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[Resenha] Reparação – Ian McEwan

Reparação já começa apresentando Briony e seu gosto por alimentar a mente fértil com fantasias. Aos treze anos, ela gosta de escrever romances e peças de teatro, mas reconhece que lhe falta “aquele vital conhecimento do mundo”. Também no primeiro capítulo a narrativa aponta uma determinada característica em Briony, o fato de que ela não tinha maldade e que gostava de ver o mundo em ordem, sem destruição. E onde tudo isso entra na história? Naquele verão dos anos 30, a família Tallis se prepara para receber o filho mais velho, Leon, o amigo Paul, e os sobrinhos Lola e seus irmãos gêmeos, Pierrot e Jackson, para um fim de semana. Cecília, a filha do meio, já está na casa, e Briony, a caçula, trabalha em uma pequena peça de teatro que gostaria de apresentar aos convidados na noite do jantar. Robbie, o filho da empregada e quase membro da família, também está entre os participantes. No meio da noite, um crime sexual acontece e Robbie é acusado por uma testemunha ocular: Briony. A partir daí, muitas são as consequências dessa acusação, uma vez que Robbie é preso ainda na mesma noite. A vaidade de Briony O livro é dividido em quatro partes. Na primeira parte, a história dá o protagonismo a Briony, colocando-a como o olho que tudo vê e dando a ela o privilégio da palavra. Ela é quem assiste de longe à cena do vaso caindo na fonte; ela quem flagra Cecília e Robbie na biblioteca; ela quem testemunha o estupro de Lola. Quando o evento catastrófico acontece (ela acusar Robbie de ter estuprado a prima Lola), eu vejo que Briony se deixou levar por uma motivação bastante infantil de ser a heroína da história, como se, frustrada pela impossibilidade de ser a protagonista da peça que estava ensaiando, ela quisesse agarrar uma oportunidade de fazer a diferença no mundo real, no mundo dos adultos. Leia também [Resenha] As Brumas de Avalon Ainda impactada pelo flagrante de Robbie e Cecília na biblioteca – um evento consensual e não uma violência -, Briony constrói uma imagem de vilão em cima de Robbie, um vilão bastante caricato, com traços de psicopatia e crueldade. E é com essa imagem na cabeça, e com um desejo de proteger as pessoas do “mal”, que ela afirma com todas as letras que Robbie é o agressor de Lola, muito embora ela não tenha visto com clareza e nem a própria Lola possa dar essa certeza. Agora, tudo isso acontece em um dia em que Briony declara a si mesma que a partir dali não é mais criança, que os contos de fadas ficaram para trás e agora ela lida com problemas de adulto. Mas foi justamente a responsabilidade e a maturidade de um adulto que lhe faltaram quando foi necessário que ela analisasse a situação com clareza. É certo que talvez um adulto de verdade cometesse o mesmo erro, mas talvez não pelas mesmas motivações. A própria Lola, a vítima, com um pouco mais de idade, se reservou a dizer que não viu direito, enquanto Briony sente uma necessidade quase irresistível de estar certa porque quer ser relevante, porque quer fazer justiça, porque quer ser a protagonista daquela história, porque não quer ser taxada de criança boba e voltar atrás. “Briony caiu numa arapuca armada por ela própria, penetrou num labirinto construído por suas próprias mãos, e era jovem demais, estava impressionada demais, excessivamente sequiosa de agradar aos outros, para insistir numa retratação”. A reação de Robbie Na segunda parte, Robbie está na guerra. Depois de três anos preso, ele aceita servir porque é melhor do que estar na prisão. É uma parte bem longa (inclusive no filme), onde ele tenta sobreviver para reencontrar Cecília enquanto atravessa o país com as cartas dela no bolso. Ele nutre um rancor de Briony do qual não faz nenhum esforço para se livrar. “Não era razoável nem justo odiar Briony, mas ajudava”. A autopunição de Briony Na fase seguinte, vemos Briony já ali com seus dezoito anos, servindo na guerra como enfermeira de um hospital. Ela carrega a culpa do que fez e de certa forma tenta usar aquele trabalho como penitência. Um trabalho difícil, braçal e sangrento, como se ela quisesse achar algo mais cruel e feio para se sobressair ao seu passado. Ainda nessa mesma fase, Briony procura Cecília (elas se separaram desde o episódio do jantar) e a encontra em uma cidadezinha aos arredores de Londres ao lado de Robbie. Os dois a tratam com repulsa, mas o medo de Briony de que eles nunca mais se encontrassem é aliviado. Ela sai dali com a promessa de retratar seu depoimento e, quem sabe, retirar a condenação de Robbie – que ainda cumpria pena, estando apenas cedido para o Exército. A Reparação Atenção, spoiler! Porém, na quarta e última parte nos deparamos com Briony com 77 anos de idade, já no final dos anos 90, contando em primeira pessoa que a terceira parte dessa história só é verdade em partes. Ela nunca procurou Cecília e Cecília nunca reencontrou Robbie. Ambos morreram na guerra e Briony se sentiu no dever de reparar, ainda que ficcionalmente, uma história que não terminou feliz por interferência sua. O desejo de ser uma escritora se concretizou e ela fez carreira na profissão, trabalhando a vida inteira em um romance no qual o casal apaixonado vive seu amor, já que na vida real isso não foi possível. Um caminho sem volta Eu vejo que na transição de uma fase para outra há não só um amadurecimento dos personagens como um endurecimento das personalidades deles. O livro começa num dia quente, ensolarado, porque tudo está bem e animado. Cinco anos depois, Robbie é um homem castigado, Cecília alimenta amargura pela família e Briony se consome de remorso enquanto fecha feridas em carne viva dos soldados. Tudo ficou mais duro para todo mundo. A narrativa também lança uma pergunta: Até onde é possível usar a imaturidade (ou a pouca idade) como …

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[Resenha] O Sol Mais Brilhante – Adrienne Benson

Sinopse Leona, Simi e Jane são três mulheres de origens diferentes que têm suas vidas entrelaçadas no Quênia em uma jornada em busca de realizações pessoais e do sentimento de pertencimento. Cada uma com seu passado – às vezes tentando fugir dele, às vezes tentando entendê-lo – elas seguem adiante e a história ecoa na geração seguinte, onde suas filhas se aproximam e vivem suas próprias atribulações. Resenha Leona, uma antropóloga, saiu dos EUA para pesquisar os massai, uma tribo tradicional queniana, e estudar seus costumes e tradições. Em Nairóbi, ela conhece John, um habitante local com raízes inglesas. De uma noite sem compromisso onde eles sequer sabiam o nome um do outro, nasce Adia, uma filha que Leona não desejou, e por não desejar, entregou-a em adoção a Simi. Simi é uma típica massai e cresceu sabendo que um dia seria circuncidada e dada em casamento a alguém. Ainda assim, sua mãe sustentou até onde pôde o desejo de ver os filhos – principalmente a filha – alfabetizados, fazendo de Simi uma das poucas mulheres da aldeia que sabia ler, escrever e falar inglês, habilidade que a aproximou de Leona quando ela chegara à tribo. Contudo, depois de se tornar a terceira esposa de um membro da tribo, Simi descobre que é infértil, e nem os rituais e oferendas mudaram sua condição de agora mulher menos valiosa. Enquanto as outras esposas pariam um filho por ano, Simi via sua condição ir se deteriorando e ter como sorte não ser expulsa de uma comunidade que via a infertilidade como maldição. Dessa forma, quando Simi adota formalmente Adia, ela passa a ser mãe de verdade, e sendo mãe de verdade, seu lugar na tribo está reconhecido. Porém, no futuro, ela e Leona entrarão em conflito por conta da garota meio-americana, meio-massai. Paralelamente, em algum lugar dos EUA, Jane investe seu tempo na carreira de bióloga para esquecer que perdeu a mãe cedo e que seu irmão caçula é esquizofrênico e mora, isolado, em uma clínica. Partindo para a África com o objetivo de pesquisar e mapear os hábitos de elefantes ameaçados pela caça ilegal, ela conhece Paul, futuro embaixador americano e seu futuro marido, com quem terá Grace, seu ponto de apoio em meio às constantes mudanças que terão quando ela deixar a profissão para acompanhar Paul. Alguns anos depois, Grace e Adia serão adolescentes e melhores amigas. Leia outras resenhas Dividido em três partes, O Sol Mais Brilhante narra de maneira sensível e envolvente a história dessas três mulheres, todas com um ponto em comum: são mulheres com passados que deixaram marcas e influenciaram fortemente nas decisões que elas tomaram no futuro. Leona sofreu abuso sexual do pai na infância sob conhecimento da mãe, que nada fez para impedir ou punir o marido. O trauma desencadeou a introspecção em uma garota que cresceu acreditando que ninguém era confiável o bastante para ela se envolver, e por isso sua fuga mal disfarçada pós-noite com John. Por isso seu desejo desesperado em entregar Adia a alguém que pudesse ter e ser uma referência melhor. John, por sua vez, acaba sendo um personagem coadjuvante de peso nessa história. O pai, alcoólatra e agressivo, foi o estopim para uma tragédia que marcou a vida da família, e a mãe, na velhice e com Alzheimer em meio às dores do passado, gerou uma confusão que repercutiu por mais de dez anos na vida do filho. Simi decidiu desde muito cedo que suas filhas também teriam acesso à educação, pois a oportunidade que ela teve, embora interrompida na adolescência, mudou quem ela era e a forma como ela via a si e aos seus pares. Ainda assim, erra quem pensa que Simi negou suas origens e sua cultura em nome de uma suporta emancipação feminina. Ela continuou querendo ser uma boa mãe e esposa massai, continuou querendo ter muitos filhos e dar alegrias à comunidade. A infertilidade provocou feridas e mexeu com sua autoestima, mas Simi jamais quis fugir do seu destino ou da sua gente e tudo suportou. Viu em Adia um alento, amando-a e educando de uma maneira que fazia a garota gostar mais da sua vida na tribo do que ao lado da mãe biológica. Adia tem voz na última parte do livro e é uma menina com suas próprias questões (não vou dar spoilers), que tenta se encontrar no meio de visões e posicionamentos tão diferentes. De um lado, uma aldeia enraizada nos costumes locais, no outro, uma quase pressão em ser americana “de verdade”. O estranhamento dos demais – “Como pode uma africana ser branca?”, “Por que você usa acessórios esquisitos?”, em certo momento causa dúvidas nela mesmo sobre quem ela é a que povo ela pertence. Ela deveria continuar se comportando como uma massai ou deveria aprender de uma vez por todas os modos estadunidenses? O contato com Grace gera um choque ainda mais potente, pois Grace tem pais afetivos, uma mãe cuidadosa – até demais – e uma casa que não tem barro pelo chão. Ela assiste a filmes tipicamente americanos e fala coisas que Adia não entende ou nunca ouviu falar. A amizade das duas vai dar uma virada na história que pode tocar até os corações mais duros. Eu gostei de como os personagens de Adrienne Benson, que iniciou sua carreira de escritora com esse romance bastante elogiado, são moldados sem estereótipos, com originalidade, mas também com familiaridade. Quem de nós já não se sentiu perdido em um primeiro dia de aula na escola nova? Agora ponha isso em perspectiva macro e se imagine no lugar de Jane, em outro país, com pessoas e idiomas estranhos. Da mesma maneira, Adia, acostumada a ter o pé no chão, vê-se às voltas com os hábitos arraigados de Grace, super protegida pela mãe e totalmente alheia ao mundo ao seu redor. Conhecer a cultura do Quênia, mais especificamente dos massai, pode ser estranho no começo, principalmente quando entramos em contato com a circuncisão feminina, costume proibido desde 2011 no …

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[Resenha] O Morro dos Ventos Uivantes – Emily Brontë

Sinopse Heathcliff foi encontrado maltrapilho nas ruas de Liverpool e adotado por Earnshaw, proprietário do Morro dos Ventos Uivantes, um lugar propício a tempestades e vendavais. Bem tratado pelo pai adotivo, Heathcliff logo gera ciúmes no filho mais velho, Hindley, de quem terá o desprezo pela vida inteira. Por outro lado, a segunda filha, Catherine, se tornará sua amiga, confidente, e seu primeiro e único amor. E é por causa dela que Heathcliff seguirá rumo a uma vida de vingança e ódio. Atenção, esse texto contém spoilers. Uma longa história Essa história começa não com Heathcliff criança, mas bem adulto e já dotado de todos os traumas possíveis. Tudo começa quando o Sr. Lockwood aluga a Granja dos Tordos e resolve visitar seu dono, Heathcliff, um homem frio e antipático. Saindo de lá com a pior das impressões, resolve perguntar à empregada Nelly o que ela sabe sobre esse homem mal-encarado e de humor inacessível. Pela voz e narração de Nelly o leitor vai conhecer toda a história dessa família. Heathcliff pode lidar com os maus tratos enquanto Earnshaw viveu e o protegeu. Contudo, depois de sua morte Hindley levou a sério sua intenção de transformar a vida do cigano – como era chamado – em um inferno. Colocou-o no nível dos empregados e se empenhou em maltratá-lo do jeito que pode, sendo a amizade com Catherine o único consolo do garoto. Uma das provas da insignificância social de Heathcliff é que esse era seu nome e sobrenome. Ou seja, ele não era ninguém, nem mesmo um membro oficial da família. Catherine, mimada, bem criada, se afeiçoou a Heathcliff e nutriu por ele um sentimento genuíno, mas conforme a pressão de se casar foi ficando mais forte com a idade, ela reconhece que, mediante sua condição, casar com ele está fora de questão. Que vida o pobre Heathcliff poderia lhe proporcionar? Então surge Edgar Linton, herdeiro da Granja dos Tordos e um pretendente muito mais viável. Com a intenção, e motivação, de Catherine se casar com Linton, Heathcliff foge sem olhar para trás ou dar qualquer satisfação, voltando algum tempo depois com uma fortuna inexplicável e muita vontade de devolver aos habitantes da sua antiga casa tudo que ele sofrera durante os anos que vivera ali. Sua primeira ação é se casar com Isabela, irmã de Edgar, e depois se revelar um marido inescrupuloso, arrogante e profundamente desprezível. Isabela foge, grávida (guarde esta informação), e só temos notícias dela muito tempo depois. Nesse intervalo Catherine dá à luz a uma menina, Cathy, e morre logo em seguida. Parte em decorrência do parto, parte por consequência de levar uma vida que escolheu por conveniência. Sabe quem também teve um filho? O “adorável” Hindley, que se entregou ao jogo e à bebida depois da morte de sua mulher e afundou sua família em dívidas. Aqui Heathcliff não perde tempo e executa mais uma parte de sua vingança. Toma o filho de Hindley, Harenton, para si e o cria da mesma maneira que fora criado: com maus tratos, má educação, ignorância, e desprovido de quaisquer privilégios. Além de ter se aproveitado da situação de Hindley para comprar O Morro dos Ventos Uivantes. Ufa! Ainda tem mais coisa ruim nessa história? Claro que tem! Continue. Cathy, a filha de Edgar e Catherine, cresce com o pai e é superprotegida, sendo inclusive tolhida de desbravar os limites da Granja, o que causa grande interesse na garota em saber o que tem de tão ofensivo do lado de lá, sobrando para Nelly – sim, Nelly viveu nas duas casas e acompanhou tudo de perto – segurar as pontas de sua curiosidade. Lembram da Isabela? Ela criou Linton Heathcliff até a adolescência, quando morreu e seu filho foi morar com o pai nota dez que já sabemos quem é. Linton era um menino fraco de saúde e, olhem só, tinha a personalidade parecida com a de quem lhe deu seu sobrenome. Mas alguém seria páreo para o grande Heathcliff? Como uma das cartadas finais, nosso anti-herói obriga o filho a se casar com Cathy e assim reunir em uma família só ambas as heranças. E quando digo obrigar, é obrigar mesmo! E é assim que o Sr. Lockwood encontra a casa no morro dos ventos uivantes: um lugar cheio de pessoas duras de coração, ressentidas, arredias uma com as outras e cheias de ódio para distribuir. Mas também pudera, né? Leia outras resenhas Onde O Morro dos Ventos Uivantes está na literatura? Com tantas características em uma obra só, O Morro dos Ventos Uivantes não chega a ser enquadrado em uma única escola literária. O livro tem traços da Escola Romântica como a valorização da natureza, paixões intensas e personagens individualistas, além de abarcar o papel do herói byroniano. Lord Byron foi um poeta do século XIX e uma figura importante no romantismo. Um herói byroniano seria o que hoje conhecemos como anti-herói, e poderíamos definir como alguém fora dos padrões morais da sociedade, mas com capacidade de se afeiçoar romanticamente a alguém. Além disso carrega características como poder de sedução, conflitos emocionais, arrogância, esperteza e passado problemático. Lembra alguém? Heathcliff, embora sendo como é, tinha por Catherine um amor explosivo, exasperado, e até mesmo doentio, eu diria – a ponto de mandar o coveiro abrir o caixão dela e cavar ali do lado o lugar onde ele próprio queria ser enterrado. A obra de Emily Brontë também apresenta algumas nuances da Escola Gótica como atmosfera melancólica e eventos atrozes. O livro ainda teria uma pontinha ali de Realismo, dada a construção dos personagens. Uma história de amor? Há controvérsias. Pessoalmente, eu diria que de amor tem muito pouco nessa história. Na verdade, trata-se mais de uma vingança estimulada por um sentimento desprezado. Podemos perceber que a maldade de Heathcliff começou como uma resposta ao que ele sofrera na infância. No afã de retornar o mal que lhe fizeram, ele acabou dando abertura para uma geração tão perturbada quanto, uma vez que ele educou Harenton com …

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[Resenha] Sangue na Neve – Jo Nesbo

Sinopse Olav é um matador de aluguel que presta serviços a Daniel Hoffmann, um dos maiores criminosos de Oslo. Todas as ordens são executadas prontamente até Hoffmann encomendar a morte da própria mulher, por quem Olav se apaixona instantaneamente. Resenha Meu primeiro contato com Jo Nesbo foi digno de colocá-lo entre os favoritos sem muito medo de me arrepender depois. A construção do personagem leva em conta não apenas a sua profissão, ou o que decorre dela, mas envolve traços de pessoas comuns, como ser um frequentador de bibliotecas públicas. Algumas outras características peculiares em Olav: ele é disléxico, não sabe dirigir devagar, é muito sentimental, se apaixona fácil e é ruim em matemática. O livro é narrado em primeira pessoa, então é o próprio Olav quem nos apresenta seus defeitos e qualidades logo no início, e cada uma delas acaba aparecendo em algum momento durante o livro. “E, de acordo com um tal de Hume, o fato de até agora eu ter acordado toda manhã no mesmo corpo, no mesmo mundo, onde o que aconteceu de fato aconteceu, não era garantia de que a mesma coisa voltaria a ocorrer na manhã seguinte”. Dirigir rápido é uma atitude suspeita, e se você está roubando algo é melhor disfarçar o quanto puder. E por falar em roubo, essa é uma das “profissões” que Olav experimentou e descartou da sua lista de habilidades por sentir um remorso muito grande com relação às vítimas. Ser cafetão também não era pra ele, uma vez que ele se afeiçoava às prostitutas e não admitia bater e nem vê-las apanhando. E traficar drogas é um ofício muito ruim para quem tem dificuldades com cálculos. Por isso, entre as atividades ilícitas de Daniel Hoffmann, sobrou uma vaga de matador de aluguel, que, para surpresa de Olav, ele conseguia executar muito bem. Assassinar a mulher de seu chefe parecia só mais um trabalho, por mais estranho que fosse, mas se tornou uma questão pessoal quando ele viu a linda Corina caminhar “como um gato” em seu apartamento e deixar seus sentidos bagunçados. Ele não era mais um homem a mando de um criminoso, mas alguém cuja disciplina foi transformada em compaixão e, em seguida, em paixão. “A vida parece ser simples quando você está doente”. Corina fora jurada de morte por estar traindo Daniel e a ideia de matar o amante, em vez da traidora, pareceu mais inteligente para Olav, que com essa simples decisão tomada por conta própria gerou consequências inimagináveis e selou seu destino num caminho sem volta. A partir daí sua vida dá um giro e ele se vê obrigado a partir em outra direção e com outros objetivos. Olav é um assassino por encomenda, mas adquiriu princípios que se transformaram em um código de ética inviolável, e seus sentimentos, mais do que sua razão, acabam guiando suas ações, não só no núcleo que envolve Corina, como nas lembranças da sua juventude, onde tudo começou, com o pai meliante e uma mãe alcóolatra. Minha conclusão sobre Olav é que ele é uma consequência do meio, e não exatamente uma vítima, porque teve oportunidades de não enveredar pelo caminho do crime. Por outro lado, não o vi como um monstro, irrecuperável e irredimível, e sim alguém que decidiu explorar suas habilidades, mesmo sabendo de sua imoralidade e ilicitude, e aceitou as consequências disso. Leias outras resenhas O desenvolvimento do personagem e o equilíbrio na exposição dos detalhes foi muito bem executado pelo autor. Olav tem como livro de cabeceira Os Miseráveis, e conta como é para ele, na sua condição de disléxico, se conectar com as palavras. Ele chega até mesmo a fazer um paralelo de sua história com a de Jean Valjean mostrando como absorve a sua vida num contexto que vai muito além dos crimes. Certamente uma leitura e tanto para começar a conhecer as obras de Jo Nesbo. Esse e muitos outros livros estão disponíveis no catálogo do Kindle Unlimited, o serviço de assinatura de livros da Amazon que custa apenas R$ 19,90 por mês. Para assinar clique aqui. Sobre o autor Nasceu na Noruega em 1960. É músico, compositor, economista e um dos escritores de policiais mais elogiados e bem-sucedidos da Europa (Fonte: Site Fnac). Sobre o livro Título: Sangue na NeveAutor: Jo NesboAno: 2015Editora: RecordPáginas: 154Avaliação: 4/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui. Esse post contém links afiliados e comprando através deles você colabora com o meu trabalho sem custo adicional no seu produto. Obrigada!

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[Resenha] Transgressões – Uzma Aslam Khan

Sinopse Paquistão, década de 90. Dia é a herdeira de uma fábrica de seda e de uma fazenda criadora de bichos-de-seda. Depois que seu pai foi morto em condições desconhecidas a administração dos negócios ficara a cargo dela e de sua mãe. Daanish é um jovem paquistanês que estuda nos EUA e volta para a cidade natal para o funeral do pai. Os dois se conhecem casualmente e começam um relacionamento às margens das regras e da verdade. Resenha No instante em que Dia e Daanish se conheceram, mais da metade do livro já tinha se passado e eu aceitado que essa história tinha um ritmo próprio. Antes que os dois se encontrassem muita coisa aconteceu, tanto no presente quanto no passado, e esses eventos precisavam ser contados. O livro é dividido por seções e cada seção comporta uma série de capítulos encabeçados por um personagem em questão, todos em terceira pessoa. Dia está na faculdade, mas não muito empolgada com seus estudos. Reprova disciplinas, é desleixada com as provas, e parte disso se deve ao fato de que algumas semanas antes o corpo do seu pai fora encontrado no rio com sinais de tortura. Mansoor era um dos homens mais ricos do Paquistão, e sua fábrica de seda a maior fornecedora do país, o que leva a família de Dia a achar que o crime tenha relação com inimigos políticos ou financeiros. Quando Riffat, sua mãe, assume a direção dos negócios, ela é alvo de críticas severas por parte da sociedade e de seu próprio núcleo familiar, que estranha uma mulher com tamanhas responsabilidades e coragem de aceitá-las. Porém, parte da prosperidade de toda a fortuna veio de sua inteligência e audácia. “O que mais a história tinha mostrado? Que os rios sempre desembocavam no mar e era irrelevante saber qual braço chegava primeiro”. Daanish é um muçulmano nos EUA com a Guerra do Golfo ainda fervendo na memória. Ele estuda jornalismo e usa esse contexto para criticar a imagem que os americanos fazem de si mesmos através da mídia. Contudo, todos os seus posicionamentos são taxados como falta de profissionalismo e que nessa profissão não há espaço para parcialidades – a ironia. Ele volta para casa e encontra uma mãe em luto que passa a direcionar suas emoções para um controle incisivo sobre a vida do filho. Daanish também começa a estranhar os costumes conservadores e a dinâmica das coisas em um país que sofre com a falta do básico, uma vez que ele vivia em uma sociedade onde as coisas são complicadas, em certo nível, mas desburocratizadas em outro. Salaamat é um personagem secundário, porém de suma importância. Ele vem de uma vila de pescadores muito pobre e adquiriu uma deficiência auditiva depois de uma surra que levara na infância de homens da região. Na cidade grande ele começa a trabalhar em uma oficina de decoração de ônibus, uma paixão particular sua. Depois de três anos trabalhando apenas em troca de comida e de um cubículo para dormir, ele entra em contato com um grupo armado que defende a liberdade do Paquistão e o atrai para fazer parte da organização. “[Dia] As histórias de amor não passam de um esporte de grande apelo popular”. A autora costura esses três personagens até eles se encontrarem em um ponto comum que gira em torno do relacionamento de Dia e Daanish. Os dois se conhecem no funeral de Shafqat, pai de Daanish, depois de Nini convidar sua melhor amiga, Dia, para acompanhá-la a um evento que envolve seu futuro pretendente. Dia é terminantemente contra casamentos arranjados, e acha que essa é uma das formas mais claras de opressão às mulheres, pensamento incentivado por sua mãe. Nini, romântica e receosa da solteirice que leva a uma imagem mal falada, quer apenas cumprir com seu destino. Destino esse com o qual Anu, mãe de Daanish, está muito interessada em ajudar a construir. Eu vejo que o livro de Uzma está ancorado em três pilares: a política (as questões militares dos EUA, o sistema paquistanês), a opressão contra as mulheres e os costumes muçulmanos, esses dois com mais força e o primeiro como pano de fundo em algumas cenas e diálogos que Daanish tem em seu núcleo. A narrativa critica muito o valor dado às mulheres. Tão protegidas, tão bem cuidadas (quando dentro de casa), e tão lapidadas para o casamento. Mas se saírem às ruas sozinhas são alvos de comentários grosseiros e assédio escancarado. Quando Dia e Daanish burlam as regras e queimam etapas, para ela é um crime muito maior, enquanto para ele, aos olhos alheios, é apenas um inconveniente no caminho da sua relação arquitetada com Nini. Leia outras resenhas Contudo, as Transgressões que o título adianta vão muito além desse sentimento que se esconde em lugares sabidos apenas por Salaamat. Começa muito antes dos dois nascerem, antes dos bichos-de-seda saírem de seus casulos e antes dessas famílias serem o que são. Dia e Daanish transgridem o que sabem e o que não sabem, e a consequência de erros passados acaba respigando em todo mundo, até nos mortos. Além de falar bastante sobre o processo de produção da seda, desde a criação dos insetos, o livro também ambienta muitas cenas no mundo marinho, um lazer que Daanish dividia com o pai. Os dois sabiam identificar conchas, moluscos, e outras riquezas do oceano. Eu achei que a escolha de não tornar o relacionamento de Dia e Daanish o ponto alto da trama deu equilíbrio à história, que soube dar o peso e a influência certa a cada personagem. Até mesmo Khurram, amigo e vizinho de Daanish, que aparentemente não tem uma função muito clara além de emprestar seu carro para os encontros do amigo, tem, na parte final, seu papel explicado. Também gostei que o casal não foi exatamente um símbolo do amor desesperado e dramático, mas uma relação usada para explicar outros pontos ao redor e mostrar como as expectativas mudam a depender do lugar onde você está. Sobre …

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[Resenha] O Círculo – Dave Eggers

Sinopse Mae é uma jovem recém contratada pelo Círculo, a maior e mais poderosa empresa de tecnologia do momento, cujo objetivo principal é unificar em um só sistema todas as transações do mundo virtual. Sinopse Há muitos pontos a serem discutidos sobre esse livro, vamos um por vez. Eu compreendo a empolgação de Mae em trocar seu emprego em uma repartição pública de interior por um cargo “pequeno”, porém dentro da empresa mais badalada do país, como se ela estivesse indo trabalhar no Google ou no Facebook. Mas o Círculo é tão mais grandioso que desbancou as duas. Por isso, a primeira frase do livro é “Meu Deus, pensou Mae. É o paraíso”. Ela se deslumbra com a arquitetura moderna, tecnológica, e sente o clima de futuro que paira sobre ela. Mae mal pode acreditar na sorte de ter uma amiga como Annie ali dentro, a ponte entre seus sonhos profissionais mais ousados e a realidade acontecendo. “[Annie] É melhor estar no primeiro degrau de uma escada que a gente quer subir do que no meio de uma escada que não interessa, certo? Uma escadinha de cagões feita de merda”. Mae começa no departamento de Experiência do Cliente, um setor que cuida basicamente do atendimento e pesquisas de satisfação – aquelas que as empresas sempre pedem que façamos no final de uma compra – e aqui ela descobre que trabalhar no Círculo significa correr atrás da excelência, por isso ela mesma está sendo avaliada o tempo todo, e sua meta é estar o mais perto da nota 100 possível. Com o tempo, o que era uma tela de trabalho vai se transformando em duas, três, quatro, cinco, até chegar em quase dez. Uma para trabalhar com os atendimentos, outra para interagir na rede social da empresa (sim, é obrigatório), outra para postar na rede social pessoal (também é), outra para ajudar os estagiários e por aí vai. Mae, acha o máximo, pois quanto mais telas, mais ela se sente importante. Ah! Quanto mais os funcionários interagem online, mais eles sobem no ranking e estar dentro dos 2000 primeiros é importante, por isso Mae se esforça em responder, comentar e curtir o máximo de publicações possíveis. Aqui começa a primeira crítica do autor. A exploração que existe por trás das empresas “cool” e suas salas de jogos, seus sofás coloridos e sua política juvenil e despreocupada, mas que tem como principal objetivo manter o funcionário o maior tempo possível dentro da empresa. O Círculo tem áreas para esportes, dormitórios, bibliotecas e piso com ladrilhos motivacionais, tudo para fazer o empregado se sentir mais em casa do que em sua própria casa. Aliás, a primeira advertência que Mae recebe é justamente por ter passado o fim de semana com os pais em vez de aproveitando as atividades extras do campus, sob a máscara de que todos ali fazem parte de uma comunidade e devem participar. O leitor já sente um clique na cabeça, mas Mae se desculpa e promete ser uma funcionária mais ativa. “[Mercer] O que eu devia dizer é que espero o dia em que alguma minoria barulhenta finalmente se levante para dizer que isso foi longe demais e que essa ferramenta, que é muito mais insidiosa do que qualquer invenção humana criada até hoje, deve ser inspecionada, regulamentada, contida e que, acima de tudo, precisamos de opções para ficar de fora”. A outra crítica se refere à obrigatoriedade de compartilhar tudo que se faz, e é a segunda advertência de Mae, que passeou de caiaque e não postou nenhuma foto ou comentou nada no Zing (uma rede social semelhante ao Twitter), algo inadmissível para um círculeiro. Mais uma vez, ela se retrata e diz que vai ser melhor. E assim, aos poucos, Mae vai sendo envolvida naquele universo de modo tão sutil, tão atrativo, que sua cabeça vai sendo moldada a pensar como eles. Até a metade do livro eu achei a narrativa muito lenta e senti falta de mais cenas de ação, mas depois entendi que isso acompanha o ritmo da imersão de Mae naquele ambiente que vai sendo construído como perfeito, e que precisa dela, uma jovem visionária, esperta, inteligente, para fazer o mundo um lugar melhor. Então, o que antes era uma ideia espantosa, mas simples, de unificar transações bancárias online, compras, redes sociais, vai se transformando em algo que invade a liberdade individual das pessoas e as faz acreditar que a privacidade não deve ser um bem próprio, mas sim comum. Afinal, o que você faz quando todo mundo está vendo? Nada de muito errado, não é? Esse é o argumento base do Círculo. Leia outras resenhas Os poucos personagens lúcidos dessa trama, os pais de Mae, seu ex-namorado e um amante misterioso que aparece em sua vida, são perseguidos e taxados de antiquado, como se viver off-line não fosse mais uma opção. De repente, as pessoas sentem necessidade de acompanhar tudo, explorar tudo, saber tudo, perguntar tudo e ter respostas sobre tudo. O autor usa um recurso muito bom para satirizar os digitais influencers, que filmam praticamente cada segundo do seu dia (está lá pela parte II do livro) e como isso acaba sendo tão natural que passa despercebido pela racionalidade. O final não tem nada de heroico, mas sim de muito realista – e que eu já imaginava que iria acontecer, embora esperasse também por um desenrolar clássico -, porque, afinal, que sinais nós temos de que estamos recuando nesse processo? O Círculo foi adaptado para o cinema em 2017, com Emma Watson e Tom Hanks no elenco. Sobre o autor Dave Eggers nasceu em 1970, em Boston. É jornalista, escritor e editor-fundador da McSweeney’s, editora independente com sede em San Francisco. É autor dos livros Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, O Que É O Quê (finalista do National Book Critics Circle Award de 2006), Os Monstros (versão romanceada do roteiro que originou o filme Onde Vivem os Monstros) e Zeitoun, além do romance Um Holograma para o Rei. Sobre o …

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[Resenha] O Mundo Conhecido – Edward P. Jones

Sinopse Henry Townsend e sua família foram escravos de William Robbins, um rico e poderoso fazendeiro da região da Virgínia, EUA, por muito tempo. Augustus, pai de Henry, trabalhou em serviços externos até conseguir comprar sua liberdade e a de sua família, fazendo do seu filho um homem livre ainda na juventude. Porém, Robbins seguiu como mentor de Henry, principalmente nos negócios. E fora ele quem vendeu a Henry uma fazenda e seus primeiros escravos. Resenha Vamos por partes. A primeira coisa que Edward P. Jones consegue fazer com maestria nesse livro é mesclar passado, presente e futuro não só na mesma história, como na mesma cena, e, às vezes, no mesmo parágrafo. Isso pode parecer estranho e confuso no começo, mas depois você pega o ritmo e acha a estrutura narrativa genial porque dá ao leitor uma visão ampla dos personagens, antecipando eventos que são tão importantes de serem conhecidos que não podem esperar por uma cronologia tradicional. Logo no início acompanhamos a reação de um escravo à morte de Henry, e você se pergunta qual o motivo de revelar na primeira página que o personagem central morre e tudo o que eu peço é apenas que confie no autor, siga em frente. O segundo feito de Jones é uma aula de introspecção nos personagens, a escolha ideal para mostrar como o sistema escravocrata suborna até mesmo aqueles que são vítimas dele. “Sou imperfeito, ele [John Skinffington] dizia a Deus todas as manhãs quando se levantava da cama. Sou imperfeito, mas ainda sou barro em vossas mãos, andando da maneira que quereis que eu ande. Moldai-me e ajudai-me a ser perfeito a vossos olhos, ó Senhor”. Quando Augustus tem conhecimento de que seu filho, negro, ex-escravo, vai seguir com a escravidão, ele se choca. E sua mãe, Mildred, revive na memória os conselhos que deu ao filho ao longo da vida e não se lembra de nenhum deles ser comprar escravos. Porém, para Henry, não há nada de errado em ter seus próprios crioulos, a lei permite, e se a lei permite, ele não deve ser punido ou criticado. Leia outras resenhas A ausência dessa brecha para autoconsciência é um reflexo de uma sociedade que valorizava as pessoas pela cor da pele e pelo tamanho de suas propriedades. Ainda que um negro estivesse bem abaixo dos brancos na escala social, se ele fosse livre e tivesse um ou dois escravos, ele era um pouco mais respeitado, sendo, inclusive, abrangido pelas leis que protegiam os “patrões”. “Um escravo fujão era, na verdade, um ladrão, já que há via roubado a propriedade de seu dono – ele mesmo”’. E Henry não é o único na região nessa condição. Negros que eram escravizados por outros negros estranhavam, mas até mesmo suas capacidades de reflexão foram roubadas, então o pensamento parava mais ou menos em “bom, isso não é normal, mas eu sou apenas um escravo, não tenho muito o que dizer”. O livro se passa ao redor da fazenda de Henry, mas não se limita à sua história. Moses, seu capataz, sua mulher Priscilla, Elias e sua mulher Celeste, e Alice, a escrava “louca”, são personagens profundos que compõem a narrativa no mesmo grau de importância que Augustus e Mildred, os pais de Henry, Caldonia e Calvin, sua esposa e seu cunhado, e muitos outros familiares e sujeitos próximos, como o xerife, os patrulheiros, e, claro, William Robbins. Outra característica interessante é que os capítulos, longos, são nomeados com três frases que funcionam como uma espécie de resumo do que está por vir. Em um primeiro momento parecem palavras soltas, sem sentido, mas quando você termina o capítulo e volta para o começo, vê que nada ali foi escrito aleatoriamente. Essa é uma história que me remexeu por dentro e me tocou profundamente. A última frase quase me fez chorar, embora se tratasse de um personagem não muito amigável durante a trama. Aliás, é importante pontuar que aqui ninguém é totalmente ruim (bom, ok, alguns são), ou totalmente bons. Não há heróis ou salvadores da pátria. Existe a escravidão, a injustiça, a inocência, a culpa, a redenção e o sistema. Sobre o autor Edward P. Jones ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção em 2004, o PEN/Hemingway Award e foi um dos finalistas do National Book Award por sua coleção de histórias de estreia, Lost in the City. Beneficiário da Lannan Foundation Grant, Jones mora atualmente em Arlington, Virgínia. O Mundo Conhecido é seu primeiro romance. (Fonte: Ed. José Olympio 2006) Sobre o livro Título: O Mundo ConhecidoAutor: Edward P. JonesAno: 2006Editora: José OlympioPáginas: 404Avaliação: 5/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (esse link leva à loja da Amazon e comprando através dele eu ganho uma pequena comissão sem custo adicional para você).

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[Resenha] Persuasão – Jane Austen

Sinopse Anne Elliot é a filha caçula de uma família de prestígio e no passado teve um romance com Frederick Wentworth, um homem sem posses na época. Dada a diferença de classe social, Anne foi influenciada pela família a terminar a relação. Oito anos depois os dois voltam a se encontrar e encaram os constrangimentos e sentimentos mal resolvidos. Resenha Um romance onde os dois estão cada um na sua, sem insistirem um no outro e nem se fazendo de parte prejudicada na história, é um ponto de partida interessante. Wentworth guardou por anos sua mágoa, mas não deixou de ser cordial e cavalheiro com Anne ao reencontrá-la. Ele se tornou capitão e acumulou fortuna, passando a ser aceito com mais simpatia nas altas rodas sociais, o que os reuniu em espaços próximos outra vez. Anne foi persuadida por Lady Russell, uma amiga íntima da família que passou a ser figura materna de referência depois da morte da mãe, a não prosseguir com um relacionamento que certamente não seria bem visto pelos outros e nem aprovado pelo pai. Não foi necessariamente por maldade, mas por reflexo de um comportamento comum por ali. Isso também não me deixa em posição confortável para julgar Anne, dada a imaturidade da época, a família que tem, e sua criação altamente elitista. Conforme Anne e Wentworth vão se aproximando, um espaço desconfortável entre os dois vai se construindo a partir de cumprimentos dados por pura educação e dúvidas que vão surgindo, como “Será que ele ainda está magoado?”, “Será que está apaixonado por fulana?”, “Será que tem reparado em mim?”. A narrativa está em terceira pessoa, mas inteiramente do ponto de vista de Anne, que não se retrai da presença de Frederick, mas também não se esforça muito para ser notada. Algo bem no estilo “deixa rolar”. A crítica à arrogância e elitismo é bem explanada, típico de Jane Austen, através da moral de que dinheiro não significa honestidade e caráter, e que mal-entendidos podem ser resolvidos com diálogos sinceros. E isso é demonstrado não só através dos personagens principais. Pegando esse bonde, preciso destacar o quanto as cenas são bem construídas, com seus diálogos e descrições na medida certa, e seus objetivos bem definidos. Leia outras resenhas É um romance que tem seus dramas, mas é leve. Os pontos mais altos são um acidente de uma amiga de Anne, decorrido de uma brincadeira mal executada, e a revelação de que um parente próximo seu não é bem quem diz ser e tem má intenções. O restante do livro são passeios, rodas de conversa, concertos, visitas, e planejamentos matrimoniais. Fiquei um pouco confusa com o parentesco dos personagens, são muitos, e parava da leitura de vez em quando para me lembrar quem era irmã ou filha de quem. Infelizmente, a edição da Editora Pé da Letra está com muitos erros de digitação e alguns de ortografia. Uma pena, porque achei a capa um charme. Dessa mesma coleção ainda tenho Razão e Sensibilidade para ler nos próximos dias. Persuasão foi adaptado duas vezes para o cinema, sendo a última em 2007. Sobre a autora Nascida em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, Hampshire, na Inglaterra, Jane Austen é considerada uma das importantes personalidades femininas da literatura mundial. Filha de Cassandra Austen e do reverendo George Austen, foi a segunda mulher dentre sete irmãos. O contato com os livros começou ainda cedo através da biblioteca de seu pai, um leitor voraz. Seu primeiro livro mais bem-acabado (Lady Susan) foi escrito aos dezenove anos. Em 1797, ela finaliza seus dois principais romances, Razão e Sensibilidade (1811) e Orgulho e Preconceito (1813). Ela também publicou Mansfield Park (1814), e Emma (1815) e dois livros após sua morte, Persuasão e Sanditon. A escritora morreu em 1817. (Fonte: Ed. Pé da Letra) Sobre o livro Título: PersuasãoAutora: Jane AustenAno: 2018Editora: Pé da LetraPáginas: 232Avaliação: 4/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (esse link leva à loja da Amazon e comprando através dele eu ganho uma pequena comissão sem custo adicional para você)

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[Resenha] Os Sofrimentos do Jovem Werther – Goethe

Sinopse Werther está perdidamente apaixonado por Carlota, uma moça de casamento marcado com o noivo Alberto. Em cartas endereçadas ao amigo Guilherme, Werther desabafa sobre esse amor impossível que afeta sua racionalidade. Resenha Ouso dizer que temos um novo campeão na lista de leituras mais complexas da minha vida. Os Sofrimentos do Jovem Werther foi um sofrimento para mim também, tanto na interpretação quanto no ritmo da leitura. O livro obedece a uma estrutura peculiar, sendo construído na maior parte do tempo através das cartas que Werther enviou a Guilherme, e, embora as respostas não tenham sido transcritas, o leitor pode compreender que foram respondidas. Nas páginas finais abre-se espaço para uma segunda voz que narra o restante do livro. A narrativa em primeira pessoa nos dá uma perspectiva limitada, claro, uma vez que vemos o que Werther vê, sem ter acesso aos pensamentos dos outros personagens, mas isso não necessariamente nos leva a concordar com ele em tudo. É como se, assim como Guilherme, fôssemos seus confidentes, e em alguns momentos queremos dar uma palavra de conforto e levar luz à vida de Werther. “Se o nosso coração estivesse sempre aberto para gozar o bem que Deus nos manda todos os dias, teríamos força mais do que suficiente para suportar o mal quando ele aparece”. Até certo ponto, eu pude compreender o martírio que era gostar de Carlota e não ser correspondido. Não é como em muitos outros romances, onde a mocinha ou mocinho até gosta, mas não pode aceitar o compromisso. Aqui, ela deixa claro que os dois são apenas bons amigos, e Alberto é seu grande amor. Porém, Werther começa a invadir o espaço dos dois e forçar situações, contatos, beijos, o que me incomodou muito. Deixou de ser uma paixão platônica para se tornar uma obsessão. Soma-se ao seu sofrimento amoroso alguns outros problemas, como não gostar do seu trabalho, não satisfazer as expectativas da mãe, absorver as dores de pessoas ao seu redor, até sua mente estar tão perturbada – principalmente por Carlota – que ele não vê outra opção senão tirar a própria vida. “Vi morrer muitas pessoas, mas o homem é tão limitado que não faz nenhuma ideia do começo e do fim de sua própria existência”. E não tem como falar desse livro sem mencionar esse fato, que é o principal, mas também não é exatamente o final. Depois disso, um narrador externo entra em cena e isso altera toda a dinâmica do livro porque ele aparece de supetão, como alguém íntimo de Werther, mas estranho ao leitor. E também porque tenho que comentar como considerei, sim, uma certa romantização do suicídio, na medida em que faz parecer a solução mais fácil e prática para quem sofre. O impacto dessa obra foi tão grande na época do seu lançamento que gerou uma onda de mortes por toda a Europa, o que fez o livro ser proibido, acusado de estimular jovens que não só copiavam o estilo de Werther como apareciam mortos com a cópia do livro ao lado. Ainda assim, ela foi de suma importância para o Romantismo, sendo um exemplo sólido com características bem marcantes dessa escola. Leia outras resenhas Dizem que Os Sofrimentos do Jovem Werther é uma narrativa autobiográfica de Goethe, que também teve uma paixão proibida e tomou as outras cenas emprestadas de episódios que ele testemunhou em sua vida. Na minha opinião, é um livro pesado, de linguagem carregada, e com o qual não simpatizei. Werther é profundo, é poético, mas também exageradamente intenso. Sobre o autor Goethe (1749-1832) nasceu em Frankfurt, Alemanha, em 28 de agosto de 1749. Filho do juiz Johann Gaspar Goethe e de Catharina Elisabeth Goethe, descendente de rica e culta família alemã. Cresceu em meio aos livros da biblioteca de seu pai, que possuía mais de 2000 volumes. Educados por tutores, recebeu aulas de inglês, francês, italiano, grego e latim. Estudou ciências, religião e música. A paixão pela filha de um pastor resulta em uma série de poesias líricas. Em 1972 vai para Wetzlar, no estado de Hessen, trabalhar na corte da justiça imperial. O amor por Charlotte Buff, noiva de um amigo, dá origem à obra pré-romântica “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774), que termina com o suicídio do personagem principal. O grande sucesso do livro na Europa o torna conhecido mundialmente. (Fonte: Ebiografia) Sobre o livro Título: Os Sofrimentos do Jovem WertherAutor: J. W. GoetheAno: 2017Editora: L&PMPáginas: 208Avaliação: 2/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (esse link leva à loja da Amazon e comprando através dele eu ganho uma pequena comissão sem custo adicional para você)

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[Resenha] O Último Caso da Colecionadora de Livros – John Dunning

Sinopse Cliff Janeway já foi um policial e agora é um livreiro, dono de uma livraria com sua sócia e namorada, Erin. Porém, vez ou outra é chamado para investigar livros raros desaparecidos. Contratado para prestar esse tipo de serviço na biblioteca de um homem muito rico, o caso acaba se desviando para a morte da mulher dele, suspeita de ter sido vítima de um assassinato. Resenha Quando o personagem te conquista é muito difícil fazer uma leitura imparcial da história, sabe? Sei lá, quero me casar com Janeway. Cliff tem um humor irônico e despreocupado que eu amo. Na primeira cena, quando ele é procurado pelo homem que vai levá-lo à biblioteca em questão, eu já dou boas risadas, principalmente porque a narração está em primeira pessoa, e sei que ele é um detetive que confia nos seus instintos. Isso significa que ele enfrentará de queixo erguido os desafios que estão por vir. Janeway é levado de Denver até o estado de Idaho, onde está a casa e a coleção extraordinária de livros de Geiger, um ricaço da região que morreu há pouco tempo e deixou um pepino para seu assistente, Junior, resolver: dividir a herança entre os quatro filhos que não se dão bem. Mas antes disso Junior precisa descobrir onde estão os exemplares sumidos e quem os roubou. Além do dinheiro, fazem parte da fortuna os livros e os cavalos, de onde vem boa parte do dinheiro da família, envolvida com corridas. “’Os finais felizes não são automáticos”’. Nesse ponto é que a investigação do nosso livreiro-detetive engata. Ele começa com os livros, mas percebe que as respostas estão no hipódromo, onde se infiltra entre os empregados em busca de pistas. Na minha opinião, esses são dois cenários férteis demais para coexistirem dentro de uma mesma história. Ou os livros, ou os cavalos. O resultado foi que os cavalos suprimiram as cenas com os livros, para minha frustração pessoal. Dentro desse contexto é que o detetive conhece a reputação de Candice, uma mulher amável e querida por todos. Não só querida como amada, levando-a a arrebatar corações por onde passava. Leia outras resenhas Engraçado que só no final do livro eu fui me dar conta que a palavra “caso” do título se refere a casos extraconjugais, e não a sinônimo de episódio ou evento, como passei a leitura inteira acreditando. O lado bom dessa desatenção é que o plot twist ficou ainda mais interessante. Eu errei por um fio quem era o assassino, mas não me decepcionei com a resolução do caso. “’Não há nada mais destrutivo em qualquer idade do que ter tudo o que a pessoa sempre quis entregue a ela em uma bandeja”. Há muitos personagens, em vários núcleos, mas isso não torna a narrativa confusa, pois cada um tem seu papel bem definido, aparecendo nos momentos certos para fazer a história fluir. Há muitas referências a obras literárias e, claro, toda a caracterização do hipismo e do tratamento com os cavalos. É bem verdade que eu shippei Cliff com uma determinada personagem – o que não foi muito certo porque ele já tinha uma namorada e tal –, mas não fui correspondida, pelo menos não nesse livro, uma vez que esse policial que não resiste a um mistério implorando para ser desvendado protagoniza outros quatros livros independentes: Assinaturas e Assassinatos, Impressões e Provas, A Promessa do Livreiro e Edições Perigosas. Não sei em que ordem está O Último Caso da Colecionadora de Livros, mas percebi referências que certamente vieram de narrativas anteriores. No mais, adiciono Cliff Janeway não só na minha lista de detetives preferidos como também na de crushes literários. Sobre o autor Nasceu em Nova York, em 1942, e vive em Denver, Colorado, onde mantém uma livraria virtual. (Fonte: Ed. Cia das Letras/2009) Sobre o livro Título: O Último Caso da Colecionadora de LivrosAutor: John DunningAno: 2009Editora: Companhia das LetrasPáginas: 393Avaliação: 3/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (esse link leva à loja da Amazon e comprando através dele eu ganho uma pequena comissão sem custo adicional para você).

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