Para mim, existe uma ordem de natureza literária que merece ser respeitada: primeiro o livro, depois o filme. Ao inverter, o resultado tende a ser frustrante, principalmente se você julga o filme muito bom. Já tive experiências assim com Um amor para recordar, baseado no livro do Nicholas Sparks, O Leitor, adaptação da obra de Bernard Schlink, e agora com A Guerra dos Mundos, protagonizado nos cinemas pelo lendário Tom Cruise (também gostei muito do filme Um lugar bem longe daqui, e temo não apreciar tanto o livro da autora Delia Owens).
Não precisamos entrar na discussão enfadonha de que filmes são produtos diferentes, e que, portanto, não devem fidelidade alguma à obra, seja para o bom ou para o ruim. Como somos leitores, nossa prática habitual é criar cenários enquanto o autor narra a história para nós. Quando essa narrativa se torna de fato um objeto visual, é natural criar expectativas.

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O contrário, porém, é como se decepcionar com o autor por ter criado uma obra aquém da adaptação, esquecendo, propositalmente, que tudo começou com ele, não com o cineasta. Em A Guerra dos Mundos, a estrutura da narrativa é mais simples do que nas telonas. Não tem protagonista tentando reatar a relação com os filhos e nem a Dakota Fanning esbanjando talento, apenas um homem vivendo sua vida comum ao lado da esposa quando alienígenas invadem a Terra e passam a saquear o que veem pela frente. A partir daí acompanhamos um sobrevivente tentando voltar para casa.
“- É preciso ter coragem, – disse. – O medo não o deixa pensar. Para que serve a religião se se deixa vencer pelas calamidades?”
Eu, que aprecio muito um drama por trás de quaisquer eventos apocalípticos, acabo me sentindo um pouco entediada com tantos raios, tiros e explosões de um lado para o outro – episódios que tomam de conta da maior parte do livro –, mas me satisfiz com alguns temas que H. G. Wells inseriu nas entrelinhas.
Fazendo uma analogia com o colonialismo, os marcianos estão em busca de um novo lugar para morar depois que seu planeta ficou inabitável, então decidem tomar à força territórios alheios. O autor também aborda a fé e religiosidade com o personagem de um padre, que, apavorado em meio ao conflito, esquece-se de confiar na Providência Divina e se desespera. Assim como o papel da imprensa, cujas diretrizes podem interferir no comportamento da população diante dos acontecimentos. A linguagem e a comunicação são cruciais para uma sociedade se manter de pé ou desabar.

Exemplo disso é o famoso episódio, ocorrido em 1938, em que uma rádio nos EUA adaptou A Guerra dos Mundos para uma produção radiofônica e muitos ouvintes acreditam que, de fato, o país estava sendo invadido por aliens. O pânico generalizado paralisou cidades, sobrecarregou linhas telefônicas, e, dizem, acarretou até mesmo suicídios. O responsável pela produção foi Orson Welles, que poucos anos depois dirigiu e estrelou Cidadão Kane.
Já comentei em outras oportunidades que não sou a maior fã de ficção científica, e entre os livros de H. G. Wells que já tive a oportunidade de ler, meu preferido ainda é A Máquina no Tempo. O filme de Steven Spielberg, porém, ainda continua sendo uma boa pedida para mim.
Sobre o autor
Herbert George Wells nasceu em Bromley, Kent, a 21 de setembro de 1866 e morreu em Londres a 13 de agosto de 1946. Licenciado em Ciências (1888) contentou-se inicialmente com o cargo modesto de professor em uma escola por correspondência. O jornalismo constituiu, nessa época, uma atividade que complementava seus recursos financeiros, dando-lhe ao mesmo tempo acesso aos círculos intelectuais. A publicação de seu primeiro romance, A Máquina do Tempo (1895), deu -lhe notoriedade imediata, pela originalidade com que abordava um tema de fundo científico. Logo seguiram-se outros do mesmo gênero, igualmente bem recebidos pelo público. Sua maior originalidade, contudo, se fez sentir no campo da ficção científica, gênero no qual é considerado precursor.
Sobre o livro
Título: A Guerra dos Mundos
Autor: Gabriel Zaid
Editora: Itatiaia
Páginas: 171
Ano da primeira publicação: 1898
Avaliação: 3/5
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