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[ Conto ] Ruído Branco

― É a maior baboseira que ouvi nos últimos meses — Alan tomou um gole grande de refrigerante e sentiu o bolo de comida descer pela garganta — De tempos em tempos você me aparece com uma dessas. ― Escuta só, eu ainda nem terminei de falar — naquele dia o refeitório estava relativamente silencioso — Eu vi um anúncio online… ― Começa sempre assim. Com um anúncio online. Seu algoritmo deve ser uma porcaria. ― …é um programa imersivo de realidade paralela — Jonas não tinha parado de falar — Ele te leva aonde você quiser. ― Isso já existe. ― Não se trata apenas de realidade virtual. Eles proporcionam uma experiência muito mais completa, profunda, e, o melhor, prolongada no mundo virtual. Cada minuto aqui equivale a uma hora no Olympus. ― Olympus — Alan deu a última garfada no talharim — É esse o nome? ― Não importa. Importa que eu posso dormir com cinco mulheres e cada uma ser mais bonita que a outra. ― Por que não namora uma mulher de verdade? ― Eu posso ter quatorze carros de luxos. ― Você não se cansa? Eu juro que me canso de carros. ― Eu posso… você sabe. ― Uma terapia faria mais efeito — Alan passou o guardanapo rapidamente ao redor da boca enquanto se levantava da cadeira — Eu tenho tanta coisa para fazer que não acredito que estou gastando o meu tempo ouvindo você. ― Vamos dar uma passada lá no fim do dia. ― Não lembro a última vez que conseguimos uma folga na sexta à noite e você quer usá-la brincando de videogame. A Úrsula vai me matar. ― É coisa rápida. Vinte minutinhos. Já está agendado. ― E por que você quer que eu vá? ― Porque quando chegar lá você vai se impressionar com o lugar e vai querer experimentar também. ― Sem chance. Por curiosidade: quanto custa isso? ― Seis e quinhentos. Alan sentou de novo e arregalou os olhos. ― Quando começou a rasgar dinheiro? ― Vale a pena, cara, vai por mim. No fim do dia, o sol lançava uma luz alaranjada pela avenida movimentada. Entre os semáforos e prédios espelhados, motoristas buzinavam e pedestres apressados e cansados atravessavam na faixa branca antes que o sinal fechasse de novo. Subia um cheiro de fumaça misturado a um cheiro de fritura que Alan nunca sabia de onde vinha, mas que se parecia muito com churros. E a cidade sempre tinha aquele barulho insuportável. ― Olha isso, Jonas — ele parou no meio da calçada — Há quanto tempo você não vê o sol? Deixa esse negócio pra lá e vamos lá em casa. Eu estou tão cansado… Você não teve um dia de cão? Eu tive um dia de cão. A Úrsula aprendeu a cozinhar uns negócios gostosos que ela vai adorar fazer pra gente. Ela gosta de se exibir. ― Depois, depois. Vamos nos atrasar. Alan deixou os ombros caírem enquanto dava uma última olhada no horizonte. Os dois eram as mentes mais promissoras da empresa que criava softwares para automóveis. De estagiários com ideias ousadas a líderes prestigiados, os nomes Alan e Jonas eram referência no universo da tecnologia automotiva. Apesar de não serem os primeiros a alcançar sucesso tão jovens, eles gostavam de dizer, em particular, que suas carreiras tiveram a velocidade de uma Bugatti Chiron. Nada discreta, porém, era a fachada do prédio onde o Olympus estava instalado. A arquitetura moderna e futurista assustou Alan, que parou meio segundo, boquiaberto. ― Eu disse que você iria se impressionar — disse Jonas, empurrando a porta de vidro com certa satisfação na voz. O salão de entrada era um extenso espaço branco contornado por paredes curvas e um teto com lâmpadas que eram claras demais e pareciam ir revelando o caminho conforme os visitantes avançavam rumo à recepção. Do lado esquerdo, Alan viu alguns sofás odiosamente brancos e uma mesinha de centro que parecia um mouse deformado. Os dois foram atendidos por uma secretária elegante e sorridente que lhes deu dois crachás e os orientou sobre a próxima parada. Em seguida, entraram em um elevador e subiram para o décimo segundo andar. Jonas estava ansioso e Alan tenso. Assim que o elevador abriu, ouviu-se uma voz aveludada sair de algum lugar. Seja bem-vindo ao Olympus. Você chegou no Paraíso. Um homem de cabelos grisalhos os esperava no corredor. Ele se apresentou como Clóvis. ― Serei o guia de vocês nesta experiência. Por aqui, por favor — com uma voz baixa e empolgada, ele apontou para uma porta de vidro mais à frente. Até então, Alan observava tudo sem dizer uma palavra. Na sala seguinte, um aroma de alecrim deixava o ambiente mais aconchegante, mas não menos impessoal. Tudo ainda tinha a atmosfera de uma sala de cirurgia. ― Podem se sentar, por favor. Não vamos demorar — Clóvis abriu uma gaveta e retirou uma pasta prateada de dentro — Até aqui, o que vocês sabem sobre o Olympus? Jonas repetiu tudo o que tinha visto no tal anúncio. ― Perfeito — ele sorriu e uns fios de cabelo branco se mexeram — É muito simples, Jonas. Você será direcionado para aquela cabine e eu colocarei dois adesivos nas suas têmporas. É confortável e não incomoda, não se preocupe. Automaticamente, você se sentirá relaxado, como se estivesse pegando no sono. Então é só fechar os olhos e se divertir. ― Eu posso fazer qualquer coisa mesmo? — ele abriu um largo sorriso. ― O programa é direcionado conforme a imaginação do usuário. O seu corpo entra em uma espécie de transe e nada do que você faz no mundo virtual é refletido no mundo real. Para nós, será como se você estivesse tirando um cochilo. ― Tem certeza de que não quer participar? — ele se virou para Alan, mas Alan não se moveu. ― Não tem efeitos colaterais? — Alan perguntou a Clóvis. ― Nenhum. Como eu disse, é um cochilo. Um cochilo no Olimpo — ele esperou que um dos dois dissesse mais alguma coisa — Assine aqui, por favor, Jonas. A cabine era uma sala comum, revestida de telões com baixa luminosidade, onde no centro havia uma poltrona branca e confortável. ― Quando entrar na sua realidade, verá uns …

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[Conto] O sol se põe rápido demais

Combinaram de se encontrar às 16h:30, no último posto de gasolina antes da saída da cidade. Ele se arrependeu de ter vestido uma calça jeans branca assim que saiu do carro e os pés levantaram uma poeira fina que imediatamente grudou na barra da calça. Espanou o que deu, mas era inútil. Acenou com um leve movimento de cabeça para o único frentista, que sentado em uma cadeira branca de plástico aguardava o próximo cliente. Era um dia quente e ele já havia aberto dois botões da camisa do uniforme desde às onze da manhã. Com as mãos na cintura, andou devagar pra lá e pra cá ao redor da camionete. Chegar cedo talvez não tivesse sido uma boa ideia, mas ficar em casa lhe daria coragem para ir buscá-la, mas não seria uma coragem inteligente. Se, dali onde estava, ele repentinamente decidisse por tal insanidade, a distância o faria desistir no meio do caminho. Eles combinaram de esperar, então ele esperaria. Até a próxima cidade eram cerca de sessenta quilômetros de estrada mal pavimentada, empoeirada, e com as margens ocupadas por um matagal de onde poderia sair qualquer animal mal vigiado atravessando de um lado para o outro. E eles nunca atravessavam com pressa, era sempre um búfalo preguiçoso ou uma vaca que parava no meio da estrada para contemplar o horizonte. Certa vez, não houve tempo para desviar e ele avançou pelo acostamento e acabou destruindo a cerca da fazenda de onde o animal nunca deveria ter saído. “Você teve sorte de não ter batido em uma árvore”, ela disse enquanto fazia o curativo no nariz quebrado, “ainda mais sem cinto de segurança”. Parecia brava, como se ele fosse alguém sob sua responsabilidade. Ele a conheceu na mesma época que todo mundo, quando um novo pediatra foi contratado para o hospital e a esposa enfermeira ocupou uma vaga na emergência. Há dois anos a loja dele cuidava da manutenção dos ares-condicionados dali. “Eu já te vi por aqui, você é o cara que não deixa a gente no calor”, ela sorriu, mas foi quase imperceptível. Todas as vezes que se encontravam, ela exalava culpa pelo corpo todo, mas logo em seguida soltava o ar e incorporava o comportamento que o momento pedia, como se um controle remoto mudasse de um telejornal para a novela das nove e depois para um filme de suspense. “Eu tenho que ir”, ela sempre dizia com a voz acelerada e pesada. Um ano se passou até que ele perguntou se ela não gostaria de levar uma vida feliz. “Você deduz que eu não sou feliz sem nem antes me perguntar”, e ele entendeu que tudo aquilo não passava de uma maneira de ela preencher o tempo entre um plantão e outro. Até que um dia ela mesma sugeriu que fossem embora, pois gente doente e ares-condicionados quebrados havia em todo lugar. Ele aceitou e agora estava ali, vendo o tempo passar pela velocidade que o sol baixava no céu. Já eram mais de cinco horas e ele discou o número dela no celular. Nada aconteceu e a mensagem de texto também não foi respondida. Pensou em mil e um cenários ruins protagonizados por um marido perverso e sentiu um choque descer pelo corpo. Não era mais uma questão de coragem ir até lá, mas de urgência. Entrou rápido no carro e deu ré, quase batendo em um SUV preto que entrava no posto. “Boa tarde, doutor”, ele viu pelo retrovisor o movimento do frentista ficando de pé. “Vão viajar? Ah, um fim de semana na praia é bom demais. Se a gente passa muito tempo aqui, o cheiro de cocô de vaca não sai mais nunca da gente”. O vidro era escuro, mas todo mundo sabia de quem era aquele SUV preto. De tanque cheio, o carro buzinou e ele abriu passagem, voltando para o lugar de onde saíra às pressas para ir buscá-la. Ainda deu tempo de ver um punhado de cabelo escapar pela janela antes do vidro subir completamente. Um cabelo cuja cor nunca estava desbotada. Em trinta segundos o SUV já tinha sumido pela estrada e ele seguiu logo atrás. Não sabia que rumo eles tomariam e nem queria saber. Já tinha decidido o seu e não fazia mais sentido voltar atrás, não com tantos ares-condicionados para consertar por todo canto. Ele ficaria bem. Pisou fundo no acelerador na primeira curva bem na hora que o búfalo decidiu atravessar preguiçosamente. Não deu tempo de novo. Desta vez, foi lançado para fora e um último resquício de sol se misturou ao sangue escuro e à poeira do capô. Já eram seis da tarde e em pouquíssimo tempo seria oficialmente noite. Para ele, já havia escurecido completamente. O sol sempre se põe rápido demais.

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[Conto] O rei justo e benevolente

Há muitos anos, em uma terra distante, havia um rei justo e benevolente. Herdeiro de um reino cujo trono nunca vira um monarca injusto, infiel ou desleal, todos os seus antepassados ficaram na história por serem homens e mulheres com um apurado senso de justiça. Os conflitos sempre eram resolvidos sob a luz da dignidade e da honra. Nenhum súdito jamais levara uma questão ao rei sem sair com uma decisão coerente com os fatos, para o bem ou para mal. Punição para os culpados, absolvição para os inocentes, redenção para os arrependidos. O rei nunca tomara uma decisão errada. Conta-se que certa vez uma mãe teve seu filho sequestrado por um ladrão viajante e, em desespero, ela saiu para pedir socorro ao rei, que imediatamente enviou seus melhores soldados em busca da criança, encontrando-a em companhia do sequestrador, que o utilizava para outros fins ilícitos em vilas vizinhas. O homem fora julgado e condenado, sendo, depois de cumprida sua pena, beneficiado com uma chance de ser um sujeito íntegro. O próprio rei, reconhecendo a transformação, nomeou-o seu camareiro pessoal, com acesso livre aos seus aposentos. O ex-condenado nunca mais voltou a cometer nenhum crime sequer. Era um rei bom, amado e admirado. Todos os anos o rei, a rainha e seus dois filhos ofereciam um banquete a integrantes de outros reinos. Era um dia de festa, de confraternização, de criação de laços políticos, sociais e às vezes até amorosos. Não era incomum donzelas serem pedidas em casamento nessa data e no ano seguinte surgirem com uma gestação em curso, radiantes e orgulhosas de suas uniões prósperas. Os plebeus ansiavam por esse dia como se fosse o próprio Natal, pois o desfile de carruagens, belos vestidos, homens imponentes e cavalarias elegantes não era senão um presente para quebrar a monotonia de uma vida simples e sem muitos divertimentos. A cidade era enfeitada, as melhores frutas colhidas e oferecidas em cestas, as crianças, vestidas em suas melhores roupas, ficavam ansiosas para receberem acenos e apertos de mãos dos duques e condes. Com sorte, até mesmo um príncipe poderia aparecer e sorrir para elas! Leia também Petrúcio da casa azul Naquele ano, por infortúnio, o cozinheiro do palácio teve um mau súbito e adoeceu dias antes da grande festa, sem perspectiva de melhoras. Foi um pandemônio. A rainha sucumbiu a uma crise de ansiedade e as criadas passavam o dia a abaná-la e a massagear seus pés para estimular o relaxamento dos músculos. Mas a preocupação ainda estava viva: quem iria cozinhar para os convidados? Iniciou-se então um seletivo às pressas para contratar um novo cozinheiro e o escolhido foi o dono de uma barraca na feira da cidade que vendia os caldos mais famosos da região. A escolha fora unânime, assim que o rei e a rainha provaram do tempero levantaram os braços para o céu e respiraram aliviados pela possibilidade de salvar o jantar da Grande Festa. O cozinheiro, por sua vez, pediu encarecidamente a oportunidade de levar um aprendiz, um rapaz mais jovem que vinha aprendendo com ele a arte da culinária. O rei, justo e benevolente, concedeu o pedido e contratou ambos. No dia mais importante do reino, o novo cozinheiro contou com a ajuda não só do aprendiz como de uma série de serviçais, que iam e vinham da cozinha a cada instante. Uma chateação, contudo, o importunava. A quantidade de formigas e outras espécies de insetos infestava a cozinha e fazia o cozinheiro ora se importar com as comidas, ora em espantar os bichos para longe das panelas. Impaciente, pediu a um dos criados do castelo que providenciasse o extermínio daquelas criaturas o mais rápido possível ou os convidados correriam o risco de comer guisado com besouros! Prontamente, o homem saiu pelo reino e voltou poucas horas depois com uma garrafa transparente contendo um líquido amarelado e viscoso. Entregou ao cozinheiro com a instrução de espalhar o conteúdo pelos cantos da parede e o cheiro, pouco perceptível ao olfato humano, logo afastaria todo tipo de inseto da cozinha. Antes que pudesse executar a dedetização e voltar para o trabalho de sua expertise, o cozinheiro fora solicitado pela rainha para os últimos ajustes do cardápio. Saindo da cozinha, esbarrou com o aprendiz e foi claro: “Mexa o caldeirão de risoto a cada cinco minutos, na terceira vez ponha uma medida de gordura, tire do fogo e deixe repousar para apuramento do sabor”. O jovem assentiu com a cabeça e tão logo chegara a hora da ação, apanhou o primeiro recipiente cujo conteúdo parecia o adequado e derramou dentro da panela na medida ordenada – totalmente alheio ao episódio dos insetos. Assim, sem que ninguém desse atenção à confusão, o jovem temperou o risoto com o remédio para formigas. Mais tarde, a mesa do jantar foi posta e as refeições, servidas. O brilho dos talheres de prata disputava o ofuscamento dos olhares com as joias nos pescoços e pulsos das damas. A postura dos homens e mulheres fazia o ar do salão descer reto pelos corpos e traçar uma curva alinhada e sem desvios. Taças iam e voltavam dos lábios como gestos ensaiadas, as risadas eram contidas e nenhum convidado estava bêbado o bastante para alteá-la. O rei e a rainha estavam satisfeitos. Assim que o risoto fora servido, vozes sussurraram elogios e o estalar de bocas e línguas refletia a boa recepção da comida. Mas não demorou muito para que os movimentos sinalizassem que algo estava errado. Algumas mulheres começaram a sentir um embrulho no estômago, e os homens também, embora o disfarce não tenha durado muito tempo porque o desconforto logo virou uma pontada certeira nas entranhas. Os anfitriões não escaparam e em meia hora o jantar comportado e fino se transformou em um tumulto de gemidos, dores, poças de vômito, lágrimas e desespero. Os guardas correram em urgência a buscar os médicos do palácio e até mesmo os curadeiros plebeus foram intimados a ajudar na maior desorganização sanitária vista desde que o rei era …

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[Conto] Estranho são os outros – Sabryna Rosa

Havia uns bons anos que Jorge e Magnífico eram vizinhos. O primeiro, viúvo, filhos morando fora da cidade, o segundo, um solteirão de longa viagem. Moravam lado a lado, com a distância de um jardim e uma cerca baixa construída por Jorge mais a fim de decoração do que de separação de terreno. Os dois tinham uma relação amigável, mas não íntima. Encontravam-se vez ou outra pela calçada, pela padaria ou no mercado do bairro. Como vai? Como vai? A carne subiu de novo, não é?, essas frivolidades. Um dia, passando em frente a casa de Magnífico, Jorge observou todas as cortinas fechadas, algo incomum para um homem, ele acreditava, cujo frescor do vento entrando pelas janelas, principalmente no verão, era um atrativo. Para falar a verdade, ele não tinha muita certeza sobre essa convicção, uma vez que o vizinho nunca lhe afirmara nada do tipo, mas, pela longa observação despretensiosa, ele nunca antes vira a casa fechada assim. Deu de ombros e continuou a vida. O fato curioso permaneceu. Janelas fechadas, vidros pouco abertos, um Magnífico visto com pouca frequência pelo bairro. Jorge tentou inserir o assunto em conversas triviais com outros vizinhos, mas ninguém parecia se importar muito com a situação das janelas de Magnífico. Meses se passaram e a situação cada vez mais estranha. Jorge passava horas espiando de suas próprias janelas, onde o ângulo era favorável, tentando encontrar alguma explicação para o completo sumiço de Magnífico e o aparente abandono de sua casa. Certa vez decidiu ir até lá, bater à porta e oferecer uma cerveja só para conferir se estava tudo bem, mas desistiu assim que chegou na soleira. Eu não tenho intimidade para isso, ele nem deve estar na cidade. Mas as sombras que Jorge via através das cortinas diziam o contrário. Aquela silhueta era sim de Magnífico. Sua curiosidade se acendeu. Ao contrário do vizinho, Jorge ainda não chegara em sua aposentadoria e mantinha uma pequena oficina de marcenaria próximo dali. A cada ida e volta do trabalho, diminuía o passo ao passar pela calçada de Magnífico e tentava, em vão, descobrir alguma coisa. Às vezes, a observação se estendia além do normal e alguém o interpelava pela rua para perguntar se havia algum problema. O camarada aí está meio sumido, o que acha?, ele perguntava, com um sorrisinho disfarçado e nervoso. As pessoas não davam muita atenção. Leia também o meu conto Fique na Floresta A importância que Jorge dava ao fato não era exatamente uma preocupação genuína, mas o puro atiçamento de imaginação que ele gerava. Em sua cabeça diversas narrativas explicativas já haviam sido formuladas, algumas com a lógica perfeita, outras sem pé nem cabeça. Ele dormia e acordava pensando no que Magnífico fazia de tão interessante, ilícito ou imoral atrás daquelas janelas fechadas o dia inteiro. Assim, bolou um plano. Veria com seus próprios olhos na primeira oportunidade que tivesse. Nada muito invasivo, apenas a satisfação de sua curiosidade. Tirou uma pequena licença de uma semana do seu trabalho e pôs-se de vigia na janela de sua casa quase vinte e quatro horas por dia. Ele precisa sair uma hora ou outra para comprar comida e nessa hora eu entro pelos fundos, dou uma olhada e volto. Demorou dois dias até que Magnífico saísse de casa. Era uma manhã nublada e a temperatura abaixara alguns poucos graus. Desconfiado, olhou para um lado, para o outro, e para o céu. Refletiu por um instante, talvez ponderando se deveria levar ou não o guarda-chuva. Não levou. Trancou a porta e saiu com pressa. É agora. Jorge pulou a cerca que ele mesmo construíra e não se importou com a atitude juvenil de transpôr barreiras privadas para fazer uma espécie de traquinagem. No quintal da casa do vizinho deu mais uma olhada ao redor para se certificar de que ninguém estava por perto. Limpo. Conheça meus livros As janelas dos fundos, assim como as da frente, se mantinham com os vidros e cortinas fechadas. A porta, por sua vez, foi encontrada sem trancas. Deixar a porta tão fácil assim? Jorge estranhou. Girou a maçaneta e a fechadura fez um clique. Ele a empurrou alguns centímetros e sentiu um cheiro forte de algo que não soube identificar de imediato o que era. Mas com certeza se misturava com mofo e… urina? Jorge deu dois passos para a frente e mergulhou na casa mal iluminada. Passou pela cozinha e viu incontáveis bolinhas marrons espalhadas pelo chão. Ele se abaixou e tomou uma entre os dedos. Cheirou. Ração? Jorge não era um homem dado a animais domésticos, mas sem dúvidas todo aqueles grãos jogados no chão da cozinha era restos de algum saco de ração. Mas desde quando Magnífico tinha gatos ou cachorros em casa? Avançando um pouco mais na casa do vizinho, Jorge chegou em um espaço amplo cuja curva daria para a sala, caso ele tivesse caminhado um pouco mais. Em vez disso, topou com dezenas de olhinhos fitando-o, flagrando-o e acusando-o de um crime que até então só ele sabia que havia cometido. Na sala de Magnífico, cerca de cinquenta gatos, de várias cores e tamanhos, aglomeraram-se em um grupo silencioso e acusatório. Alguns deitados, outros sentados, três ou quatro de pé, e absolutamente todos encarando Jorge com uma profunda incógnita na testa. Um deles manifestou o primeiro miado e dois o seguiram. O invasor permaneceu onde estava, atônito, absorvendo a cena que se revelou a sua frente. Então esse era o segredo de Magnífico? Ter transformado sua casa em um abrigo para gatos de rua? E por que tanto mistério? Olhando melhor o ambiente, Jorge percebeu que não era mais uma casa comum. Os móveis haviam sido afastados e em todo canto uma caixa de areia ou cumbuca de água podia ser encontrada. Num canto, quilos e mais quilos de sacos de ração empilhados e a quantidade de pelo espalhado pela casa faria qualquer alérgico considerar ali o próprio inferno. Passada a curiosidade dos gatos com a visita inesperada, eles …

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[Conto] Fique na Floresta – Sabryna Rosa

Clique aqui se você deseja ler esse conto em formato PDF. O som dos galhos quebrados por seus pés podia ser ouvido a uns bons metros de distância. Se houvesse alguém para ouvir. Desde que o mundo se transformara em um lugar sombrio, vazio e sem vida, um barulho antes incômodo poderia ser um sinal de esperança. Mas o som que ele ouvia agora vinha dele. Da sua velocidade, da pressa, da urgência em chegar a qualquer lugar onde elas pudessem estar. Mauro continuou a correr. As folhas ao redor viraram um longo paredão verde por onde ele passava ao se desviar de um e outro tronco enquanto gritava o nome dela a plenos pulmões. Mais alto que o som da floresta, mais alto que o som do rio, mais alto que o som dos pássaros sobreviventes revoando no céu. Ele parou para tomar fôlego e para se odiar por não ter oxigênio o suficiente para continuar. Chamou por elas mais uma vez, agora se certificando de que sua voz tinha saído por todos os lados e viajado por todos os ângulos, torcendo para elas estarem por perto. Foi em um dia comum, numa cidade comum e em um planeta comum que Mauro, a esposa e a filha saíram para acampar. Era uma tradição, a cada começo de férias, dois dias de acampamento. Lorena, a mulher, era a menos empolgada, dada a selvageria de sair do ar-condicionado para se instalar no meio da floresta habitada por animais, mosquitos e nenhuma tomada próxima onde pudesse ligar uma cafeteira. Ainda assim, ela arrumava a mochila da filha de oito anos com os melhores biscoitos e o suco mais natural que encontrasse no mercado. Ele sabia que a má vontade dela seria desfeita no caminho, quando os três cantariam aquela música da Katy Perry três vezes seguidas. Lorena gostava daquela música, era tiro e queda. O lado da floresta aberto para acampamentos era a escolha comum de todas as famílias cujas crianças ficavam de férias no mesmo dia, e isso deixava a larga faixa de grama sem espaço para os que saíam de casa depois das nove horas da manhã. Lorena bufou. A filha achou graça e Mauro fez o caminho já conhecido até uma área não autorizada para acampamentos, mas completamente aberta para pais que se importavam mais com a aventura do que com as regras. – Você sabe que um dia ainda vamos nos meter em encrenca, não sabe? – ela resmungou, mas se manteve acompanhando o passo o marido. Os três partiram floresta adentro por uma trilha de alguns metros até encontrarem o lugar marcado. Mauro tirou a mochila das costas e começou a retirar os itens de dentro um a um, enquanto a mulher e a filha foram até o rio dar uma olhada na água que descia da nascente próxima dali. Um dia e meio se passou até que tudo aconteceu com a velocidade necessária para assustar. O sol desaparecendo, as nuvens indo embora e o céu mudando de cor. Aquela sensação de que a morte vem chegando, mas se você não sabe de onde vem, não tem como virar para o lado certo e recebê-la. Os três estavam sentados sobre um tronco caído tentando acertar a pergunta sobre o último Oscar que Lorena fizera no jogo de Trivia. A filha perguntou o que era aquilo, mas eles sabiam tanto quanto ela. – Eu não sei, mas vamos embora. Pode ser uma baita tempestade. – Mauro pôs tudo de volta na bolsa, às pressas, e tocou a mão da esposa, sentindo a pele fria dela na sua – Ei, está tudo bem – ele disse, olhando nos olhos nervosos dela. O grupo de pessoas acampadas no espaço anterior havia se transformado em um aglomerado de gente recolhendo barracas, cestas, toalhas de chão, colchonetes, cachorros e crianças. Algumas delas choravam. Alguns adultos deixaram tudo para trás e saíram correndo, outros saíram com o mais importante nas mãos e outros poucos permaneceram em seus lugares reclamando da baderna e do muito barulho por nada. “Vocês nunca viram o dia escurecer de repente? De onde vocês vieram?”, disse em voz alta um homem deitado sobre a grama, nu da cintura para cima, com um calção de banho e um par de óculos escuros da última década. A mochila, desta vez mal arrumada, parecia ter triplicado de peso, e Mauro subiu com dificuldade a pequena elevação que dava para o lado do acampamento onde eles haviam deixado o carro. Ao redor, uma correria controlada, mas também nervosa. As pessoas murmuravam, especulavam, diziam que poderia ser apenas uma chuva estranha ou o fim dos tempos. Lorena sentiu a garganta seca e uma leve vontade de chorar, mas isso assustaria a filha sem necessidade. Fez o que pode, apertar a mão dela com mais força. Os três chegaram ao estacionamento e o céu ficou ainda mais escuro, como em um fim de tarde onde o sol vai se despedindo e as luzes da cidade começam a se acender, com a diferença de ser cedo demais para o fim do dia, o sol ter ido embora mais rápido que o normal e nenhuma luz ter sido acendida. Eles seguiram em direção ao carro e Mauro pôs a mochila de volta na mala. – Mauro, olha – Lorena apontou para a rodovia. Ele viu um longa linha de carros enfileirados e motoristas apressados, buzinando, nervosos, tentando chegar a algum lugar. O único lugar possível naquela direção: a saída da cidade. – Alguém tem que saber o que está acontecendo – num gesto rápido, ele entrou no carro e ligou o rádio no painel. Um ruído cortado saiu pelos alto-falantes e em seguida ficou mudo. Ele apertou o botão de liga e desliga mais de uma vez e viu o padrão se repetir, ruído e silêncio. – Fiquem aqui — ele disse, deixando Lorena e a filha ao lado do carro. O amontoado do acampamento agora tinha se transformado em uma multidão ansiosa para sair de …

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Petrúcio da Casa Azul – Sabryna Rosa

Você pode ler esse conto no Sweek ou baixar o arquivo em PDF Essa é uma história simples de dois meninos da vizinhança. Apenas um causo que eu peço licença para contar enquanto tomo meu chá olhando o tempo passar. Eram dois garotos. Um morava em uma casa de fachada rosa, o outro na casa azul. O da fachada azul era eu. Eu e Petrúcio (esse não é o seu nome verdadeiro, mas vamos nos contentar com este), nos conhecemos por volta dos doze anos de idade, quando eu, meu pai e minha mãe nos mudamos para aquela rua. Esse evento, a mudança, foi temporário. Meu pai tinha acabado de perder o emprego e minha mãe nos sustentava com seu magro salário de vendedora em uma loja de importados no centro. Antes disso, ela tinha sua própria loja de importados, mas um incêndio acabou com tudo. Por isso nos mudamos para uma casa menor, em um bairro maior, mais afastado, mais sujo e mais pobre. Eu confesso que não gostava daquilo. Gostava de quando nossa casa ficava no bairro perto do parque e podíamos sair no fim da tarde para dar um passeio. Na nova casa, não era muito seguro para isso, e também não tínhamos onde passear. Para onde quer que eu olhasse só via casas amontadas, ruas estreitas, cachorros pulguentos e um fedor constante de esgoto. Aliás, foi ali que eu soube como identificar cheiro de esgoto. Eu também mudei de escola. Passamos a morar muito longe do antigo colégio e eu fui transferido para um público. Eu ouvia histórias horríveis sobre a escola pública. Sobre a violência, as cadeiras quebradas, ventiladores barulhentos e goteiras. No primeiro dia de aula chorei antes mesmo de chegar lá. E ninguém podia me levar. Meu pai saiu cedo para procurar emprego e antes disso minha mãe já tinha tomado o ônibus para trabalhar. Estava escuro ainda, mas ela deixou café e um pão com manteiga para mim. Não era exatamente manteiga, era margarina, mas eu continuava a imaginar que era manteiga. Conheça meus livros No caminho para a escola eu pensei em não ir. Pensei em me esconder em algum lugar todos os dias e nunca ter que chegar lá, nunca encontrar os meninos que certamente bateriam em mim ou jogariam minhas coisas na privada. Nunca correr o risco de cair da cadeira quebrada e nunca molhar o uniforme com a goteira. Então eu sentei na calçada e fiquei olhando os outros garotos da vizinhança andarem em grupo. Eles riam, davam petelecos nas cabeças uns dos outros, brincavam de pega-pega no meio da rua. Alguns tinham tênis velhos e as mochilas puídas. Alguns nem tinham mochila, levavam um caderno na mão e as canetas nos bolsos. Outros estavam de chinelo e a barra da calça ia arrastando pelo chão. Foi nessa hora que Petrúcio se aproximou. Perguntou se eu sabia o caminho e eu disse que sim. Ele fazia parte dos garotos sem tênis e sem mochila, eu reparei. Ele me alertou que eu poderia chegar atrasado se continuasse ali e então me estendeu a mão em um convite para a escola. Eu não queria ir, não queria mesmo, mas era tímido demais até para recusar. A escola até que não era tão ruim. Era colorida, com cartazes de boas-vindas feitos em cartolinas brancas. As paredes dos corredores era coberta com um azulejo branco quadriculado e o chão estava encardido e bem arranhado. Tinha murais verdes por toda parte. As salas não tinham portas, eu logo vi, e as cadeiras eram de uma madeira escura e velha, a maioria delas rabiscadas. Eu e Petrúcio erámos da mesma turma e ele era um cara popular. No intervalo das aulas, tínhamos direito a um lanche que poderia ser desde mingau de milho verde a um arroz com macarrão e salsicha. Eu tinha nojo de tudo, mas minha mãe dissera que nem todos os dias eu poderia levar meu próprio lanche, então era melhor eu me acostumar com o que tinha. No primeiro dia, fui convidado por Petrúcio a me sentar perto de sua turma para comer e fui apresentado aos demais como o menino novo da sua rua. Eu apenas acenei de longe. Depois que fomos servidos eu beliscava aqui e ali, até um deles dizer “Ei! Não vai comer? Se não quiser, me dá!”. Lembro o quanto aquilo me chocou. Fiquei me perguntando se em algum momento eles atacavam as comidas uns dos outros ou iam de cadeira em cadeira pedir as sobras dos colegas como cachorros famintos. Foi tão inesperado que não soube o que dizer e inventei que precisava ir ao banheiro. Quando voltei, meu prato estava intacto, para minha surpresa. Mas eu já havia perdido totalmente a fome. Com o tempo, as coisas ficaram mais fáceis e minha amizade com Petrúcio ajudou. Eu confesso que no começo não o achava uma boa companhia para mim e pensava que ele não entenderia os meus assuntos preferidos, como filmes e revistas em quadrinhos. Não sabia se ele tinha televisão em casa ou se seu nível de leitura era bom o bastante para interpretar textos. Mesmo assim, em um gesto de generosidade incentivado pela minha mãe, emprestei uma de minhas revistas para ele – uma das mais velhas, pois tive medo de que não fosse devolvida – e no dia seguinte ele me devolveu perguntando se eu poderia emprestar outra. Aos poucos, fui emprestando toda minha coleção e já podíamos conversar sobre as sagas dos heróis e imaginar cenas alternativas. Petrúcio tinha uma imaginação incrível, preciso admitir. Um dia, ele me convidou para ir até sua casa. Morávamos um do lado do outro e eu já tinha reparado na sua sala de estar com três cadeiras de plástico, chão sem piso e paredes descobertas de tinta. Quando entrei, vi que entre um cômodo e outro cortinas de um tecido estampado ocupavam o lugar das portas e a casa tinha cheiro de mofo. Eu não passei da sala, embora ele tivesse me …

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