O primeiro requisito para apreciar a leitura de Robinson Crusoé é ter inclinação para gostar de diários. O segundo é não se aborrecer com descrições minuciosas. Como eu não tenho nem um dos dois, não foi um livro de que gostei muito. Contudo, ainda foi uma leitura proveitosa.
A narrativa não é dividida em capítulos. São apenas duas partes, onde a primeira conta o início da vida do protagonista como marinheiro, e a segunda narra como ele sobreviveu sozinho em uma ilha remota. Tudo pelo viés do próprio Crusoé, que expõe também suas reflexões pessoais nos momentos de triunfo e de fracasso.
O primeiro sentimento escancarado é o de arrependimento. Quando contou ao pai sobre o desejo de desbravar o mundo, Robinson foi duramente repreendido. O pai tenta convencê-lo a não embarcar nessa aventura com um discurso bastante sensato sobre cultivar uma vida mediana em vez de uma vida cheia de altos e baixos.
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“[…] que eu era de condição média, ou o que se pode chamar da camada superior dos homens inferiores, que ele descobrira por longa experiência ser a melhor posição do mundo, a mais adequada à felicidade humana, poupada dos sofrimentos e das asperezas, dos trabalhos e das dores da fração mecânica da humanidade, e dos embaraços que o orgulho, o luxo, a ambição e a inveja podem trazer para a camada superior. Disse-me que uma coisa bastava para avaliar a felicidade desse estado, a saber: que era sempre essa a condição de vida invejada por todos os demais; que muitas vezes os reis lamentavam os efeitos terríveis de terem nascido para os grandes acontecimentos, desejando na verdade terem nascido a meio caminho, entre os dois extremos, sábios afirmavam ser esse o justo padrão da verdadeira felicidade; e que ele rezava para nunca se ver às voltas com a pobreza nem com a riqueza”.
Não podendo voltar atrás, quando o personagem se vê isolado em uma ilha, não lhe resta outra opção senão aceitar o destino e concentrar suas ações e emoções na manutenção da sua sobrevivência. Começa aqui a extensa narração dos vinte e tantos anos que Robinson Crusoé passou na ilha, transformando os restos do navio naufragado – de onde ele foi o único a sair vivo – em ferramentas e artefatos que pudessem facilitar a sua vida. A construção de uma casa (duas, na verdade), a domesticação de animais, o cultivo de alimentos, até o processo da sua conversação – dado por meio da leitura de uma Bíblia que mantinha consigo.
Todos esses elementos simbolizam o nascimento de uma civilização a partir de um único homem, que chega a se autodefinir como rei, príncipe, e governador da ilha, por ser o detentor da propriedade, da agricultura, da pecuária, das armas e da religião.
O livro me lembrou muito de O Senhor das Moscas (William Golding), que também trata da organização de uma sociedade – esta, porém, com um grupo de crianças e adolescentes – em uma ilha, e igualmente pesa a mão no texto descritivo. Coincidência ou não, também não foi uma leitura muito divertida para mim.
O elemento interessante na leitura é acompanhar o amadurecimento do jovem que até então não havia passado por nenhum grande percalço na vida e romantizava o trabalho de marinheiro. Assim como a simbologia do colonialismo, que toma posse dos territórios e os moldam conforme os próprios costumes e cultura.
Definitivamente, é um livro que acrescenta, e muito, ao repertório de qualquer leitor. Só não entrou na minha prateleira de favoritos.
Sobre o autor
Daniel Defoe (1660-1731) é considerado por muitos o primeiro romancista de fato, com grande influência no desenvolvimento do romance inglês. Escritor prolífico e versátil, abordou temas diversos em cerca de quinhentos livros.
Sobre o livro
Título: Robinson Crusoé
Autor: Daniel Defoe
Editora: Penguin
Páginas: 408
Ano: 1719
Avaliação: 2/5
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