Bastidores

A problemática dos romances eróticos

Eu li a trilogia 50 Tons de Cinza na época do estouro, e vi todos os filmes também. Gostei. Observei a discussão sobre a romantização de relacionamentos abusivos e me dei conta de alguns pontos que não tinha me atentado antes. Mas não é exatamente sobre esse livro tão famoso que eu vim falar hoje, e nem sobre os que vieram depois dele com sucesso parecido, como Toda Sua, da Silvya Day, leitura que não ainda não está marcada na minha listinha. O que quero discutir é sobre a influência que eu vi esses livros exercerem na literatura independente. Claro que não foi E. L. James que inaugurou o gênero hot, mas eu acredito que seu livro funcionou para popularizar a figura da mocinha ingênua com o cara experiente que é apaixonante de uma maneira sexy demais para resistir. Digo isso porque percebi o quanto esse tema e enredo são explorados de maneira exaustiva nos romances eróticos. E nem sempre de maneira responsável. Trabalhar com narrativas eróticas mexe com o imaginário do leitor mais do que romances tradicionais, eu diria. Romances nível Nicholas Sparks deixam as meninas esperando um príncipe encantado, romances hot deixam as meninas acreditarem que eles podem fazer o que quiserem com elas. E é aqui que entra a problemática. Eu já me deparei com histórias envolvendo relacionamentos de adultos com menores de idades, relacionamentos violentos além do limite erótico e relacionamentos incestuosos, uma lista que para mim parece mais com categorias de sites pornôs pesados do que com literatura. E com isso eu não quero dizer que não há espaço para o hot na ficção, mas sim refletindo de que maneira esses livros estão sendo construídos e a quem estão sendo entregues. Você pode argumentar que livros violentos tem aos montes, inclusive contra a mulher, como no livro No Escuro, lido recentemente por mim. Sim, nessa história há agressão, abuso e estupro, mas em nenhuma página a autora coloca como normal. Ela partiu dessa premissa e inseriu dentro de um contexto para explanar sua crítica e conscientizar leitoras e leitores sobre relações criminosas. Isso não faz parte de uma fantasia. No instante em que o escritor escreve romanticamente sobre uma adolescente conquistada por um adulto, ou quando ele normaliza relações entre tio e sobrinha, pai e filha, por exemplo – sim eu já vi por aí –, para nutrir certos tipos de imaginação, na verdade ele está alimentando uma indústria tanto literária como pornográfica que não traz nada de evolutivo nem para leitores adultos e muito menos para o público jovem que consequentemente pode chegar nesses livros. Ainda assim, alguém pode argumentar que essas leituras não são obrigatórias, e que a liberdade criativa/ficcional de um autor deve ser mantida, mas nada disso exime o escritor da responsabilidade da sua obra no momento em que ela é lida por alguém. Qual o efeito que essa narrativa tem sobre o leitor? O que ela desencadeia? Que portas ela abre? Principalmente no mercado independente, onde os textos geralmente não passam por nenhum tipo de revisão, edição ou filtro. Saem dos rascunhos diretamente para o Wattpad ou para a Amazon, e são divulgados em qualquer lugar, para qualquer público, muitas vezes sem nenhum tipo de pré-aviso do que se trata. O gênero erótico tem aumentado seu público, e minha crítica aqui não é ao macro, mas à falta de limite ao que deveria servir de base para uma narrativa. Um coração partido pode ser ponto de partida para uma história triste com a qual muitos leitores vão se identificar, mas um abuso tratado como fantasia erótica pode fazer com o que uma vítima ache que nada de errado está acontecendo ou aconteceu com ela. Escritor, sua obra é livre, mas precisa ser instrumento de crescimento para os leitores em alguma medida, mesmo que tenha sido criada para fins de entretenimento. Toda leitura surte um resultado, tenha isso em mente. E para mim, moralidade é um conceito subjetivo, mas algumas coisas são, ou pelo menos deveriam ser, unânimes.

Continue Reading