Contos

Todos os dias bons

Minha irmã Ellen sempre foi muito organizada. Quando criança, eu não me preocupava em memorizar o dia da aula de Geografia porque ela colava um papel sulfite na porta da geladeira com todos os nossos afazeres. Segunda-feira, aula de inglês, quinta-feira, uniforme de Educação Física, sábado, catequese. Sempre foi um prazer pessoal dela se dedicar a deixar tudo em ordem. Liguei para Ellen na sexta-feira e perguntei se gostaria de jantar comigo no restaurante novo do bairro, um mexicano com luzes coloridas e música sertaneja.  – Hoje é dia do futebol do Érico, ele gosta que eu vá. – Nenhuma esposa vai assistir a essas coisas, não é o dia dele encontrar os amigos e fazer esses programas chatos de homens? – Mas ele gosta que eu vá, ele diz que eu dou sorte. – Por favor, tire um fim de semana para ver a sua irmã mais velha, faz tanto tempo que não batemos um papo. – Amanhã, pode ser? O Érico pode ir? Se bem que ele odeia comida apimentada, mas se pudermos ir em outro lugar… – Ellen, que tal deixar o Érico um diazinho sozinho em casa? Ele não vai morrer. Problema dele se ele não gosta de comida apimentada, é um bar mexicano que toca sertanejo, nada a ver com México, deve ser divertido. Ellen deu uma risada do outro lado do telefone. – Tá bom, tá bom. É que nós ainda estamos.. – Em lua de mel, eu sei. Ô lua de mel demorada, eu só quero ver a minha irmã – falei e ela riu mais uma vez, deixando o nosso jantar combinado. Ellen e Érico se conheceram na faculdade. Ele estudava Biologia e se interessava por botânica, ela fazia Matemática e se interessava por aritmética. Um dia, voltando para casa, o pneu do nosso carro furou e ele nos ofereceu ajuda. Usava uns óculos quadrados, estava ligeiramente acima do peso e era um sujeito extremamente simpático. Por algumas semanas, os dois se esbarraram nos corredores e trocaram sorrisinhos, ele a convidou para ir ao cinema, ela se apaixonou antes que o filme terminasse.  Leia também Fique na floresta – Como você está? – escolhemos uma mesa não muito perto da dupla sertaneja para evitar o som alto, mas também não muito longe para não desperdiçar o couvert. – Estou bem, animada com o novo emprego. – Achei que não gostasse de dar aulas para adolescentes – eu disse, bebericando minha caneca de cerveja. – O Érico tem mais paciência do que eu, é verdade, mas acho que posso me sair bem.  – O que tanto incomoda você? – Nos adolescentes? Eles estão sempre desesperados para chegar na vida adulta. Ficam conversando sobre coisas que não podem fazer, sobre a independência que não tem, sobre a pressão dos pais… tudo isso é nada quando comparado à vida adulta – subitamente, os olhos dela ficaram opacos e distantes, mas em um segundo recuperaram o brilho, ainda que fosse um brilho meio artificial – Mas o Érico me disse que se eu não der corda a irritação será menor. Eu abaixei o olhar e fiquei em silêncio, tentando deixar a voz dos cantores preencherem o espaço entre mim e minha irmã. – Sabia que ele vai iniciar uma pesquisa nova agora? – ela se expressou com bastante empolgação. – Quem? – perguntei, desinteressada. – O Érico, boba! Finalmente, ele conseguiu aquela bolsa científica que ele tanto queria. É uma pesquisa importante, o nome dele vai sair naquelas revistas que gente inteligente lê.  – O que acha de viajarmos? Só nós duas – a garçonete deixou dois pratos de nachos no meio da nossa mesa. – Vão querer algo para sobremesa? – a garçonete perguntou – Posso ir adiantando o pedido. – Acho que uma torta de limão – sempre foi a nossa sobremesa preferida, de todos os domingos na casa da vovó.   – Eu odeio torta de limão – Ellen enrijeceu os ombros e eu me desculpei instantaneamente, dispensando a garçonete. Ellen mastigou o nacho com o semblante nervoso e eu toquei a mão esquerda dela devagar, com cautela. – O que acha da Itália? Você sempre quis conhecer a Itália. Eu deixo você fazer o roteiro que quiser. – Acabei de me casar, não tenho dinheiro para ir até a Itália – ela respondeu com a voz seca. – Deixe comigo, eu consigo o dinheiro e você organiza tudo, metodicamente, como sempre fez. Prometo que não vou reclamar de nada – tentei parecer animada, mas por dentro ainda me sentia culpada pela torta de limão. Eu havia esquecido completamente. – Preciso ver com o Érico – ela relaxou um pouco e eu mordi os lábios, soltando o ar devagar. – Tá, tudo bem.  – Podemos ir? – certa vez, uma garota espalhou pela escola que Ellen fedia a estrume, por conta do nosso pai, que trabalhava em uma fazenda nos arredores da cidade. Um dia, ela saiu correndo da aula, me procurou e disse “Podemos ir?”, com o semblante choroso e as mãozinhas tremendo. Eu fui até lá e dei um soco na garota. Ellen fez aquela mesma cara agora e eu gostaria de dar um soco em Érico, mas eu não podia e nem era culpa dele. Durante o caminho, tentei conversar sobre amenidades, mas Ellen, monossilábica, olhava as ruas com o olhar vago e ansioso, como se quisesse chegar logo em casa. Antes de ela descer do carro, inventei uma desculpa. – Seria muito folgado da minha parte pedir aquele seu vestido emprestado de novo? – Não, eu pego num instante – ela não me convidou para entrar. – Ellen! Posso usar seu banheiro enquanto você acha o vestido? – Pode sim – ela respondeu, depois de hesitar por um instante. Ellen não convidava ninguém para entrar em casa, nem mesmo eu ou nossos pais. Tudo continuava exatamente igual como naquele dia, o par de tênis na soleira da porta, a camisa de time de futebol no braço do sofá, as …

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[ Conto ] Um dezembro a mais

Naquele ano, ele apareceu na porta da casa dela com um buquê de oito gérberas e um livro de poemas. Na porta da casa havia uma guirlanda grande e desproporcional, ele observou, enquanto ela não atendia à campainha. Ele estava nervoso, namoravam há exato um mês e era Natal. Ele também levou um vinho para os pais dela, um vinho caro comprado com as economias de seis meses. Ela recebeu todos os presentes com o entusiasmo característico de quem está apaixonada. Era alérgica a gérberas, não gostava de poema e nenhum dos pais consumia bebida alcoólica, mas mesmo assim foi uma noite muito especial, ela o amava. No ano seguinte, viajaram para outro estado, onde os pais dele moravam. Ela comprou a camisa nova do time dele e ele usaria aquela roupa mais vezes do que ela gostaria. Ele deu a ela um dia em um spa chique da cidade. Acertou em cheio.  Naquele segundo ano de relacionamento, apaixonaram-se ainda mais, embora ambos fossem adeptos da teoria de que o primeiro ano era o mais bonito e intenso. Não foi. O primeiro ano foi corrido. Ela concluindo a faculdade, ele escrevendo a tese do mestrado. Entre uma linha e outra se falavam pelo telefone, saiam para caminhar na praia e visitavam o zoológico porque ela adorava girafas. No terceiro ano, ela foi pedida em casamento e dentro da caixa de alianças havia um tecido estampado de girafas. Foi tão engraçado, ela achou que ele não poderia ter sido mais inusitado, e foi no meio daquele risada, com o garçom procurando o melhor ângulo para registrar o momento, que ela se deu conta de que passaria a vida com aquele homem. Aquele homem bonito, engraçado e de muito bom gosto. Era antevéspera de Natal e o restaurante estava decorado com luzes delicadas e aconchegantes. Ela pensou que no ano seguinte gostaria de ter em casa uma decoração como aquela – a casa que também seria dele. Um ano se passou e eles foram juntos comprar os enfeites de Natal. Ela deu sorte, encontrou as luzes como queria. A cerimônia de casamento havia sido há dois meses e fizeram questão de receber a família para a ceia na casa nova. Como era bom vê-lo caminhar apressado pra lá e pra cá tentando deixar tudo pronto para o jantar. Ela se sentia em paz. Contudo, antes do primeiro aniversário de casamento descobriram que a teoria dos melhores dias não se aplicava muito bem quando a convivência era diária. Depois das semanas douradas, aqueles dias após lua de mel, depararam-se com as pequenas incongruências do dia a dia. Os defeitos alargados, as manias irritantes, os esquecimentos, às vezes a ponta de um desleixo surgindo aqui e ali. Nada que pudesse abalar o amor, apenas a vida acontecendo e a pouca experiência de lidar com ela num esquema a dois. Mas aquele Natal foi diferente. Ela não queria ver ninguém, ele queria ver os pais. Ela se chateou com o presente que ganhou dele, um vestido um número menor do que ela usava, e ele argumentou de maneira ríspida. Não houve ceia de Natal e dormiram brigados. Mais um ano. Ele recebeu uma proposta de emprego em outra cidade e ela não aceitou se mudar, ali estava perto da família, não queria se sentir só. Você não está só, ele disse, mas às vezes quero ter uma segunda casa para onde eu possa ir de vez em quando, ela rebateu. Ele não insistiu e recusou o trabalho. Tentaram se acertar, voltar a ser o casal que ia ao zoológico, mas nunca mais foram ao zoológico e ela deixou pra lá as girafas. De presente de Natal, ele deu a ela um anel, o anel que ela namorava sempre que ia ao shopping. Aquilo fez a diferença. Ela não havia comprado nada e chorou por isso, deveria ter se esforçado. Ele disse que não havia problemas desde que os dois continuassem bem e então o ano seguinte começou muito bom. Viajaram nas férias de janeiro e ela se sentiu cheia de amor outra vez. Experimentaram comidas novas, acamparam ao ar livre em uma cidade desconhecida e perderam um voo na volta. Foi muito divertido. Ela se sentiu agradecida por estar casada com ele. Foi um ano esplêndido. No Natal, ela lhe deu uma coleção de discos do seu artista preferido. Uma coleção rara, autografada, que ela havia arrematado em um leilão numa madrugada qualquer. Os olhos dele brilharam.  Mudaram-se para uma casa nova no primeiro dia do ano seguinte e ela manifestou o desejo de ser mãe, está na hora, está na hora, concordaram. Um ano que começou agradável, mas foi amargando com o passar dos meses. Ela não conseguia engravidar, ele não conseguia entender, os dois juntos procuravam respostas mas tudo que encontravam eram conflitos, autocobrança e desentendimentos que não levavam a lugar nenhum. A obrigação sufocou a esperança. A casa, antes atraente por ser espaçosa e bem iluminada, agora parecia grande demais e desesperadamente oca e obscura. Os cômodos eram tão distantes um do outro que passavam dias sem sequer se esbarrar. Em dezembro, ela recebeu uma carta anônima de uma aluna que confessava ter um caso com ele. Ele negou, a garota queria se vingar pela reprovação na matéria. Era uma justificativa plausível, mas ela também não acreditava totalmente na inocência do marido. Nunca soube se foi verdade ou não porque não resolveram esse impasse. Ela passou o Natal na casa da mãe, sozinha. Quando voltou, encontrou um presente que nunca chegou a abrir. O ano mais difícil e silencioso de suas vidas chegou. Não havia um casal, não havia uma família, havia duas pessoas dividindo as contas de casas. O plano de um bebê ficou para depois, talvez nunca mais, os planos de qualquer coisa se dissolveram como um recado na geladeira que vai perdendo a cor com o passar do tempo. Ele se aproximava, ela recuava, ela se arrependia do recuo, ele ignorava, ele se arrependia do orgulho, ela relembrava. …

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[ Conto ] Arquivo

O pacote chegou em uma sexta-feira. Quando ele entrou em casa, lá estava uma caixa pequena, do tamanho de um celular, em cima do aparador. – O que é? – ela perguntou. – Um brinquedo novo. – Outro jogo? – ela deixou transparecer uma ligeira irritação. – Mais ou menos – e ele estava ansioso demais para se importar com a reação dela. Edgar sentou-se no sofá enquanto abria o volume. Dentro havia um par de fones de ouvido e uma pulseira digital, ambos na cor branca. Ele leu ligeiramente as instruções, pôs a pulseira no pulso, os fones no ouvido, e ouviu uma voz suave e feminina: Seja bem-vindo ao Salt. A mulher fez uma pausa enquanto algo no sistema iniciava. Escolha um lugar confortável e selecione uma data no seu relógio. Edgar ainda não havia decidido qual seria a sua primeira visita, queria que fosse algo especial, marcante, e tentou se lembrar de algo bom.  13 de abril de 2003 Ele deslizou os dedos sobre a tela digital da pulseira e a voz da mulher soou novamente, agora mais animada, como se fosse uma guia turística conduzindo-o a um museu. Você será levado ao dia 13 de abril de 2003 e toda a sua vida nesta data passará diante dos seus olhos. Você verá as mesmas cenas, sentirá os mesmos cheiros, ouvirá os mesmos sons e dirá as mesmas palavras. Nada pode ser mudado, apenas contemplado. Para avançar, movimente a palma da mão para a direita, para retroceder, movimente a palma da mão para esquerda. Você pode fazer isso quantas vezes quiser. Para sair, abra e feche a mão duas vezes. Para ouvir as instruções novamente, clique no botão laranja, se você entendeu tudo, clique no botão verde. Edgar clicou no botão verde e se ajeitou no sofá. Ouviu um som novo, uma espécie de onda tranquilizante e logo tudo ficou escuro, clareando lentamente em seguida, como se ele estivesse acordando de um sono profundo. Estava de volta na casa dos pais. Reconheceu o antigo quarto, com suas paredes azuis e pôsteres, seu velho computador de mesa e camisas de bandas penduradas na poltrona. Era o dia da sua entrevista de emprego e ele mal havia dormido de tanta expectativa. Ficou de pé, entrou no banho e logo se lembrou de que nada de extraordinário aconteceu até ele sair de casa. Assim, avançou as cenas até estar em frente ao prédio por onde passou tantas vezes, ansiando pelo dia em que entraria lá como funcionário, e, um dia, quem sabe, como ocupante de um cargo importante. Avançou mais uma vez até o momento em que a chefe do Recursos Humanos lhe parabenizou pela conquista da vaga e apertou sua mão com confiança. Ele podia sentir com absoluta fidelidade o mesmo furor no peito, a mesma alegria, a mesma sensação de vitória. Como fazia tempo que não sentia aquilo, como era bom se sentir capaz outra vez. Revivendo aquele momento em todos os detalhes, retrocedeu a lembrança e reviu tudo de novo. E de novo, e de novo. Até sentir uma mão pesada sacudindo seu ombro. Leia também Fique na Floresta – As crianças estão prontas, estou gritando há horas – a voz estridente dela invadiu os ouvidos de Edgar assim que ele tirou os fones. Ele havia esquecido que prometeu levar os filhos para a casa da avó e ir ao cinema com a esposa. Arrependido do compromisso, chamou-a no canto da sala e cochichou: – Será mesmo que temos dinheiro para ir ao cinema? Ela o fitou com o semblante sério e frustrado, e só então ele se deu conta de que ela já estava arrumada, com um vestido cor de vinho e sapatos altos. – Edgar, tome um banho e vá se arrumar. Deixaremos as crianças com a minha mãe e vamos ao cinema. – Claro.  No cinema, Edgar não conseguiu dar atenção ao filme, ocupado em selecionar mentalmente quais datas visitaria ao chegar em casa e resgatando na memória os momentos de excitação que valiam a pena ser vividos novamente. Já de volta, esperou a esposa dormir e voltou para o sofá. Descobriu que no Salt também era possível fazer uma pesquisa digitando o nome de alguém na tela da pulseira.  Mariana. A primeira década de Edgar no emprego dos sonhos foi fascinante. Sucessivas promoções, prestígio, admiração dos colegas e uma posição de respeito dentro da hierarquia. Naquela época, envolveu-se com uma de suas estagiárias. Uma moça ruiva, de sorriso aberto e um ar universitário e juvenil irresistível. Ele propôs deixar sua esposa, na época noiva, por ela. Ele ofereceu o mundo inteiro e ela aceitou. Um ano de relacionamento às escondidas, em moteis caros, jantares discretos, viagens curtas, e uma vontade insana de jogar tudo para o alto e apresentá-la como sua futura mulher. Foi nisso que ele pensou ao digitar o nome dela. Reviveria cada dia daquele ano, exceto o último, quando procurou sua esposa para uma conversa e ela anunciou que estava grávida antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.  Mariana foi embora, magoada, triste, alimentando um ódio visceral do amante, e ele ficou com a vida que deveria ficar. Mas se o Salt pudesse descobrir onde ela estava agora, no presente, se ele pudesse discar o número dela, ele ligaria mais uma vez, nem que fosse para ouvir sua voz por alguns segundos. De uma forma ou de outra, foi com ela que ele passou aquela e tantas outras noites. Deitado no sofá, digitando as sete letras do nome dela, negando dormir com a esposa enquanto relembrava, com a tecnologia do Salt, os dias com Mariana. Nada pode ser mudado, apenas contemplado. De contemplação em contemplação, Edgar esqueceu a demissão ocorrida há alguns meses e continuou revisitando os dias em que outrora foi aplaudido. Passava horas de pijama no sofá, com os fones de ouvido e os olhos fechados, a expressão sempre tranquila e feliz. Ali dentro, só coisas boas estavam acontecendo.  No meio do dia, procurava por Mariana. À …

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[Conto] O cliente da mesa cinco

A gerente entrou na cozinha e imediatamente todos adquiriram uma posição de prontidão. Ela olhou o grupo de dez pessoas, um por um, e eles se entreolharam entre si, ansiosos. – Por favor, eu não, eu não, eu não – Valmir disse, baixinho, enquanto prendia o avental ao corpo. – Valmir e Brenda, a mesa cinco hoje é com vocês – e saiu. No fundo do grupo, Valmir bufou e fez uma careta enquanto o restante dos garçons se espalhava pela cozinha.  – Isso é culpa sua, você me dá azar – ele disse à Brenda, que achou graça. – Pense pelo lado positivo, mesa grande é igual à gorjeta maior. – Vai sonhando. Eu aposto que vai chegar um grupo de adolescentes barulhentos que não sabem o que pedir e, quando finalmente escolhem, em cinco minutos pedem para cancelar o pedido e mudam tudo. “Eu vou querer uma costela com fritas / Julinha, você voltou a comer carne? / Ai, me esqueci, sou vegana! Ei, garçom, eu quero uma salada, mas tire o frango, o queijo, o molho, o sal, o azeite e o talo das alfaces” – ele imitou a voz de duas jovens – E a gente tem que ficar lá, fingindo que gosta deles e que atura eles, e no final recebe a pior gorjeta da noite.  Leia também Petrúcio da Casa Azul Brenda soltou uma gargalhada alta.  – Pois eu aposto que serão trinta senhorinhas simpáticas, gentis e de mão aberta. – Trinta?! – ele arregalou os olhos – Achei que fosse uma mesa para dez, no máximo. Brenda cruzou os braços e balançou a cabeça em negativo. – Acho que o anfitrião chegou – Valmir e Brenda se aproximaram da porta da cozinha e através do vidro redondo espiaram a mesa comprida no canto do salão onde um homem de mais ou menos trinta anos ajeitava a gola da camisa, empolgado. – Eu vou – Valmir saiu em direção ao homem e Brenda permaneceu no lugar. – Ele pediu um chopp, mas não quer comer nada ainda, vai esperar os amigos chegarem.  – Ele é todo bonitão, deve ter uma namorada. É aniversário dele? Trouxe bolo? – Parece que sim, mas sem bolo. Quem tem trinta amigos nessa idade? – Valmir pegou uma caneca grande e limpou com um pano úmido. – Acho que eu tenho – ela parou para pensar enquanto conferia nos dedos – as amigas de baile, de trabalho, do curso… se não dá trinta, chega perto. Vinte minutos depois de servir o cliente, Valmir e Brenda continuavam espreitando pelo vidro, confabulando teorias sobre a vida do homem. – Ele tem cara de advogado – ela disse. – É melhor você ir até lá e conferir se ele quer outro chopp.  Brenda voltou com uma resposta em afirmativo e olhou o relógio. – Eles estão bem atrasados. – Aposto que estão dando as desculpas mais cretinas para não vir. Olha lá, ele não para de olhar o celular e responder mensagem. – Isso é tão triste, não vir ninguém no seu aniversário. – Não se você for um cretino também. – Não acho que seja o caso. Brenda saiu para servir a bebida e Valmir observou o homem sendo gentil com ela. Ele puxou um assunto com a garçonete e os dois conversaram por alguns minutos. – E então? – Valmir mal esperou Brenda entrar de volta na cozinha e a interpelou, curioso. – Eu não disse que ele era advogado? Chamou todo mundo do escritório, até os estagiários. Uma porção de arancini! – ela gritou em direção aos cozinheiros enquanto prendia um papel na bancada. – E onde eles estão? O coitado já está esperando há quase quarenta minutos. Brenda levantou os ombros. – Sabe no que estou pensando? Pior do que atender a uma mesa de trinta pessoas impacientes, é passar a noite inteira atendendo a uma pessoa só – Valmir deixou transparecer a sua frustração. – Sem grandes gorjetas hoje, meu amigo – ela fez uma pausa e esticou o pescoço – Mas estou começando a ficar com pena dele. Será que ninguém vem? Ao passar uma hora que o cliente esperava seus convidados, a gerente entrou na cozinha e procurou Valmir e Brenda. – Vão até lá e peçam uma daquelas mesas. O salão está cheio, tem uma fila imensa lá fora e este cara está segurando cinco das minhas mesas. Vão. Os dois garçons se entreolharam e Valmir se adiantou para cumprir a ordem da gerente. Pela porta entreaberta, Brenda viu o homem assentir com um semblante já menos empolgado e Valmir afastar uma das mesas, deixando o cliente na ponta, olhando para um estirão menos comprido, mas ainda vazio. – Alguém ainda vem? – Brenda quis saber assim que o colega voltou do salão. – Ele espera que sim. Entre idas e vindas à mesa do cliente, ora para saber se ele estava bem e confortável, ora para oferecer o prato principal da casa, ora para levar mais uma bebida, Valmir e Brenda acompanharam o tempo passar e o homem permanecer sozinho. Conferia o celular, recebia uma ligação, ouvia uma mensagem em áudio, tudo indicava que todos os seus convidados desmarcaram o convite. Outros clientes entravam e saíam, mas ninguém se dirigia até lá para sentar com ele e dar-lhe um feliz aniversário. – Estou tão triste. Por que será que ninguém veio? – Brenda lamentou. – Vai saber. Está cheio de filho da puta no mundo.  – O que você faria no lugar dele? Acho que eu já teria ido ao banheiro chorar. – Ele já foi ao banheiro, mas não dá pra saber se chorou.  – O que você faria?  – Levantaria e iria para casa. Ele deveria ter comprado um bolo, pelo menos teria um doce para comer. – Talvez estivesse esperando que algum amigo trouxesse. A gerente entrou de supetão e deu de cara com os dois encostados na bancada. – Por que vocês dois estão aí parados?? O cliente …

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[Conto] Em outra vida, quando formos gatos

Às sete horas da manhã eu já deveria estar pronto para sair. Normalmente, Tobias me acorda antes disso, mas não dá para culpá-lo agora. “Tobias! Cadê você, seu gato sem vergonha?” – chamo por ele enquanto calço as meias e os sapatos – “Não está com fome, hein? Será que você morreu?” – fiz piada e imediatamente me assustei ao pensar no meu gato morto. Ligeiramente frustrado pela ideia de tomar café na padaria em frente ao trabalho – a padaria com seus ovos mexidos cheios de gordura e o pão dormido -, saí em direção à cozinha na esperança de encontrar uma fruta perdida na geladeira e qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma tigela cheia de leite e cinco ou seis biscoitos de água e sal boiando dentro. Além de não gostar de leite, eu não sabia que havia biscoitos de água e sal no meu armário. Eu também não sabia como aquele café da manhã – era um café da manhã, não era? – tinha parado ali se eu moro sozinho. Meu relógio emitia um bip de meia em meia hora e às sete e meia eu já sabia que meu chefe não sairia do escritório até ter certeza que eu compensaria aquela hora de atraso ficando até mais tarde. Disposto a pensar sobre o mistério da tigela depois, apanhei as chaves de casa e saí. No metrô, pensei em algumas possibilidades: aquele drink com a Teresa pode ter ido além do necessário e nós passamos em uma conveniência e compramos leite e biscoitos. Eu me lembrava do seu “melhor não” ao ser convidada para entrar, mas não me lembrava da conveniência. Antes de elaborar outro cenário plausível, dei-me conta de que não havia encontrado Tobias e muito menos deixei ração e água para o pobre coitado. Tudo errado para uma segunda-feira. A conversa de duas senhoras atrás de mim me distraiu. “Está uma confusão dos diabos lá na casa do patrão. Ela não quer mais voltar para casa, disse que não confia mais nele e ele insiste que foi um caso de uma noite. Mas se fosse a primeira! Dona Lily não aguenta mais tantas mentiras”. “Quem me dera se Bartolomeu tivesse uma companheira. Ele só fica enfurnado naquele quarto. Outro dia, dei de cara com uma saindo do apartamento. Ela era bonita demais, com o pêlo tão macio e limpo… Pena que nunca mais a vi. Ele é muito exigente para um bichano vira-lata qualquer”. Desisti de entender o diálogo antes que fizesse algum sentido para mim. Uma dor de cabeça começou a surgir e eu vi que o dia seria longo. Amélia, a secretária com a língua mais comprida do escritório, esboçou um sorrisinho debochado assim que me viu saindo do elevador. “Você está em maus lençóis, querido”, ela disse, mordendo a tampa da caneta. “Bom dia, Amélia. Seria ótimo se você não me dirigisse a palavra hoje”. “Vai logo na sala dele, nem respira”. A sala do chefe ficava em frente à minha, mas a dele tinha uma porta grossa de madeira e a minha apenas um umbral. Tudo o que eu queria era tomar uma xícara de café na minha mesa enquanto o computador levaria dez minutos para ligar, mas bati na porta do chefe e esperei qualquer coisa acontecer. “Pode entrar”, uma voz arranhada saiu lá de dentro. “Perdão pelo atraso, eu…” “Tenho impressão de que em 45 minutos do seu atraso eu já fiz mais do que você faria o dia inteiro”, a cadeira estava de costas para mim e quando ela girou na minha direção, o meu gato, Tobias, estava sentado nela, com uma expressão não muito amigável. “Às vezes, me pergunto se você quer mesmo esse emprego”, ele uniu as duas patinhas em cima da mesa de vidro e continuou a falar. Ele vestia um terno e falava, o meu gato. “Amélia!”, eu gritei, sem tirar os olhos dele. “Amélia!”. Ouvi o barulho do salto fino vindo pelo corredor. Ela me olhou, olhou para o meu gato, e ficou lá parada, como se nada estivesse acontecendo. “Ele fala”, eu sussurrei, trêmulo. “Querido…”, ela continuou confusa. “Sr. Tobias, preciso lembrá-lo que às nove horas o senhor tem uma videoconferência com…”, ela passou o dedo pela tela do tablet que carregava nas mãos e Tobias revirou os olhos. Juro que vi o meu gato revirar os olhos. “Com Thor e Frajola, eu sei. Se vocês fizessem seus trabalhos, eu poderia fazer o meu. Para quê ter uma secretária ?”, resmungou. “Vem!”, ela me puxou e fechou a porta com o devido cuidado. Eu continuei boquiaberto e atônito. “Preciso tomar um ar”, eu saí de supetão pela porta da frente e apertei o botão do elevador cinco vezes seguidas. Ao abrir, dei de cara com dois humanos e três gatos, todos eles sobre duas patas, alguns com uma malas pretas e uma gata de salto alto usando uma roupa formal cor de rosa e uma fivela brilhante ao lado da orelha. A única expressão nos humanos era de irritação, por eu ter chamado o elevador e não entrado. A gata de roupa cor de rosa fixou os olhos em mim e apertou um botão qualquer. Ela me olhou com desprezo enquanto a porta fechava. Sem saber se havia ficado maluco de vez, desci pelas escadas e fui embora. Na rua, notei que muitos veículos levavam gatos no banco do passageiro e que muitos outros felinos dirigiam, sempre um carro bonito e de luxo. E que eles falavam ao telefone, comiam com talheres, davam ordens a garçons e estampavam outdoors pela cidade.  O único lugar seguro era minha casa, mas quando voltei à ela, a tigela com leite e biscoito me lembrou de aquele foi o primeiro sinal de que o dia estava desequilibrado. Cheguei mais perto e vi um papel dobrado embaixo da louça. “Não é porque você mora comigo que pode se atrasar para o trabalho. Coma esse café que preparei e chegue o mais rápido …

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[Conto] Acendedora de Lampiões

Uma vez minha avó me disse: “Se não procurar acordar pra vida, tu vai viver de acender lampião pros outros”. Ela viu numa novela e achou curioso uma pessoa cuja função era sair de poste em poste iluminando a rua. Achou um pouco triste também. Disse-me isso quando eu tinha lá meus dezesseis anos e voltei da rua entrando sorrateira pela porta da cozinha.  “Cadê tua irmã, hein?”, mamãe perguntou, pegando-me desprevenida.  “Sei não”, menti. “Não sabe ou não quer dizer?? Eu quero é saber de Marcinha se agarrando com o filho de Tonho. Vocês acham que eu não sei das coisas aqui dentro de casa. Sem vergonhice dessa” – berrou enquanto vinha pisando firme até a porta do quarto – “Cuida, manda ela procurar casa”. “Eu não sei onde ela tá não, oxe”. “Pois vai saber já, já. Se Marcinha não tiver aqui dentro de dez minutos vão ficar as duas de castigo”. Naquela época, minha sina era ser punida pelas traquinagens de Márcia, minha irmã caçula. Admirava-me a coragem que ela tinha em mentir para a nossa mãe, e, mesmo quando descoberta, não perder o fôlego em mentir de novo. Irritada, passei rápido pela minha avó na sala e ela me disse: “Se não procurar acordar pra vida, tu vai viver de acender lampião pros outros”. Quase não ouvi a frase direito, e o que ouvi, não entendi nada.  No começo da rua, havia uma construção abandonada de frente para um poste. Nem escuro o bastante para dar medo, nem claro o suficiente para deixar na vista quem ficava lá dentro. O lugar tinha normas próprias de uso e os adolescentes do bairro se revezavam para alimentar seus namoricos proibidos.  Márcia me disse: “Fica aí na porta me esperando, demoro não. Se tu chegar sozinha em casa, mamãe vai saber”. Nunca eram encontros breves e eu ficava embaixo daquele poste observando as mariposas rodopiando sobre a minha cabeça. Naquele dia, caiu um chuvisco e qualquer pingo de chuva o resfriado era certo, por isso fui para casa. Ainda caía uma garoa fina quando eu voltei e, de frente para os muros quebrados daquela construção velha, gritei: “Ei, Marcinha! Mamãe tá chamando”. Ela veio de lá segurando a mão dele. “Eu te disse pra ficar aí. Mamãe vai brigar demais”. “Tá chovendo!”, protestei. “E aí, Paula?”. Dava para perceber o cabelo úmido dele. Achei bonito. Marcelo foi da minha turma na escola e quando apareceu com o cabelo cortado tudo mudou – as meninas se deram conta de que o nariz grande era um charme e não um defeito. Particularmente, sempre gostei mais do cabelo comprido, mas nunca tive coragem de dizer. Um dia ele apareceu na minha casa para pegar um livro emprestado e perguntou se Marcinha estava por ali. Tudo mudou. Leia também Depois do Horizonte Não Dói Minha mãe deu um sermão de meia hora em nós duas, mas Márcia estava apaixonada demais para se importar. Eles se casaram depois do colégio e hoje são donos de um supermercado construído lá em frente àquele poste. Uma vez eu disse a ele que poderia deixar o cabelo crescer de novo e imediatamente me arrependi da ousadia. Vovó sabia. Vovó morreu sabendo. Morei fora da cidade durante cinco anos e estava pronta para assumir a gerência de qualquer departamento financeiro que me desse a oportunidade. Durante uma visita em casa, recebi a ligação de uma colega de faculdade. “Eu tenho umas ideias, mas você sempre foi a melhor, Paula. Vamos montar um negócio bom e apresentar”. Ela falava sobre uma vaga de analista que havia surgido em um banco. Duas semanas de trabalho intenso, um projeto impecável e muita expectativa. Um dia antes, ela ligou chorando. O marido havia ido embora, estava com outra. Dois filhos e um apartamento para pagar sozinha. “Apresenta você, no seu nome. A vaga é sua”, e eu voltei para passar mais uns dias em casa. Nesse tempo, minha avó ainda espalhava sua sabedoria para quem quisesse ouvir. Botou uma xícara de café com leite pra mim e me deu um beijo na cabeça. Edson me chamou para sair depois de duas semanas esbarrando comigo diariamente no elevador do trabalho. Ele ficava no andar de baixo, onde havia uma gráfica. Sempre vestido em tons de azul, quando a porta se abria ele olhava para trás e dava um sorriso ligeiro, encarando-me. Nosso primeiro jantar foi em uma cantina italiana muito charmosa que eu nunca havia ouvido falar, mas descobri que era da família. Fui apresentada à minha futura sogra naquele mesmo dia, uma senhora alta, de voz grossa e firme. Noivos e já morando na mesma casa, Edson me pediu para adiar o casamento por mais seis meses. E eu, recebendo respostas evasivas, apertei o cerco e recebi como resposta que os negócios iam mal. “Não queria que você soubesse, estou me sentindo incompetente e com vergonha”. Disse a ele que nós seríamos marido e mulher e era inadmissível sofrer sem compartilhar comigo o motivo.  Havia um dinheiro. Dinheiro de uma vida toda. “Toma. Dá para recuperar a gráfica?”. E ele me abraçou apertado, chorando no meu pescoço.  Eu esperava Márcia na porta da loja quando disquei o número dela no celular. “Mas onde é que você está?” “Estou na sua casa”, sua voz saiu baixa, quase um sussurro. “Achou a revista? Eu deveria ter tirado uma foto. Traz logo senão vai durar o dia inteiro”. Eu queria um vestido igual ao da Luciana Gimenez. “Paulinha, vem pra cá, mas vem com calma, tá bom? Já chamei a mamãe”. Edson levou tudo, dos móveis à minha paz. O andar de baixo, onde ficava a gráfica, por vários meses esteve disponível para aluguel, e ele não deixou para trás um grampo sequer, exceto eu. Soube muito depois que seu filho mais velho é médico e que ele tem um casamento feliz e duradouro. Aquele dia, eu deveria ter dado meia volta, agachado-me ao lado da minha avó e ouvido com mais atenção. “O …

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[ Conto ] Depois do horizonte não dói

Quando a moeda caiu no mar estavam os dois dentro de uma canoa virada para o horizonte. Ele ainda tentou apanhá-la de volta, mas muito rapidamente o metal rodopiou entre as pequenas ondas e afundou.“Era a última”.“Tudo bem”.“Compro outra para você na volta”.“Não importa, é só uma moeda”.“Uma moeda personalizada”, ele tentou parecer animado. “Deveríamos ter guardado todas na mochila. Foram caindo uma por uma, que coisa”.“Precisamos voltar, vai anoitecer muito em breve”.“Temos tempo”.Ele fixou o olhar nela, mas ela se manteve olhando para longe. O balanço calmo das ondas fazia os dois subirem e descerem lentamente, quase flutuando.“Olhe para mim”.“Eu consigo olhar para o sol e não chorar, não posso dizer o mesmo se olhar para você “.“Estou com a consciência pesada”.“Tente não ficar ou afundaremos antes de voltar à praia”.Ele deixou escapar uma risada e enfim recebeu dela a atenção que queria.“Não é certo estarmos aqui”, ela disse.“Achei que você merecia um final feliz”.“É um final feliz?”.“É um final bonito e eu não tenho muito a oferecer além disso. Sei que acha injusto…”“Eu não acho nada injusto” – interrompeu – “Por que coisas boas haveriam de acontecer comigo? Olhe para lá” – ela apontou para a praia de onde partiram – “De todas aquelas pessoas, por que eu seria a escolhida?”“Porque você é uma pessoa boa e merece”.“Essa é a pior coisa que pode dizer a alguém, que ela merece alguma coisa. Você destrói a vida de qualquer um ao fazê-lo acreditar que sua recompensa irá chegar”.“Não seja tão cruel consigo mesma”.Dessa vez, ela deixou os olhos fixos nele até uma gota sair rolando pelo seu rosto. Depois outra, outra, e outra. Como se o mar a tivesse preenchido e transbordado.“Eu precisava dizer a você que passamos dias incríveis”.“E de que eles me valem agora?”“Se eu puder pedir algo, por favor, não me odeie”.“Seria mais fácil se tivesse me dado motivos para isso. Eu não tenho imaginação para criá-los e essa é a pior parte, não ter um motivo sequer para jogá-lo dessa canoa e vê-lo agonizar pedindo ajuda”.“Você pode riscar o meu carro, se quiser”.“Não há motivos”.“Pode clonar o meu cartão de crédito”.“Não tem por quê”.“Pode falar mal de mim para todos os seus amigos”.Ela levou as mãos ao rosto e começou a chorar de maneira desconsolada. Ele afagou o ombro dela e ela estremeceu.“Desculpe”.Ela não respondeu.“O quer que eu faça?”“Reme! O mais rápido que puder. Não pare de remar até não doer mais”.

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[ Conto ] Ruído Branco

― É a maior baboseira que ouvi nos últimos meses — Alan tomou um gole grande de refrigerante e sentiu o bolo de comida descer pela garganta — De tempos em tempos você me aparece com uma dessas. ― Escuta só, eu ainda nem terminei de falar — naquele dia o refeitório estava relativamente silencioso — Eu vi um anúncio online… ― Começa sempre assim. Com um anúncio online. Seu algoritmo deve ser uma porcaria. ― …é um programa imersivo de realidade paralela — Jonas não tinha parado de falar — Ele te leva aonde você quiser. ― Isso já existe. ― Não se trata apenas de realidade virtual. Eles proporcionam uma experiência muito mais completa, profunda, e, o melhor, prolongada no mundo virtual. Cada minuto aqui equivale a uma hora no Olympus. ― Olympus — Alan deu a última garfada no talharim — É esse o nome? ― Não importa. Importa que eu posso dormir com cinco mulheres e cada uma ser mais bonita que a outra. ― Por que não namora uma mulher de verdade? ― Eu posso ter quatorze carros de luxos. ― Você não se cansa? Eu juro que me canso de carros. ― Eu posso… você sabe. ― Uma terapia faria mais efeito — Alan passou o guardanapo rapidamente ao redor da boca enquanto se levantava da cadeira — Eu tenho tanta coisa para fazer que não acredito que estou gastando o meu tempo ouvindo você. ― Vamos dar uma passada lá no fim do dia. ― Não lembro a última vez que conseguimos uma folga na sexta à noite e você quer usá-la brincando de videogame. A Úrsula vai me matar. ― É coisa rápida. Vinte minutinhos. Já está agendado. ― E por que você quer que eu vá? ― Porque quando chegar lá você vai se impressionar com o lugar e vai querer experimentar também. ― Sem chance. Por curiosidade: quanto custa isso? ― Seis e quinhentos. Alan sentou de novo e arregalou os olhos. ― Quando começou a rasgar dinheiro? ― Vale a pena, cara, vai por mim. No fim do dia, o sol lançava uma luz alaranjada pela avenida movimentada. Entre os semáforos e prédios espelhados, motoristas buzinavam e pedestres apressados e cansados atravessavam na faixa branca antes que o sinal fechasse de novo. Subia um cheiro de fumaça misturado a um cheiro de fritura que Alan nunca sabia de onde vinha, mas que se parecia muito com churros. E a cidade sempre tinha aquele barulho insuportável. ― Olha isso, Jonas — ele parou no meio da calçada — Há quanto tempo você não vê o sol? Deixa esse negócio pra lá e vamos lá em casa. Eu estou tão cansado… Você não teve um dia de cão? Eu tive um dia de cão. A Úrsula aprendeu a cozinhar uns negócios gostosos que ela vai adorar fazer pra gente. Ela gosta de se exibir. ― Depois, depois. Vamos nos atrasar. Alan deixou os ombros caírem enquanto dava uma última olhada no horizonte. Os dois eram as mentes mais promissoras da empresa que criava softwares para automóveis. De estagiários com ideias ousadas a líderes prestigiados, os nomes Alan e Jonas eram referência no universo da tecnologia automotiva. Apesar de não serem os primeiros a alcançar sucesso tão jovens, eles gostavam de dizer, em particular, que suas carreiras tiveram a velocidade de uma Bugatti Chiron. Nada discreta, porém, era a fachada do prédio onde o Olympus estava instalado. A arquitetura moderna e futurista assustou Alan, que parou meio segundo, boquiaberto. ― Eu disse que você iria se impressionar — disse Jonas, empurrando a porta de vidro com certa satisfação na voz. O salão de entrada era um extenso espaço branco contornado por paredes curvas e um teto com lâmpadas que eram claras demais e pareciam ir revelando o caminho conforme os visitantes avançavam rumo à recepção. Do lado esquerdo, Alan viu alguns sofás odiosamente brancos e uma mesinha de centro que parecia um mouse deformado. Os dois foram atendidos por uma secretária elegante e sorridente que lhes deu dois crachás e os orientou sobre a próxima parada. Em seguida, entraram em um elevador e subiram para o décimo segundo andar. Jonas estava ansioso e Alan tenso. Assim que o elevador abriu, ouviu-se uma voz aveludada sair de algum lugar. Seja bem-vindo ao Olympus. Você chegou no Paraíso. Um homem de cabelos grisalhos os esperava no corredor. Ele se apresentou como Clóvis. ― Serei o guia de vocês nesta experiência. Por aqui, por favor — com uma voz baixa e empolgada, ele apontou para uma porta de vidro mais à frente. Até então, Alan observava tudo sem dizer uma palavra. Na sala seguinte, um aroma de alecrim deixava o ambiente mais aconchegante, mas não menos impessoal. Tudo ainda tinha a atmosfera de uma sala de cirurgia. ― Podem se sentar, por favor. Não vamos demorar — Clóvis abriu uma gaveta e retirou uma pasta prateada de dentro — Até aqui, o que vocês sabem sobre o Olympus? Jonas repetiu tudo o que tinha visto no tal anúncio. ― Perfeito — ele sorriu e uns fios de cabelo branco se mexeram — É muito simples, Jonas. Você será direcionado para aquela cabine e eu colocarei dois adesivos nas suas têmporas. É confortável e não incomoda, não se preocupe. Automaticamente, você se sentirá relaxado, como se estivesse pegando no sono. Então é só fechar os olhos e se divertir. ― Eu posso fazer qualquer coisa mesmo? — ele abriu um largo sorriso. ― O programa é direcionado conforme a imaginação do usuário. O seu corpo entra em uma espécie de transe e nada do que você faz no mundo virtual é refletido no mundo real. Para nós, será como se você estivesse tirando um cochilo. ― Tem certeza de que não quer participar? — ele se virou para Alan, mas Alan não se moveu. ― Não tem efeitos colaterais? — Alan perguntou a Clóvis. ― Nenhum. Como eu disse, é um cochilo. Um cochilo no Olimpo — ele esperou que um dos dois dissesse mais alguma coisa — Assine aqui, por favor, Jonas. A cabine era uma sala comum, revestida de telões com baixa luminosidade, onde no centro havia uma poltrona branca e confortável. ― Quando entrar na sua realidade, verá uns …

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[Conto] O sol se põe rápido demais

Combinaram de se encontrar às 16h:30, no último posto de gasolina antes da saída da cidade. Ele se arrependeu de ter vestido uma calça jeans branca assim que saiu do carro e os pés levantaram uma poeira fina que imediatamente grudou na barra da calça. Espanou o que deu, mas era inútil. Acenou com um leve movimento de cabeça para o único frentista, que sentado em uma cadeira branca de plástico aguardava o próximo cliente. Era um dia quente e ele já havia aberto dois botões da camisa do uniforme desde às onze da manhã. Com as mãos na cintura, andou devagar pra lá e pra cá ao redor da camionete. Chegar cedo talvez não tivesse sido uma boa ideia, mas ficar em casa lhe daria coragem para ir buscá-la, mas não seria uma coragem inteligente. Se, dali onde estava, ele repentinamente decidisse por tal insanidade, a distância o faria desistir no meio do caminho. Eles combinaram de esperar, então ele esperaria. Até a próxima cidade eram cerca de sessenta quilômetros de estrada mal pavimentada, empoeirada, e com as margens ocupadas por um matagal de onde poderia sair qualquer animal mal vigiado atravessando de um lado para o outro. E eles nunca atravessavam com pressa, era sempre um búfalo preguiçoso ou uma vaca que parava no meio da estrada para contemplar o horizonte. Certa vez, não houve tempo para desviar e ele avançou pelo acostamento e acabou destruindo a cerca da fazenda de onde o animal nunca deveria ter saído. “Você teve sorte de não ter batido em uma árvore”, ela disse enquanto fazia o curativo no nariz quebrado, “ainda mais sem cinto de segurança”. Parecia brava, como se ele fosse alguém sob sua responsabilidade. Ele a conheceu na mesma época que todo mundo, quando um novo pediatra foi contratado para o hospital e a esposa enfermeira ocupou uma vaga na emergência. Há dois anos a loja dele cuidava da manutenção dos ares-condicionados dali. “Eu já te vi por aqui, você é o cara que não deixa a gente no calor”, ela sorriu, mas foi quase imperceptível. Todas as vezes que se encontravam, ela exalava culpa pelo corpo todo, mas logo em seguida soltava o ar e incorporava o comportamento que o momento pedia, como se um controle remoto mudasse de um telejornal para a novela das nove e depois para um filme de suspense. “Eu tenho que ir”, ela sempre dizia com a voz acelerada e pesada. Um ano se passou até que ele perguntou se ela não gostaria de levar uma vida feliz. “Você deduz que eu não sou feliz sem nem antes me perguntar”, e ele entendeu que tudo aquilo não passava de uma maneira de ela preencher o tempo entre um plantão e outro. Até que um dia ela mesma sugeriu que fossem embora, pois gente doente e ares-condicionados quebrados havia em todo lugar. Ele aceitou e agora estava ali, vendo o tempo passar pela velocidade que o sol baixava no céu. Já eram mais de cinco horas e ele discou o número dela no celular. Nada aconteceu e a mensagem de texto também não foi respondida. Pensou em mil e um cenários ruins protagonizados por um marido perverso e sentiu um choque descer pelo corpo. Não era mais uma questão de coragem ir até lá, mas de urgência. Entrou rápido no carro e deu ré, quase batendo em um SUV preto que entrava no posto. “Boa tarde, doutor”, ele viu pelo retrovisor o movimento do frentista ficando de pé. “Vão viajar? Ah, um fim de semana na praia é bom demais. Se a gente passa muito tempo aqui, o cheiro de cocô de vaca não sai mais nunca da gente”. O vidro era escuro, mas todo mundo sabia de quem era aquele SUV preto. De tanque cheio, o carro buzinou e ele abriu passagem, voltando para o lugar de onde saíra às pressas para ir buscá-la. Ainda deu tempo de ver um punhado de cabelo escapar pela janela antes do vidro subir completamente. Um cabelo cuja cor nunca estava desbotada. Em trinta segundos o SUV já tinha sumido pela estrada e ele seguiu logo atrás. Não sabia que rumo eles tomariam e nem queria saber. Já tinha decidido o seu e não fazia mais sentido voltar atrás, não com tantos ares-condicionados para consertar por todo canto. Ele ficaria bem. Pisou fundo no acelerador na primeira curva bem na hora que o búfalo decidiu atravessar preguiçosamente. Não deu tempo de novo. Desta vez, foi lançado para fora e um último resquício de sol se misturou ao sangue escuro e à poeira do capô. Já eram seis da tarde e em pouquíssimo tempo seria oficialmente noite. Para ele, já havia escurecido completamente. O sol sempre se põe rápido demais.

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[Conto] O rei justo e benevolente

Há muitos anos, em uma terra distante, havia um rei justo e benevolente. Herdeiro de um reino cujo trono nunca vira um monarca injusto, infiel ou desleal, todos os seus antepassados ficaram na história por serem homens e mulheres com um apurado senso de justiça. Os conflitos sempre eram resolvidos sob a luz da dignidade e da honra. Nenhum súdito jamais levara uma questão ao rei sem sair com uma decisão coerente com os fatos, para o bem ou para mal. Punição para os culpados, absolvição para os inocentes, redenção para os arrependidos. O rei nunca tomara uma decisão errada. Conta-se que certa vez uma mãe teve seu filho sequestrado por um ladrão viajante e, em desespero, ela saiu para pedir socorro ao rei, que imediatamente enviou seus melhores soldados em busca da criança, encontrando-a em companhia do sequestrador, que o utilizava para outros fins ilícitos em vilas vizinhas. O homem fora julgado e condenado, sendo, depois de cumprida sua pena, beneficiado com uma chance de ser um sujeito íntegro. O próprio rei, reconhecendo a transformação, nomeou-o seu camareiro pessoal, com acesso livre aos seus aposentos. O ex-condenado nunca mais voltou a cometer nenhum crime sequer. Era um rei bom, amado e admirado. Todos os anos o rei, a rainha e seus dois filhos ofereciam um banquete a integrantes de outros reinos. Era um dia de festa, de confraternização, de criação de laços políticos, sociais e às vezes até amorosos. Não era incomum donzelas serem pedidas em casamento nessa data e no ano seguinte surgirem com uma gestação em curso, radiantes e orgulhosas de suas uniões prósperas. Os plebeus ansiavam por esse dia como se fosse o próprio Natal, pois o desfile de carruagens, belos vestidos, homens imponentes e cavalarias elegantes não era senão um presente para quebrar a monotonia de uma vida simples e sem muitos divertimentos. A cidade era enfeitada, as melhores frutas colhidas e oferecidas em cestas, as crianças, vestidas em suas melhores roupas, ficavam ansiosas para receberem acenos e apertos de mãos dos duques e condes. Com sorte, até mesmo um príncipe poderia aparecer e sorrir para elas! Leia também Petrúcio da casa azul Naquele ano, por infortúnio, o cozinheiro do palácio teve um mau súbito e adoeceu dias antes da grande festa, sem perspectiva de melhoras. Foi um pandemônio. A rainha sucumbiu a uma crise de ansiedade e as criadas passavam o dia a abaná-la e a massagear seus pés para estimular o relaxamento dos músculos. Mas a preocupação ainda estava viva: quem iria cozinhar para os convidados? Iniciou-se então um seletivo às pressas para contratar um novo cozinheiro e o escolhido foi o dono de uma barraca na feira da cidade que vendia os caldos mais famosos da região. A escolha fora unânime, assim que o rei e a rainha provaram do tempero levantaram os braços para o céu e respiraram aliviados pela possibilidade de salvar o jantar da Grande Festa. O cozinheiro, por sua vez, pediu encarecidamente a oportunidade de levar um aprendiz, um rapaz mais jovem que vinha aprendendo com ele a arte da culinária. O rei, justo e benevolente, concedeu o pedido e contratou ambos. No dia mais importante do reino, o novo cozinheiro contou com a ajuda não só do aprendiz como de uma série de serviçais, que iam e vinham da cozinha a cada instante. Uma chateação, contudo, o importunava. A quantidade de formigas e outras espécies de insetos infestava a cozinha e fazia o cozinheiro ora se importar com as comidas, ora em espantar os bichos para longe das panelas. Impaciente, pediu a um dos criados do castelo que providenciasse o extermínio daquelas criaturas o mais rápido possível ou os convidados correriam o risco de comer guisado com besouros! Prontamente, o homem saiu pelo reino e voltou poucas horas depois com uma garrafa transparente contendo um líquido amarelado e viscoso. Entregou ao cozinheiro com a instrução de espalhar o conteúdo pelos cantos da parede e o cheiro, pouco perceptível ao olfato humano, logo afastaria todo tipo de inseto da cozinha. Antes que pudesse executar a dedetização e voltar para o trabalho de sua expertise, o cozinheiro fora solicitado pela rainha para os últimos ajustes do cardápio. Saindo da cozinha, esbarrou com o aprendiz e foi claro: “Mexa o caldeirão de risoto a cada cinco minutos, na terceira vez ponha uma medida de gordura, tire do fogo e deixe repousar para apuramento do sabor”. O jovem assentiu com a cabeça e tão logo chegara a hora da ação, apanhou o primeiro recipiente cujo conteúdo parecia o adequado e derramou dentro da panela na medida ordenada – totalmente alheio ao episódio dos insetos. Assim, sem que ninguém desse atenção à confusão, o jovem temperou o risoto com o remédio para formigas. Mais tarde, a mesa do jantar foi posta e as refeições, servidas. O brilho dos talheres de prata disputava o ofuscamento dos olhares com as joias nos pescoços e pulsos das damas. A postura dos homens e mulheres fazia o ar do salão descer reto pelos corpos e traçar uma curva alinhada e sem desvios. Taças iam e voltavam dos lábios como gestos ensaiadas, as risadas eram contidas e nenhum convidado estava bêbado o bastante para alteá-la. O rei e a rainha estavam satisfeitos. Assim que o risoto fora servido, vozes sussurraram elogios e o estalar de bocas e línguas refletia a boa recepção da comida. Mas não demorou muito para que os movimentos sinalizassem que algo estava errado. Algumas mulheres começaram a sentir um embrulho no estômago, e os homens também, embora o disfarce não tenha durado muito tempo porque o desconforto logo virou uma pontada certeira nas entranhas. Os anfitriões não escaparam e em meia hora o jantar comportado e fino se transformou em um tumulto de gemidos, dores, poças de vômito, lágrimas e desespero. Os guardas correram em urgência a buscar os médicos do palácio e até mesmo os curadeiros plebeus foram intimados a ajudar na maior desorganização sanitária vista desde que o rei era …

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