Lembro quando os abraços foram oficialmente proibidos. Depois os beijos, os afagos, e as mãos dadas. Apenas apertos de mãos eram permitidos, e em situações muito específicas, como ao fechar um negócio. Eu fechava muitos negócios na minha padaria, mas nunca havia abraçado meu filho de cinco anos.
Antes dos decretos, meu avô aparecia na porta da minha casa aos fins de tarde e me levava para passear na pracinha do bairro. Ele nunca soltava a minha mão e me dava um abraço de despedida ao ir embora. Nenhum exame médico poderia comprovar, mas o fato de ele ter morrido um ano depois das proibições me leva a crer que ele morreu por falta de carinho.
Eles diziam que os afetos eram prejudiciais para nossa saúde mental e física porque um corpo inebriado de sentimento era um corpo frágil e vulnerável. Os cientistas passaram a estudar o comportamento humano e de tanto estudar esqueceram de voltar para casa para jantar com a família, o que contribuiu para que eles chegassem à conclusão de que jantares, ou qualquer outro evento familiar, não tinha nenhum objetivo senão desviar a atenção do indivíduo para o que realmente importava: produzir.
As pesquisas eram claras: sujeitos que viviam sem relações sociais eram mais inteligentes, mais saudáveis e mais bem-sucedidos, porque vivendo sozinhos poderiam focar apenas em progredir. Então proibiram quaisquer comportamentos capazes de gerar relações afetivas ou a manutenção delas. Aqueles que já eram casados e com filhos não puderam ter outros, aqueles que eram solteiros foram estimulados a assim permanecer – a menos que a procriação servisse para fins jurídicos ou econômicos. Contudo, um filho era suficiente.
Leia também O Natal da Senhora Deise
Animais de estimação não foram mais permitidos, a menos que obedecessem ao fim de guardar a propriedade privada. O entretenimento agora é individual, não existem mais parques, nem cinemas, e os restaurantes disponibilizam mesas com no máximo três lugares. Meu filho não sabe o que são primos, ele nunca viu um e deve achar que é um pássaro. Ele sabe que na escola há outros alunos como ele, mas não vê quem se senta ao seu lado pois há uma divisória que separa as cabines. Todos têm excelentes notas.
Nunca beijei meu marido, embora o ache atraente. Nosso filho nasceu de uma atividade mecânica e breve. Não houve outras vezes depois daquela pois tanto homens quanto mulheres são educados a satisfazer seus desejos de outras formas.
Herdei uma padaria do meu pai e ela vai muito bem, obrigada. Meu marido também tem um ótimo emprego.
Na infância, minha família descia a serra nas férias e era muito divertido. Os carros de hoje só cabem o motorista e mais um. Meu filho, ao completar a maior idade, não poderá mais morar comigo, segundo as novas regras. Não existe mais datas comemorativas ou feriados porque isso atrapalha o crescimento do país, então faz muito tempo que eu não sei o que é Natal.
Natal, saudade, amor, carinho, são palavras que não existem mais e fazem parte de um vocabulário arcaico que ficou no passado.
As doenças respiratórias estão quase dizimadas porque vivemos longe uns dos outros. Muito de nós não precisam mais sair para trabalhar e lugares como o meu, uma padaria, não servem para tomar um café de domingo, apenas para entregar pães que são comprados por um aplicativo. Vez ou outra aparece um cliente para comprar no balcão, mas não se demora muito. O cheiro do pão saindo do forno não atrai mais ninguém, ou melhor, não chega mais em ninguém porque todas as janelas do bairro estão fechadas.
Não sei quem são meus vizinhos e eles não sabem quem eu sou. Nunca fui para uma confraternização na empresa do meu marido porque esse tipo de evento ficou para trás. Achei que meu filho faria para mim um cartaz como eu fiz para minha mãe no Dia das Mães, mas ele nunca subiu em um palco para cantar, tímido, uma música mal ensaiada. Eu não o amamentei, isso geraria vínculos para o resto da vida. Ele foi alimentado por uma mamadeira e estimulado a segurá-la sozinho desde cedo.
Uma vez, o embalei no colo em uma noite de sono difícil. Cantei uma música que minha mãe cantava para mim na infância e, no dia seguinte, recebi uma carta de advertência na minha porta. Sou uma cidadã exemplar nos meus deveres cívicos, mas naquele dia eu fraquejei. Esqueci que eles estão em todos os lugares, ouvindo tudo.
Não é uma vida feliz, mas é uma vida que funciona. Hoje, diferente de três décadas atrás, podemos viver por mais de 150 anos. Isso é tanto tempo! Somos ricos, ricos, nunca falta nada em nossas casas. Nossos carros são tecnológicos, confortáveis e seguros, nossas cidades são limpas e nossa saúde não vacila. Por que iríamos querer voltar ao passado?
Não precisamos de um beijo antes de dormir, só precisamos que tudo esteja em ordem.
Gostou deste texto? Considere se inscrever na minha newsletter!


