Bastidores

Atalhos – Sabryna Rosa

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Tinha por volta de 14 anos quando esbarrou em um andarilho na beira da estrada que lhe perguntou se ele gostaria de beber algo que o deixaria longe de todos os problemas e potenciaria sua capacidade intelectual.

A mãe o advertira, mais de uma vez, a não aceitar nada de estranhos, mas a proposta era tão absurda que ele não viu mal em fazer parte da brincadeira e alimentar o descompasso de um homem sem os dentes da frente e quatro bolsas penduradas pelos ombros.

O frasco transparente continha um líquido avermelhado muito semelhante a um suco de framboesa. Ele cheirou e sentiu um aroma agradável e floral. O sabor, adocicado, deu a entender que a fantasia era fruto de uma mistura qualquer de água e frutas.

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O homem abriu o sorriso desdentado e recomendou paciência para ver os resultados pois ainda naquele dia ele sentiria os efeitos. O garoto achou tanta graça que ouviu meio sem atenção que o andarilho estaria naquele mesmo lugar todos os dias caso o jovem quisesse mais.

Cerca de 35 anos depois o homem virou um velho e o menino virou um homem. A substância não só funcionava como alargava os efeitos com o aumento da dose. Mais de três décadas após aquele encontro ele ingeria de dois a três litros diariamente para ter combustível suficiente para trabalhar como presidente de uma companhia áerea e esquecer os adultérios da esposa e a condenação de um filho preso por dirigir alcoolizado.

Tudo que ele conseguiu, da aproximação ao que interessava ao distanciamento do que doía, foi graças à bebida doce e vermelha cuja origem ele nunca conheceu.

De onde vinha não fazia diferença desde que ela permanecesse mantendo ele longe das estradas espinhosas e o mantivesse caminhando por atalhos bonitos com cheiro de fruta e de flor.

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