Bastidores

Inspiração para escrever: isso existe?

Desde o meu primeiro livro, Cafés Amargos, publicado em 2013, eu passei um bom tempo sem escrever. Digo, escrever outras histórias. Eu estava no meio da faculdade e sedenta para concluir a universidade, ao mesmo tempo em que me envolvia em outros projetos de estudos e ia deixando a escrita para depois. Até o ano passado meu plano era: depois que eu conseguir determinada coisa, minha mente estará mais tranquila e então posso voltar a escrever sem maiores preocupações. Por que eu disse isso? Porque eu sabia que escrever iria me demandar não só tempo como uma preparação técnica e teórica por trás. O fato é que essa tal coisa nunca aconteceu e eu nem sei quando vai acontecer, e, com isso, a tão esperada fase da minha vida em que eu voltaria a escrever ia ficando para depois e nunca chegava. Então eu decidi colocar a escrita como uma das prioridades. Digo uma das porque hoje não é minha principal fonte de renda e às vezes preciso me dedicar menos tempo para poder cumprir trabalhos e prazo que pagam as contas (escritor em tempo integral existe mesmo ou é meme?) Toda essa introdução foi para contar que certa vez eu sentei na minha cadeira, liguei o computador e disse “hoje vou escrever, vou trabalhar naquela minha história e ponto final”. Então esperei a inspiração. Escrevia uma linha, apagava, escrevia outra, apagava, trocava uma palavra, colocava um ponto, mudava uma vírgula de lugar. Ao final do parágrafo eu achei um lixo tão grande que coloquei as mãos na cabeça e comecei a chorar. Pensei “não sei mais escrever, eu não consigo mais”. Ora, sua burrônica, é claro que não conseguia. Se estava há anos sem correr como queria avançar quinhentos metros sem perder o fôlego? Aquela falta de tato com as palavras não era nada mais do que falta de prática. Naquele dia, depois de chorar e aceitar que eu não conseguiria, eu fechei o computador, respirei fundo e pensei: quando estiver inspirada eu volto. Para mim, naquele momento, o problema era esse. Outro erro. Porque, olha só, a inspiração é aquela sua tia-avó que te visita só de vez em quando e às vezes conversa um pouquinho e vai embora. Não é aquele seu amigo que está todo dia na sua casa abrindo sua geladeira sem pedir permissão e sua mãe já deixa o pedaço do frango preferido dele separado porque sabe que ele vai aparecer para almoçar. A inspiração é um parente distante, a disciplina é a sua melhor amiga, sua companheira. É a disciplina que vai te colocar todos os dias para escrever e é com o apoio dela que você vai praticar. A prática sim, eleva o nível da sua escrita. A inspiração, na minha opinião, é um mero vento que sopra tranquilo no seu ouvido em um fim de tarde bonito. Acontece que há fins de tardes feios. Nublados, chuvosos, barulhentos, e nesses dias você precisa escrever também. Hoje eu tiro no mínimo 45 minutos do meu dia para escrever. Não importa se está bom ou se está ruim, quando você está no processo de criação isso não importa – no processo de edição e revisão sim –, o que importa é que não depender de inspiração me faz melhorar muito mais do que só escrever quando ela está massageando minhas costas. Imagina ligar para o trabalho e dizer “poxa, chefe, hoje não estou muito inspirado, vou faltar.”? Por que isso existiria no seu ofício de escritor? Ainda que trabalhe com processos criativos, a disciplina é a sua garantia de que você vai produzir. A inspiração alivia, conforta, mas a longo prazo limita. A disciplina tem a cara fechada, mas liberta você. Porque com disciplina o seu livro chega ao fim uma hora ou outra, com a inspiração ele vaga por aí sem saber quando volta.

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