Existe uma legião de filhos e filhas de pais desfuncionais que compartilha experiências e sentimentos semelhantes da própria história. Manoela Sawitzki divide com o leitor parte de suas memórias nesse relato quase autobiográfico e de título puramente sugestivo: Filha.
A narrativa se desconstrói em volta da relação de uma filha caçula com seu pai, um sujeito autoritário, alcóolatra, violento, mas ainda seu pai. A voz do texto volta aos 11 anos de idade e, fase a fase, vai contando como era conviver com o inimigo sangue do seu sangue.
Num contexto de anos 80-90, tudo era ainda mais complexo, uma vez que as relações domésticas se entrelaçavam às circunstâncias da época, particulares por si mesmas. Você pode ter os pais mais amáveis e simpáticos do mundo, ainda assim é diferente ser um filho hoje do que foi ser um filho trinta ou quarenta anos atrás.
Leia também [Resenha] A Metamorfose
“A vida deve ser boa longe daqui; eu posso ser melhor longe daqui, e existem, além de tudo, tantos livros pra ler”.
Manu, nossa personagem nada ficcional, carregou o drama familiar no mesmo braço em que equilibrou dramas pessoais, acentuados na adolescência, como a bulimia, depressão e pensamentos suicidas. Como provavelmente os segundos estavam amparados no primeiro, foi preciso coexistir com ambos fazendo sombra atrás de si, até o dia em que ela cresceu o suficiente para arrumar as malas e sair de casa.
Nesse ponto, acompanhamos uma jovem adulta se libertando das amarras paternas, mas não dos laços biológicos. Alguns anos depois, ela se vê de volta à cidadezinha onde nasceu para acompanhar o pai moribundo, à beira da morte, encarando o passado e lembranças que não podia eliminar para sempre.
Para mim, que também vivenciei certos desequilíbrios familiares, o texto tocou nos tais sentimentos compartilháveis que mencionei no início deste artigo. Aquela máxima de que nenhuma experiência é individual parece se confirmar aqui. O leitor que está de fora dessa conversa é colocado diante de uma realidade que acompanha nós, Filhas, pela vida inteira: um pai complexo, mas ainda é um pai. No fim da vida, na beira de uma cama de hospital, muito provavelmente ainda seremos nós a segurar-lhes as mãos fracas de pele enrugada.
“Enquanto houver vida, haverá versões”.
Sobre a autora:
Manoela Sawitzki nasceu em 1978, no Rio Grande do Sul. É escritora, dramaturga e doutora em literatura, cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio. É autora dos romances Nuvens de Magalhães (2002) e Suíte Dama da Noite (2009). Pela Companhia das Letras, publicou Vinco (2022), semifinalista do prêmio Oceanos.
Sobre o livro:
Título: Filha
Autora: Manoela Sawitzki
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 128
Ano: 2025
Avaliação: 2/5
Gostou deste texto? Considere se inscrever na minha newsletter:


