Na fila do supermercado, a moça do caixa passava os produtos pela registradora com uma certa morosidade. O sujeito na minha frente começou a se queixar, primeiro murmurando sozinho e depois para mim, que nada podia fazer por nenhum de nós dois, senão procurar outro caixa ou desistir da minha compra e ir embora. Mas a necessidade de ter uma mostarda e um desinfetante na minha casa era maior que o aborrecimento da fila que andava devagar.
O sujeito, porém, embalado pela primeira reclamação, emendou outras em seguida. Ele estava atrasado para o aniversário da sobrinha e a esposa já havia ligado duas vezes pedindo que ele se apressasse, mas também foi ela quem exigiu que ele fosse ao supermercado, sem falta. Era carne de pescoço, ele afirmou, enquanto eu concordava por educação. Seria melhor se tivesse casado com a outra moça que namorou na juventude. Pomposo, ele garantiu que não era de se jogar fora. Não tinha como eu saber se era verdade.
Disse também que aquele foi um dia duro no trabalho e que o chefe era um cretino. Todos eram uns cretinos, inclusive a garota do caixa, que trabalhava como uma lesma. Deveria ser demitida. Fome não passaria porque o governo não cansa de dar tantos auxílios, enquanto ele tem que trabalhar dez horas por dia se quiser ter dinheiro para a gasolina. Inclusive, seu carro estava com o disco de freio desgastado. Eu mesma não saberia apontar um disco de freio, mas por algum motivo ele me explicou mecanicamente como o aparato funcionava. Gostaria de trocar de carro no fim do ano, mas com essa economia, quem consegue?
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A mãe dele havia acabado de falecer e os irmãos estavam brigando pela posse do único imóvel que ela tinha. Eram quatro filhos, todos queriam uma parte. Cretinos. A fila finalmente andou um pouco, mas ainda havia um cliente antes dele e, consequentemente, dois antes de mim. Então continuamos a conversar, ou melhor, ele continuar a enumerar as mazelas da sua vida.
O filho mais velho era um vagabundo, a filha mais nova uma carola. Pelo menos não andava como uma rapariga por aí, mas do jeito que andava, também não ia arrumar um marido. Ele adoraria ter um neto, mas pelo visto iria morrer sem ter um. Perguntou-me se eu tinha filhos, respondi que não. Tá certo, tudo tem seu tempo, ele devolveu.
A cada bipe do caixa, o sujeito me contava um infortúnio. Não interrompi nenhuma vez, parecia uma vida atribulada. Mas não menos que a da moça do caixa, que deixou o filho doente em casa para vir trabalhar, ou da minha, que também enterrei meu pai depois de um longo tratamento de saúde, ou do cliente da frente, que havia acabado de perder o emprego e a esposa estava grávida. Ou do segurança do supermercado, que estava em vias de ser despejado, ou do motorista que descarregava os produtos lá fora, que descobriu um câncer, ou da zeladora, que estava sendo ameaçada pelo ex-marido, ou de todas as outras vidas que coexistem no universo com seus infortúnios particulares.
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