Lembro quando os abraços foram oficialmente proibidos. Depois os beijos, os afagos, e as mãos dadas. Apenas apertos de mãos eram permitidos, e em situações muito específicas, como ao fechar um negócio. Eu fechava muitos negócios na minha padaria, mas nunca havia abraçado meu filho de cinco anos. Antes dos decretos, meu avô aparecia na porta da minha casa aos fins de tarde e me levava para passear na pracinha do bairro. Ele nunca soltava a minha mão e me dava um abraço de despedida ao ir embora. Nenhum exame médico poderia comprovar, mas o fato de ele ter morrido um ano depois das proibições me leva a crer que…
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O Natal da Senhora Deise
Aquela hora do dia sempre chegava. Eu estava sentado no sofá, no meio da tarde chuvosa, com minhas velhas e confortáveis meias, quando minha mãe me mandava ao mercado comprar algum item que havia esquecido para o jantar. Era a tarde mais preguiçosa e aconchegante do ano, não fosse a bendita caixa de leite que escapara da lista de compras no dia anterior e agora cabia a mim e ao meu irmão buscar. Ainda havia isso: era preciso ir na companhia de Marcos. Por um lado, era justo, pois nenhum de nós dois seria beneficiado enquanto o outro fosse punido a sair sob a chuva. Por outro, meu irmão caçula…
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[Conto] Último dia
Eu estava atrasado quando entrei na sala de reuniões e coloquei, discretamente, a bandeja de sanduíches sobre a mesa, ao lado da torta de frango que eu sabia ter sido feita pela Norma, do setor de Recursos Humanos. Ela era uma senhora que quase sempre vinha trabalhar com o mesmo tipo de roupa: calça jeans, alguma blusa estampada, cabelo preso e sapatilhas. Tinha muitos vídeos dos netos no celular, e eu os assistia com atenção e paciência, pois gostava de receber, às segundas-feiras, um potinho com as sobras do almoço dela de domingo. Por isso, eu reconhecia aquela torta pelo cheiro. Ela estava do outro lado da sala, empolgada, filmando…
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[Conto] Almoço de domingo
Havíamos acabado de nos sentar à mesa para o almoço. Demos as mãos e meu pai agradeceu pela comida. Assim que as pontas dos dedos se soltaram e abrimos os olhos — o cheiro do frango envolvendo as narinas e atiçando o estômago —, a campainha tocou. Minha mãe detestava receber visitas na hora das refeições, mas se alguém chegasse, ela prontamente colocava um lugar na mesa. Meu pai se levantou para atender e minha mãe foi buscar mais um prato. Meu irmão e eu tivemos uma pequena discussão em voz baixa pelo pedaço mais suculento do frango. Em voz baixa porque se o pai ouvisse, estaríamos em apuros. Era…
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[Conto] Eu me sinto vivo
Estou deitado sobre um colchão desconfortável que não se parece em nada com o meu colchão. Lembro quando a Júlia me mostrou o encarte da loja de móveis e me falou sobre o quanto valia a pena investir em um bom colchão e eu fui categórico em negar, não havia a menor possibilidade de pagar aquele valor em uma cama. Mas quando ela insistiu e me levou até lá para que eu visse com meus próprios olhos, ou melhor, sentisse com meu próprio corpo… ah, tudo mudou. Ela tinha razão, valia a pena comprar um bom colchão, então eu não sei o que estou fazendo deitado neste aqui. Hoje é…
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[Conto] Como nossos pais
Houve uma época da minha vida em que eu tinha sonhos inusitados. A primeira vez aconteceu naquele verão em que viajamos para o litoral. Eu morava a trezentos quilômetros da cidade dos meus pais e, sempre que podia, visitava-os nos feriados. Era carnaval, e escolhemos uma pousada simpática, longe dos blocos de rua e perto do barulho das ondas. Sentados na areia, eu conversava com meu pai quando minha mãe voltou de algum lugar com cinco pequenas e bonitas conchas nas mãos, animada e se achando sortuda por ter encontrado não conchas quaisquer, mas conchas peroladas, com listras marrons e uma ou outra de um laranja brilhante. Eram realmente lindas,…
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Sabonetes
Desde criança, a avó dizia que aquela casa seria dele. Uma casa grande, afastada da cidade, com trejeitos coloniais, paredes centenárias e colunas que viram gerações subirem as escadas e atravessarem a varanda. Quando tomou posse, percebeu que os corredores conservavam o cheiro da avó até o quarto que por toda a vida foi dela. A cômoda de cor escura prostrada no lado esquerdo guardava perfumes, colares e uma foto da família em um porta-retrato. A poltrona de leitura simbolizava um privilégio, os tapetes coloridos e bordados foram presentes de uma prima distante e as pantufas ainda estavam ali, na entrada do banheiro, de onde ela saía com uma toalha…
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[Conto] Amanhã talvez
No escuro do teatro, enquanto um ator declamava um poema, ele segurava a mão dela com leveza sem imaginar que o pensamento dela havia voado para longe dali. Ao fim do espetáculo, ele seguiu com os comentários. Elogiou a atuação da companhia, mas ressaltou que na gestão do diretor anterior eles eram ainda melhores, mais concentrados e com peças mais inteligentes. Ela não disse nada, não sabia quem era o diretor anterior e tampouco se o grupo era melhor ou pior. A noite havia esfriado e ao dobrar a esquina ele ofereceu um casaco e ela respondeu algo que ele não havia perguntado. Ela disse que não gostaria mais de…
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Todos os dias bons
Minha irmã Ellen sempre foi muito organizada. Quando criança, eu não me preocupava em memorizar o dia da aula de Geografia porque ela colava um papel sulfite na porta da geladeira com todos os nossos afazeres. Segunda-feira, aula de inglês, quinta-feira, uniforme de Educação Física, sábado, catequese. Sempre foi um prazer pessoal dela se dedicar a deixar tudo em ordem. Liguei para Ellen na sexta-feira e perguntei se gostaria de jantar comigo no restaurante novo do bairro, um mexicano com luzes coloridas e música sertaneja. – Hoje é dia do futebol do Érico, ele gosta que eu vá. – Nenhuma esposa vai assistir a essas coisas, não é o dia…
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[ Conto ] Um dezembro a mais
Naquele ano, ele apareceu na porta da casa dela com um buquê de oito gérberas e um livro de poemas. Na porta da casa havia uma guirlanda grande e desproporcional, ele observou, enquanto ela não atendia à campainha. Ele estava nervoso, namoravam há exato um mês e era Natal. Ele também levou um vinho para os pais dela, um vinho caro comprado com as economias de seis meses. Ela recebeu todos os presentes com o entusiasmo característico de quem está apaixonada. Era alérgica a gérberas, não gostava de poema e nenhum dos pais consumia bebida alcoólica, mas mesmo assim foi uma noite muito especial, ela o amava. No ano seguinte,…













