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[Resenha] Reparação – Ian McEwan

Reparação já começa apresentando Briony e seu gosto por alimentar a mente fértil com fantasias. Aos treze anos, ela gosta de escrever romances e peças de teatro, mas reconhece que lhe falta “aquele vital conhecimento do mundo”. Também no primeiro capítulo a narrativa aponta uma determinada característica em Briony, o fato de que ela não tinha maldade e que gostava de ver o mundo em ordem, sem destruição. E onde tudo isso entra na história? Naquele verão dos anos 30, a família Tallis se prepara para receber o filho mais velho, Leon, o amigo Paul, e os sobrinhos Lola e seus irmãos gêmeos, Pierrot e Jackson, para um fim de semana. Cecília, a filha do meio, já está na casa, e Briony, a caçula, trabalha em uma pequena peça de teatro que gostaria de apresentar aos convidados na noite do jantar. Robbie, o filho da empregada e quase membro da família, também está entre os participantes. No meio da noite, um crime sexual acontece e Robbie é acusado por uma testemunha ocular: Briony. A partir daí, muitas são as consequências dessa acusação, uma vez que Robbie é preso ainda na mesma noite. A vaidade de Briony O livro é dividido em quatro partes. Na primeira parte, a história dá o protagonismo a Briony, colocando-a como o olho que tudo vê e dando a ela o privilégio da palavra. Ela é quem assiste de longe à cena do vaso caindo na fonte; ela quem flagra Cecília e Robbie na biblioteca; ela quem testemunha o estupro de Lola. Quando o evento catastrófico acontece (ela acusar Robbie de ter estuprado a prima Lola), eu vejo que Briony se deixou levar por uma motivação bastante infantil de ser a heroína da história, como se, frustrada pela impossibilidade de ser a protagonista da peça que estava ensaiando, ela quisesse agarrar uma oportunidade de fazer a diferença no mundo real, no mundo dos adultos. Leia também [Resenha] As Brumas de Avalon Ainda impactada pelo flagrante de Robbie e Cecília na biblioteca – um evento consensual e não uma violência -, Briony constrói uma imagem de vilão em cima de Robbie, um vilão bastante caricato, com traços de psicopatia e crueldade. E é com essa imagem na cabeça, e com um desejo de proteger as pessoas do “mal”, que ela afirma com todas as letras que Robbie é o agressor de Lola, muito embora ela não tenha visto com clareza e nem a própria Lola possa dar essa certeza. Agora, tudo isso acontece em um dia em que Briony declara a si mesma que a partir dali não é mais criança, que os contos de fadas ficaram para trás e agora ela lida com problemas de adulto. Mas foi justamente a responsabilidade e a maturidade de um adulto que lhe faltaram quando foi necessário que ela analisasse a situação com clareza. É certo que talvez um adulto de verdade cometesse o mesmo erro, mas talvez não pelas mesmas motivações. A própria Lola, a vítima, com um pouco mais de idade, se reservou a dizer que não viu direito, enquanto Briony sente uma necessidade quase irresistível de estar certa porque quer ser relevante, porque quer fazer justiça, porque quer ser a protagonista daquela história, porque não quer ser taxada de criança boba e voltar atrás. “Briony caiu numa arapuca armada por ela própria, penetrou num labirinto construído por suas próprias mãos, e era jovem demais, estava impressionada demais, excessivamente sequiosa de agradar aos outros, para insistir numa retratação”. A reação de Robbie Na segunda parte, Robbie está na guerra. Depois de três anos preso, ele aceita servir porque é melhor do que estar na prisão. É uma parte bem longa (inclusive no filme), onde ele tenta sobreviver para reencontrar Cecília enquanto atravessa o país com as cartas dela no bolso. Ele nutre um rancor de Briony do qual não faz nenhum esforço para se livrar. “Não era razoável nem justo odiar Briony, mas ajudava”. A autopunição de Briony Na fase seguinte, vemos Briony já ali com seus dezoito anos, servindo na guerra como enfermeira de um hospital. Ela carrega a culpa do que fez e de certa forma tenta usar aquele trabalho como penitência. Um trabalho difícil, braçal e sangrento, como se ela quisesse achar algo mais cruel e feio para se sobressair ao seu passado. Ainda nessa mesma fase, Briony procura Cecília (elas se separaram desde o episódio do jantar) e a encontra em uma cidadezinha aos arredores de Londres ao lado de Robbie. Os dois a tratam com repulsa, mas o medo de Briony de que eles nunca mais se encontrassem é aliviado. Ela sai dali com a promessa de retratar seu depoimento e, quem sabe, retirar a condenação de Robbie – que ainda cumpria pena, estando apenas cedido para o Exército. A Reparação Atenção, spoiler! Porém, na quarta e última parte nos deparamos com Briony com 77 anos de idade, já no final dos anos 90, contando em primeira pessoa que a terceira parte dessa história só é verdade em partes. Ela nunca procurou Cecília e Cecília nunca reencontrou Robbie. Ambos morreram na guerra e Briony se sentiu no dever de reparar, ainda que ficcionalmente, uma história que não terminou feliz por interferência sua. O desejo de ser uma escritora se concretizou e ela fez carreira na profissão, trabalhando a vida inteira em um romance no qual o casal apaixonado vive seu amor, já que na vida real isso não foi possível. Um caminho sem volta Eu vejo que na transição de uma fase para outra há não só um amadurecimento dos personagens como um endurecimento das personalidades deles. O livro começa num dia quente, ensolarado, porque tudo está bem e animado. Cinco anos depois, Robbie é um homem castigado, Cecília alimenta amargura pela família e Briony se consome de remorso enquanto fecha feridas em carne viva dos soldados. Tudo ficou mais duro para todo mundo. A narrativa também lança uma pergunta: Até onde é possível usar a imaturidade (ou a pouca idade) como …

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[ Releitura ] O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

Esse é um texto que eu escrevi em 2018, primeira vez que li O Apanhador no Campo de Centeio (e me apaixonei!). Cinco anos é suficiente para você revisitar obras e encará-las com um outro olhar. Dito isto, o texto antigo continua válido, mas eu gostaria de acrescentar outras percepções. A primeira delas é que eu pude ver com mais clareza as peculiaridades que caracterizam a adolescência de Holden. Ele é expulso da escola – de novo – e fica perambulando pela cidade até chegar o dia em que inevitavelmente terá que enfrentar os pais. Para ele, a expulsão não é tão grave assim, pelo contrário, quanto menos tempo pudesse passar com aqueles cretinos (nas palavras dele), melhor.  Nesse meio tempo, ele faz coisas de “adulto” para talvez tentar se sentir menos errado. Uma coisa meio “eu cuido da minha própria vida, para quê escola?”. Mas a realidade é que ele não é tão crescido assim e isso é lançado na sua frente o tempo todo. Leia também [Resenha] Howards End – E. M. Forster Se ele vai de bar em bar, alguns garçons não querem atendê-lo por ser menor de idade; se ele dá em cima de alguma mulher, ela acha o papo dele esquisito; se ele contrata uma garota de programa, desiste em cima da hora por ser virgem. As únicas vezes em que ele consegue se desenrolar, é na companhia de outros adolescentes, por mais que ele não queira. Entrando na questão familiar, Holden dá trabalho, mas não chega a ser um jovem problemático. Ele tem uma boa relação com os irmãos e ainda sofre a morte de um deles. Ele pensa em fugir de casa, mas quando a irmã caçula cisma que vai junto, Holden percebe que às vezes a irresponsabilidade respinga em quem não tem nada a ver com a história. Você também já quis fugir de suas obrigações, já quis largar a escola, já quis fugir de casa, já aprontou, já se sentiu sozinho, já chorou, já se sentiu um merda, porque isso é ser adolescente. Agora vejam que interessante: a única coisa que faz Holden Caulfield se sentir bem é ser um possível apanhador no campo de centeio. Quando a irmã pergunta “Do que você gosta? Você não gosta de nada, está sempre reclamando de tudo”, ele responde que se garotinhos brincassem em um campo de centeio, ele gostaria de ser a pessoa que fica na beira do princípio cuidando para que ninguém caia. Ora, o que curaria todas as angústias de Holden – e de todo mundo que quer deixar de ser mentalmente jovem – é ser útil, amadurecer e não viver só para si e suas demandas. O outro ponto, e esse é o que me agrada mais, é que naturalmente eu sou alguém um pouco resistente a conteúdo de humor (livros, filmes…). Não consigo achar graça na maioria das coisas que se propõem a ser de comédia, e embora essa não seja exatamente a intenção de O Apanhador no Campo de Centeio, é o único livro até hoje que me fez dar sinceras gargalhadas. O humor ranzinza, sarcástico e debochado de Holden é fenomenal. Eu vou e volto no texto várias vezes e rio de verdade. É maravilhoso. “Esse que é o problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve ‘Foda-se’ bem na cara da gente. É só experimentar. Acho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemitério, com uma lápide e tudo, vai ter a inscrição ‘Holden Caulfield’, mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, alguém vai escrever ‘Foda-se’. Tenho certeza absoluta”. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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5 trechos de Grandes Esperanças

Cheguei ao fim da minha releitura de Grandes Esperanças e foi emocionante reencontrar e acompanhar novamente a trajetória de ascensão financeira e redenção moral de Pip. Uma narrativa que encanta pela complexidade de seus personagens e por envolver amor, humor, crítica e boas lições para a vida. Destaco agora 5 trechos de Grandes Esperanças que farão você ter vontade de ler, ou reler, o livro. “No pequeno mundo em que vivem as crianças, seja quem for que as crie, nada é percebido com tanta intensidade, e sentido com tanta intensidade, quanto a injustiça. As injustiças a que a criança é exposta podem ser pequenas; mas a criança é pequena, e seu mundo é pequeno, e seu cavalo  de balanço é tão alto, guardadas as proporções, quanto um Irish hunter de ossos grandes. No meu íntimo, eu vivia, desde a mais tenra infância, um conflito perpétuo com a injustiça. Eu sabia, desde que aprendi a falar, que minha irmã, com sua coerção caprichosa e violenta, era injusta comigo. Eu nutria a convicção profunda de que ter ela me criado com a mão não lhe dava odireito de me criar aos cachações. Em meio a todos os castigos, vexames, jejuns e vigílias, e outras penitências, eu nutria essa certeza; e é a intensa convivência com ela, de um modo solitário e desprotegido, que me parece ser a principal causa de eu ter-me tornado moralmente tímido e muito sensível”. Leia também Grandes Esperanças: sra. Havisham e o vício pela dor “Foi para mim um dia memorável, pois ocasionou grandes mudanças em mim. Mas é assim com todas as vidas. Imagine que um determinado dia fosse eliminado de sua vida, e pense em todas as consequências que isso teria sobre o resto dela. Para e pensa, tu que me lês, por um momento, na longa cadeia de ferro ou outro, de espinhos ou flores, que jamais te teria cingido, não fosse a formação do primeiro elo num dia memorável”. “Deus sabe que não há por que nos envergonharmos de nossas lágrimas jamais, pois elas são a chuva que cai sobre a poeira da terra que nos cega, descendo sobre nossos corações endurecidos”. “No entanto, aquela sala era tudo para mim, porque Estella estava dentro dela. Pensei que, em sua companhia, eu teria sido feliz lá para sempre”. “‘Meu nome está na primeira folha. Se puderes escrever embaixo do meu ‘Eu a perdoo’, ainda que muito depois de meu coração partido virar pó – eu te peço que o faça’”. Você já leu Grandes Esperanças? O que achou? Deixe nos comentários

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Grandes Esperanças: sra. Havisham e o vício pela dor

Grandes Esperanças é um clássico da literatura mundial e faz parte do meu projeto de releituras em que eu revisito não só o enredo como tento perceber e interpretar melhor as nuances da narrativa, principalmente dos clássicos. Se você ainda não leu essa obra prima de Charles Dickens, neste artigo não há spoilers, mas eu sugiro que você leia primeiro o livro e depois acesse meu texto. Pip é um menino órfão que vive em uma aldeia com a irmã, uma mulher violenta, e com Joe, seu marido, um homem bastante gentil e amigável. Um dia, Pip é levado até a casa da sra. Havisham, uma senhora rica da cidade, para brincar. Não sabendo quais brincadeiras seriam essas, Pip sai assustado de casa, pensando no porquê desse convite inusitado, mas a figura com a qual se depara é mais assustadora do que qualquer ideia que ele pudesse imaginar. Em algum dia de sua vida, a sra. Havisham foi noiva e em algum outro dia, abandonada no altar, episódio que a levou a viver sua mágoa da maneira mais literal e performática possível, qual seja, permanecer vestida de noiva e deixar tudo ao seu redor exatamente do jeito que estava quando foi rejeitada. “Porém vi que tudo no meu campo de visão que era para ser branco fora branco há muito tempo, e perdera o brilho, e estava desbotado e amarelado. Vi que a noiva com seu vestido de noiva havia fenecido tal como o vestido, e como as flores, que não havia nela nada que brilhasse senão os olhos fundos”. A intenção da sra. Havisham em deixar tudo intocável era manter, prolongar, a dor o mais viva possível, como que para não se esquecer de que um dia foi vítima. Contudo, na minha percepção, vejo que tanto quanto não esquecer, ela queria também punir alguém pelo que ela viveu. Quem? O ex-noivo? Ela mesma? As pessoas ao redor? Em primeiro lugar, percebo que quando se coloca em uma situação extravagante, a personagem tenta de certa forma chamar a atenção para si, como se fosse inaceitável viver aquela dor sozinha, trancada em um quarto. Ela quer que as pessoas saibam que ela está naquela casa escura, que ela não superou; quer que a vejam amarga, cruel e desacreditada. Leia também [Resenha] Howards End – E. M. Forster Em tempos modernos, não seria difícil imaginá-la se expressando no story com músicas e publicações sugestivas sobre sua dor. “‘Sabes onde ponho a mão, aqui?”, perguntou ela, pondo as mãos, uma sobre a outra, no lado esquerdo do peito.‘Sei, sim, senhora’.‘Onde estou pondo a mão?’‘No seu coração’.‘Partido!’” Além de manter suas feridas abertas, a sra. Havisham se empenha em desestimular as pessoas sobre o amor – muito parecida com aquela amiga que está sempre repetindo por aí que nenhum homem presta. Junto com ela, vive Estella, uma menina mais ou menos da idade de Pip, e por quem ele se encanta desde a primeira vez que a vê. A sra. Havisham, por sua vez, desde já estimula Estella a partir o coração de Pip. “‘[Estela] Por que não choras de novo, criaturinha desgraçada?’‘Porque nunca mais vou chorar pela senhora’, respondi. O que, creio eu, foi uma mentira deslavada; pois por dentro eu estava chorando por ela naquele exato momento, e sei o que sei da dor que ela me proporcionou depois”. Outro símbolo da ruína física e psicológica da sra. Havisham é o salão onde um dia seria a festa de casamento. No dia do seu aniversário, ela leva Pip até lá e apresenta a ele um lugar jogado às baratas, aos fungos e aos ratos. O bolo, ainda presente em cima da mesa, é o sinal maior de como alguém pode se deixar consumir e não ter coragem de se desfazer daquilo que lhe faz mal. “‘Neste dia do ano, muito antes de nasceres, esse monte de podridão’, apontando com a bengala a pilha de teias de aranha na mesa, mas sem tocá-la, ‘foi trazido aqui. Ele e eu decaímos juntos. Os ratos o roeram, e dentes mais afiados que os dos ratos me roeram”. Penso eu que essa obsessão da Sra. Havisham em permanecer naquele estado – até mesmo os ponteiros dos relógios foram parados na exata hora em que ela foi abandonada – é também uma forma de comodismo sentimental. Por mais saudável que fosse superar a mágoa, seria um passo doloroso a se dar e ela precisaria deixar de se colocar na posição de vítima depois de tantos anos, deixar de pensar sobre o assunto e encarar as pessoas com a cabeça erguida. Durante uma visita, uma mulher diz a sra. Havisham que ela não está muito bem, e eis que ela responde “Sim! Estou só pele e osso”. Na cena do salão, ela diz a Pip “É aqui que vão me deitar quando eu estiver morta, eles virão aqui me ver”. Transformar sua vida em um espetáculo é uma maneira de não ter que se esforçar para viver uma realidade diferente. Não é muito distante de quando insistimos em ficar presos a memórias ruins, a episódios humilhantes ou àquela narração aos outros sobre a vez em que fomos injustiçados. Raiva é um sentimento muito fácil de fazer nascer e de se alimentar, principalmente se podemos espalhá-la, fazendo os demais sentirem repulsa pelo mesmo objeto que sentimos, e dando-nos a falsa sensação de que aqueles pequenos instantes de vingança podem se transformar em uma vitória sobre o provocador de nossas mágoas. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Charlotte e Mr. Collins: como abrir mão do romantismo pode ser uma boa decisão

Em Orgulho e Preconceito, o casal Mr. Darcy e Elizabeth Bennet arrancam suspiros há mais de duzentos anos. Ele, um homem arisco por fora, porém gentil e cuidadoso por dentro, elegante, culto e com uma boa fortuna. Ela, romântica, não ingênua, inteligente, com bons modos e ideias firmes. Juntos, descobrem um amor capaz de superar as mais sólidas más impressões. Mas há outro casal nessa história que sempre me chamou atenção, tanto no livro quanto no filme. Trata-se de Mr. Collins e Charlotte Lucas, e é a partir da história deles que eu vou falar como abrir mão do romantismo pode ser uma boa decisão. Mr. Collins é primo das irmãs Bennet e o primeiro na linha de herança por ser o parente homem mais próximo do pai de Elizabeth. Durante uma visita, ele pede nossa mocinha em casamento e tem sua proposta recusada sem hesitação. Acontece que Mr. Collins queria muito, muito, casar com alguém, e encontra em Charlotte, amiga de Elizabeth, outra candidata. Essa, por sua vez, aceita o pedido de prontidão, e já sabendo que será criticada, aproxima-se cheia de dedos de Elizabeth e conta a novidade, recebendo como resposta uma clara desaprovação. Charlotte, contudo, reage, a meu ver, de maneira bastante sensata e madura. Na cena do filme ela diz: “Tenho 27 anos e nenhuma perspectiva. Sou um estorvo para os meus pais”. Na narração do livro: “Tinha 27 anos e jamais fora bela. Sabia portanto que tivera sorte”. Num contexto em que uma mulher não tinha como prover sozinha o seu sustento, suas únicas opções eram receber uma boa herança dos pais ou se casar. Charlotte, dada sua condição – era considerada “velha” – não podia, e nem queria, se dar ao luxo de continuar esperando por um príncipe encantado, algo totalmente fora da realidade “Sem ter grandes ilusões a respeito dos homens ou do matrimônio, o casamento sempre fora o seu maior desejo; era a única posição tolerável para uma moça bem educada, de pouca fortuna”. A forma como Elizabeth vê a situação, e até como a narrativa a apresenta para nós, é como se a decisão de Charlotte fosse digna de pena, mas eu sempre vi por um outro ângulo. Eu vejo como alguém que resolveu uma pendência de maneira prática. Mr. Collins, embora fosse sem graça e vaidoso, não era exatamente um qualquer. E também não estava procurando um grande amor – tanto que fez dois pedidos de casamento em menos de três dias – mas uma esposa com quem pudesse compartilhar a vida e a construção de uma família, algo para o qual ele já vinha se preparando, inclusive, financeiramente. Exatamente o que Charlotte precisava. “Bem sabe que não sou romântica. Nunca fui. Desejo apenas um lar confortável. E considerando o caráter de Mr. Collins, as suas relações e a sua situação na vida, estou convencida de que tenho as mesmas possibilidades de ser feliz no casamento que a maioria das mulheres”. Essa fala de Charlotte pode parecer materialista e superficial, mas se observarmos com cuidado veremos que nenhum dos dois está interessado em romance de novela (ou de livros), mas em encontrar um bom par para formar uma família. E ainda assim, Charlotte acredita que pode amá-lo e ser feliz. Leia também [Resenha] Os Sofrimentos do Jovem Werther – Goethe Nessa circunstância, eu acredito que os dois se propuseram a assumir um compromisso e honrar com ele, sendo úteis um ao outro e servindo com dignidade à família que formarão. É muito diferente de Elizabeth, que está procurando, querendo, suspirando, por um amor. Por isso, não gosto de sua atitude naquela cena, porque Elizabeth tira a situação de Charlotte pela dela. Em outras palavras, ela espera que a amiga ignore suas particularidades e aguarde por um partido melhor, ainda que o menos interessante apresente características fundamentais para ela e que um pretendente supostamente mais adequado esteja bastante fora do seu horizonte. Trazendo para a realidade, para mim é impensável que uma mulher adulta coloque suas expectativas amorosas em Mr. Darcys, como se nenhum outro homem abaixo desse ideal servisse para formar uma família, quando, na verdade, é o próprio personagem de Mr. Darcy que não existe na vida real (ou pelo menos é raríssimo de encontrar). Tanto não existe que muitos homens se aproveitam do ideal hollywoodiano para fingirem ser o que não são e conquistarem mulheres com ações baratas de comédias românticas que não dizem muita coisa, são apenas bonitinhas. Quanto mais uma mulher espera por Mr. Darcy sem defeitos, mais ela está sujeita a se deixar enganar. O amor pode acontecer com um homem comum, que muito provavelmente não vai ser bonito, elegante, gentil, rico, inteligente e engraçado ao mesmo tempo. E isso está muito longe do “ficar com qualquer um / se contentar”; trata-se de saber quais características ela valoriza e de entender que príncipes encantados só existem nos filmes da Barbie e nos romances de Jane Austen. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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3 livros que previram o futuro

Livros de ficção científica não raro usam universos futuristas para discorrer sobre problemas sociais. Tecnologias avançadas, tragédias apocalípticas, vidas no espaço, em outros planetas, ou ainda sistemas ditatoriais, são alguns elementos que costumamos ver nessas narrativas.  Certamente, você já deve ter lido ou ouvido falar de vários deles, mas dos livros lançados há muito tempo, quantos deles realmente acertaram em suas previsões? Confira 3 livros que previram o futuro. Admirável Mundo Novo (1932) Na Londres de 2540, a promiscuidade é incentivada, a religião abolida e a ciência usada para domínio das massas. A Bíblia e outros livros cristãos são proibidos e a literatura clássica tida como ultrapassada a ponto de ninguém saber quem foi Shakespeare. Além da perseguição aos cristão ser uma realidade, Aldous Huxley de certa forma também previu o uso de antidepressivos, uma vez que em seu romance as pessoas usam pílulas para se verem livres de sentimentos como tristeza, frustração e mau humor. Leia também Como fazer marcações durante a leitura Fahrenheit 451 (1966) Numa sociedade em que livros são proibidos, o sonho dos personagens é adquirir a própria televisão de parede, que ao permitir uma espécie de imersão nas transmissões, se assemelharia à tecnologia 3D ou realidade virtual que temos hoje. As Viagens de Gulliver (1726) Em As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift escreveu sobre Marte ter duas luas. Mais de 140 anos depois, em 1877, Asaph Hall descobriu que Marte tem mesmo duas luas. E você, qual livro publicado há muitas décadas você leu e descobriu ser uma bola de cristal certeira? Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Como fazer marcações durante a leitura

O processo de fazer uma leitura ativa – ou seja, uma leitura onde você não só entende o que está escrito como interage com o texto – é de extrema importância para aperfeiçoar o aprendizado e contribuir com a memorização. Nesse artigo estão algumas ideias de como fazer marcações durante a leitura e você pode aplicar em estudos acadêmicos, estudos livres e livros literários. Materiais Eu recomendo recursos analógicos, mas se você é cem por cento da galera do digital pode usar aplicativos de anotações como Evernote, Notion, Google Keep ou o velho e bom Word, desde que você mantenha um nível de organização em qualquer um deles. No caso de usar métodos ancestrais (como eu costumo fazer) tenha em mãos cadernos, canetas, lápis, marca-textos, post-its ou marcadores de páginas. Nossa, tudo isso? Aí vai do gosto do freguês. Um simples lápis pode resolver tudo, mas também é possível combinar esses materiais usando critérios que irei explicar mais adiante. Também vai da sua escolha anotar no próprio livro ou em um caderno à parte. Contexto Na faculdade, no meu primeiro dia de aula, uma professora introduziu o assunto da disciplina e deu o seguinte conselho: “Antes de ler qualquer coisa, observem em que ano aquilo foi escrito. Vai fazer toda a diferença na sua leitura e interpretação”. É claro que ela estava se referindo aos mil e um textos que leríamos dali em diante (sou formada em Jornalismo), mas eu nunca esqueci dessa orientação porque ela serve para absolutamente qualquer leitura e faz todo o sentido. Por isso, antes de começar olhe a ficha catalográfica e veja a data da primeira edição. Seja livros acadêmicos, de não ficção ou literários, contextualize o texto e tenha um olhar adequado e coerente à intenção e contexto do autor. Leia também Como adquirir o hábito da leitura Se o seu livro literário foi escrito em uma época anterior à do autor (no caso dele escrever algo histórico, por exemplo), pesquise um pouco sobre esse ano/século. Se estiver fazendo suas anotações no próprio livro, circule, se for no caderno ou bloco de notas, faça um cabeçalho com título, autor e data de publicação. Destaques A maneira de destacar é livre, mas é importante que tenha um critério. Vamos supor que você irá usar alguns dos materiais que eu citei acima e fará suas marcações no livro. Sugestão: Marca-texto: você já ouviu falar em color code (ou código de cores)? Nada mais é do que atribuir um significado para cada cor e usá-lo nas suas marcações. Por exemplo: amarelo = opinião do autor, azul = citações de outros, vermelho = partes com as quais você discorda. No caso de usar color code em livros literários, o sistema pode funcionar mais ou menos assim: amarelo = trechos sobre o protagonista, verde = fala do antagonista, cor-de-rosa = pistas do crime. Quem determina os critérios é você, de acordo com o que você quer assimilar ou memorizar do livro. O objetivo é manter as marcações dentro de uma certa organização, onde, em um momento posterior de revisão, releitura ou consulta, você saiba exatamente o que significa cada trecho marcado. Lápis e caneta: sublinhado citações, tracejado para trechos chaves, asteriscos para palavras que você não sabe o significado. Você também pode usar colchetes, parênteses, círculos, setas e comentários nas margens. A caneta também pode ser usada com o critério color code. Conheça meus livros Post-it: se você não quer anotar nada no livro, mas também não quer andar com um caderno pendurado embaixo do braço, pode fazer as observações colando post-its nos cantos das páginas ou no fim dos capítulos. Post-its coloridos também servem para color code. Ah! Os marcadores de páginas são para você sinalizar as páginas onde fez anotações e ou marcações. No caderno ou bloco de anotações “Marcar livros para mim é um crime”. Ok, não vamos entrar nessa polêmica. Ter um caderno/diário de leituras é supimpa demais até para quem não se importa em riscar livros. Ali fica um registro do que você leu e aprendeu organizado em um só lugar, servindo como um material de ouro para consultas posteriores (e se você gosta de enfeitar, fica ainda mais lindo <3). Tá, mas o que escrever? Depende do seu objetivo, mas, no geral, não há necessidade de fazer um fichamento e copiar tintin por tintin os trechos dos livros. Anote ideias, conceitos, palavras-chaves e do lado ponha a referência da página. No caso de leituras literárias, registre o nome dos personagens importantes e o papel deles na narrativa. Se for um livro longo ou mais difícil de entender, faça linhas do tempo, estruture a jornada e anote também suas dúvidas, perguntas e observações pessoais. O que mais está chamando sua atenção? O que você achou de determinação ação? Qual o seu palpite sobre o assassino e por quê? Que pistas você identificou? O que você faria no lugar de personagem x ou y? Essas perguntas ajudam na interpretação e absorção da história. E se eu estiver lendo em ebook? Aqui temos facilidades e dificuldades. No Kindle, por exemplo, é possível selecionar palavras e ver o significado instantaneamente. Isso é fantástico. Assim como grifar textos e anexar anotações. Porém, pessoalmente, eu acho o sistema do Kindle um pouco lento para esse tipo de atividade, mas em um tablet ou celular pode funcionar melhor. Assim como em leituras por PDF. Há inúmeros aplicativos com recursos de marcação, comentário, hiperlink, etc. De qualquer modo, eu sugiro que no caso de leituras digitais você faça suas anotações em um caderno ou bloco de notas à parte. As ideias acima são sugestões e você pode fazer do modo mais simples até o mais enfeitado, desde que haja um critério e uma organização para que sua leitura seja eficiente. O inegável é o quanto ler ativamente muda o seu processo de interação com o texto e por isso conversamos hoje sobre como fazer marcações durante a leitura, um hábito que sem dúvidas vai elevar a sua relação com os …

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3 poemas de Augusto dos Anjos

Confesso que Augusto dos Anjos é um nome que só me lembra o ensino médio e as aulas de literatura, e por mais que eu gostasse da disciplina, poucos foram os autores que continuaram a despertar meu interesse depois da escola, entre eles Fernando Pessoa e Cecília Meireles. Porém, sabendo que Augusto dos Anjos é um dos grandes, resolvi ler. Tive bastante dificuldade com o estilo, o vocabulário rebuscado e as palavras estranhas, que me fizeram ir e voltar várias vezes nas linhas até pegar mais ou menos o contexto. Por outro lado, quando algum poema me tocou, aconteceu de maneira bem lúcida, como se eu e o poeta tivéssemos angústias em comum e ele colocasse em versos sentimentos muito parecidos com os meus. Separei alguns dos que mais gostei: A UM CARNEIRO MORTOMisericordiosíssimo carneiroEsquartejado, a maldição de PioDécimo caia em teu algoz sombrioE em todo aquele que for seu herdeiro!Maldito seja o mercador vadioQue te vender as carnes por dinheiro,Pois, tua lã aquece o mundo inteiroE guarda as carnes dos que estão com frio!Quando a faca rangeu no teu pescoço,Ao monstro que espremeu teu sangue grossoTeus olhos – fontes de perdão – perdoaram!Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,Se fosses Deus, no Dia do Juízo,Talvez perdoasses os que te mataram! CONTRASTESA antítese do novo e do obsoleto,O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,O que o homem ama e o que o homem abomina,Tudo convém para o homem ser completo!O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,Uma feição humana e outra divina,São como a eximenina e a endimeninaQue servem ambas para o mesmo feto!Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!Por justaposição destes contrastes,Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,Às alegrias juntam-se as tristezas,E o carpinteiro que fabrica as mesasFaz também os caixões do cemitério!.. CETICISMODesci um dia ao tenebroso abismo,Onde a Dúvida ergueu altar profano;Cansado de lutar no mundo insano,Fraco que sou, volvi ao ceticismo.Da Igreja – a Grande Mãe – o exorcismoTerrível me feriu, e então sereno,De joelhos aos pés do NazarenoBaixo rezei, em fundo misticismo:– Oh! Deus, eu creio em ti, mas me perdoa!Se esta dúvida cruel qual me magoaMe torna ínfimo, desgraçado réu.Ah, entre o medo que o meu Ser aterra,Não sei se viva pra morrer na terra,Não sei se morra pra viver no Céu! Não posso dizer que absorvi ou interpretei tudo, muito da obra precisaria de uma atenção mais aprofundada minha, com pesquisa, repetição e quem sabe leitura em voz alta, mas não chegou a ser totalmente uma leitura obscura. As dificuldades apareceram, mas acho que a literatura mais proveitosa é aquela que nos tira da zona de conforto. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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[Resenha] O Sol Mais Brilhante – Adrienne Benson

Sinopse Leona, Simi e Jane são três mulheres de origens diferentes que têm suas vidas entrelaçadas no Quênia em uma jornada em busca de realizações pessoais e do sentimento de pertencimento. Cada uma com seu passado – às vezes tentando fugir dele, às vezes tentando entendê-lo – elas seguem adiante e a história ecoa na geração seguinte, onde suas filhas se aproximam e vivem suas próprias atribulações. Resenha Leona, uma antropóloga, saiu dos EUA para pesquisar os massai, uma tribo tradicional queniana, e estudar seus costumes e tradições. Em Nairóbi, ela conhece John, um habitante local com raízes inglesas. De uma noite sem compromisso onde eles sequer sabiam o nome um do outro, nasce Adia, uma filha que Leona não desejou, e por não desejar, entregou-a em adoção a Simi. Simi é uma típica massai e cresceu sabendo que um dia seria circuncidada e dada em casamento a alguém. Ainda assim, sua mãe sustentou até onde pôde o desejo de ver os filhos – principalmente a filha – alfabetizados, fazendo de Simi uma das poucas mulheres da aldeia que sabia ler, escrever e falar inglês, habilidade que a aproximou de Leona quando ela chegara à tribo. Contudo, depois de se tornar a terceira esposa de um membro da tribo, Simi descobre que é infértil, e nem os rituais e oferendas mudaram sua condição de agora mulher menos valiosa. Enquanto as outras esposas pariam um filho por ano, Simi via sua condição ir se deteriorando e ter como sorte não ser expulsa de uma comunidade que via a infertilidade como maldição. Dessa forma, quando Simi adota formalmente Adia, ela passa a ser mãe de verdade, e sendo mãe de verdade, seu lugar na tribo está reconhecido. Porém, no futuro, ela e Leona entrarão em conflito por conta da garota meio-americana, meio-massai. Paralelamente, em algum lugar dos EUA, Jane investe seu tempo na carreira de bióloga para esquecer que perdeu a mãe cedo e que seu irmão caçula é esquizofrênico e mora, isolado, em uma clínica. Partindo para a África com o objetivo de pesquisar e mapear os hábitos de elefantes ameaçados pela caça ilegal, ela conhece Paul, futuro embaixador americano e seu futuro marido, com quem terá Grace, seu ponto de apoio em meio às constantes mudanças que terão quando ela deixar a profissão para acompanhar Paul. Alguns anos depois, Grace e Adia serão adolescentes e melhores amigas. Leia outras resenhas Dividido em três partes, O Sol Mais Brilhante narra de maneira sensível e envolvente a história dessas três mulheres, todas com um ponto em comum: são mulheres com passados que deixaram marcas e influenciaram fortemente nas decisões que elas tomaram no futuro. Leona sofreu abuso sexual do pai na infância sob conhecimento da mãe, que nada fez para impedir ou punir o marido. O trauma desencadeou a introspecção em uma garota que cresceu acreditando que ninguém era confiável o bastante para ela se envolver, e por isso sua fuga mal disfarçada pós-noite com John. Por isso seu desejo desesperado em entregar Adia a alguém que pudesse ter e ser uma referência melhor. John, por sua vez, acaba sendo um personagem coadjuvante de peso nessa história. O pai, alcoólatra e agressivo, foi o estopim para uma tragédia que marcou a vida da família, e a mãe, na velhice e com Alzheimer em meio às dores do passado, gerou uma confusão que repercutiu por mais de dez anos na vida do filho. Simi decidiu desde muito cedo que suas filhas também teriam acesso à educação, pois a oportunidade que ela teve, embora interrompida na adolescência, mudou quem ela era e a forma como ela via a si e aos seus pares. Ainda assim, erra quem pensa que Simi negou suas origens e sua cultura em nome de uma suporta emancipação feminina. Ela continuou querendo ser uma boa mãe e esposa massai, continuou querendo ter muitos filhos e dar alegrias à comunidade. A infertilidade provocou feridas e mexeu com sua autoestima, mas Simi jamais quis fugir do seu destino ou da sua gente e tudo suportou. Viu em Adia um alento, amando-a e educando de uma maneira que fazia a garota gostar mais da sua vida na tribo do que ao lado da mãe biológica. Adia tem voz na última parte do livro e é uma menina com suas próprias questões (não vou dar spoilers), que tenta se encontrar no meio de visões e posicionamentos tão diferentes. De um lado, uma aldeia enraizada nos costumes locais, no outro, uma quase pressão em ser americana “de verdade”. O estranhamento dos demais – “Como pode uma africana ser branca?”, “Por que você usa acessórios esquisitos?”, em certo momento causa dúvidas nela mesmo sobre quem ela é a que povo ela pertence. Ela deveria continuar se comportando como uma massai ou deveria aprender de uma vez por todas os modos estadunidenses? O contato com Grace gera um choque ainda mais potente, pois Grace tem pais afetivos, uma mãe cuidadosa – até demais – e uma casa que não tem barro pelo chão. Ela assiste a filmes tipicamente americanos e fala coisas que Adia não entende ou nunca ouviu falar. A amizade das duas vai dar uma virada na história que pode tocar até os corações mais duros. Eu gostei de como os personagens de Adrienne Benson, que iniciou sua carreira de escritora com esse romance bastante elogiado, são moldados sem estereótipos, com originalidade, mas também com familiaridade. Quem de nós já não se sentiu perdido em um primeiro dia de aula na escola nova? Agora ponha isso em perspectiva macro e se imagine no lugar de Jane, em outro país, com pessoas e idiomas estranhos. Da mesma maneira, Adia, acostumada a ter o pé no chão, vê-se às voltas com os hábitos arraigados de Grace, super protegida pela mãe e totalmente alheia ao mundo ao seu redor. Conhecer a cultura do Quênia, mais especificamente dos massai, pode ser estranho no começo, principalmente quando entramos em contato com a circuncisão feminina, costume proibido desde 2011 no …

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Para Leitores

[Resenha] Um Estudo em Charlotte – Brittany Cavallaro

Sinopse Charlotte Holmes e James Watson são descendentes do detetive mais famoso da Inglaterra e seu fiel amigo. Colegas de classe no ensino médio, os dois acabam suspeito do assassinato de um aluno e para provar suas inocências precisam encontrar o verdadeiro culpado. Durante a investigação Watson precisa lidar com a paixão que sente pela peculiar Holmes. Resenha Posso começar falando de como me desagrada esse fetiche em fazer de Holmes e Watson um casal. A primeira vez que me deparei com tal disparate foi na série Elementary, uma versão americana e moderna de Sherlock Holmes, onde Joan Watson (Lucy Liu) é uma espécie de dama de companhia barra terapeuta barra assistente de Sherlock (Jonny Lee Miller), um consultor da polícia de Nova York em tratamento contra o vício de drogas. Na segunda temporada surgiu um sentimento nebuloso na cabeça de Watson e ela se perguntou se não seria um amor platônico por aquele sujeito de inteligência acima da média e sociabilidade abaixo do mínimo. Não sei se por uma resposta negativa do público ou por uma sensatez atrasada, os roteiristas mudaram o rumo dessa história e os dois voltaram a ser bons e inseparáveis amigos desvendando crimes. Preciso abrir um parênteses e dizer que detestava essa série no começo, mas cinco temporadas depois eu já estava completamente apaixonada por esse Sherlock. Voltando a Um Estudo em Charlotte, o pobre Watson é quem conta a história e já revela, bem no comecinho, seus sentimentos pela garota estranha e antissocial cuja família esteve sempre ligada a sua. James é um aspirante a escritor e Holmes é uma viciada em drogas que foi enviada para os EUA para ficar longe de quaisquer influências do tipo. Além de ser uma entusiasta das ciências e ter seu próprio laboratório no internato. Leia outras resenhas Bem aqui já inicia o meu incômodo com releituras. Eu vejo como uma maneira meio preguiçosa de prestar uma homenagem aos clássicos e quase sempre gera umas incongruências narrativas cuja soluções às vezes convencem, às vezes não. Neste caso, eu entendo que jovens possam usar cocaína ou outros tipos de droga, mas estar em tratamento aos dezesseis anos e tratar isso com um certo nível de normalidade me parece um pouco demais. Assim como uma adolescente ter contatos de alto nível na Scotland Yard e contribuir com a investigação da polícia americana. Eu vejo que quando o autor reescreve um clássico e faz sua própria versão, ele tem dois caminhos: ou ser muito criativo e ressignificar todo o conteúdo ou dar seu jeito de não fugir das características originais e inventar artifícios para justificá-las. Pessoalmente, eu prefiro as referências às releituras. Quem faz isso muito bem é Mark Haddon em O Estranho Caso do Cachorro Morto, livro onde um adolescente autista investiga a morte de um cachorro da vizinhança e como bom fã de Sherlock Holmes usa as estratégias que aprendeu com as histórias. Por falar em investigação, a narrativa policial no livro de Brittany Cavallaro não é nada empolgante, traz uma vilã muito sem sal e apaga totalmente a figura de Moriarty. Podem argumentar em contrário e dizer que sou ranzinza com a obra de Sherlock Holmes, mas para mim Um Estudo em Charlotte precisou de muito feijão com arroz para gerar um sentimento parecido nos fãs do detetive. Sobre a autora Brittany Cavallaro é poeta, escritora de ficção, e admiradora antiga de Sherlock Holmes. A autora best-seller da série Charlotte Holmes nasceu em Springfield, Illions e morou lá até entrar na Academia de Artes de Interlochen, para estudar escrita criativa. Atualmente, ela está concluindo o PhD em literatura de língua inglesa pela Universidade de Wisconsin-Madison. Brittany vive em Wisconsin com seu marido e seu gato, além de uma coleção de boinas. (Fonte: Site Rocco) Sobre o livro Título: Um Estudo em CharlotteAutora: Brittany CavallaroAno: 2019Editora: RoccoPáginas: 384Avaliação: 1/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (Link afiliado. Comprando através dele você ajuda o blog sem pagar nada a mais por isso). Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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