Bastidores

Mais aqui, menos acolá

Ser mais quem eu sou e menos quem eu gostaria de ser. Perdi muito tempo olhando para quem eu queria ser. Não de um jeito inspirador, como quem olha para uma estatúa e pensa: eu queria ser bom o bastante para merecer ter uma estátua, mas de um jeito fantasioso, infantil, como quem olha para um personagem de desenho animado cheio de poderes. Quero olhar mais para quem eu sou e para o que posso fazer a partir disto aqui. Jogar a régua fora, esquecer as métricas universais; meu caminho é só meu. Às vezes é cheio, às vezes tenho que abrir a mata fechada a machadadas, mas é meu. Olhar mais para o relógio e menos para o calendário. Um mês não é quase nada, mas até às 16h dá para fazer bastante coisa, é só reparar. Meu tempo também é só meu. Ser grata, humilde, realista. A vida nas revistas está a uma gota de chuva de se desintegrar. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Armários e Caixas

Numa caixa na prateleira de baixo guardei tudo o que me pertence, independente do valor. De uma marca-páginas marrom a um mouse quebrado. Também aquela saia laranja, aquele sonho para o qual me faltou coragem, os dias em que, ansiosa, não dormi, os itens que não pude comprar, os textos que não escrevi, as mágoas que engoli, o desespero que alimentei, os silêncios que não apreciei, as palavras que falei sem pensar, as belezas que não contemplei, os lugares aonde não fui, as flores que não plantei e muito menos colhi, as músicas que não ouvi, outras tantas que não cantei; o máximo que não fiz, os dramas que encenei, o muito que errei, o pouco que acertei, os vários que sequer tentei. Os dias que não vi, os sóis aos quais assisti, os nomes dos quais não me esqueci, as mensagens que não enviei e as que enviei, mas apaguei. As orações que não fiz, os perdões que não pedi, os remédios que não tomei, os sorrisos que escondi e os que ofereci. Os livros que li, os que quero ler, os filmes aos quais assisti e as fotos que tirei. É uma caixa bem grande e funda, pesada de tanta ausência, tanta supressão e covardia. Dentro, um pouco de exagero também. Tirei tudo e espalhei pelo chão como quem procura um pedaço de tecido bom no meio de retalhos. Não encontrei quase nada, então fui unindo os itens e tentando costurar alguma coisa para o ano novo.  A saia laranja fica, esse sonho parece realizável, vou pesquisar como que faz; respire fundo, conte até dez, nada vai ruir tão desastrosamente assim. Escrever mais, dar menos importância, não desesperar porque o poder de quem não desespera é enorme. Ficar em silêncio, reparar como o mundo é bonito que só. Plantar flores; não, não, comprar mesmo. Mais um, menos um. Comprar aqueles jogos de tabuleiro, deixar o sushi para a noite de sexta. Cantar em francês, italiano e latim. Dar o máximo e não se entristecer ao perceber que o máximo pode medir dez centímetros. Não ter medo de doer, tomar remédio. Olhar mais pela janela, o dia está passando. Enviar menos mensagens, receber, sim, e responder o quanto antes. Pedir e ouvir um sim, pedir e ouvir um não. Lembrar que tudo coopera. Agora a caixa está mais leve, posso mudá-la de lugar e pô-la para a prateleira de cima. A caixa de baixo agora é outra. Ano que vem eu conto o que tem dentro.

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O que eu sei, o que eu imagino e o que eu invento

Suponho que eu saiba um terço sobre você; o outro terço eu imagino e o outro eu invento. Sei que você é contido, talvez tímido, mas não retraído. Imagino que olhe para as pessoas com o semblante sério, não zangado, e que quando está sendo simpático mexa os lábios ligeiramente. Abrir um sorriso, esse sorriso do qual eu tanto gosto, só quando vale muito a pena – isso eu inventei. Eu sei que seu paladar não é muito dado a doces então imagino que você aceite aquele pedaço de pudim por educação. Em minhas invenções, porém, sei que você não recusa mesmo é uma boa fatia de goiabada. Leia também O pedido Sei que seus braços são fortes, que seu corpo é ereto e que seus olhos estreitam quando você sorri. Eu imagino que se entrasse na minha sala agora, o ar daria licença para você passar. Tenho uma convicção quase concreta de que se me olhasse de perto, ah, se você chegasse bem perto, eu faria minhas malas e voltaria para casa com você. Mas essa casa não é minha. Eu não tenho uma cópia da chave pendurada em um chaveiro comprado numa loja de souvenirs, eu não tenho nada além de algumas informações coletadas aqui e ali, um sem-número de suposições e várias invenções irresponsáveis. Na minha cabeça, um dia você vem me buscar, mas sei que não vem.

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Estética, poesia e avós

Algumas pessoas nascem com a alma naturalmente poética. Por ‘naturalmente” eu quero dizer sem investir tanto esforço a ponto de ficar artificial, sem autenticidade e humanidade. Falo da avó que cuidava da flor mais simples do quintal, aquela que nasce em qualquer canto, e não do universitário que faz dois riscos tortos na face e chama de arte.  Penso nas referências estéticas dessa avó sem Pinterest e sem Instagram com filtro do Vsco Cam. Ela achava uma coisa bonita e ficava lá olhando. No máximo, fotograva com uma câmera analógica, mas só se realmente valesse a pena, para não gastar o filme. Talvez foi assim que surgiram as fotos de vó com plantas. Minha avó tinha um quintal muito bonito. Era bem verde, com coentro, babosa e umas florezinhas coloridas. Lá no final, um pé de juçara. Minha avó sabia mexer na terra e isso fazia toda a diferença. Se ela tivesse um perfil no Pinterest, seria muito aesthetic. Ela tinha uma estante vintage de cor escura e um porta-joias com a cabeça de uma bailarina. Tudo muito caro se fosse vendido hoje no Mercado Livre. Naquela época, bugiganga. O cabelo da minha avó era ondulado e brilhoso, e tudo o que ela usava era um creme amarelo da Neutrox. Ela quase sempre saía com um conjunto comfy e combinando. Acho que nunca a vi com muitos acessórios, no máximo um brinco. Minimalista.  Sei lá, minha avó tinha um bom senso estético. Acho que tudo que ela fazia era observar. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Uma questão de sorte

A Lindsay Lohan faz um filme muito bonitinho em que a personagem principal, Ashley, é uma baita de uma sortuda que depois de beijar um grande azarado troca de sorte com ele. Antes disso acontecer, em um dia de chuva, Ashley sai de casa e o porteiro do seu prédio a espera com um guarda-chuva na rua enquanto pede um táxi. Assim que ela põe os pés na rua, o céu abre e o dia cinza se transforma em um lindo de sol. Lembrei-me dessa cena ao ler em 1 Timóteo 6:8 que se temos alimento e vestuário, contentemo-nos com isso. Mais do que um impulso ao comodismo, pensar que em tudo Deus nos provê tira metade da ansiedade que paira sobre nós – quiçá toda. Até mesmo aqueles desprovidos de bens materiais estão assistidos se os que estão ao seu redor têm o bastante para dividir. Leia também Uma beleza calculada Se a sorte é o mesmo que Providência, a cena em que Ashley pode contar com um gentil porteiro, e também é presenteada com o céu limpo, é um ótimo exemplo. Ela está amparada, não precisa ter com o que se preocupar, nem mesmo se irá chegar ensopada no trabalho. E, de fato, não se preocupa. Tanto que responde “Eu preciso mesmo de um guarda-chuva?”, quando o porteiro questiona se ela irá sair de casa sem um. Tudo vai dar certo. Quando Jake rouba sua sorte com um beijo, ele passa a ser o contemplado com tantas bençãos enquanto ela irá passar por maus bocados, igual a qualquer um de nós, com dias de sol e dias de chuva. Ainda assim, ela não está só, pois Jake está habituado aos azares do cotidiano e acaba sendo seu par. Ela continua com sorte, afinal. Esse nome civil da Providência.

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Agora que cheguei ao futuro, quero voltar

Quando criança, eu imaginava um futuro com carros voadores, roupas metálicas e teletransporte. Na minha mente, eu estaria dentro de um automóvel andando sobre ruas estupidamente limpas, prédios escandalosamente altos e espelhados, e totalmente confiada a uma inteligência artificial que diria com voz aveludada: “Seu destino está próximo”, e então deslizaríamos suavemente até o chão. Hoje estou no futuro e em vez de uma voz aveludada o que eu ouço é uma gritaria, e uma gritaria sem som porque se trata de uma gritaria de caracteres. Para onde quer que eu olhe, várias pessoas, inúmeras delas, uma verdadeira multidão, fala de mim. Elas falam sem quem eu possa ouvir uma voz sequer e mesmo assim é insuportável. Falam perto, falam longe, falam verdades, falam mentiras, falam em letras grandes, em letras miúdas. Falam, falam, falam sem parar. E eu não posso tampar os ouvidos porque ainda consigo vê-las, não posso fechar os olhos porque elas continuam a rodopiar ao meu redor, não posso falar mais alto pedindo que se calem porque elas simplesmente não poderão ouvir. Eu não sabia que no futuro era assim, não foi essa a inteligência artificial com a qual eu gostaria de conviver. Eu não queria algoritmos, eu queria um carro voador, eu não queria um sistema de busca onde seja fácil encontrar meu nome, eu queria ver os prédios bonitos da janela; eu não queria que sobre a minha cabeça estivesse um véu tão fino e desintegrável, eu queria olhar para cima e estar tão perto do céu que seria possível tocá-lo. Eu não queria que tanta gente soubesse quem eu sou. Eu queria descer suavemente até o chão e apenas caminhar. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Felicidade – Sabryna Rosa

Em um país distante havia um homem muito rico cujo conselheiro o acompanhava desde a juventude. Era um sujeito sábio, coerente e humilde. No leitor de morte, o homem chamou o único filho e pediu que cuidasse de suas posses e não trocasse de conselheiro enquanto este vivesse. Dito isso, fechou os olhos e partiu. O filho, desacostumado a cuidar de finanças e negócios, mas bastante habituado a desordens de todos os tipos, passou a tratar com irresponsabilidade a fortuna do pai. O conselheiro, sabendo que fazia parte de sua função alertar e corrigir, lançou orientações e advertências. Apontou-lhe os erros e antecipou as consequências. Conheça meus livros Cansado de ouvir o que não queria, o filho mandou o conselheiro embora para sempre. Um dia, em dúvida sobre determinada questão, anunciou que estava em busca de alguém para ajudá-lo, mas não poderia ser alguém cuja soberba e vaidade fosse maior que a vontade de contribuir. Assim, os candidatos apareciam e opinavam sobre diversas questões de acordo com suas experiências. Todos os que sugeriam mudanças, limites e prudências eram acusados de pedantes. Foi contratado aquele que deu a orientação aparentemente mais acerta: “Em toda dúvida que tiver, reflita: qual caminho me faz mais feliz?” De felicidade em felicidade o filho lançou a si mesmo na mais completa ruína. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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O mundo precisa ser salvo – Sabryna Rosa

Jerônimo sonhou que realizava um grande feito. Em sua mente adormecida ele se viu em cima de um palco, vestido em um bom terno, debaixo de holofotes e sob os olhares atentos de uma plateia cheia de expectativa. Era cerca de 10 anos mais velho e sua oratória era perfeita. À medida que explanava suas ideias, via as luzes refletidas nos olhos de quem ouvia. Em um evento histórico, ele anunciava que descobrira como viabilizar a distribuição de água potável para todas as comunidades do mundo que sofriam com a escassez. Conheça meus livros Acordou eufórico, certo de que aquele era o seu propósito e a sua missão na Terra. Passou dias contando para a esposa como iniciaria os estudos e como a ideia amadurecida daria frutos em um projeto que entraria para a história. Dez anos depois ele permanecia no mesmo lugar. A aparência bem diferente do sonho. Em vez da pompa, o anonimato do seu escritório doméstico, no lugar do terno, o pijama amarrotado; e nenhuma plateia ao redor, apenas a esposa pedindo mais uma vez que ele voltasse a procurar um emprego comum e ficasse menos obcecado com a ideia de salvar o mundo. “É o que preciso fazer, é o meu destino”, ele repetia, enquanto as contas eram pagas pela metade e os dias iam embora por inteiro. Salvar o mundo se tornou, afinal, a fuga perfeita para não salvar o básico. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Idas e vindas – Sabryna Rosa

Uma garotinha esperava do lado de fora do consultório quando um corpo magro e trêmulo sentou à sua frente. Com o tronco curvado e as mãos entre os joelhos, o homem se acomodou meio desconfortavelmente no banco e balbuciou algumas palavras para si mesmo. A menina reparou no pé enfaixado e nos dedos cujas pontas não estavam mais lá e que pela cicatriz já haviam sido cortados fora há muito tempo. Curiosa, perguntou quem o acompanhava e como resposta ouviu um “Ninguém não” meio tímido. Imaginou ele voltando para casa guiando seu esqueleto cambaleante e um pé pela metade. Conheça meus livros Há algumas semanas, em outra sala do mesmo hospital, ela testemunhou um burburinho entre as enfermeiras enquanto uma delas desenrolava um saco cinza de dentro do armário. Minutos depois ele guardaria um corpo inerte como um casulo de função invertida. Uma voz baixa disse: “Ela estava sozinha”. O homem de um pé e meio também, e muitos outros que ela viu, e alguns que ela não viu, chegariam e voltariam sozinhos de um hospital. Alguns não para casa. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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A forma que a inveja tem – Sabryna Rosa

Antônia rolou o feed do Instagram até o fim para descobrir que a sua antiga amiga de escola se transformou em uma empresária de sucesso, casada com um homem igualmente bem sucedido e muito bonito. A menina magrinha e pouco charmosa deu lugar a mulher de corpo esculpido e dentes incrivelmente brancos. Antônia, por sua vez, ainda morava na mesma cidadezinha, dava aulas de espanhol e permanecia solteira. Morava com os pais em um sítio e não em um apartamento de frente para o mar. Contudo, não era segredo para Antônia, nem para ninguém, que Marília conquistou o sucesso no atual empreendimento depois de trapacear em negócio antigos, e que seu casamento não passava de uma instituição de aparências. Não era bem uma fofoca, e sim de um fato de conhecimento público, que o sogro dela fora convidado a se retirar da própria casa e morar em um asilo para que o filho e a nora ficassem mais confortáveis e privados de interferências externas. Conheça meus livros Informação confidencial definitivamente não definia o fato de todo o estado saber que o outrora cirurgião plástico de Marília exercia a medicina ilegalmente e por isso não estava mais na ativa. Os procedimentos baratos e com substâncias às vezes proibidas sim, ainda sustentavam seu efeito no corpo aparentemente sem sequelas. Mesmo sabendo que a vida da ex colega de classe era um teatro, Antônia sentiu os lábios se apertarem e o peito se encher de algo que ela não sabia bem o que era. O coraçao esmureceu e depois ficou duro como concreto. A inveja ignorava os meios e considerava os fins. Antônia nunca mudara um zero de lugar que não fosse devido e talvez por isso permanecesse ganhando dois salários mínimos. Tinha receio de remédios milagrosos para emagrecer e isso poderia explicar o leve acúmulo de gordura no quadril. Se usasse meios um pouco indignos, não muito, poderia ter tido uma chance com o filho do prefeito. Importaria ele se relacionar com três mulhdres ao mesmo tempo? Talvez não. Em um apartamento bem decorado perspectivas podem assumir formas diferentes. “Do que exatamente falamos quando pensamos em sorte?”, ela se perguntou, em silêncio, enquanto analisava todas as fotos de Marília mais uma vez. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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