Contos

O Natal da Senhora Deise

Aquela hora do dia sempre chegava. Eu estava sentado no sofá, no meio da tarde chuvosa, com minhas velhas e confortáveis meias, quando minha mãe me mandava ao mercado comprar algum item que havia esquecido para o jantar. Era a tarde mais preguiçosa e aconchegante do ano, não fosse a bendita caixa de leite que escapara da lista de compras no dia anterior e agora cabia a mim e ao meu irmão buscar. Ainda havia isso: era preciso ir na companhia de Marcos. Por um lado, era justo, pois nenhum de nós dois seria beneficiado enquanto o outro fosse punido a sair sob a chuva. Por outro, meu irmão caçula desconhecia o conceito de agilidade.

Esse era o meu segundo aborrecimento naquela tarde de Natal. O primeiro, a caixa de leite; o segundo, Marcos pulando nas poças atrás de mim.

— Se não andar rápido, vou trancar você do lado de fora de casa — disse, irritado, enquanto acelerava o passo para ainda ver o resto do filme. Naquela época, eu tinha treze anos, e Marcos havia acabado de completar onze. Sempre fomos bons irmãos, mas, como todos os bons irmãos, às vezes eu gostaria de deixá-lo do lado de fora.

— Vitor, olha! São os filhos da Senhora Deise chegando.

A Senhora Deise era nossa vizinha e, desde que se mudara para a rua, nutríamos certa frustração por não sermos próximos dela. Ela e o marido moravam sozinhos e, uma vez ao ano, no Natal, recebiam os três filhos para a ceia. Não sabíamos quase nada sobre eles e, por não saber, inventávamos. Na nossa narrativa, os filhos moravam em outros países e haviam se casado com estrangeiros. Quando os víamos descer dos táxis com suas grandes malas pretas de rodinhas, imaginávamos que vinham da Alemanha, do Peru e da Austrália. Ou dos Estados Unidos, da China e da Argentina. Eu e Marcos gostávamos de mapas e de livros de Geografia, então sempre mudávamos os países onde supostamente moravam.

— Tenho quase certeza de que a moça mora mesmo na Alemanha, eu disse a você, Vitor.

— Não seja bobo, eles não usam essa roupa na Europa — retruquei, observando a bota marrom da filha da Senhora Deise. — Pessoas do Texas se vestem assim.

Sem perceber, paramos do outro lado da rua e ficamos observando os três filhos entrarem na casa. Pela janela, ainda conseguíamos ver um pedaço da mesa de jantar, onde ceariam dali a algumas horas.

— Aposto que até o leite que eles tomam é melhor do que o nosso — disse Marcos, mais expressivo do que eu, curioso sobre a vida e a casa da Senhora Deise.

— O sofá dela com certeza é mais confortável. Imagina ver filmes naquela televisão enorme? — falei, me espichando para ver melhor.

Já estávamos na porta de casa, e eu havia me esquecido da pressa de voltar. A cena diante de nós acontecia uma vez por ano e era mais interessante. Eles sorriam, se abraçavam e descarregavam sacolas bonitas dos carros.

— Imagina os presentes? Eu daria qualquer coisa para passar um Natal com eles — eu pensava o mesmo que Marcos, mas apenas ele, com sua língua solta de criança, tinha a desenvoltura de dizer.

Naquele ano, uma pessoa a mais chegava à casa da Senhora Deise. Era uma garotinha de cerca de doze anos, que desceu de um dos carros e logo chamou nossa atenção. Espevitada, brincava com uma bola de plástico. Eu cutuquei meu irmão e apontei discretamente para a garota, no exato momento em que ela deixou a bola cair. A esfera cor-de-rosa veio rolando em nossa direção.

Eu apanhei a bola e aguardei a dona vir buscá-la.

— Oi! Desculpe, a bola escorregou da minha mão — disse, enquanto as pequenas gotas de chuva caíam sobre seu casaco. — Eu sou a Vanessa.

Nos apresentamos timidamente e devolvemos a bola. A moça de botas chamou por ela:

— Vanessa, que tal sair da chuva, querida? Vamos entrar!

Não satisfeita, atravessou a rua e nos cumprimentou:

— Já vi que minha enteada fez amizades por aqui. O que acham de um chocolate quente com biscoitos?

Ela era simpática e convidativa. Seria a primeira vez que conheceríamos a casa da Senhora Deise por dentro, e nossos estômagos formigaram de ansiedade. A ponto de eu esquecer que minha mãe esperava pela caixa de leite.

Marcos foi o primeiro a dar dois passos à frente. Eu, acanhado, porém alegre, caminhei logo atrás, ao lado de Vanessa. E lá fomos nós, entrar na casa mais bonita da vizinhança.

O interior, porém, era menos charmoso. As paredes não eram decoradas e os móveis eram simples. A televisão era de fato muito grande, mas o sofá estava gasto e puído. Senti-me aliviado por ter um sofá mais aconchegante em casa. Havia uma árvore de Natal torta em um canto e nenhuma caixa de presente embaixo dela. Na nossa casa também não, mas eu sabia que minha mãe preparava algo especial para mim e Marcos.

Um vozerio vinha da sala de jantar, e a Senhora Deise surgiu de lá, agitada, para ver quem entrava.

— Mamãe, Vanessa trouxe dois amiguinhos para tomar chocolate quente.

— Que chocolate quente? — ela não disfarçou a irritação. — Com tanta coisa para fazer até mais tarde, ainda tenho que preparar chocolate quente?

Eu e Marcos nos entreolhamos e pensei em dizer que precisávamos ir — ainda bem que eu tinha a caixa de leite! —, mas a moça de botas nos impediu e disse que voltava já. Enquanto isso, Vanessa cochichou:

— Não liguem, não. Essa velha é muito chata. Eu odeio encontrá-la, mas papai insistiu para que eu viesse. Querem brincar de bola?

— Na verdade, precisamos ir — respondi, tentando escapar do incômodo.

— Esperem!

Ela tinha intenção de dizer mais alguma coisa, mas uma confusão na sala de jantar despertou nossa atenção.

— Você ficou de trazer os champanhes e os vinhos!

— Eu esqueci! Tinha que buscar a Vanessa na casa da mãe e me enrolei todo.

— Não sei como ela tem coragem de deixar a menina com você, que não perde a cabeça porque está em cima do pescoço.

— Dá um tempo! Você mesmo pode ir comprar.

— Eu disse que não queria confusão neste ano – era o marido da Senhora Deise quem falava. A única voz que reconheci.

— Por isso odeio esta casa, odeio o Natal.

— Por que veio então?

— Eu tenho opção? Mas posso ir embora agora mesmo!

— Por mim, nem teria vindo.

— Eu ou você?

— Você! Quanto tempo até passar o primeiro vexame?

— Por favor, não briguem.

Os três filhos, os três cônjuges, e os pais, continuaram a falar, um por cima do outro, um mais alto que o outro. A cena, tão diferente da primeira – quando se abraçavam e riam – assustou a mim e ao Marcos. Em poucos minutos, toda a nossa fantasia sobre a família da Senhora Deise se desmanchou. Segurei a mão do meu irmão, do meu querido irmão, e fomos nos afastando de fininho, fora até mesmo da vista de Vanessa, que naquela hora já havia se metido na discussão para defender a mãe, ausente, mas já mencionada.

Abrimos a porta e saímos correndo para casa. Deixei Marcos entrar primeiro e só depois me lembrei de que havia ameaçado deixá-lo do lado de fora. A irritação já havia passado. Antes de fechar a porta, demos uma última olhada para a casa da Senhora Deise. Não escutávamos mais nada, mas víamos braços e mãos se agitando de um lado para o outro.

Minha mãe perguntou pelo leite:

— Por que demoraram? O chocolate vai esfriar.

— Chocolate? — Marcos correu para a cozinha. — Vitor, mamãe fez chocolate quente e biscoitos!

Pegamos nossas canecas e nossos biscoitos e voltamos ao sofá para assistir à última parte do filme. Naquela noite, quando o pai chegou, comemos uma simples ceia de Natal, com nosso leite comum, nossos presentes modestos e nossa casa em paz. E nunca mais desejamos nada da Senhora Deise.

Escritora, jornalista e leitora assídua desde que se conhece por gente. Escreve por achar que a vida na ficção é pra lá de interessante.

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Sabryna Rosa