Briony, colocando-a como o olho que tudo vê e dando a ela o privilégio da palavra. Ela é quem assiste de longe à cena do vaso caindo na fonte; ela quem flagra Cecília e Robbie na biblioteca; ela quem testemunha o estupro de Lola. Quando o evento catastrófico acontece (ela acusar Robbie de ter estuprado a prima Lola), eu vejo que Briony se deixou levar por uma motivação bastante infantil de ser a heroína da história, como se, frustrada pela impossibilidade de ser a protagonista da peça que estava ensaiando, ela quisesse agarrar uma oportunidade de fazer a diferença no mundo real, no mundo dos adultos. Leia também [Resenha] As Brumas de Avalon Ainda impactada pelo flagrante de Robbie e Cecília na biblioteca – um evento consensual e não uma violência -, Briony constrói uma imagem de vilão em cima de Robbie, um vilão bastante caricato, com traços de psicopatia e crueldade. E é com essa imagem na cabeça, e com um desejo de proteger as pessoas do “mal”, que ela afirma com todas as letras que Robbie é o agressor de Lola, muito embora ela não tenha visto com clareza e nem a própria Lola possa dar essa certeza. Agora, tudo isso acontece em um dia em que Briony declara a si mesma que a partir dali não é mais criança, que os contos de fadas ficaram para trás e agora ela lida com problemas de adulto. Mas foi justamente a responsabilidade e a maturidade de um adulto que lhe faltaram quando foi necessário que ela analisasse a situação com clareza. É certo que talvez um adulto de verdade cometesse o mesmo erro, mas talvez não pelas mesmas motivações. A própria Lola, a vítima, com um pouco mais de idade, se reservou a dizer que não viu direito, enquanto Briony sente uma necessidade quase irresistível de estar certa porque quer ser relevante, porque quer fazer justiça, porque quer ser a protagonista daquela história, porque não quer ser taxada de criança boba e voltar atrás. “Briony caiu numa arapuca armada por ela própria, penetrou num labirinto construído por suas próprias mãos, e era jovem demais, estava impressionada demais, excessivamente sequiosa de agradar aos outros, para insistir numa retratação”. A reação de Robbie Na segunda parte, Robbie está na guerra. Depois de três anos preso, ele aceita servir porque é melhor do que estar na prisão. É uma parte bem longa (inclusive no filme), onde ele tenta sobreviver para reencontrar Cecília enquanto atravessa o país com as cartas dela no bolso. Ele nutre um rancor de Briony do qual não faz nenhum esforço para se livrar. “Não era razoável nem justo odiar Briony, mas ajudava”. A autopunição de Briony Na fase seguinte, vemos Briony já ali com seus dezoito anos, servindo na guerra como enfermeira de um hospital. Ela carrega a culpa do que fez e de certa forma tenta usar aquele trabalho como penitência. Um trabalho difícil, braçal e sangrento, como se ela quisesse achar algo mais cruel e feio para se sobressair ao seu passado. Ainda nessa mesma fase, Briony procura Cecília (elas se separaram desde o episódio do jantar) e a encontra em uma cidadezinha aos arredores de Londres ao lado de Robbie. Os dois a tratam com repulsa, mas o medo de Briony de que eles nunca mais se encontrassem é aliviado. Ela sai dali com a promessa de retratar seu depoimento e, quem sabe, retirar a condenação de Robbie – que ainda cumpria pena, estando apenas cedido para o Exército. A Reparação Atenção, spoiler! Porém, na quarta e última parte nos deparamos com Briony com 77 anos de idade, já no final dos anos 90, contando em primeira pessoa que a terceira parte dessa história só é verdade em partes. Ela nunca procurou Cecília e Cecília nunca reencontrou Robbie. Ambos morreram na guerra e Briony se sentiu no dever de reparar, ainda que ficcionalmente, uma história que não terminou feliz por interferência sua. O desejo de ser uma escritora se concretizou e ela fez carreira na profissão, trabalhando a vida inteira em um romance no qual o casal apaixonado vive seu amor, já que na vida real isso não foi possível. Um caminho sem volta Eu vejo que na transição de uma fase para outra há não só um amadurecimento dos personagens como um endurecimento das personalidades deles. O livro começa num dia quente, ensolarado, porque tudo está bem e animado. Cinco anos depois, Robbie é um homem castigado, Cecília alimenta amargura pela família e Briony se consome de remorso enquanto fecha feridas em carne viva dos soldados. Tudo ficou mais duro para todo mundo. A narrativa também lança uma pergunta: Até onde é possível usar a imaturidade (ou a pouca idade) como …

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[ Releitura ] O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

Esse é um texto que eu escrevi em 2018, primeira vez que li O Apanhador no Campo de Centeio (e me apaixonei!). Cinco anos é suficiente para você revisitar obras e encará-las com um outro olhar. Dito isto, o texto antigo continua válido, mas eu gostaria de acrescentar outras percepções. A primeira delas é que eu pude ver com mais clareza as peculiaridades que caracterizam a adolescência de Holden. Ele é expulso da escola – de novo – e fica perambulando pela cidade até chegar o dia em que inevitavelmente terá que enfrentar os pais. Para ele, a expulsão não é tão grave assim, pelo contrário, quanto menos tempo pudesse passar com aqueles cretinos (nas palavras dele), melhor.  Nesse meio tempo, ele faz coisas de “adulto” para talvez tentar se sentir menos errado. Uma coisa meio “eu cuido da minha própria vida, para quê escola?”. Mas a realidade é que ele não é tão crescido assim e isso é lançado na sua frente o tempo todo. Leia também [Resenha] Howards End – E. M. Forster Se ele vai de bar em bar, alguns garçons não querem atendê-lo por ser menor de idade; se ele dá em cima de alguma mulher, ela acha o papo dele esquisito; se ele contrata uma garota de programa, desiste em cima da hora por ser virgem. As únicas vezes em que ele consegue se desenrolar, é na companhia de outros adolescentes, por mais que ele não queira. Entrando na questão familiar, Holden dá trabalho, mas não chega a ser um jovem problemático. Ele tem uma boa relação com os irmãos e ainda sofre a morte de um deles. Ele pensa em fugir de casa, mas quando a irmã caçula cisma que vai junto, Holden percebe que às vezes a irresponsabilidade respinga em quem não tem nada a ver com a história. Você também já quis fugir de suas obrigações, já quis largar a escola, já quis fugir de casa, já aprontou, já se sentiu sozinho, já chorou, já se sentiu um merda, porque isso é ser adolescente. Agora vejam que interessante: a única coisa que faz Holden Caulfield se sentir bem é ser um possível apanhador no campo de centeio. Quando a irmã pergunta “Do que você gosta? Você não gosta de nada, está sempre reclamando de tudo”, ele responde que se garotinhos brincassem em um campo de centeio, ele gostaria de ser a pessoa que fica na beira do princípio cuidando para que ninguém caia. Ora, o que curaria todas as angústias de Holden – e de todo mundo que quer deixar de ser mentalmente jovem – é ser útil, amadurecer e não viver só para si e suas demandas. O outro ponto, e esse é o que me agrada mais, é que naturalmente eu sou alguém um pouco resistente a conteúdo de humor (livros, filmes…). Não consigo achar graça na maioria das coisas que se propõem a ser de comédia, e embora essa não seja exatamente a intenção de O Apanhador no Campo de Centeio, é o único livro até hoje que me fez dar sinceras gargalhadas. O humor ranzinza, sarcástico e debochado de Holden é fenomenal. Eu vou e volto no texto várias vezes e rio de verdade. É maravilhoso. “Esse que é o problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve ‘Foda-se’ bem na cara da gente. É só experimentar. Acho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemitério, com uma lápide e tudo, vai ter a inscrição ‘Holden Caulfield’, mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, alguém vai escrever ‘Foda-se’. Tenho certeza absoluta”. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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O dia que já terminou

O dia ainda não está tão claro e os pensamentos já são lançados como bolas de tênis que eu preciso rebater. “Que dia é hoje?” “Ligar para Fulano”. “Consulta às 15h” “Passar na casa da mãe e pegar a ração”. Eu levanto, puxo os lençóis para arrumá-los. “Entregar aquele relatório até o meio-dia”. Saio do banho e passo a toalha pelo rosto, o corpo meio zonzo. “Acabou o ovo e a banana, tenho que passar no supermercado”. E o dia vai passando e as tarefas aumentando à medida em que eu me lembro delas. No meio do expediente, pergunto-me se ainda vale a pena continuar fazendo aquilo ou se é melhor mudar de área de uma vez. “Estou muito velha para começar do zero, mas eu também preciso ganhar mais”. Não tenho isso, não tenho aquilo, Fulana é mais nova do que eu e já tem tudo. Na academia, lembro tudo que ainda tenho que estudar ao chegar em casa. “Há meses não dou o meu melhor, os resultados não virão nunca”. No meio dos estudos, penso em quanto estou deixando todos os meus outros sonhos de lado.  E o dia continua passando. “Queria que chegasse logo o sábado pra eu escolher um bom restaurante para almoçar e hoje ainda é segunda-feira”. E assim, no sábado, penso que na segunda é dia de checar determinado trabalho. Vivo então como um relógio adiantado três dias. Sempre pensando na semana que ainda não começou, no problema que ainda não chegou e na solução que ainda não tenho para o que ainda nem existe. Não disse Deus que a cada dia basta sua própria preocupação? (Mt 6:34). No entanto, esqueço-me de viver cada batida do ponteiro ao seu próprio tempo, cada instante onde, já dizia C.S. Lewis, o tempo toca a eternidade. Deixo escapar que o presente é absolutamente tudo que eu tenho. Cada dia meu já começa pelo fim. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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5 trechos de Grandes Esperanças

Cheguei ao fim da minha releitura de Grandes Esperanças e foi emocionante reencontrar e acompanhar novamente a trajetória de ascensão financeira e redenção moral de Pip. Uma narrativa que encanta pela complexidade de seus personagens e por envolver amor, humor, crítica e boas lições para a vida. Destaco agora 5 trechos de Grandes Esperanças que farão você ter vontade de ler, ou reler, o livro. “No pequeno mundo em que vivem as crianças, seja quem for que as crie, nada é percebido com tanta intensidade, e sentido com tanta intensidade, quanto a injustiça. As injustiças a que a criança é exposta podem ser pequenas; mas a criança é pequena, e seu mundo é pequeno, e seu cavalo  de balanço é tão alto, guardadas as proporções, quanto um Irish hunter de ossos grandes. No meu íntimo, eu vivia, desde a mais tenra infância, um conflito perpétuo com a injustiça. Eu sabia, desde que aprendi a falar, que minha irmã, com sua coerção caprichosa e violenta, era injusta comigo. Eu nutria a convicção profunda de que ter ela me criado com a mão não lhe dava odireito de me criar aos cachações. Em meio a todos os castigos, vexames, jejuns e vigílias, e outras penitências, eu nutria essa certeza; e é a intensa convivência com ela, de um modo solitário e desprotegido, que me parece ser a principal causa de eu ter-me tornado moralmente tímido e muito sensível”. Leia também Grandes Esperanças: sra. Havisham e o vício pela dor “Foi para mim um dia memorável, pois ocasionou grandes mudanças em mim. Mas é assim com todas as vidas. Imagine que um determinado dia fosse eliminado de sua vida, e pense em todas as consequências que isso teria sobre o resto dela. Para e pensa, tu que me lês, por um momento, na longa cadeia de ferro ou outro, de espinhos ou flores, que jamais te teria cingido, não fosse a formação do primeiro elo num dia memorável”. “Deus sabe que não há por que nos envergonharmos de nossas lágrimas jamais, pois elas são a chuva que cai sobre a poeira da terra que nos cega, descendo sobre nossos corações endurecidos”. “No entanto, aquela sala era tudo para mim, porque Estella estava dentro dela. Pensei que, em sua companhia, eu teria sido feliz lá para sempre”. “‘Meu nome está na primeira folha. Se puderes escrever embaixo do meu ‘Eu a perdoo’, ainda que muito depois de meu coração partido virar pó – eu te peço que o faça’”. Você já leu Grandes Esperanças? O que achou? Deixe nos comentários

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O mundo real não é instagramável, mas bem que poderia ser

Todos nós que crescemos com computadores de mesa e internet discada sabemos que isso aqui passou de um mundo novo e interessante para um quase lamaçal de críticas, ofensas e insalubridade. Por isso, é difícil achar um espaço online onde você possa colocar uma cadeira de praia e apenas observar a vista. Um desses poucos lugares é o Pinterest (se quiser me acompanhar por lá é só clicar aqui), uma rede social de fotos bonitas e comentários – muito embora eu já tenha aberto minha aba de comentários e encontrado muita gente esbravejando lá por conta de um pin meu. O Pinterest é um oásis em meio ao caos urbano que é a internet. Você passa alguns minutos por lá e a vontade de deletar todas as redes sociais até desaparece. Moro em uma capital do Brasil com seus sabores e dissabores como qualquer outra. Um dia desses, uma usuária do Twitter comentou que por aqui não há muitos bons lugares para você sentar e ler um livro, trabalhar ou estudar. Concordando com ela, indiquei um local onde três dias antes eu pedi um café, um bolo amanteigado delicioso, e fiquei durante uma hora lendo Grandes Esperanças.  O comentário da garota foi despretensioso, nem chegou a ser uma crítica à cidade, mas gerou uma enxurrada de outros comentários irônicos e grosseiros. “Por que não fica em casa?”, “Que tal alugar um coworking?”, “Se você quer ir a um restaurante só para ler seu livro, sem consumir, vai acabar falindo o empresário!”, e o melhor deles: “Onde você acha que está, na Europa? Isso é viralatismo, coisa de quem acha que está no Pinterest”. Leia também Agora que cheguei ao futuro, quero voltar Agora vejam só, quem nos dera habitar o Pinterest pelo menos uma vez na semana, acordar de manhã com o sol batendo na janela, cheirar as flores em cima da mesa de madeira da cozinha e preparar um café enquanto põe um disco de vinil para tocar. Sair na rua e ver uma criança feliz com seu balão, atravessar na faixa de pedestre com o motorista esperando tranquilamente o sinal abrir e chegar ao trabalho que tem uma vista linda para cidade. À noite, abrir uma garrafa de vinho e cobrir os pés com aquele cobertor quentinho. Olhar as luzes lá fora e não ter nada de ruim acontecendo no mundo. Assim como o Pinterest é um pequeno respiro de ar puro na internet raivosa, uma cafeteria charmosa onde você possa ler um livro, ver pessoas diferentes, tomar um chá de um sabor novo, talvez seja o único momento de paz de alguém. Afora as questões comerciais e urbanas que rondam essa questão, não vejo problema em desejar trazer um pouco da magia dos Pins para a vida real. Por algumas horinhas, quem sabe, apenas ter uma vida fotográfica. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Grandes Esperanças: sra. Havisham e o vício pela dor

Grandes Esperanças é um clássico da literatura mundial e faz parte do meu projeto de releituras em que eu revisito não só o enredo como tento perceber e interpretar melhor as nuances da narrativa, principalmente dos clássicos. Se você ainda não leu essa obra prima de Charles Dickens, neste artigo não há spoilers, mas eu sugiro que você leia primeiro o livro e depois acesse meu texto. Pip é um menino órfão que vive em uma aldeia com a irmã, uma mulher violenta, e com Joe, seu marido, um homem bastante gentil e amigável. Um dia, Pip é levado até a casa da sra. Havisham, uma senhora rica da cidade, para brincar. Não sabendo quais brincadeiras seriam essas, Pip sai assustado de casa, pensando no porquê desse convite inusitado, mas a figura com a qual se depara é mais assustadora do que qualquer ideia que ele pudesse imaginar. Em algum dia de sua vida, a sra. Havisham foi noiva e em algum outro dia, abandonada no altar, episódio que a levou a viver sua mágoa da maneira mais literal e performática possível, qual seja, permanecer vestida de noiva e deixar tudo ao seu redor exatamente do jeito que estava quando foi rejeitada. “Porém vi que tudo no meu campo de visão que era para ser branco fora branco há muito tempo, e perdera o brilho, e estava desbotado e amarelado. Vi que a noiva com seu vestido de noiva havia fenecido tal como o vestido, e como as flores, que não havia nela nada que brilhasse senão os olhos fundos”. A intenção da sra. Havisham em deixar tudo intocável era manter, prolongar, a dor o mais viva possível, como que para não se esquecer de que um dia foi vítima. Contudo, na minha percepção, vejo que tanto quanto não esquecer, ela queria também punir alguém pelo que ela viveu. Quem? O ex-noivo? Ela mesma? As pessoas ao redor? Em primeiro lugar, percebo que quando se coloca em uma situação extravagante, a personagem tenta de certa forma chamar a atenção para si, como se fosse inaceitável viver aquela dor sozinha, trancada em um quarto. Ela quer que as pessoas saibam que ela está naquela casa escura, que ela não superou; quer que a vejam amarga, cruel e desacreditada. Leia também [Resenha] Howards End – E. M. Forster Em tempos modernos, não seria difícil imaginá-la se expressando no story com músicas e publicações sugestivas sobre sua dor. “‘Sabes onde ponho a mão, aqui?”, perguntou ela, pondo as mãos, uma sobre a outra, no lado esquerdo do peito.‘Sei, sim, senhora’.‘Onde estou pondo a mão?’‘No seu coração’.‘Partido!’” Além de manter suas feridas abertas, a sra. Havisham se empenha em desestimular as pessoas sobre o amor – muito parecida com aquela amiga que está sempre repetindo por aí que nenhum homem presta. Junto com ela, vive Estella, uma menina mais ou menos da idade de Pip, e por quem ele se encanta desde a primeira vez que a vê. A sra. Havisham, por sua vez, desde já estimula Estella a partir o coração de Pip. “‘[Estela] Por que não choras de novo, criaturinha desgraçada?’‘Porque nunca mais vou chorar pela senhora’, respondi. O que, creio eu, foi uma mentira deslavada; pois por dentro eu estava chorando por ela naquele exato momento, e sei o que sei da dor que ela me proporcionou depois”. Outro símbolo da ruína física e psicológica da sra. Havisham é o salão onde um dia seria a festa de casamento. No dia do seu aniversário, ela leva Pip até lá e apresenta a ele um lugar jogado às baratas, aos fungos e aos ratos. O bolo, ainda presente em cima da mesa, é o sinal maior de como alguém pode se deixar consumir e não ter coragem de se desfazer daquilo que lhe faz mal. “‘Neste dia do ano, muito antes de nasceres, esse monte de podridão’, apontando com a bengala a pilha de teias de aranha na mesa, mas sem tocá-la, ‘foi trazido aqui. Ele e eu decaímos juntos. Os ratos o roeram, e dentes mais afiados que os dos ratos me roeram”. Penso eu que essa obsessão da Sra. Havisham em permanecer naquele estado – até mesmo os ponteiros dos relógios foram parados na exata hora em que ela foi abandonada – é também uma forma de comodismo sentimental. Por mais saudável que fosse superar a mágoa, seria um passo doloroso a se dar e ela precisaria deixar de se colocar na posição de vítima depois de tantos anos, deixar de pensar sobre o assunto e encarar as pessoas com a cabeça erguida. Durante uma visita, uma mulher diz a sra. Havisham que ela não está muito bem, e eis que ela responde “Sim! Estou só pele e osso”. Na cena do salão, ela diz a Pip “É aqui que vão me deitar quando eu estiver morta, eles virão aqui me ver”. Transformar sua vida em um espetáculo é uma maneira de não ter que se esforçar para viver uma realidade diferente. Não é muito distante de quando insistimos em ficar presos a memórias ruins, a episódios humilhantes ou àquela narração aos outros sobre a vez em que fomos injustiçados. Raiva é um sentimento muito fácil de fazer nascer e de se alimentar, principalmente se podemos espalhá-la, fazendo os demais sentirem repulsa pelo mesmo objeto que sentimos, e dando-nos a falsa sensação de que aqueles pequenos instantes de vingança podem se transformar em uma vitória sobre o provocador de nossas mágoas. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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#3 Cartas que Coralina escreveu e guardou em um cofre

Eu queria ver a Terra girar. Dizem os especialistas em sucesso pessoal: você precisa ser confiante no processo, acreditar em si mesmo e ser constante. Eu confio no processo, às vezes acredito em mim mesma, mas definitivamente luto para ser constante. Sempre tive dificuldade em trabalhos repetitivos, minha mágica acontece quando eu preciso criar algo ou fazer surgir uma boa ideia. Sou boa em desenhar móveis de madeira, mas não sirvo para bater o mesmo prego por vinte dias seguidos. A inconstância me leva a percorrer o caminho pela metade e é desanimador olhar para frente e não ter mais nenhuma vontade de continuar. Não adianta ir contra a realidade: nada de grande pode ser conquistado sem muito se suportar; e o suportar muitas vezes é isso mesmo, fazer a mesma coisa todos os dias. O sucesso não é levar a grande pedra até o topo de uma vez só, é treinar um pouquinho a cada dia, uma pedra mais pesada por vez, até conseguir a maior delas. Na maioria das vezes eu quero desistir assim que começo a suar demais. Estou há anos trabalhando em um projeto e tenho a sensação de que continuo na base da colina com cinco unidades de pedras britas na mão. Olho para o topo e ainda falta muito. Olho para a pedra grande que me espera e tenho quase certeza de que não vou conseguir carregá-la. O preço da constância é alto. A constância te espreme até não sair mais nada e termina dizendo “amanhã tem de novo”. Sabe quem é constante e não se cansa? O planeta Terra. Um pouquinho a cada dia, ele vai girando, girando, até dar uma volta completa. Ninguém vê o planeta girar, só vemos os fogos de artifício no céu e sabemos que é Ano Novo. No dia seguinte, começa tudo outra vez. Tenho pesadelos só de pensar, nesse momento, em começar de novo. Eu queria ao menos saber se estou girando na direção certa e se meu ano novo irá chegar. Eu queria ver a Terra girar só para ter certeza. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Charlotte e Mr. Collins: como abrir mão do romantismo pode ser uma boa decisão

Em Orgulho e Preconceito, o casal Mr. Darcy e Elizabeth Bennet arrancam suspiros há mais de duzentos anos. Ele, um homem arisco por fora, porém gentil e cuidadoso por dentro, elegante, culto e com uma boa fortuna. Ela, romântica, não ingênua, inteligente, com bons modos e ideias firmes. Juntos, descobrem um amor capaz de superar as mais sólidas más impressões. Mas há outro casal nessa história que sempre me chamou atenção, tanto no livro quanto no filme. Trata-se de Mr. Collins e Charlotte Lucas, e é a partir da história deles que eu vou falar como abrir mão do romantismo pode ser uma boa decisão. Mr. Collins é primo das irmãs Bennet e o primeiro na linha de herança por ser o parente homem mais próximo do pai de Elizabeth. Durante uma visita, ele pede nossa mocinha em casamento e tem sua proposta recusada sem hesitação. Acontece que Mr. Collins queria muito, muito, casar com alguém, e encontra em Charlotte, amiga de Elizabeth, outra candidata. Essa, por sua vez, aceita o pedido de prontidão, e já sabendo que será criticada, aproxima-se cheia de dedos de Elizabeth e conta a novidade, recebendo como resposta uma clara desaprovação. Charlotte, contudo, reage, a meu ver, de maneira bastante sensata e madura. Na cena do filme ela diz: “Tenho 27 anos e nenhuma perspectiva. Sou um estorvo para os meus pais”. Na narração do livro: “Tinha 27 anos e jamais fora bela. Sabia portanto que tivera sorte”. Num contexto em que uma mulher não tinha como prover sozinha o seu sustento, suas únicas opções eram receber uma boa herança dos pais ou se casar. Charlotte, dada sua condição – era considerada “velha” – não podia, e nem queria, se dar ao luxo de continuar esperando por um príncipe encantado, algo totalmente fora da realidade “Sem ter grandes ilusões a respeito dos homens ou do matrimônio, o casamento sempre fora o seu maior desejo; era a única posição tolerável para uma moça bem educada, de pouca fortuna”. A forma como Elizabeth vê a situação, e até como a narrativa a apresenta para nós, é como se a decisão de Charlotte fosse digna de pena, mas eu sempre vi por um outro ângulo. Eu vejo como alguém que resolveu uma pendência de maneira prática. Mr. Collins, embora fosse sem graça e vaidoso, não era exatamente um qualquer. E também não estava procurando um grande amor – tanto que fez dois pedidos de casamento em menos de três dias – mas uma esposa com quem pudesse compartilhar a vida e a construção de uma família, algo para o qual ele já vinha se preparando, inclusive, financeiramente. Exatamente o que Charlotte precisava. “Bem sabe que não sou romântica. Nunca fui. Desejo apenas um lar confortável. E considerando o caráter de Mr. Collins, as suas relações e a sua situação na vida, estou convencida de que tenho as mesmas possibilidades de ser feliz no casamento que a maioria das mulheres”. Essa fala de Charlotte pode parecer materialista e superficial, mas se observarmos com cuidado veremos que nenhum dos dois está interessado em romance de novela (ou de livros), mas em encontrar um bom par para formar uma família. E ainda assim, Charlotte acredita que pode amá-lo e ser feliz. Leia também [Resenha] Os Sofrimentos do Jovem Werther – Goethe Nessa circunstância, eu acredito que os dois se propuseram a assumir um compromisso e honrar com ele, sendo úteis um ao outro e servindo com dignidade à família que formarão. É muito diferente de Elizabeth, que está procurando, querendo, suspirando, por um amor. Por isso, não gosto de sua atitude naquela cena, porque Elizabeth tira a situação de Charlotte pela dela. Em outras palavras, ela espera que a amiga ignore suas particularidades e aguarde por um partido melhor, ainda que o menos interessante apresente características fundamentais para ela e que um pretendente supostamente mais adequado esteja bastante fora do seu horizonte. Trazendo para a realidade, para mim é impensável que uma mulher adulta coloque suas expectativas amorosas em Mr. Darcys, como se nenhum outro homem abaixo desse ideal servisse para formar uma família, quando, na verdade, é o próprio personagem de Mr. Darcy que não existe na vida real (ou pelo menos é raríssimo de encontrar). Tanto não existe que muitos homens se aproveitam do ideal hollywoodiano para fingirem ser o que não são e conquistarem mulheres com ações baratas de comédias românticas que não dizem muita coisa, são apenas bonitinhas. Quanto mais uma mulher espera por Mr. Darcy sem defeitos, mais ela está sujeita a se deixar enganar. O amor pode acontecer com um homem comum, que muito provavelmente não vai ser bonito, elegante, gentil, rico, inteligente e engraçado ao mesmo tempo. E isso está muito longe do “ficar com qualquer um / se contentar”; trata-se de saber quais características ela valoriza e de entender que príncipes encantados só existem nos filmes da Barbie e nos romances de Jane Austen. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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