Contos

[ Conto ] Um dezembro a mais

Naquele ano, ele apareceu na porta da casa dela com um buquê de oito gérberas e um livro de poemas. Na porta da casa havia uma guirlanda grande e desproporcional, ele observou, enquanto ela não atendia à campainha. Ele estava nervoso, namoravam há exato um mês e era Natal. Ele também levou um vinho para os pais dela, um vinho caro comprado com as economias de seis meses. Ela recebeu todos os presentes com o entusiasmo característico de quem está apaixonada. Era alérgica a gérberas, não gostava de poema e nenhum dos pais consumia bebida alcoólica, mas mesmo assim foi uma noite muito especial, ela o amava.

No ano seguinte, viajaram para outro estado, onde os pais dele moravam. Ela comprou a camisa nova do time dele e ele usaria aquela roupa mais vezes do que ela gostaria. Ele deu a ela um dia em um spa chique da cidade. Acertou em cheio. 

Naquele segundo ano de relacionamento, apaixonaram-se ainda mais, embora ambos fossem adeptos da teoria de que o primeiro ano era o mais bonito e intenso. Não foi. O primeiro ano foi corrido. Ela concluindo a faculdade, ele escrevendo a tese do mestrado. Entre uma linha e outra se falavam pelo telefone, saiam para caminhar na praia e visitavam o zoológico porque ela adorava girafas. No terceiro ano, ela foi pedida em casamento e dentro da caixa de alianças havia um tecido estampado de girafas. Foi tão engraçado, ela achou que ele não poderia ter sido mais inusitado, e foi no meio daquele risada, com o garçom procurando o melhor ângulo para registrar o momento, que ela se deu conta de que passaria a vida com aquele homem. Aquele homem bonito, engraçado e de muito bom gosto. Era antevéspera de Natal e o restaurante estava decorado com luzes delicadas e aconchegantes. Ela pensou que no ano seguinte gostaria de ter em casa uma decoração como aquela – a casa que também seria dele.

Um ano se passou e eles foram juntos comprar os enfeites de Natal. Ela deu sorte, encontrou as luzes como queria. A cerimônia de casamento havia sido há dois meses e fizeram questão de receber a família para a ceia na casa nova. Como era bom vê-lo caminhar apressado pra lá e pra cá tentando deixar tudo pronto para o jantar. Ela se sentia em paz.

Contudo, antes do primeiro aniversário de casamento descobriram que a teoria dos melhores dias não se aplicava muito bem quando a convivência era diária. Depois das semanas douradas, aqueles dias após lua de mel, depararam-se com as pequenas incongruências do dia a dia. Os defeitos alargados, as manias irritantes, os esquecimentos, às vezes a ponta de um desleixo surgindo aqui e ali. Nada que pudesse abalar o amor, apenas a vida acontecendo e a pouca experiência de lidar com ela num esquema a dois. Mas aquele Natal foi diferente. Ela não queria ver ninguém, ele queria ver os pais. Ela se chateou com o presente que ganhou dele, um vestido um número menor do que ela usava, e ele argumentou de maneira ríspida. Não houve ceia de Natal e dormiram brigados.

Mais um ano. Ele recebeu uma proposta de emprego em outra cidade e ela não aceitou se mudar, ali estava perto da família, não queria se sentir só. Você não está só, ele disse, mas às vezes quero ter uma segunda casa para onde eu possa ir de vez em quando, ela rebateu. Ele não insistiu e recusou o trabalho. Tentaram se acertar, voltar a ser o casal que ia ao zoológico, mas nunca mais foram ao zoológico e ela deixou pra lá as girafas. De presente de Natal, ele deu a ela um anel, o anel que ela namorava sempre que ia ao shopping. Aquilo fez a diferença. Ela não havia comprado nada e chorou por isso, deveria ter se esforçado. Ele disse que não havia problemas desde que os dois continuassem bem e então o ano seguinte começou muito bom.

Viajaram nas férias de janeiro e ela se sentiu cheia de amor outra vez. Experimentaram comidas novas, acamparam ao ar livre em uma cidade desconhecida e perderam um voo na volta. Foi muito divertido. Ela se sentiu agradecida por estar casada com ele. Foi um ano esplêndido. No Natal, ela lhe deu uma coleção de discos do seu artista preferido. Uma coleção rara, autografada, que ela havia arrematado em um leilão numa madrugada qualquer. Os olhos dele brilharam. 

Mudaram-se para uma casa nova no primeiro dia do ano seguinte e ela manifestou o desejo de ser mãe, está na hora, está na hora, concordaram. Um ano que começou agradável, mas foi amargando com o passar dos meses. Ela não conseguia engravidar, ele não conseguia entender, os dois juntos procuravam respostas mas tudo que encontravam eram conflitos, autocobrança e desentendimentos que não levavam a lugar nenhum. A obrigação sufocou a esperança. A casa, antes atraente por ser espaçosa e bem iluminada, agora parecia grande demais e desesperadamente oca e obscura. Os cômodos eram tão distantes um do outro que passavam dias sem sequer se esbarrar. Em dezembro, ela recebeu uma carta anônima de uma aluna que confessava ter um caso com ele. Ele negou, a garota queria se vingar pela reprovação na matéria. Era uma justificativa plausível, mas ela também não acreditava totalmente na inocência do marido. Nunca soube se foi verdade ou não porque não resolveram esse impasse. Ela passou o Natal na casa da mãe, sozinha. Quando voltou, encontrou um presente que nunca chegou a abrir.

O ano mais difícil e silencioso de suas vidas chegou. Não havia um casal, não havia uma família, havia duas pessoas dividindo as contas de casas. O plano de um bebê ficou para depois, talvez nunca mais, os planos de qualquer coisa se dissolveram como um recado na geladeira que vai perdendo a cor com o passar do tempo. Ele se aproximava, ela recuava, ela se arrependia do recuo, ele ignorava, ele se arrependia do orgulho, ela relembrava. Um cabo de guerra onde as mãos de ambos sangravam e nenhum deles se deixava vencer. Não havia vitórias, era um jogo perdido. Na noite de Natal, sozinhos sentados na sala escura, ele serviu uma taça de vinho e ela abriu um livro de poemas. Você não gosta de poemas. Isso foi há dez anos, agora eu gosto. Você gostava de mim. Agora eu já não sei.

Em março do ano seguinte, venderam a casa, os móveis e o carro. Ela voltou para a casa da mãe, ele alugou um apartamento de dois quartos perto do trabalho. Não se falaram por seis meses. Em outubro, ele a encontrou por acaso no shopping. Ela fitava a mesma vitrine dos anéis, mas ele pôde ver que ela usava aquele que ganhara dele. Você sempre gostou dessa loja, disse ele, chegando mais perto. E nunca pudemos comprar nada daqui, ela observou, reconhecendo que aquela jóia em seu dedo foi um gesto especial. Minha mãe perguntou por você, ela comentou, e ele prometeu ir até lá. Ele foi, algumas semanas depois, e a mesma guirlanda grande demais estava na porta. Ela o convidou para a ceia, ele aceitou. No dia seguinte ao Natal, ele a levou ao zoológico.

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