Bastidores

Estética, poesia e avós

Algumas pessoas nascem com a alma naturalmente poética. Por ‘naturalmente” eu quero dizer sem investir tanto esforço a ponto de ficar artificial, sem autenticidade e humanidade. Falo da avó que cuidava da flor mais simples do quintal, aquela que nasce em qualquer canto, e não do universitário que faz dois riscos tortos na face e chama de arte. 

Penso nas referências estéticas dessa avó sem Pinterest e sem Instagram com filtro do Vsco Cam. Ela achava uma coisa bonita e ficava lá olhando. No máximo, fotograva com uma câmera analógica, mas só se realmente valesse a pena, para não gastar o filme. Talvez foi assim que surgiram as fotos de vó com plantas.

Minha avó tinha um quintal muito bonito. Era bem verde, com coentro, babosa e umas florezinhas coloridas. Lá no final, um pé de juçara. Minha avó sabia mexer na terra e isso fazia toda a diferença. Se ela tivesse um perfil no Pinterest, seria muito aesthetic. Ela tinha uma estante vintage de cor escura e um porta-joias com a cabeça de uma bailarina. Tudo muito caro se fosse vendido hoje no Mercado Livre. Naquela época, bugiganga.

O cabelo da minha avó era ondulado e brilhoso, e tudo o que ela usava era um creme amarelo da Neutrox. Ela quase sempre saía com um conjunto comfy e combinando. Acho que nunca a vi com muitos acessórios, no máximo um brinco. Minimalista

Sei lá, minha avó tinha um bom senso estético. Acho que tudo que ela fazia era observar.

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