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#3 Cartas que Coralina escreveu e guardou em um cofre

Eu queria ver a Terra girar. Dizem os especialistas em sucesso pessoal: você precisa ser confiante no processo, acreditar em si mesmo e ser constante. Eu confio no processo, às vezes acredito em mim mesma, mas definitivamente luto para ser constante. Sempre tive dificuldade em trabalhos repetitivos, minha mágica acontece quando eu preciso criar algo ou fazer surgir uma boa ideia. Sou boa em desenhar móveis de madeira, mas não sirvo para bater o mesmo prego por vinte dias seguidos. A inconstância me leva a percorrer o caminho pela metade e é desanimador olhar para frente e não ter mais nenhuma vontade de continuar. Não adianta ir contra a realidade: nada de grande pode ser conquistado sem muito se suportar; e o suportar muitas vezes é isso mesmo, fazer a mesma coisa todos os dias. O sucesso não é levar a grande pedra até o topo de uma vez só, é treinar um pouquinho a cada dia, uma pedra mais pesada por vez, até conseguir a maior delas. Na maioria das vezes eu quero desistir assim que começo a suar demais. Estou há anos trabalhando em um projeto e tenho a sensação de que continuo na base da colina com cinco unidades de pedras britas na mão. Olho para o topo e ainda falta muito. Olho para a pedra grande que me espera e tenho quase certeza de que não vou conseguir carregá-la. O preço da constância é alto. A constância te espreme até não sair mais nada e termina dizendo “amanhã tem de novo”. Sabe quem é constante e não se cansa? O planeta Terra. Um pouquinho a cada dia, ele vai girando, girando, até dar uma volta completa. Ninguém vê o planeta girar, só vemos os fogos de artifício no céu e sabemos que é Ano Novo. No dia seguinte, começa tudo outra vez. Tenho pesadelos só de pensar, nesse momento, em começar de novo. Eu queria ao menos saber se estou girando na direção certa e se meu ano novo irá chegar. Eu queria ver a Terra girar só para ter certeza. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Há sempre um bilhete para este trem

Uma frase de Sully Prudhomme diz assim: “Talvez não temamos a morte porque o tempo se compõe de uma série de instantes infinitamente curtos durante os quais estamos certos de viver”. Esses dias, a morte passeou entre pessoas conhecidas e foi como aquele aviso de cobrança que chega embaixo da sua porta depois de você muito ignorar as dívidas não pagas. Um lembrete: “não é porque você finge que eu não existo, que eu não estou aqui”. De todas os fatos certeiros da vida, a morte é o mais confirmado, e, curiosamente, o mais ignorado e o mais temido. Ao mesmo tempo em que se morre de medo de morrer, se vive como se não fosse morrer nunca. Leia também Uma Beleza Calculada Todo medo de morrer esconde uma culpa e uma covardia. “Muitos foram os meus erros”, e nenhuma pretensão de se arrepender. “Não posso morrer agora porque ainda há muito o que fazer”, e quando o sol se põe nada foi feito. Raramente se diz: “Tudo bem, eu estou pronto”. Do outro lado, o peito para encarar a morte costuma esconder um egoísmo ou um desleixo. “Tanto faz, eu fiz tudo que queria”, o pior jeito de viver. “Será até melhor, que aconteça logo”, e não há nenhum cuidado consigo mesmo e nem com os próximos. A morte é sempre um trem que pegando adiantado ou chegado atrasado, passando por uma vista bonita ou só atravessando tunéis escuros, você entra e vai até o final. Resta saber com que tipo de bagagem você irá embarcar. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Bastidores

Agora que cheguei ao futuro, quero voltar

Quando criança, eu imaginava um futuro com carros voadores, roupas metálicas e teletransporte. Na minha mente, eu estaria dentro de um automóvel andando sobre ruas estupidamente limpas, prédios escandalosamente altos e espelhados, e totalmente confiada a uma inteligência artificial que diria com voz aveludada: “Seu destino está próximo”, e então deslizaríamos suavemente até o chão. Hoje estou no futuro e em vez de uma voz aveludada o que eu ouço é uma gritaria, e uma gritaria sem som porque se trata de uma gritaria de caracteres. Para onde quer que eu olhe, várias pessoas, inúmeras delas, uma verdadeira multidão, fala de mim. Elas falam sem quem eu possa ouvir uma voz sequer e mesmo assim é insuportável. Falam perto, falam longe, falam verdades, falam mentiras, falam em letras grandes, em letras miúdas. Falam, falam, falam sem parar. E eu não posso tampar os ouvidos porque ainda consigo vê-las, não posso fechar os olhos porque elas continuam a rodopiar ao meu redor, não posso falar mais alto pedindo que se calem porque elas simplesmente não poderão ouvir. Eu não sabia que no futuro era assim, não foi essa a inteligência artificial com a qual eu gostaria de conviver. Eu não queria algoritmos, eu queria um carro voador, eu não queria um sistema de busca onde seja fácil encontrar meu nome, eu queria ver os prédios bonitos da janela; eu não queria que sobre a minha cabeça estivesse um véu tão fino e desintegrável, eu queria olhar para cima e estar tão perto do céu que seria possível tocá-lo. Eu não queria que tanta gente soubesse quem eu sou. Eu queria descer suavemente até o chão e apenas caminhar. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Bastidores

Felicidade – Sabryna Rosa

Em um país distante havia um homem muito rico cujo conselheiro o acompanhava desde a juventude. Era um sujeito sábio, coerente e humilde. No leitor de morte, o homem chamou o único filho e pediu que cuidasse de suas posses e não trocasse de conselheiro enquanto este vivesse. Dito isso, fechou os olhos e partiu. O filho, desacostumado a cuidar de finanças e negócios, mas bastante habituado a desordens de todos os tipos, passou a tratar com irresponsabilidade a fortuna do pai. O conselheiro, sabendo que fazia parte de sua função alertar e corrigir, lançou orientações e advertências. Apontou-lhe os erros e antecipou as consequências. Conheça meus livros Cansado de ouvir o que não queria, o filho mandou o conselheiro embora para sempre. Um dia, em dúvida sobre determinada questão, anunciou que estava em busca de alguém para ajudá-lo, mas não poderia ser alguém cuja soberba e vaidade fosse maior que a vontade de contribuir. Assim, os candidatos apareciam e opinavam sobre diversas questões de acordo com suas experiências. Todos os que sugeriam mudanças, limites e prudências eram acusados de pedantes. Foi contratado aquele que deu a orientação aparentemente mais acerta: “Em toda dúvida que tiver, reflita: qual caminho me faz mais feliz?” De felicidade em felicidade o filho lançou a si mesmo na mais completa ruína. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Bastidores

O mundo precisa ser salvo – Sabryna Rosa

Jerônimo sonhou que realizava um grande feito. Em sua mente adormecida ele se viu em cima de um palco, vestido em um bom terno, debaixo de holofotes e sob os olhares atentos de uma plateia cheia de expectativa. Era cerca de 10 anos mais velho e sua oratória era perfeita. À medida que explanava suas ideias, via as luzes refletidas nos olhos de quem ouvia. Em um evento histórico, ele anunciava que descobrira como viabilizar a distribuição de água potável para todas as comunidades do mundo que sofriam com a escassez. Conheça meus livros Acordou eufórico, certo de que aquele era o seu propósito e a sua missão na Terra. Passou dias contando para a esposa como iniciaria os estudos e como a ideia amadurecida daria frutos em um projeto que entraria para a história. Dez anos depois ele permanecia no mesmo lugar. A aparência bem diferente do sonho. Em vez da pompa, o anonimato do seu escritório doméstico, no lugar do terno, o pijama amarrotado; e nenhuma plateia ao redor, apenas a esposa pedindo mais uma vez que ele voltasse a procurar um emprego comum e ficasse menos obcecado com a ideia de salvar o mundo. “É o que preciso fazer, é o meu destino”, ele repetia, enquanto as contas eram pagas pela metade e os dias iam embora por inteiro. Salvar o mundo se tornou, afinal, a fuga perfeita para não salvar o básico. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Bastidores

Idas e vindas – Sabryna Rosa

Uma garotinha esperava do lado de fora do consultório quando um corpo magro e trêmulo sentou à sua frente. Com o tronco curvado e as mãos entre os joelhos, o homem se acomodou meio desconfortavelmente no banco e balbuciou algumas palavras para si mesmo. A menina reparou no pé enfaixado e nos dedos cujas pontas não estavam mais lá e que pela cicatriz já haviam sido cortados fora há muito tempo. Curiosa, perguntou quem o acompanhava e como resposta ouviu um “Ninguém não” meio tímido. Imaginou ele voltando para casa guiando seu esqueleto cambaleante e um pé pela metade. Conheça meus livros Há algumas semanas, em outra sala do mesmo hospital, ela testemunhou um burburinho entre as enfermeiras enquanto uma delas desenrolava um saco cinza de dentro do armário. Minutos depois ele guardaria um corpo inerte como um casulo de função invertida. Uma voz baixa disse: “Ela estava sozinha”. O homem de um pé e meio também, e muitos outros que ela viu, e alguns que ela não viu, chegariam e voltariam sozinhos de um hospital. Alguns não para casa. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Bastidores

A forma que a inveja tem – Sabryna Rosa

Antônia rolou o feed do Instagram até o fim para descobrir que a sua antiga amiga de escola se transformou em uma empresária de sucesso, casada com um homem igualmente bem sucedido e muito bonito. A menina magrinha e pouco charmosa deu lugar a mulher de corpo esculpido e dentes incrivelmente brancos. Antônia, por sua vez, ainda morava na mesma cidadezinha, dava aulas de espanhol e permanecia solteira. Morava com os pais em um sítio e não em um apartamento de frente para o mar. Contudo, não era segredo para Antônia, nem para ninguém, que Marília conquistou o sucesso no atual empreendimento depois de trapacear em negócio antigos, e que seu casamento não passava de uma instituição de aparências. Não era bem uma fofoca, e sim de um fato de conhecimento público, que o sogro dela fora convidado a se retirar da própria casa e morar em um asilo para que o filho e a nora ficassem mais confortáveis e privados de interferências externas. Conheça meus livros Informação confidencial definitivamente não definia o fato de todo o estado saber que o outrora cirurgião plástico de Marília exercia a medicina ilegalmente e por isso não estava mais na ativa. Os procedimentos baratos e com substâncias às vezes proibidas sim, ainda sustentavam seu efeito no corpo aparentemente sem sequelas. Mesmo sabendo que a vida da ex colega de classe era um teatro, Antônia sentiu os lábios se apertarem e o peito se encher de algo que ela não sabia bem o que era. O coraçao esmureceu e depois ficou duro como concreto. A inveja ignorava os meios e considerava os fins. Antônia nunca mudara um zero de lugar que não fosse devido e talvez por isso permanecesse ganhando dois salários mínimos. Tinha receio de remédios milagrosos para emagrecer e isso poderia explicar o leve acúmulo de gordura no quadril. Se usasse meios um pouco indignos, não muito, poderia ter tido uma chance com o filho do prefeito. Importaria ele se relacionar com três mulhdres ao mesmo tempo? Talvez não. Em um apartamento bem decorado perspectivas podem assumir formas diferentes. “Do que exatamente falamos quando pensamos em sorte?”, ela se perguntou, em silêncio, enquanto analisava todas as fotos de Marília mais uma vez. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Atalhos – Sabryna Rosa

Tinha por volta de 14 anos quando esbarrou em um andarilho na beira da estrada que lhe perguntou se ele gostaria de beber algo que o deixaria longe de todos os problemas e potenciaria sua capacidade intelectual. A mãe o advertira, mais de uma vez, a não aceitar nada de estranhos, mas a proposta era tão absurda que ele não viu mal em fazer parte da brincadeira e alimentar o descompasso de um homem sem os dentes da frente e quatro bolsas penduradas pelos ombros. O frasco transparente continha um líquido avermelhado muito semelhante a um suco de framboesa. Ele cheirou e sentiu um aroma agradável e floral. O sabor, adocicado, deu a entender que a fantasia era fruto de uma mistura qualquer de água e frutas. Conheça meus livros O homem abriu o sorriso desdentado e recomendou paciência para ver os resultados pois ainda naquele dia ele sentiria os efeitos. O garoto achou tanta graça que ouviu meio sem atenção que o andarilho estaria naquele mesmo lugar todos os dias caso o jovem quisesse mais. Cerca de 35 anos depois o homem virou um velho e o menino virou um homem. A substância não só funcionava como alargava os efeitos com o aumento da dose. Mais de três décadas após aquele encontro ele ingeria de dois a três litros diariamente para ter combustível suficiente para trabalhar como presidente de uma companhia áerea e esquecer os adultérios da esposa e a condenação de um filho preso por dirigir alcoolizado. Tudo que ele conseguiu, da aproximação ao que interessava ao distanciamento do que doía, foi graças à bebida doce e vermelha cuja origem ele nunca conheceu. De onde vinha não fazia diferença desde que ela permanecesse mantendo ele longe das estradas espinhosas e o mantivesse caminhando por atalhos bonitos com cheiro de fruta e de flor.

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Bastidores

O pedido – Sabryna Rosa

Verônica assoprou as velas do seu bolo de aniversário e fez um pedido: desejou que nada nunca tivesse fim. Quis que seu namoro durasse para sempre, que seus amigos fossem fiéis e simpáticos por todo o tempo e que seu pais não deixassem de viver. Desejou também que Leleco, o cachorro, nunca fosse atropelado ou nunca ficasse tão doente a ponto de morrer em uma clínica veterinária fria e sem graça. Sem saber, lançou uma ordem ao tempo que fez os ponteiros congelarem. Seu namoro nunca virou casamento, seus amigos permaneceram tão dedicados a ela que deixaram de cuidar das próprias vidas, seus pais se separaram assim que perceberam muito mais a aproveitar do que cuidar um do outro e Leleco ficou tão dependente de atenção que latia pela casa o dia inteiro. Conheça meus livros Verônica esperou ansiosamente pelo próximo aniversário para repetir o processo na esperança de reverter os efeitos, mas esse momento jamais chegou porque os dias eram sempre os mesmos. Não havia fim para a luz do sol e com o tempo ninguém se lembrava mais como era a noite. Ela enlouqueceu e se perdeu na própria fraqueza. Não ter visto utilidade no fim de certas circunstâncias a fez sair correndo pela rua gritando e implorando para ver as estrelas novamente. Não pensou no que seu pedido poderia causar, apenas mirou em sua própria alegria. No meio da loucura, em uma rua qualquer, foi atingida por um veículo cujo motorista estava em um turno de trabalho que nunca terminava. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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Uma beleza calculada – Sabryna Rosa

Sentada diante do espelho, a moça encarou a simetria de um rosto que ainda era seu ao mesmo tempo em que era estranho para si. Moveu o queixo meio centímetro para o lado esquerdo e depois dez centímetros para o lado direito. Em seguida, tocou a linha do maxilar com as pontas frias dos dedos e tentou encontrar alguma imperfeição. Tudo nela tinha um código. Seu passaporte fora substituído por outro com uma foto mais atualizada, já que a anterior não condizia em quase nada com a realidade, e seus documentos de identificação tinham o mesmo nome e número, mas não o mesmo rosto. Franziu a testa em pensamento e nenhum pedaço de pele reproduziu. Empinou o nariz e viu uma ponta tão acertada que poderia indicar qualquer lugar com exatidão. Suas bochechas tinham a cor e o tamanho adequados. Os cílios foram curvados no grau perfeito e a espessura dos lábios foi proporcionalmente calculado. Conheça meus livros Apesar de tudo isso, concluiu que não era bonita. As fotos antigas sumiram e as lembranças dos desfeitos foram deixadas para trás. Ela tinha uma vaga noção de quem tinha sido um dia. Não podia dizer que gostava mais de antes, mas também ainda não chegara num estado de satisfação completo. O espelho na sua frente era apenas um dos inúmeros espalhados ao redor – em torno de quinze ou vinte. Ficou de pé se viu em todos eles, por todos os ângulos e por todos os reflexos. Chegou à conclusão que a beleza não era uma ciência exata, mas continuaria tentando chegar em um resultado feliz.

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