Maria Clara e Antônio cresceram juntos na mesma rua de uma cidade no interior de São Paulo. Da amizade nasceu um amor e do amor uma relação. No fim da adolescência, Maria Clara faz planos: estudar na capital, morar em outro país; Antônio gosta na vida no campo e ali quer permanecer. Separados pela barreira das perspectivas, cada um segue seu caminho, mas o tempo passa e a vida de Maria Clara está fora dos eixos, forçando-a a voltar para casa e reencontrar o ex-namorado, por quem ainda tem sentimentos nebulosos. E tudo isso enquanto o mundo está, literalmente, acabando.
Foi acabar na nossa vez é um título muito bem pensado para um livro cuja protagonista faz parte da Geração Millenial (faixa dos 30 anos). Como bem diz a piada, na nossa vez de ser adulto, o caos está instalado. Na narrativa, o futuro não está tão distante assim do nosso presente. O aquecimento global está desenfreado, a água e a comida são escassas, o solo é infértil, a chuva não cai, e as cidades colapsaram. O que resta é sobreviver.
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Narrativas apocalípticas me empolgam, pena que esta peca na manifestação excessiva de pautas ideológicas e políticas que nem sempre cabem no contexto. Reforma agrária, xenofobia, aborto, identidade de gênero, linguagem neutra, racismo ambiental, crise imigratória, tudo em uma salada de frutas feita para explanar engajamento político tanto para quem escreve quanto para quem lê.
De que importa saber que o personagem cujo trabalho é desenvolver sementes não se identifica nem como homem nem como mulher? Por que insistir no pronome elu e sangrar os olhos de quem defende o português como ele é? Escolhesse um ou outro desses temas para desenvolver o texto em vez de encaixar cada um deles como se fosse um Tetris linguístico.
Ainda assim, o livro é relativamente bem escrito e a estrutura da narrativa é sólida. O romance entre Maria Clara e Antônio não deixa pontas soltas. O leitor fica ciente de como começou e por que terminou, além de conseguir enxergar as lacunas que impedem os dois de seguirem caminhos juntos.
“[…] não há um dia em que eu não durma e acorde desejando viver o fim do mundo com você”.
A família de Antônio ocupa uma propriedade que não é dela e uma das lutas da comunidade é impedir que os verdadeiros donos reintegrem a posse. A autora insiste na tecla gasta de que ocupações indevidas se legitimam pelos seus fins, colocando uns como mocinhos e outros como bandidos. Solução fraca para problemas fortes, mas que encontra seu público e, acredito eu, este feche o livro satisfeito com o que leu. Não foi o meu caso.
Entre muitos pontos negativos e poucos positivos, percebo que o raciocínio mediano das redes sociais, sobre os mais variados assuntos, está chegando nas publicações e – tentando – se inserindo no debate público. O resultado é a sensação de que o livro foi escrito por um usuário do Twitter/X no seu dia mais brando.
Sobre a autora
Mariana Brecht nasceu em São Roque (SP) e é escritora, roteirista, designer de narrativas de jogos digitais e compositora. É autora do romance de autoficção Brazza, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e do livro-jogo de poesias Labirinto, ambos contemplados pelo ProAC 2019. É também autora do livro infantojuvenil A menina com os pés no chão, finalista do Prêmio Jabuti. Foi acabar bem na nossa vez é seu primeiro romance pela Rocco.
Sobre o livro
Título: Foi acabar bem na nossa vez
Autores: Mariana Brechter
Editora: Rocco
Páginas: 308
Ano da primeira publicação: 2025
Avaliação: 2/5
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