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[Resenha] O Sol Mais Brilhante – Adrienne Benson

Sinopse Leona, Simi e Jane são três mulheres de origens diferentes que têm suas vidas entrelaçadas no Quênia em uma jornada em busca de realizações pessoais e do sentimento de pertencimento. Cada uma com seu passado – às vezes tentando fugir dele, às vezes tentando entendê-lo – elas seguem adiante e a história ecoa na geração seguinte, onde suas filhas se aproximam e vivem suas próprias atribulações. Resenha Leona, uma antropóloga, saiu dos EUA para pesquisar os massai, uma tribo tradicional queniana, e estudar seus costumes e tradições. Em Nairóbi, ela conhece John, um habitante local com raízes inglesas. De uma noite sem compromisso onde eles sequer sabiam o nome um do outro, nasce Adia, uma filha que Leona não desejou, e por não desejar, entregou-a em adoção a Simi. Simi é uma típica massai e cresceu sabendo que um dia seria circuncidada e dada em casamento a alguém. Ainda assim, sua mãe sustentou até onde pôde o desejo de ver os filhos – principalmente a filha – alfabetizados, fazendo de Simi uma das poucas mulheres da aldeia que sabia ler, escrever e falar inglês, habilidade que a aproximou de Leona quando ela chegara à tribo. Contudo, depois de se tornar a terceira esposa de um membro da tribo, Simi descobre que é infértil, e nem os rituais e oferendas mudaram sua condição de agora mulher menos valiosa. Enquanto as outras esposas pariam um filho por ano, Simi via sua condição ir se deteriorando e ter como sorte não ser expulsa de uma comunidade que via a infertilidade como maldição. Dessa forma, quando Simi adota formalmente Adia, ela passa a ser mãe de verdade, e sendo mãe de verdade, seu lugar na tribo está reconhecido. Porém, no futuro, ela e Leona entrarão em conflito por conta da garota meio-americana, meio-massai. Paralelamente, em algum lugar dos EUA, Jane investe seu tempo na carreira de bióloga para esquecer que perdeu a mãe cedo e que seu irmão caçula é esquizofrênico e mora, isolado, em uma clínica. Partindo para a África com o objetivo de pesquisar e mapear os hábitos de elefantes ameaçados pela caça ilegal, ela conhece Paul, futuro embaixador americano e seu futuro marido, com quem terá Grace, seu ponto de apoio em meio às constantes mudanças que terão quando ela deixar a profissão para acompanhar Paul. Alguns anos depois, Grace e Adia serão adolescentes e melhores amigas. Leia outras resenhas Dividido em três partes, O Sol Mais Brilhante narra de maneira sensível e envolvente a história dessas três mulheres, todas com um ponto em comum: são mulheres com passados que deixaram marcas e influenciaram fortemente nas decisões que elas tomaram no futuro. Leona sofreu abuso sexual do pai na infância sob conhecimento da mãe, que nada fez para impedir ou punir o marido. O trauma desencadeou a introspecção em uma garota que cresceu acreditando que ninguém era confiável o bastante para ela se envolver, e por isso sua fuga mal disfarçada pós-noite com John. Por isso seu desejo desesperado em entregar Adia a alguém que pudesse ter e ser uma referência melhor. John, por sua vez, acaba sendo um personagem coadjuvante de peso nessa história. O pai, alcoólatra e agressivo, foi o estopim para uma tragédia que marcou a vida da família, e a mãe, na velhice e com Alzheimer em meio às dores do passado, gerou uma confusão que repercutiu por mais de dez anos na vida do filho. Simi decidiu desde muito cedo que suas filhas também teriam acesso à educação, pois a oportunidade que ela teve, embora interrompida na adolescência, mudou quem ela era e a forma como ela via a si e aos seus pares. Ainda assim, erra quem pensa que Simi negou suas origens e sua cultura em nome de uma suporta emancipação feminina. Ela continuou querendo ser uma boa mãe e esposa massai, continuou querendo ter muitos filhos e dar alegrias à comunidade. A infertilidade provocou feridas e mexeu com sua autoestima, mas Simi jamais quis fugir do seu destino ou da sua gente e tudo suportou. Viu em Adia um alento, amando-a e educando de uma maneira que fazia a garota gostar mais da sua vida na tribo do que ao lado da mãe biológica. Adia tem voz na última parte do livro e é uma menina com suas próprias questões (não vou dar spoilers), que tenta se encontrar no meio de visões e posicionamentos tão diferentes. De um lado, uma aldeia enraizada nos costumes locais, no outro, uma quase pressão em ser americana “de verdade”. O estranhamento dos demais – “Como pode uma africana ser branca?”, “Por que você usa acessórios esquisitos?”, em certo momento causa dúvidas nela mesmo sobre quem ela é a que povo ela pertence. Ela deveria continuar se comportando como uma massai ou deveria aprender de uma vez por todas os modos estadunidenses? O contato com Grace gera um choque ainda mais potente, pois Grace tem pais afetivos, uma mãe cuidadosa – até demais – e uma casa que não tem barro pelo chão. Ela assiste a filmes tipicamente americanos e fala coisas que Adia não entende ou nunca ouviu falar. A amizade das duas vai dar uma virada na história que pode tocar até os corações mais duros. Eu gostei de como os personagens de Adrienne Benson, que iniciou sua carreira de escritora com esse romance bastante elogiado, são moldados sem estereótipos, com originalidade, mas também com familiaridade. Quem de nós já não se sentiu perdido em um primeiro dia de aula na escola nova? Agora ponha isso em perspectiva macro e se imagine no lugar de Jane, em outro país, com pessoas e idiomas estranhos. Da mesma maneira, Adia, acostumada a ter o pé no chão, vê-se às voltas com os hábitos arraigados de Grace, super protegida pela mãe e totalmente alheia ao mundo ao seu redor. Conhecer a cultura do Quênia, mais especificamente dos massai, pode ser estranho no começo, principalmente quando entramos em contato com a circuncisão feminina, costume proibido desde 2011 no …

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[Resenha] Um Estudo em Charlotte – Brittany Cavallaro

Sinopse Charlotte Holmes e James Watson são descendentes do detetive mais famoso da Inglaterra e seu fiel amigo. Colegas de classe no ensino médio, os dois acabam suspeito do assassinato de um aluno e para provar suas inocências precisam encontrar o verdadeiro culpado. Durante a investigação Watson precisa lidar com a paixão que sente pela peculiar Holmes. Resenha Posso começar falando de como me desagrada esse fetiche em fazer de Holmes e Watson um casal. A primeira vez que me deparei com tal disparate foi na série Elementary, uma versão americana e moderna de Sherlock Holmes, onde Joan Watson (Lucy Liu) é uma espécie de dama de companhia barra terapeuta barra assistente de Sherlock (Jonny Lee Miller), um consultor da polícia de Nova York em tratamento contra o vício de drogas. Na segunda temporada surgiu um sentimento nebuloso na cabeça de Watson e ela se perguntou se não seria um amor platônico por aquele sujeito de inteligência acima da média e sociabilidade abaixo do mínimo. Não sei se por uma resposta negativa do público ou por uma sensatez atrasada, os roteiristas mudaram o rumo dessa história e os dois voltaram a ser bons e inseparáveis amigos desvendando crimes. Preciso abrir um parênteses e dizer que detestava essa série no começo, mas cinco temporadas depois eu já estava completamente apaixonada por esse Sherlock. Voltando a Um Estudo em Charlotte, o pobre Watson é quem conta a história e já revela, bem no comecinho, seus sentimentos pela garota estranha e antissocial cuja família esteve sempre ligada a sua. James é um aspirante a escritor e Holmes é uma viciada em drogas que foi enviada para os EUA para ficar longe de quaisquer influências do tipo. Além de ser uma entusiasta das ciências e ter seu próprio laboratório no internato. Leia outras resenhas Bem aqui já inicia o meu incômodo com releituras. Eu vejo como uma maneira meio preguiçosa de prestar uma homenagem aos clássicos e quase sempre gera umas incongruências narrativas cuja soluções às vezes convencem, às vezes não. Neste caso, eu entendo que jovens possam usar cocaína ou outros tipos de droga, mas estar em tratamento aos dezesseis anos e tratar isso com um certo nível de normalidade me parece um pouco demais. Assim como uma adolescente ter contatos de alto nível na Scotland Yard e contribuir com a investigação da polícia americana. Eu vejo que quando o autor reescreve um clássico e faz sua própria versão, ele tem dois caminhos: ou ser muito criativo e ressignificar todo o conteúdo ou dar seu jeito de não fugir das características originais e inventar artifícios para justificá-las. Pessoalmente, eu prefiro as referências às releituras. Quem faz isso muito bem é Mark Haddon em O Estranho Caso do Cachorro Morto, livro onde um adolescente autista investiga a morte de um cachorro da vizinhança e como bom fã de Sherlock Holmes usa as estratégias que aprendeu com as histórias. Por falar em investigação, a narrativa policial no livro de Brittany Cavallaro não é nada empolgante, traz uma vilã muito sem sal e apaga totalmente a figura de Moriarty. Podem argumentar em contrário e dizer que sou ranzinza com a obra de Sherlock Holmes, mas para mim Um Estudo em Charlotte precisou de muito feijão com arroz para gerar um sentimento parecido nos fãs do detetive. Sobre a autora Brittany Cavallaro é poeta, escritora de ficção, e admiradora antiga de Sherlock Holmes. A autora best-seller da série Charlotte Holmes nasceu em Springfield, Illions e morou lá até entrar na Academia de Artes de Interlochen, para estudar escrita criativa. Atualmente, ela está concluindo o PhD em literatura de língua inglesa pela Universidade de Wisconsin-Madison. Brittany vive em Wisconsin com seu marido e seu gato, além de uma coleção de boinas. (Fonte: Site Rocco) Sobre o livro Título: Um Estudo em CharlotteAutora: Brittany CavallaroAno: 2019Editora: RoccoPáginas: 384Avaliação: 1/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (Link afiliado. Comprando através dele você ajuda o blog sem pagar nada a mais por isso). Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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[Resenha] A Casa Dourada – Salman Rushdie

Sinopse René é um jovem cineasta em busca do primeiro roteiro perfeito. Quando conhece a família Golden, uma rica e excêntrica família que se muda para o seu bairro, René encontra neles a inspiração perfeita para o seu enredo. Depois da morte de seus pais ele se muda para a mansão e passa a observar os eventos e tomar notas. O que era um exercício de análise aos poucos se torna um envolvimento maior do que ele imaginava. Resenha Rushdie deu a René o poder supremo da narração e este soube aproveitar bem suas possibilidades. Com uma narração que dá voz a todos os personagens, passeia por pontos de vista diversos e mistura tom literário com roteiro de cinema, a história vai sendo contada com uma lógica que nem sempre fica clara, mas, no todo, faz todo o sentido e cumpre seu papel de maneira inteligente. Nero Golden, o patriarca viúvo, saiu da Índia para os EUA em condições bastante suspeitas com seus três filhos adultos e peculiares: Apu, D e Petya. Em solo americano ele se envolve com Valisia, uma mulher sedutora que nunca escondeu suas reais intenções ao se relacionar com um homem de idade avançada, rico e solteiro. “O que é uma vida boa? Qual o seu oposto? São perguntas às quais dois homens nunca darão a mesma resposta”. René começa essa história em um núcleo familiar feliz e saudável. Um acidente de carro quebra a magia e o deixa órfão. Nero o conforta – com o seu jeitão não muito paterno – e o acolhe em sua casa, onde René encontra o ponto de observação perfeito para escrever o seu roteiro. Contudo, os planos fogem de controle tanto em tempo de execução (ele leva mais de dez anos para escrever e preparar o filme) como em proximidade dos seus objetos. De repente, René está próximo de todos os problemas dos filhos de Golden, começa a descobrir a verdade sobre a saída deles da Índia e não só testemunha como participa de eventos que vão mudar o rumo da família. Leia outras resenhas Ao redor desse eixo giram temas como política, arte, amor, vingança, identidade de gênero, autismo, fobias, inocência, perdão, segredos, cinema, e, de quebra, um grande esquema mafioso. “Mais uma lição a ser aprendida: nunca subestime seu próximo. O teto de um homem é o piso de outro”. Eu fiquei confusa com a narração no início, mas depois pensei “Uau, isso foi inteligente”. A demora na minha leitura (cerca de 4 meses) foi uma consequência da dificuldade em entender de primeira qual era a “pegada” do livro – e fez eu me sentir quase parte da família Golden de tanto tempo que passei em sua companhia. Gosto como René, enquanto narrador, dá espaço para os personagens serem eles mesmos e deixa por conta deles a narração de alguns episódios. Também é muito interessante como ele adianta eventos, supõe pensamentos e faz suas próprias conjecturas de tudo que acontece, às vezes acertando, às vezes errando. O livro é uma boa pedida para quem não tem medo de leituras fora do padrão narrativo, e, claro, adora referências cinematográficas. Sobre o autor Salman Rushdie nasceu em Bombaim, na Índia, em 1947, de onde saiu aos 13 anos para estudar na Inglaterra, país onde morou boa parte da sua vida. Teve uma breve carreira como ator e então passou a se dedicar à escrita, a partir de 1971. Venceu o Booker Prize em 1981, o Booker of Bookers em 1993 e o Best of The Booker em 2008. Seu livro Os Versos Satânicos (1988) foi acusado pelas lideranças extremistas islâmicas de ofende Maomé o Corão, acusação que rendeu a Rushdie uma sentença de morte. Sobre o livro Título: A Casa DouradaAutor: Salman RushdieEditora: Companhia das LetrasAno: 2018Páginas: 456Avalição: 4/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (link afiliado, comprando através dele você ajuda o blog sem pagar nada a mais por isso). Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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[Resenha] O Morro dos Ventos Uivantes – Emily Brontë

Sinopse Heathcliff foi encontrado maltrapilho nas ruas de Liverpool e adotado por Earnshaw, proprietário do Morro dos Ventos Uivantes, um lugar propício a tempestades e vendavais. Bem tratado pelo pai adotivo, Heathcliff logo gera ciúmes no filho mais velho, Hindley, de quem terá o desprezo pela vida inteira. Por outro lado, a segunda filha, Catherine, se tornará sua amiga, confidente, e seu primeiro e único amor. E é por causa dela que Heathcliff seguirá rumo a uma vida de vingança e ódio. Atenção, esse texto contém spoilers. Uma longa história Essa história começa não com Heathcliff criança, mas bem adulto e já dotado de todos os traumas possíveis. Tudo começa quando o Sr. Lockwood aluga a Granja dos Tordos e resolve visitar seu dono, Heathcliff, um homem frio e antipático. Saindo de lá com a pior das impressões, resolve perguntar à empregada Nelly o que ela sabe sobre esse homem mal-encarado e de humor inacessível. Pela voz e narração de Nelly o leitor vai conhecer toda a história dessa família. Heathcliff pode lidar com os maus tratos enquanto Earnshaw viveu e o protegeu. Contudo, depois de sua morte Hindley levou a sério sua intenção de transformar a vida do cigano – como era chamado – em um inferno. Colocou-o no nível dos empregados e se empenhou em maltratá-lo do jeito que pode, sendo a amizade com Catherine o único consolo do garoto. Uma das provas da insignificância social de Heathcliff é que esse era seu nome e sobrenome. Ou seja, ele não era ninguém, nem mesmo um membro oficial da família. Catherine, mimada, bem criada, se afeiçoou a Heathcliff e nutriu por ele um sentimento genuíno, mas conforme a pressão de se casar foi ficando mais forte com a idade, ela reconhece que, mediante sua condição, casar com ele está fora de questão. Que vida o pobre Heathcliff poderia lhe proporcionar? Então surge Edgar Linton, herdeiro da Granja dos Tordos e um pretendente muito mais viável. Com a intenção, e motivação, de Catherine se casar com Linton, Heathcliff foge sem olhar para trás ou dar qualquer satisfação, voltando algum tempo depois com uma fortuna inexplicável e muita vontade de devolver aos habitantes da sua antiga casa tudo que ele sofrera durante os anos que vivera ali. Sua primeira ação é se casar com Isabela, irmã de Edgar, e depois se revelar um marido inescrupuloso, arrogante e profundamente desprezível. Isabela foge, grávida (guarde esta informação), e só temos notícias dela muito tempo depois. Nesse intervalo Catherine dá à luz a uma menina, Cathy, e morre logo em seguida. Parte em decorrência do parto, parte por consequência de levar uma vida que escolheu por conveniência. Sabe quem também teve um filho? O “adorável” Hindley, que se entregou ao jogo e à bebida depois da morte de sua mulher e afundou sua família em dívidas. Aqui Heathcliff não perde tempo e executa mais uma parte de sua vingança. Toma o filho de Hindley, Harenton, para si e o cria da mesma maneira que fora criado: com maus tratos, má educação, ignorância, e desprovido de quaisquer privilégios. Além de ter se aproveitado da situação de Hindley para comprar O Morro dos Ventos Uivantes. Ufa! Ainda tem mais coisa ruim nessa história? Claro que tem! Continue. Cathy, a filha de Edgar e Catherine, cresce com o pai e é superprotegida, sendo inclusive tolhida de desbravar os limites da Granja, o que causa grande interesse na garota em saber o que tem de tão ofensivo do lado de lá, sobrando para Nelly – sim, Nelly viveu nas duas casas e acompanhou tudo de perto – segurar as pontas de sua curiosidade. Lembram da Isabela? Ela criou Linton Heathcliff até a adolescência, quando morreu e seu filho foi morar com o pai nota dez que já sabemos quem é. Linton era um menino fraco de saúde e, olhem só, tinha a personalidade parecida com a de quem lhe deu seu sobrenome. Mas alguém seria páreo para o grande Heathcliff? Como uma das cartadas finais, nosso anti-herói obriga o filho a se casar com Cathy e assim reunir em uma família só ambas as heranças. E quando digo obrigar, é obrigar mesmo! E é assim que o Sr. Lockwood encontra a casa no morro dos ventos uivantes: um lugar cheio de pessoas duras de coração, ressentidas, arredias uma com as outras e cheias de ódio para distribuir. Mas também pudera, né? Leia outras resenhas Onde O Morro dos Ventos Uivantes está na literatura? Com tantas características em uma obra só, O Morro dos Ventos Uivantes não chega a ser enquadrado em uma única escola literária. O livro tem traços da Escola Romântica como a valorização da natureza, paixões intensas e personagens individualistas, além de abarcar o papel do herói byroniano. Lord Byron foi um poeta do século XIX e uma figura importante no romantismo. Um herói byroniano seria o que hoje conhecemos como anti-herói, e poderíamos definir como alguém fora dos padrões morais da sociedade, mas com capacidade de se afeiçoar romanticamente a alguém. Além disso carrega características como poder de sedução, conflitos emocionais, arrogância, esperteza e passado problemático. Lembra alguém? Heathcliff, embora sendo como é, tinha por Catherine um amor explosivo, exasperado, e até mesmo doentio, eu diria – a ponto de mandar o coveiro abrir o caixão dela e cavar ali do lado o lugar onde ele próprio queria ser enterrado. A obra de Emily Brontë também apresenta algumas nuances da Escola Gótica como atmosfera melancólica e eventos atrozes. O livro ainda teria uma pontinha ali de Realismo, dada a construção dos personagens. Uma história de amor? Há controvérsias. Pessoalmente, eu diria que de amor tem muito pouco nessa história. Na verdade, trata-se mais de uma vingança estimulada por um sentimento desprezado. Podemos perceber que a maldade de Heathcliff começou como uma resposta ao que ele sofrera na infância. No afã de retornar o mal que lhe fizeram, ele acabou dando abertura para uma geração tão perturbada quanto, uma vez que ele educou Harenton com …

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[Resenha] Transgressões – Uzma Aslam Khan

Sinopse Paquistão, década de 90. Dia é a herdeira de uma fábrica de seda e de uma fazenda criadora de bichos-de-seda. Depois que seu pai foi morto em condições desconhecidas a administração dos negócios ficara a cargo dela e de sua mãe. Daanish é um jovem paquistanês que estuda nos EUA e volta para a cidade natal para o funeral do pai. Os dois se conhecem casualmente e começam um relacionamento às margens das regras e da verdade. Resenha No instante em que Dia e Daanish se conheceram, mais da metade do livro já tinha se passado e eu aceitado que essa história tinha um ritmo próprio. Antes que os dois se encontrassem muita coisa aconteceu, tanto no presente quanto no passado, e esses eventos precisavam ser contados. O livro é dividido por seções e cada seção comporta uma série de capítulos encabeçados por um personagem em questão, todos em terceira pessoa. Dia está na faculdade, mas não muito empolgada com seus estudos. Reprova disciplinas, é desleixada com as provas, e parte disso se deve ao fato de que algumas semanas antes o corpo do seu pai fora encontrado no rio com sinais de tortura. Mansoor era um dos homens mais ricos do Paquistão, e sua fábrica de seda a maior fornecedora do país, o que leva a família de Dia a achar que o crime tenha relação com inimigos políticos ou financeiros. Quando Riffat, sua mãe, assume a direção dos negócios, ela é alvo de críticas severas por parte da sociedade e de seu próprio núcleo familiar, que estranha uma mulher com tamanhas responsabilidades e coragem de aceitá-las. Porém, parte da prosperidade de toda a fortuna veio de sua inteligência e audácia. “O que mais a história tinha mostrado? Que os rios sempre desembocavam no mar e era irrelevante saber qual braço chegava primeiro”. Daanish é um muçulmano nos EUA com a Guerra do Golfo ainda fervendo na memória. Ele estuda jornalismo e usa esse contexto para criticar a imagem que os americanos fazem de si mesmos através da mídia. Contudo, todos os seus posicionamentos são taxados como falta de profissionalismo e que nessa profissão não há espaço para parcialidades – a ironia. Ele volta para casa e encontra uma mãe em luto que passa a direcionar suas emoções para um controle incisivo sobre a vida do filho. Daanish também começa a estranhar os costumes conservadores e a dinâmica das coisas em um país que sofre com a falta do básico, uma vez que ele vivia em uma sociedade onde as coisas são complicadas, em certo nível, mas desburocratizadas em outro. Salaamat é um personagem secundário, porém de suma importância. Ele vem de uma vila de pescadores muito pobre e adquiriu uma deficiência auditiva depois de uma surra que levara na infância de homens da região. Na cidade grande ele começa a trabalhar em uma oficina de decoração de ônibus, uma paixão particular sua. Depois de três anos trabalhando apenas em troca de comida e de um cubículo para dormir, ele entra em contato com um grupo armado que defende a liberdade do Paquistão e o atrai para fazer parte da organização. “[Dia] As histórias de amor não passam de um esporte de grande apelo popular”. A autora costura esses três personagens até eles se encontrarem em um ponto comum que gira em torno do relacionamento de Dia e Daanish. Os dois se conhecem no funeral de Shafqat, pai de Daanish, depois de Nini convidar sua melhor amiga, Dia, para acompanhá-la a um evento que envolve seu futuro pretendente. Dia é terminantemente contra casamentos arranjados, e acha que essa é uma das formas mais claras de opressão às mulheres, pensamento incentivado por sua mãe. Nini, romântica e receosa da solteirice que leva a uma imagem mal falada, quer apenas cumprir com seu destino. Destino esse com o qual Anu, mãe de Daanish, está muito interessada em ajudar a construir. Eu vejo que o livro de Uzma está ancorado em três pilares: a política (as questões militares dos EUA, o sistema paquistanês), a opressão contra as mulheres e os costumes muçulmanos, esses dois com mais força e o primeiro como pano de fundo em algumas cenas e diálogos que Daanish tem em seu núcleo. A narrativa critica muito o valor dado às mulheres. Tão protegidas, tão bem cuidadas (quando dentro de casa), e tão lapidadas para o casamento. Mas se saírem às ruas sozinhas são alvos de comentários grosseiros e assédio escancarado. Quando Dia e Daanish burlam as regras e queimam etapas, para ela é um crime muito maior, enquanto para ele, aos olhos alheios, é apenas um inconveniente no caminho da sua relação arquitetada com Nini. Leia outras resenhas Contudo, as Transgressões que o título adianta vão muito além desse sentimento que se esconde em lugares sabidos apenas por Salaamat. Começa muito antes dos dois nascerem, antes dos bichos-de-seda saírem de seus casulos e antes dessas famílias serem o que são. Dia e Daanish transgridem o que sabem e o que não sabem, e a consequência de erros passados acaba respigando em todo mundo, até nos mortos. Além de falar bastante sobre o processo de produção da seda, desde a criação dos insetos, o livro também ambienta muitas cenas no mundo marinho, um lazer que Daanish dividia com o pai. Os dois sabiam identificar conchas, moluscos, e outras riquezas do oceano. Eu achei que a escolha de não tornar o relacionamento de Dia e Daanish o ponto alto da trama deu equilíbrio à história, que soube dar o peso e a influência certa a cada personagem. Até mesmo Khurram, amigo e vizinho de Daanish, que aparentemente não tem uma função muito clara além de emprestar seu carro para os encontros do amigo, tem, na parte final, seu papel explicado. Também gostei que o casal não foi exatamente um símbolo do amor desesperado e dramático, mas uma relação usada para explicar outros pontos ao redor e mostrar como as expectativas mudam a depender do lugar onde você está. Sobre …

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[Resenha] O Círculo – Dave Eggers

Sinopse Mae é uma jovem recém contratada pelo Círculo, a maior e mais poderosa empresa de tecnologia do momento, cujo objetivo principal é unificar em um só sistema todas as transações do mundo virtual. Sinopse Há muitos pontos a serem discutidos sobre esse livro, vamos um por vez. Eu compreendo a empolgação de Mae em trocar seu emprego em uma repartição pública de interior por um cargo “pequeno”, porém dentro da empresa mais badalada do país, como se ela estivesse indo trabalhar no Google ou no Facebook. Mas o Círculo é tão mais grandioso que desbancou as duas. Por isso, a primeira frase do livro é “Meu Deus, pensou Mae. É o paraíso”. Ela se deslumbra com a arquitetura moderna, tecnológica, e sente o clima de futuro que paira sobre ela. Mae mal pode acreditar na sorte de ter uma amiga como Annie ali dentro, a ponte entre seus sonhos profissionais mais ousados e a realidade acontecendo. “[Annie] É melhor estar no primeiro degrau de uma escada que a gente quer subir do que no meio de uma escada que não interessa, certo? Uma escadinha de cagões feita de merda”. Mae começa no departamento de Experiência do Cliente, um setor que cuida basicamente do atendimento e pesquisas de satisfação – aquelas que as empresas sempre pedem que façamos no final de uma compra – e aqui ela descobre que trabalhar no Círculo significa correr atrás da excelência, por isso ela mesma está sendo avaliada o tempo todo, e sua meta é estar o mais perto da nota 100 possível. Com o tempo, o que era uma tela de trabalho vai se transformando em duas, três, quatro, cinco, até chegar em quase dez. Uma para trabalhar com os atendimentos, outra para interagir na rede social da empresa (sim, é obrigatório), outra para postar na rede social pessoal (também é), outra para ajudar os estagiários e por aí vai. Mae, acha o máximo, pois quanto mais telas, mais ela se sente importante. Ah! Quanto mais os funcionários interagem online, mais eles sobem no ranking e estar dentro dos 2000 primeiros é importante, por isso Mae se esforça em responder, comentar e curtir o máximo de publicações possíveis. Aqui começa a primeira crítica do autor. A exploração que existe por trás das empresas “cool” e suas salas de jogos, seus sofás coloridos e sua política juvenil e despreocupada, mas que tem como principal objetivo manter o funcionário o maior tempo possível dentro da empresa. O Círculo tem áreas para esportes, dormitórios, bibliotecas e piso com ladrilhos motivacionais, tudo para fazer o empregado se sentir mais em casa do que em sua própria casa. Aliás, a primeira advertência que Mae recebe é justamente por ter passado o fim de semana com os pais em vez de aproveitando as atividades extras do campus, sob a máscara de que todos ali fazem parte de uma comunidade e devem participar. O leitor já sente um clique na cabeça, mas Mae se desculpa e promete ser uma funcionária mais ativa. “[Mercer] O que eu devia dizer é que espero o dia em que alguma minoria barulhenta finalmente se levante para dizer que isso foi longe demais e que essa ferramenta, que é muito mais insidiosa do que qualquer invenção humana criada até hoje, deve ser inspecionada, regulamentada, contida e que, acima de tudo, precisamos de opções para ficar de fora”. A outra crítica se refere à obrigatoriedade de compartilhar tudo que se faz, e é a segunda advertência de Mae, que passeou de caiaque e não postou nenhuma foto ou comentou nada no Zing (uma rede social semelhante ao Twitter), algo inadmissível para um círculeiro. Mais uma vez, ela se retrata e diz que vai ser melhor. E assim, aos poucos, Mae vai sendo envolvida naquele universo de modo tão sutil, tão atrativo, que sua cabeça vai sendo moldada a pensar como eles. Até a metade do livro eu achei a narrativa muito lenta e senti falta de mais cenas de ação, mas depois entendi que isso acompanha o ritmo da imersão de Mae naquele ambiente que vai sendo construído como perfeito, e que precisa dela, uma jovem visionária, esperta, inteligente, para fazer o mundo um lugar melhor. Então, o que antes era uma ideia espantosa, mas simples, de unificar transações bancárias online, compras, redes sociais, vai se transformando em algo que invade a liberdade individual das pessoas e as faz acreditar que a privacidade não deve ser um bem próprio, mas sim comum. Afinal, o que você faz quando todo mundo está vendo? Nada de muito errado, não é? Esse é o argumento base do Círculo. Leia outras resenhas Os poucos personagens lúcidos dessa trama, os pais de Mae, seu ex-namorado e um amante misterioso que aparece em sua vida, são perseguidos e taxados de antiquado, como se viver off-line não fosse mais uma opção. De repente, as pessoas sentem necessidade de acompanhar tudo, explorar tudo, saber tudo, perguntar tudo e ter respostas sobre tudo. O autor usa um recurso muito bom para satirizar os digitais influencers, que filmam praticamente cada segundo do seu dia (está lá pela parte II do livro) e como isso acaba sendo tão natural que passa despercebido pela racionalidade. O final não tem nada de heroico, mas sim de muito realista – e que eu já imaginava que iria acontecer, embora esperasse também por um desenrolar clássico -, porque, afinal, que sinais nós temos de que estamos recuando nesse processo? O Círculo foi adaptado para o cinema em 2017, com Emma Watson e Tom Hanks no elenco. Sobre o autor Dave Eggers nasceu em 1970, em Boston. É jornalista, escritor e editor-fundador da McSweeney’s, editora independente com sede em San Francisco. É autor dos livros Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, O Que É O Quê (finalista do National Book Critics Circle Award de 2006), Os Monstros (versão romanceada do roteiro que originou o filme Onde Vivem os Monstros) e Zeitoun, além do romance Um Holograma para o Rei. Sobre o …

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