Para Leitores

Há sempre um bilhete para este trem

Uma frase de Sully Prudhomme diz assim: “Talvez não temamos a morte porque o tempo se compõe de uma série de instantes infinitamente curtos durante os quais estamos certos de viver”. Esses dias, a morte passeou entre pessoas conhecidas e foi como aquele aviso de cobrança que chega embaixo da sua porta depois de você muito ignorar as dívidas não pagas. Um lembrete: “não é porque você finge que eu não existo, que eu não estou aqui”. De todas os fatos certeiros da vida, a morte é o mais confirmado, e, curiosamente, o mais ignorado e o mais temido. Ao mesmo tempo em que se morre de medo de morrer, se vive como se não fosse morrer nunca. Leia também Uma Beleza Calculada Todo medo de morrer esconde uma culpa e uma covardia. “Muitos foram os meus erros”, e nenhuma pretensão de se arrepender. “Não posso morrer agora porque ainda há muito o que fazer”, e quando o sol se põe nada foi feito. Raramente se diz: “Tudo bem, eu estou pronto”. Do outro lado, o peito para encarar a morte costuma esconder um egoísmo ou um desleixo. “Tanto faz, eu fiz tudo que queria”, o pior jeito de viver. “Será até melhor, que aconteça logo”, e não há nenhum cuidado consigo mesmo e nem com os próximos. A morte é sempre um trem que pegando adiantado ou chegado atrasado, passando por uma vista bonita ou só atravessando tunéis escuros, você entra e vai até o final. Resta saber com que tipo de bagagem você irá embarcar. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Bastidores

Agora que cheguei ao futuro, quero voltar

Quando criança, eu imaginava um futuro com carros voadores, roupas metálicas e teletransporte. Na minha mente, eu estaria dentro de um automóvel andando sobre ruas estupidamente limpas, prédios escandalosamente altos e espelhados, e totalmente confiada a uma inteligência artificial que diria com voz aveludada: “Seu destino está próximo”, e então deslizaríamos suavemente até o chão. Hoje estou no futuro e em vez de uma voz aveludada o que eu ouço é uma gritaria, e uma gritaria sem som porque se trata de uma gritaria de caracteres. Para onde quer que eu olhe, várias pessoas, inúmeras delas, uma verdadeira multidão, fala de mim. Elas falam sem quem eu possa ouvir uma voz sequer e mesmo assim é insuportável. Falam perto, falam longe, falam verdades, falam mentiras, falam em letras grandes, em letras miúdas. Falam, falam, falam sem parar. E eu não posso tampar os ouvidos porque ainda consigo vê-las, não posso fechar os olhos porque elas continuam a rodopiar ao meu redor, não posso falar mais alto pedindo que se calem porque elas simplesmente não poderão ouvir. Eu não sabia que no futuro era assim, não foi essa a inteligência artificial com a qual eu gostaria de conviver. Eu não queria algoritmos, eu queria um carro voador, eu não queria um sistema de busca onde seja fácil encontrar meu nome, eu queria ver os prédios bonitos da janela; eu não queria que sobre a minha cabeça estivesse um véu tão fino e desintegrável, eu queria olhar para cima e estar tão perto do céu que seria possível tocá-lo. Eu não queria que tanta gente soubesse quem eu sou. Eu queria descer suavemente até o chão e apenas caminhar. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Bastidores

Felicidade – Sabryna Rosa

Em um país distante havia um homem muito rico cujo conselheiro o acompanhava desde a juventude. Era um sujeito sábio, coerente e humilde. No leitor de morte, o homem chamou o único filho e pediu que cuidasse de suas posses e não trocasse de conselheiro enquanto este vivesse. Dito isso, fechou os olhos e partiu. O filho, desacostumado a cuidar de finanças e negócios, mas bastante habituado a desordens de todos os tipos, passou a tratar com irresponsabilidade a fortuna do pai. O conselheiro, sabendo que fazia parte de sua função alertar e corrigir, lançou orientações e advertências. Apontou-lhe os erros e antecipou as consequências. Conheça meus livros Cansado de ouvir o que não queria, o filho mandou o conselheiro embora para sempre. Um dia, em dúvida sobre determinada questão, anunciou que estava em busca de alguém para ajudá-lo, mas não poderia ser alguém cuja soberba e vaidade fosse maior que a vontade de contribuir. Assim, os candidatos apareciam e opinavam sobre diversas questões de acordo com suas experiências. Todos os que sugeriam mudanças, limites e prudências eram acusados de pedantes. Foi contratado aquele que deu a orientação aparentemente mais acerta: “Em toda dúvida que tiver, reflita: qual caminho me faz mais feliz?” De felicidade em felicidade o filho lançou a si mesmo na mais completa ruína. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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