O protagonista desse livro é o retrato do brasileiro mediano. Em algum grau, o leitor se identificará, ou identificará um próximo, com o comportamento, a angústia, de Luís da Silva. Luís esse que foi filho de Camilo Pereira da Silva e neto de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva. Os nomes foram diminuindo proporcionalmente à fortuna. O patriarca foi um fazendeiro de posses e escravos, para o neto restou o da Silva — só mais um no Brasil.
Do avô, ele herdou a arrogância aristocrática, que não passa de um arroto malcheiroso já que perambulou pelas ruas até conseguir um emprego público onde ganha o suficiente apenas para pagar um quarto de pensão em um bairro sujo e periférico.
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Nesse lugar, predomina uma miséria moral que é muito mais nociva do que a miséria financeira. Luís da Silva acha que não faz parte dela porque teve acesso à educação e lê livros cultos, mas não se distancia tanto assim, agindo mais de uma vez como um indivíduo sem caráter.
Ele se apaixona por Marina, uma moça cuja maiores preocupações é o batom vermelho e as unhas pintadas, e é por causa dela que Luís vai afundar ainda mais na angústia de um homem de personalidade gelatinosa.
“Nunca se acaba a dignidade da gente, d. Adélia”.
Sua inveja de Julião Tavares, seu exato oposto, rico, bem relacionado, e com muitos mais chances de conquistar Marina, irá levá-lo ao extremo da pobreza de espírito. E o livro, cíclico, começa e termina com esse delírio.
A mediocridade não é proposital, ela vai chegando sem pedir licença, esparramando-se pelas peles dos indivíduos, como fez com d. Adélia, mãe de Marina, que foi de moça bonita à velha dona de casa a perder os dias esfregando roupas no quintal; como faz com o guarda civil, com o menino engraxate e com tantos e tantos brasileiros que se espremem todos os dias nos ônibus, metrôs e interiores deste Brasil. É uma marca que não se pede pra carregar, mas se carrega porque não tem outro jeito.
A vida de Luís da Silva é trabalhar das nove às cinco, contar moedas, dividir os livros com os ratos da pensão, maldizer os vizinhos, flertar com a infelicidade, lamentar o passado, e ser carrasco de si mesmo. Um pobre coitado como muitos de nós.
Sobre o autor
Graciliano Ramos de Oliveira nasceu na cidade de Quebrângulo, Alagoas, no dia 27 de outubro de 1892. Filho de Sebastião Ramos de Oliveira e Maria Amélia Ferro Ramos, era o primogênito de quinze filhos de uma família de classe média do Sertão nordestino. Passou parte de sua infância na cidade de Buíque, em Pernambuco, e parte em Viçosa, Alagoas. Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 20 de março de 1953, vítima de câncer de pulmão.
Sobre o livro
Título: Angústia
Autores: Gracilianos Ramos
Editora: Itatiaia
Páginas: 208
Ano da primeira publicação: 1936
Avaliação: 5/5
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