Para Leitores

7 trechos de “Cartas a Malcom” – C. S. Lewis

Em Cartas a Malcom, C.S. Lewis expõe cartas que trocou com seu amigo imaginário, Malcom, um homem parecido com ele no estilo de vida, mas com ideias divergentes sobre alguns assuntos, o que levou a produção desses textos que são verdadeiras preciosidades em matéria de religião. Veja 7 trechos de Cartas a Malcom: São necessárias pessoas de todos os tipos para se fazer um mundo — ou uma igreja. Talvez isso seja ainda mais verdadeiro com respeito a uma igreja. Se a graça aperfeiçoa a natureza, ela deve expandir todas as nossas naturezas para a plena riqueza da diversidade que Deus planejou quando Ele as criou, e o céu mostrará muito mais variedade do que o inferno. Carta II Não adianta pedir a Deus, com seriedade factícia, por A quando nossa mente está, na verdade, totalmente preenchida com o desejo por B. Devemos colocar diante Dele o que está em nós, não o que deveria estar em nós. Carta IV Pode bem ser que o desejo seja colocado diante de Deus apenas para ser um pecado do qual devamos nos arrepender; mas uma das melhores maneiras de aprender isso é colocar o pedido diante de Deus. Carta IV Venha o Teu reino. Isto é, que seu reinado seja realizado aqui, como é realizado lá. Mas eu costumo considerar o lá em três níveis. Primeiro, como em um mundo sem pecado, além dos horrores da vida animal e humana; no comportamento de estrelas e árvores e água, no nascer do Sol e no vento. Que haja aqui (no meu coração) o começo de uma beleza semelhante. Em segundo lugar, como nas melhores vidas humanas que conheci: em todas as pessoas que realmente carregam os fardos e parecem verdadeiras, as pessoas que chamamos de bom coração e, na vida tranquila, ocupada e ordenada de famílias realmente boas e de lares religiosos realmente bons. Que isso também seja “aqui”. Por fim, é claro, no sentido usual: como no céu, como entre os bem-aventurados mortos. Carta V Se Deus tivesse atendido a todas as orações bobas que fiz em minha vida, onde eu estaria agora? Carta V Volto a São João: temos de tranquilizar “nosso coração diante dele quando nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração”. E, de igual modo, se nosso coração nos adula, Deus é maior que nosso coração. Carta VI No mundo perfeito e eterno, a Lei desaparecerá. Mas os resultados de ter vivido fielmente sob ela não serão. Carta XXI

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Bastidores

Mais aqui, menos acolá

Ser mais quem eu sou e menos quem eu gostaria de ser. Perdi muito tempo olhando para quem eu queria ser. Não de um jeito inspirador, como quem olha para uma estatúa e pensa: eu queria ser bom o bastante para merecer ter uma estátua, mas de um jeito fantasioso, infantil, como quem olha para um personagem de desenho animado cheio de poderes. Quero olhar mais para quem eu sou e para o que posso fazer a partir disto aqui. Jogar a régua fora, esquecer as métricas universais; meu caminho é só meu. Às vezes é cheio, às vezes tenho que abrir a mata fechada a machadadas, mas é meu. Olhar mais para o relógio e menos para o calendário. Um mês não é quase nada, mas até às 16h dá para fazer bastante coisa, é só reparar. Meu tempo também é só meu. Ser grata, humilde, realista. A vida nas revistas está a uma gota de chuva de se desintegrar. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Para Leitores

12 sugestões de livros para 2024

Quando chega o fim do ano, muitos de nós fazemos metas para o ano novo, dentre elas a de adquirir ou de manter o hábito de leitura. Se você é uma dessas pessoas que quer se tornar um leitor no ano que vem, mas não sabe por onde começar, aqui vão 12 sugestões de livros para 2024. 1. Contos – Tchekov Ler Tchekov foi uma belíssima surpresa para mim. Não conhecia o autor e me surpreendi com a genialidade dos seus contos. Se você ainda não tem ritmo de leitura ou não gostaria de começar por um livro de romance, esse título é uma boa pedida. 2. As Regras da Casa de Sidra – John Irving Não se assuste com o tamanho desse livro, é um calhamaço que vale tanto a pena que acabou indo parar nos cinemas, levando Oscar para casa e tudo. Na história, um garoto chamado Homer Wells cresce em um orfanato e tem seu amadurecimento transpassado por dramas pessoais e alheios. 3. O Clube do Livro no Fim da Vida – Will Schwallbe Essa é a história real sobre a relação de uma mãe em tratamento contra o câncer e seu filho, uma amizade ligada não apenas pelo laços sanguíneos, mas também pelos livros. Um livro profundamente delicado e encantador. 4. Alguém para Correr Comigo – David Grossman Mais uma narrativa sobre família, desta vez sobre uma garota que precisa resgatar o irmão de uma organização criminosa que escraviza crianças e adolescentes em Israel. Se você também gosta de conhecer outros países e culturas por meio da leitura, esse livro é uma boa opção. 5. Reparação – Ian McEwan Tentei fugir um pouco dos livros famosos, mas aqui eu não resisti. Gosto tanto de Reparação que o indico sempre que posso. Nesse romance, Robbie é acusado de um crime que não cometeu, injustiça que afeta sua vida e seu romance com Cecília Tallis. Você pode ler meu artigo sobre o livro clicando aqui. 6. O Tempo entre Costuras – María Dueñas Uma jovem apaixonada e traída de repente se vê envolvida em um esquema de espionagem na Segunda Guerra Mundial e usa o talento como costureira para ajudar na guerra contra os fascistas. Uma narrativa que mescla fatos históricos e ficcionais de uma maneira apaixonante.  7. Ouro – Chris Cleave Outro entre os meus queridinhos. Com uma temática esportiva, Ouro fala sobre duas ciclistas que estão no topo do ranking sendo ao mesmo tempo amigas na vida pessoal e rivais no esporte, tendo uma delas seu destino alterado por uma gravidez não planejada. Um livro para ler e reler sempre que puder. 8. A Garota das Laranjas – Jostein Gaarder O mesmo autor de O Mundo de Sofia apresenta aqui a história de um garoto que lê uma carta do pai, morto há onze anos, em que ele conta sobre sua paixão por uma garota que andava com um saco de laranjas pelas ruas de Oslo. Um romance para deixar o coração quentinho. 9. Silenciadas – Kristina Ohlsson Chegamos aos livros policiais com a indicação desse que é o primeiro livro de uma trilogia que trata sobre tráfico humano. Ideal para quem aprecia histórias investigativas com muitas pistas soltas e revelações. 10. Filha da Fortuna – Isabel Allende Esse não é o livro mais popular da Isabel Allende, mas também é um livraço. Conta a história de Eliza Sommers, uma jovem que sai para procurar o noivo atraído pela promessa de ouro e enriquecimento na Califórnia do século XIX.  11. C.S. Lewis: Do Ateísmo às Terras de Nárnia –  Alister McGrath Eu que nunca fui muito chegada a biografias adorei ler a do C.S. Lewis. Nesse trabalho, o autor narra o processo de conversão de Lewis, a amizade dele com Tolkien e muitos outros fato que só quem é fã do autor vai adorar conhecer. 12. A Sala de Vidro – Simon Mawer Onde estão os amantes de arquitetura? Esse livro é para misturar duas das sete artes em uma só tacada. A protagonista aqui é a casa imponente e majestosa construída especialmente para um casal recém-casado. A construção será palco de festas, bailes e também de eventos históricos como a invasão nazista. O que você achou das 12 sugestões de livros para 2024? Já conhecia algum desses títulos? Qual despertou mais seu interesse? Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Bastidores

Armários e Caixas

Numa caixa na prateleira de baixo guardei tudo o que me pertence, independente do valor. De uma marca-páginas marrom a um mouse quebrado. Também aquela saia laranja, aquele sonho para o qual me faltou coragem, os dias em que, ansiosa, não dormi, os itens que não pude comprar, os textos que não escrevi, as mágoas que engoli, o desespero que alimentei, os silêncios que não apreciei, as palavras que falei sem pensar, as belezas que não contemplei, os lugares aonde não fui, as flores que não plantei e muito menos colhi, as músicas que não ouvi, outras tantas que não cantei; o máximo que não fiz, os dramas que encenei, o muito que errei, o pouco que acertei, os vários que sequer tentei. Os dias que não vi, os sóis aos quais assisti, os nomes dos quais não me esqueci, as mensagens que não enviei e as que enviei, mas apaguei. As orações que não fiz, os perdões que não pedi, os remédios que não tomei, os sorrisos que escondi e os que ofereci. Os livros que li, os que quero ler, os filmes aos quais assisti e as fotos que tirei. É uma caixa bem grande e funda, pesada de tanta ausência, tanta supressão e covardia. Dentro, um pouco de exagero também. Tirei tudo e espalhei pelo chão como quem procura um pedaço de tecido bom no meio de retalhos. Não encontrei quase nada, então fui unindo os itens e tentando costurar alguma coisa para o ano novo.  A saia laranja fica, esse sonho parece realizável, vou pesquisar como que faz; respire fundo, conte até dez, nada vai ruir tão desastrosamente assim. Escrever mais, dar menos importância, não desesperar porque o poder de quem não desespera é enorme. Ficar em silêncio, reparar como o mundo é bonito que só. Plantar flores; não, não, comprar mesmo. Mais um, menos um. Comprar aqueles jogos de tabuleiro, deixar o sushi para a noite de sexta. Cantar em francês, italiano e latim. Dar o máximo e não se entristecer ao perceber que o máximo pode medir dez centímetros. Não ter medo de doer, tomar remédio. Olhar mais pela janela, o dia está passando. Enviar menos mensagens, receber, sim, e responder o quanto antes. Pedir e ouvir um sim, pedir e ouvir um não. Lembrar que tudo coopera. Agora a caixa está mais leve, posso mudá-la de lugar e pô-la para a prateleira de cima. A caixa de baixo agora é outra. Ano que vem eu conto o que tem dentro.

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Contos

[ Conto ] Um dezembro a mais

Naquele ano, ele apareceu na porta da casa dela com um buquê de oito gérberas e um livro de poemas. Na porta da casa havia uma guirlanda grande e desproporcional, ele observou, enquanto ela não atendia à campainha. Ele estava nervoso, namoravam há exato um mês e era Natal. Ele também levou um vinho para os pais dela, um vinho caro comprado com as economias de seis meses. Ela recebeu todos os presentes com o entusiasmo característico de quem está apaixonada. Era alérgica a gérberas, não gostava de poema e nenhum dos pais consumia bebida alcoólica, mas mesmo assim foi uma noite muito especial, ela o amava. No ano seguinte, viajaram para outro estado, onde os pais dele moravam. Ela comprou a camisa nova do time dele e ele usaria aquela roupa mais vezes do que ela gostaria. Ele deu a ela um dia em um spa chique da cidade. Acertou em cheio.  Naquele segundo ano de relacionamento, apaixonaram-se ainda mais, embora ambos fossem adeptos da teoria de que o primeiro ano era o mais bonito e intenso. Não foi. O primeiro ano foi corrido. Ela concluindo a faculdade, ele escrevendo a tese do mestrado. Entre uma linha e outra se falavam pelo telefone, saiam para caminhar na praia e visitavam o zoológico porque ela adorava girafas. No terceiro ano, ela foi pedida em casamento e dentro da caixa de alianças havia um tecido estampado de girafas. Foi tão engraçado, ela achou que ele não poderia ter sido mais inusitado, e foi no meio daquele risada, com o garçom procurando o melhor ângulo para registrar o momento, que ela se deu conta de que passaria a vida com aquele homem. Aquele homem bonito, engraçado e de muito bom gosto. Era antevéspera de Natal e o restaurante estava decorado com luzes delicadas e aconchegantes. Ela pensou que no ano seguinte gostaria de ter em casa uma decoração como aquela – a casa que também seria dele. Um ano se passou e eles foram juntos comprar os enfeites de Natal. Ela deu sorte, encontrou as luzes como queria. A cerimônia de casamento havia sido há dois meses e fizeram questão de receber a família para a ceia na casa nova. Como era bom vê-lo caminhar apressado pra lá e pra cá tentando deixar tudo pronto para o jantar. Ela se sentia em paz. Contudo, antes do primeiro aniversário de casamento descobriram que a teoria dos melhores dias não se aplicava muito bem quando a convivência era diária. Depois das semanas douradas, aqueles dias após lua de mel, depararam-se com as pequenas incongruências do dia a dia. Os defeitos alargados, as manias irritantes, os esquecimentos, às vezes a ponta de um desleixo surgindo aqui e ali. Nada que pudesse abalar o amor, apenas a vida acontecendo e a pouca experiência de lidar com ela num esquema a dois. Mas aquele Natal foi diferente. Ela não queria ver ninguém, ele queria ver os pais. Ela se chateou com o presente que ganhou dele, um vestido um número menor do que ela usava, e ele argumentou de maneira ríspida. Não houve ceia de Natal e dormiram brigados. Mais um ano. Ele recebeu uma proposta de emprego em outra cidade e ela não aceitou se mudar, ali estava perto da família, não queria se sentir só. Você não está só, ele disse, mas às vezes quero ter uma segunda casa para onde eu possa ir de vez em quando, ela rebateu. Ele não insistiu e recusou o trabalho. Tentaram se acertar, voltar a ser o casal que ia ao zoológico, mas nunca mais foram ao zoológico e ela deixou pra lá as girafas. De presente de Natal, ele deu a ela um anel, o anel que ela namorava sempre que ia ao shopping. Aquilo fez a diferença. Ela não havia comprado nada e chorou por isso, deveria ter se esforçado. Ele disse que não havia problemas desde que os dois continuassem bem e então o ano seguinte começou muito bom. Viajaram nas férias de janeiro e ela se sentiu cheia de amor outra vez. Experimentaram comidas novas, acamparam ao ar livre em uma cidade desconhecida e perderam um voo na volta. Foi muito divertido. Ela se sentiu agradecida por estar casada com ele. Foi um ano esplêndido. No Natal, ela lhe deu uma coleção de discos do seu artista preferido. Uma coleção rara, autografada, que ela havia arrematado em um leilão numa madrugada qualquer. Os olhos dele brilharam.  Mudaram-se para uma casa nova no primeiro dia do ano seguinte e ela manifestou o desejo de ser mãe, está na hora, está na hora, concordaram. Um ano que começou agradável, mas foi amargando com o passar dos meses. Ela não conseguia engravidar, ele não conseguia entender, os dois juntos procuravam respostas mas tudo que encontravam eram conflitos, autocobrança e desentendimentos que não levavam a lugar nenhum. A obrigação sufocou a esperança. A casa, antes atraente por ser espaçosa e bem iluminada, agora parecia grande demais e desesperadamente oca e obscura. Os cômodos eram tão distantes um do outro que passavam dias sem sequer se esbarrar. Em dezembro, ela recebeu uma carta anônima de uma aluna que confessava ter um caso com ele. Ele negou, a garota queria se vingar pela reprovação na matéria. Era uma justificativa plausível, mas ela também não acreditava totalmente na inocência do marido. Nunca soube se foi verdade ou não porque não resolveram esse impasse. Ela passou o Natal na casa da mãe, sozinha. Quando voltou, encontrou um presente que nunca chegou a abrir. O ano mais difícil e silencioso de suas vidas chegou. Não havia um casal, não havia uma família, havia duas pessoas dividindo as contas de casas. O plano de um bebê ficou para depois, talvez nunca mais, os planos de qualquer coisa se dissolveram como um recado na geladeira que vai perdendo a cor com o passar do tempo. Ele se aproximava, ela recuava, ela se arrependia do recuo, ele ignorava, ele se arrependia do orgulho, ela relembrava. …

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Bastidores

O que eu sei, o que eu imagino e o que eu invento

Suponho que eu saiba um terço sobre você; o outro terço eu imagino e o outro eu invento. Sei que você é contido, talvez tímido, mas não retraído. Imagino que olhe para as pessoas com o semblante sério, não zangado, e que quando está sendo simpático mexa os lábios ligeiramente. Abrir um sorriso, esse sorriso do qual eu tanto gosto, só quando vale muito a pena – isso eu inventei. Eu sei que seu paladar não é muito dado a doces então imagino que você aceite aquele pedaço de pudim por educação. Em minhas invenções, porém, sei que você não recusa mesmo é uma boa fatia de goiabada. Leia também O pedido Sei que seus braços são fortes, que seu corpo é ereto e que seus olhos estreitam quando você sorri. Eu imagino que se entrasse na minha sala agora, o ar daria licença para você passar. Tenho uma convicção quase concreta de que se me olhasse de perto, ah, se você chegasse bem perto, eu faria minhas malas e voltaria para casa com você. Mas essa casa não é minha. Eu não tenho uma cópia da chave pendurada em um chaveiro comprado numa loja de souvenirs, eu não tenho nada além de algumas informações coletadas aqui e ali, um sem-número de suposições e várias invenções irresponsáveis. Na minha cabeça, um dia você vem me buscar, mas sei que não vem.

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Para Leitores

[Resenha] Reparação – Ian McEwan

Reparação já começa apresentando Briony e seu gosto por alimentar a mente fértil com fantasias. Aos treze anos, ela gosta de escrever romances e peças de teatro, mas reconhece que lhe falta “aquele vital conhecimento do mundo”. Também no primeiro capítulo a narrativa aponta uma determinada característica em Briony, o fato de que ela não tinha maldade e que gostava de ver o mundo em ordem, sem destruição. E onde tudo isso entra na história? Naquele verão dos anos 30, a família Tallis se prepara para receber o filho mais velho, Leon, o amigo Paul, e os sobrinhos Lola e seus irmãos gêmeos, Pierrot e Jackson, para um fim de semana. Cecília, a filha do meio, já está na casa, e Briony, a caçula, trabalha em uma pequena peça de teatro que gostaria de apresentar aos convidados na noite do jantar. Robbie, o filho da empregada e quase membro da família, também está entre os participantes. No meio da noite, um crime sexual acontece e Robbie é acusado por uma testemunha ocular: Briony. A partir daí, muitas são as consequências dessa acusação, uma vez que Robbie é preso ainda na mesma noite. A vaidade de Briony O livro é dividido em quatro partes. Na primeira parte, a história dá o protagonismo a Briony, colocando-a como o olho que tudo vê e dando a ela o privilégio da palavra. Ela é quem assiste de longe à cena do vaso caindo na fonte; ela quem flagra Cecília e Robbie na biblioteca; ela quem testemunha o estupro de Lola. Quando o evento catastrófico acontece (ela acusar Robbie de ter estuprado a prima Lola), eu vejo que Briony se deixou levar por uma motivação bastante infantil de ser a heroína da história, como se, frustrada pela impossibilidade de ser a protagonista da peça que estava ensaiando, ela quisesse agarrar uma oportunidade de fazer a diferença no mundo real, no mundo dos adultos. Leia também [Resenha] As Brumas de Avalon Ainda impactada pelo flagrante de Robbie e Cecília na biblioteca – um evento consensual e não uma violência -, Briony constrói uma imagem de vilão em cima de Robbie, um vilão bastante caricato, com traços de psicopatia e crueldade. E é com essa imagem na cabeça, e com um desejo de proteger as pessoas do “mal”, que ela afirma com todas as letras que Robbie é o agressor de Lola, muito embora ela não tenha visto com clareza e nem a própria Lola possa dar essa certeza. Agora, tudo isso acontece em um dia em que Briony declara a si mesma que a partir dali não é mais criança, que os contos de fadas ficaram para trás e agora ela lida com problemas de adulto. Mas foi justamente a responsabilidade e a maturidade de um adulto que lhe faltaram quando foi necessário que ela analisasse a situação com clareza. É certo que talvez um adulto de verdade cometesse o mesmo erro, mas talvez não pelas mesmas motivações. A própria Lola, a vítima, com um pouco mais de idade, se reservou a dizer que não viu direito, enquanto Briony sente uma necessidade quase irresistível de estar certa porque quer ser relevante, porque quer fazer justiça, porque quer ser a protagonista daquela história, porque não quer ser taxada de criança boba e voltar atrás. “Briony caiu numa arapuca armada por ela própria, penetrou num labirinto construído por suas próprias mãos, e era jovem demais, estava impressionada demais, excessivamente sequiosa de agradar aos outros, para insistir numa retratação”. A reação de Robbie Na segunda parte, Robbie está na guerra. Depois de três anos preso, ele aceita servir porque é melhor do que estar na prisão. É uma parte bem longa (inclusive no filme), onde ele tenta sobreviver para reencontrar Cecília enquanto atravessa o país com as cartas dela no bolso. Ele nutre um rancor de Briony do qual não faz nenhum esforço para se livrar. “Não era razoável nem justo odiar Briony, mas ajudava”. A autopunição de Briony Na fase seguinte, vemos Briony já ali com seus dezoito anos, servindo na guerra como enfermeira de um hospital. Ela carrega a culpa do que fez e de certa forma tenta usar aquele trabalho como penitência. Um trabalho difícil, braçal e sangrento, como se ela quisesse achar algo mais cruel e feio para se sobressair ao seu passado. Ainda nessa mesma fase, Briony procura Cecília (elas se separaram desde o episódio do jantar) e a encontra em uma cidadezinha aos arredores de Londres ao lado de Robbie. Os dois a tratam com repulsa, mas o medo de Briony de que eles nunca mais se encontrassem é aliviado. Ela sai dali com a promessa de retratar seu depoimento e, quem sabe, retirar a condenação de Robbie – que ainda cumpria pena, estando apenas cedido para o Exército. A Reparação Atenção, spoiler! Porém, na quarta e última parte nos deparamos com Briony com 77 anos de idade, já no final dos anos 90, contando em primeira pessoa que a terceira parte dessa história só é verdade em partes. Ela nunca procurou Cecília e Cecília nunca reencontrou Robbie. Ambos morreram na guerra e Briony se sentiu no dever de reparar, ainda que ficcionalmente, uma história que não terminou feliz por interferência sua. O desejo de ser uma escritora se concretizou e ela fez carreira na profissão, trabalhando a vida inteira em um romance no qual o casal apaixonado vive seu amor, já que na vida real isso não foi possível. Um caminho sem volta Eu vejo que na transição de uma fase para outra há não só um amadurecimento dos personagens como um endurecimento das personalidades deles. O livro começa num dia quente, ensolarado, porque tudo está bem e animado. Cinco anos depois, Robbie é um homem castigado, Cecília alimenta amargura pela família e Briony se consome de remorso enquanto fecha feridas em carne viva dos soldados. Tudo ficou mais duro para todo mundo. A narrativa também lança uma pergunta: Até onde é possível usar a imaturidade (ou a pouca idade) como …

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Bastidores

Estética, poesia e avós

Algumas pessoas nascem com a alma naturalmente poética. Por ‘naturalmente” eu quero dizer sem investir tanto esforço a ponto de ficar artificial, sem autenticidade e humanidade. Falo da avó que cuidava da flor mais simples do quintal, aquela que nasce em qualquer canto, e não do universitário que faz dois riscos tortos na face e chama de arte.  Penso nas referências estéticas dessa avó sem Pinterest e sem Instagram com filtro do Vsco Cam. Ela achava uma coisa bonita e ficava lá olhando. No máximo, fotograva com uma câmera analógica, mas só se realmente valesse a pena, para não gastar o filme. Talvez foi assim que surgiram as fotos de vó com plantas. Minha avó tinha um quintal muito bonito. Era bem verde, com coentro, babosa e umas florezinhas coloridas. Lá no final, um pé de juçara. Minha avó sabia mexer na terra e isso fazia toda a diferença. Se ela tivesse um perfil no Pinterest, seria muito aesthetic. Ela tinha uma estante vintage de cor escura e um porta-joias com a cabeça de uma bailarina. Tudo muito caro se fosse vendido hoje no Mercado Livre. Naquela época, bugiganga. O cabelo da minha avó era ondulado e brilhoso, e tudo o que ela usava era um creme amarelo da Neutrox. Ela quase sempre saía com um conjunto comfy e combinando. Acho que nunca a vi com muitos acessórios, no máximo um brinco. Minimalista.  Sei lá, minha avó tinha um bom senso estético. Acho que tudo que ela fazia era observar. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Bastidores

Uma questão de sorte

A Lindsay Lohan faz um filme muito bonitinho em que a personagem principal, Ashley, é uma baita de uma sortuda que depois de beijar um grande azarado troca de sorte com ele. Antes disso acontecer, em um dia de chuva, Ashley sai de casa e o porteiro do seu prédio a espera com um guarda-chuva na rua enquanto pede um táxi. Assim que ela põe os pés na rua, o céu abre e o dia cinza se transforma em um lindo de sol. Lembrei-me dessa cena ao ler em 1 Timóteo 6:8 que se temos alimento e vestuário, contentemo-nos com isso. Mais do que um impulso ao comodismo, pensar que em tudo Deus nos provê tira metade da ansiedade que paira sobre nós – quiçá toda. Até mesmo aqueles desprovidos de bens materiais estão assistidos se os que estão ao seu redor têm o bastante para dividir. Leia também Uma beleza calculada Se a sorte é o mesmo que Providência, a cena em que Ashley pode contar com um gentil porteiro, e também é presenteada com o céu limpo, é um ótimo exemplo. Ela está amparada, não precisa ter com o que se preocupar, nem mesmo se irá chegar ensopada no trabalho. E, de fato, não se preocupa. Tanto que responde “Eu preciso mesmo de um guarda-chuva?”, quando o porteiro questiona se ela irá sair de casa sem um. Tudo vai dar certo. Quando Jake rouba sua sorte com um beijo, ele passa a ser o contemplado com tantas bençãos enquanto ela irá passar por maus bocados, igual a qualquer um de nós, com dias de sol e dias de chuva. Ainda assim, ela não está só, pois Jake está habituado aos azares do cotidiano e acaba sendo seu par. Ela continua com sorte, afinal. Esse nome civil da Providência.

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Contos

[ Conto ] Arquivo

O pacote chegou em uma sexta-feira. Quando ele entrou em casa, lá estava uma caixa pequena, do tamanho de um celular, em cima do aparador. – O que é? – ela perguntou. – Um brinquedo novo. – Outro jogo? – ela deixou transparecer uma ligeira irritação. – Mais ou menos – e ele estava ansioso demais para se importar com a reação dela. Edgar sentou-se no sofá enquanto abria o volume. Dentro havia um par de fones de ouvido e uma pulseira digital, ambos na cor branca. Ele leu ligeiramente as instruções, pôs a pulseira no pulso, os fones no ouvido, e ouviu uma voz suave e feminina: Seja bem-vindo ao Salt. A mulher fez uma pausa enquanto algo no sistema iniciava. Escolha um lugar confortável e selecione uma data no seu relógio. Edgar ainda não havia decidido qual seria a sua primeira visita, queria que fosse algo especial, marcante, e tentou se lembrar de algo bom.  13 de abril de 2003 Ele deslizou os dedos sobre a tela digital da pulseira e a voz da mulher soou novamente, agora mais animada, como se fosse uma guia turística conduzindo-o a um museu. Você será levado ao dia 13 de abril de 2003 e toda a sua vida nesta data passará diante dos seus olhos. Você verá as mesmas cenas, sentirá os mesmos cheiros, ouvirá os mesmos sons e dirá as mesmas palavras. Nada pode ser mudado, apenas contemplado. Para avançar, movimente a palma da mão para a direita, para retroceder, movimente a palma da mão para esquerda. Você pode fazer isso quantas vezes quiser. Para sair, abra e feche a mão duas vezes. Para ouvir as instruções novamente, clique no botão laranja, se você entendeu tudo, clique no botão verde. Edgar clicou no botão verde e se ajeitou no sofá. Ouviu um som novo, uma espécie de onda tranquilizante e logo tudo ficou escuro, clareando lentamente em seguida, como se ele estivesse acordando de um sono profundo. Estava de volta na casa dos pais. Reconheceu o antigo quarto, com suas paredes azuis e pôsteres, seu velho computador de mesa e camisas de bandas penduradas na poltrona. Era o dia da sua entrevista de emprego e ele mal havia dormido de tanta expectativa. Ficou de pé, entrou no banho e logo se lembrou de que nada de extraordinário aconteceu até ele sair de casa. Assim, avançou as cenas até estar em frente ao prédio por onde passou tantas vezes, ansiando pelo dia em que entraria lá como funcionário, e, um dia, quem sabe, como ocupante de um cargo importante. Avançou mais uma vez até o momento em que a chefe do Recursos Humanos lhe parabenizou pela conquista da vaga e apertou sua mão com confiança. Ele podia sentir com absoluta fidelidade o mesmo furor no peito, a mesma alegria, a mesma sensação de vitória. Como fazia tempo que não sentia aquilo, como era bom se sentir capaz outra vez. Revivendo aquele momento em todos os detalhes, retrocedeu a lembrança e reviu tudo de novo. E de novo, e de novo. Até sentir uma mão pesada sacudindo seu ombro. Leia também Fique na Floresta – As crianças estão prontas, estou gritando há horas – a voz estridente dela invadiu os ouvidos de Edgar assim que ele tirou os fones. Ele havia esquecido que prometeu levar os filhos para a casa da avó e ir ao cinema com a esposa. Arrependido do compromisso, chamou-a no canto da sala e cochichou: – Será mesmo que temos dinheiro para ir ao cinema? Ela o fitou com o semblante sério e frustrado, e só então ele se deu conta de que ela já estava arrumada, com um vestido cor de vinho e sapatos altos. – Edgar, tome um banho e vá se arrumar. Deixaremos as crianças com a minha mãe e vamos ao cinema. – Claro.  No cinema, Edgar não conseguiu dar atenção ao filme, ocupado em selecionar mentalmente quais datas visitaria ao chegar em casa e resgatando na memória os momentos de excitação que valiam a pena ser vividos novamente. Já de volta, esperou a esposa dormir e voltou para o sofá. Descobriu que no Salt também era possível fazer uma pesquisa digitando o nome de alguém na tela da pulseira.  Mariana. A primeira década de Edgar no emprego dos sonhos foi fascinante. Sucessivas promoções, prestígio, admiração dos colegas e uma posição de respeito dentro da hierarquia. Naquela época, envolveu-se com uma de suas estagiárias. Uma moça ruiva, de sorriso aberto e um ar universitário e juvenil irresistível. Ele propôs deixar sua esposa, na época noiva, por ela. Ele ofereceu o mundo inteiro e ela aceitou. Um ano de relacionamento às escondidas, em moteis caros, jantares discretos, viagens curtas, e uma vontade insana de jogar tudo para o alto e apresentá-la como sua futura mulher. Foi nisso que ele pensou ao digitar o nome dela. Reviveria cada dia daquele ano, exceto o último, quando procurou sua esposa para uma conversa e ela anunciou que estava grávida antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.  Mariana foi embora, magoada, triste, alimentando um ódio visceral do amante, e ele ficou com a vida que deveria ficar. Mas se o Salt pudesse descobrir onde ela estava agora, no presente, se ele pudesse discar o número dela, ele ligaria mais uma vez, nem que fosse para ouvir sua voz por alguns segundos. De uma forma ou de outra, foi com ela que ele passou aquela e tantas outras noites. Deitado no sofá, digitando as sete letras do nome dela, negando dormir com a esposa enquanto relembrava, com a tecnologia do Salt, os dias com Mariana. Nada pode ser mudado, apenas contemplado. De contemplação em contemplação, Edgar esqueceu a demissão ocorrida há alguns meses e continuou revisitando os dias em que outrora foi aplaudido. Passava horas de pijama no sofá, com os fones de ouvido e os olhos fechados, a expressão sempre tranquila e feliz. Ali dentro, só coisas boas estavam acontecendo.  No meio do dia, procurava por Mariana. À …

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