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Charlotte e Mr. Collins: como abrir mão do romantismo pode ser uma boa decisão

Em Orgulho e Preconceito, o casal Mr. Darcy e Elizabeth Bennet arrancam suspiros há mais de duzentos anos. Ele, um homem arisco por fora, porém gentil e cuidadoso por dentro, elegante, culto e com uma boa fortuna. Ela, romântica, não ingênua, inteligente, com bons modos e ideias firmes. Juntos, descobrem um amor capaz de superar as mais sólidas más impressões. Mas há outro casal nessa história que sempre me chamou atenção, tanto no livro quanto no filme. Trata-se de Mr. Collins e Charlotte Lucas, e é a partir da história deles que eu vou falar como abrir mão do romantismo pode ser uma boa decisão. Mr. Collins é primo das irmãs Bennet e o primeiro na linha de herança por ser o parente homem mais próximo do pai de Elizabeth. Durante uma visita, ele pede nossa mocinha em casamento e tem sua proposta recusada sem hesitação. Acontece que Mr. Collins queria muito, muito, casar com alguém, e encontra em Charlotte, amiga de Elizabeth, outra candidata. Essa, por sua vez, aceita o pedido de prontidão, e já sabendo que será criticada, aproxima-se cheia de dedos de Elizabeth e conta a novidade, recebendo como resposta uma clara desaprovação. Charlotte, contudo, reage, a meu ver, de maneira bastante sensata e madura. Na cena do filme ela diz: “Tenho 27 anos e nenhuma perspectiva. Sou um estorvo para os meus pais”. Na narração do livro: “Tinha 27 anos e jamais fora bela. Sabia portanto que tivera sorte”. Num contexto em que uma mulher não tinha como prover sozinha o seu sustento, suas únicas opções eram receber uma boa herança dos pais ou se casar. Charlotte, dada sua condição – era considerada “velha” – não podia, e nem queria, se dar ao luxo de continuar esperando por um príncipe encantado, algo totalmente fora da realidade “Sem ter grandes ilusões a respeito dos homens ou do matrimônio, o casamento sempre fora o seu maior desejo; era a única posição tolerável para uma moça bem educada, de pouca fortuna”. A forma como Elizabeth vê a situação, e até como a narrativa a apresenta para nós, é como se a decisão de Charlotte fosse digna de pena, mas eu sempre vi por um outro ângulo. Eu vejo como alguém que resolveu uma pendência de maneira prática. Mr. Collins, embora fosse sem graça e vaidoso, não era exatamente um qualquer. E também não estava procurando um grande amor – tanto que fez dois pedidos de casamento em menos de três dias – mas uma esposa com quem pudesse compartilhar a vida e a construção de uma família, algo para o qual ele já vinha se preparando, inclusive, financeiramente. Exatamente o que Charlotte precisava. “Bem sabe que não sou romântica. Nunca fui. Desejo apenas um lar confortável. E considerando o caráter de Mr. Collins, as suas relações e a sua situação na vida, estou convencida de que tenho as mesmas possibilidades de ser feliz no casamento que a maioria das mulheres”. Essa fala de Charlotte pode parecer materialista e superficial, mas se observarmos com cuidado veremos que nenhum dos dois está interessado em romance de novela (ou de livros), mas em encontrar um bom par para formar uma família. E ainda assim, Charlotte acredita que pode amá-lo e ser feliz. Leia também [Resenha] Os Sofrimentos do Jovem Werther – Goethe Nessa circunstância, eu acredito que os dois se propuseram a assumir um compromisso e honrar com ele, sendo úteis um ao outro e servindo com dignidade à família que formarão. É muito diferente de Elizabeth, que está procurando, querendo, suspirando, por um amor. Por isso, não gosto de sua atitude naquela cena, porque Elizabeth tira a situação de Charlotte pela dela. Em outras palavras, ela espera que a amiga ignore suas particularidades e aguarde por um partido melhor, ainda que o menos interessante apresente características fundamentais para ela e que um pretendente supostamente mais adequado esteja bastante fora do seu horizonte. Trazendo para a realidade, para mim é impensável que uma mulher adulta coloque suas expectativas amorosas em Mr. Darcys, como se nenhum outro homem abaixo desse ideal servisse para formar uma família, quando, na verdade, é o próprio personagem de Mr. Darcy que não existe na vida real (ou pelo menos é raríssimo de encontrar). Tanto não existe que muitos homens se aproveitam do ideal hollywoodiano para fingirem ser o que não são e conquistarem mulheres com ações baratas de comédias românticas que não dizem muita coisa, são apenas bonitinhas. Quanto mais uma mulher espera por Mr. Darcy sem defeitos, mais ela está sujeita a se deixar enganar. O amor pode acontecer com um homem comum, que muito provavelmente não vai ser bonito, elegante, gentil, rico, inteligente e engraçado ao mesmo tempo. E isso está muito longe do “ficar com qualquer um / se contentar”; trata-se de saber quais características ela valoriza e de entender que príncipes encantados só existem nos filmes da Barbie e nos romances de Jane Austen. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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3 poemas de Augusto dos Anjos

Confesso que Augusto dos Anjos é um nome que só me lembra o ensino médio e as aulas de literatura, e por mais que eu gostasse da disciplina, poucos foram os autores que continuaram a despertar meu interesse depois da escola, entre eles Fernando Pessoa e Cecília Meireles. Porém, sabendo que Augusto dos Anjos é um dos grandes, resolvi ler. Tive bastante dificuldade com o estilo, o vocabulário rebuscado e as palavras estranhas, que me fizeram ir e voltar várias vezes nas linhas até pegar mais ou menos o contexto. Por outro lado, quando algum poema me tocou, aconteceu de maneira bem lúcida, como se eu e o poeta tivéssemos angústias em comum e ele colocasse em versos sentimentos muito parecidos com os meus. Separei alguns dos que mais gostei: A UM CARNEIRO MORTOMisericordiosíssimo carneiroEsquartejado, a maldição de PioDécimo caia em teu algoz sombrioE em todo aquele que for seu herdeiro!Maldito seja o mercador vadioQue te vender as carnes por dinheiro,Pois, tua lã aquece o mundo inteiroE guarda as carnes dos que estão com frio!Quando a faca rangeu no teu pescoço,Ao monstro que espremeu teu sangue grossoTeus olhos – fontes de perdão – perdoaram!Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,Se fosses Deus, no Dia do Juízo,Talvez perdoasses os que te mataram! CONTRASTESA antítese do novo e do obsoleto,O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,O que o homem ama e o que o homem abomina,Tudo convém para o homem ser completo!O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,Uma feição humana e outra divina,São como a eximenina e a endimeninaQue servem ambas para o mesmo feto!Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!Por justaposição destes contrastes,Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,Às alegrias juntam-se as tristezas,E o carpinteiro que fabrica as mesasFaz também os caixões do cemitério!.. CETICISMODesci um dia ao tenebroso abismo,Onde a Dúvida ergueu altar profano;Cansado de lutar no mundo insano,Fraco que sou, volvi ao ceticismo.Da Igreja – a Grande Mãe – o exorcismoTerrível me feriu, e então sereno,De joelhos aos pés do NazarenoBaixo rezei, em fundo misticismo:– Oh! Deus, eu creio em ti, mas me perdoa!Se esta dúvida cruel qual me magoaMe torna ínfimo, desgraçado réu.Ah, entre o medo que o meu Ser aterra,Não sei se viva pra morrer na terra,Não sei se morra pra viver no Céu! Não posso dizer que absorvi ou interpretei tudo, muito da obra precisaria de uma atenção mais aprofundada minha, com pesquisa, repetição e quem sabe leitura em voz alta, mas não chegou a ser totalmente uma leitura obscura. As dificuldades apareceram, mas acho que a literatura mais proveitosa é aquela que nos tira da zona de conforto. Gostou desse conteúdo? Faça parte da minha lista de e-mails e não perca nenhuma novidade indicates required Email Address * Que tipo de conteúdo mais interessa você? Para Leitores Para Escritores Ambos

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[Resenha] O Morro dos Ventos Uivantes – Emily Brontë

Sinopse Heathcliff foi encontrado maltrapilho nas ruas de Liverpool e adotado por Earnshaw, proprietário do Morro dos Ventos Uivantes, um lugar propício a tempestades e vendavais. Bem tratado pelo pai adotivo, Heathcliff logo gera ciúmes no filho mais velho, Hindley, de quem terá o desprezo pela vida inteira. Por outro lado, a segunda filha, Catherine, se tornará sua amiga, confidente, e seu primeiro e único amor. E é por causa dela que Heathcliff seguirá rumo a uma vida de vingança e ódio. Atenção, esse texto contém spoilers. Uma longa história Essa história começa não com Heathcliff criança, mas bem adulto e já dotado de todos os traumas possíveis. Tudo começa quando o Sr. Lockwood aluga a Granja dos Tordos e resolve visitar seu dono, Heathcliff, um homem frio e antipático. Saindo de lá com a pior das impressões, resolve perguntar à empregada Nelly o que ela sabe sobre esse homem mal-encarado e de humor inacessível. Pela voz e narração de Nelly o leitor vai conhecer toda a história dessa família. Heathcliff pode lidar com os maus tratos enquanto Earnshaw viveu e o protegeu. Contudo, depois de sua morte Hindley levou a sério sua intenção de transformar a vida do cigano – como era chamado – em um inferno. Colocou-o no nível dos empregados e se empenhou em maltratá-lo do jeito que pode, sendo a amizade com Catherine o único consolo do garoto. Uma das provas da insignificância social de Heathcliff é que esse era seu nome e sobrenome. Ou seja, ele não era ninguém, nem mesmo um membro oficial da família. Catherine, mimada, bem criada, se afeiçoou a Heathcliff e nutriu por ele um sentimento genuíno, mas conforme a pressão de se casar foi ficando mais forte com a idade, ela reconhece que, mediante sua condição, casar com ele está fora de questão. Que vida o pobre Heathcliff poderia lhe proporcionar? Então surge Edgar Linton, herdeiro da Granja dos Tordos e um pretendente muito mais viável. Com a intenção, e motivação, de Catherine se casar com Linton, Heathcliff foge sem olhar para trás ou dar qualquer satisfação, voltando algum tempo depois com uma fortuna inexplicável e muita vontade de devolver aos habitantes da sua antiga casa tudo que ele sofrera durante os anos que vivera ali. Sua primeira ação é se casar com Isabela, irmã de Edgar, e depois se revelar um marido inescrupuloso, arrogante e profundamente desprezível. Isabela foge, grávida (guarde esta informação), e só temos notícias dela muito tempo depois. Nesse intervalo Catherine dá à luz a uma menina, Cathy, e morre logo em seguida. Parte em decorrência do parto, parte por consequência de levar uma vida que escolheu por conveniência. Sabe quem também teve um filho? O “adorável” Hindley, que se entregou ao jogo e à bebida depois da morte de sua mulher e afundou sua família em dívidas. Aqui Heathcliff não perde tempo e executa mais uma parte de sua vingança. Toma o filho de Hindley, Harenton, para si e o cria da mesma maneira que fora criado: com maus tratos, má educação, ignorância, e desprovido de quaisquer privilégios. Além de ter se aproveitado da situação de Hindley para comprar O Morro dos Ventos Uivantes. Ufa! Ainda tem mais coisa ruim nessa história? Claro que tem! Continue. Cathy, a filha de Edgar e Catherine, cresce com o pai e é superprotegida, sendo inclusive tolhida de desbravar os limites da Granja, o que causa grande interesse na garota em saber o que tem de tão ofensivo do lado de lá, sobrando para Nelly – sim, Nelly viveu nas duas casas e acompanhou tudo de perto – segurar as pontas de sua curiosidade. Lembram da Isabela? Ela criou Linton Heathcliff até a adolescência, quando morreu e seu filho foi morar com o pai nota dez que já sabemos quem é. Linton era um menino fraco de saúde e, olhem só, tinha a personalidade parecida com a de quem lhe deu seu sobrenome. Mas alguém seria páreo para o grande Heathcliff? Como uma das cartadas finais, nosso anti-herói obriga o filho a se casar com Cathy e assim reunir em uma família só ambas as heranças. E quando digo obrigar, é obrigar mesmo! E é assim que o Sr. Lockwood encontra a casa no morro dos ventos uivantes: um lugar cheio de pessoas duras de coração, ressentidas, arredias uma com as outras e cheias de ódio para distribuir. Mas também pudera, né? Leia outras resenhas Onde O Morro dos Ventos Uivantes está na literatura? Com tantas características em uma obra só, O Morro dos Ventos Uivantes não chega a ser enquadrado em uma única escola literária. O livro tem traços da Escola Romântica como a valorização da natureza, paixões intensas e personagens individualistas, além de abarcar o papel do herói byroniano. Lord Byron foi um poeta do século XIX e uma figura importante no romantismo. Um herói byroniano seria o que hoje conhecemos como anti-herói, e poderíamos definir como alguém fora dos padrões morais da sociedade, mas com capacidade de se afeiçoar romanticamente a alguém. Além disso carrega características como poder de sedução, conflitos emocionais, arrogância, esperteza e passado problemático. Lembra alguém? Heathcliff, embora sendo como é, tinha por Catherine um amor explosivo, exasperado, e até mesmo doentio, eu diria – a ponto de mandar o coveiro abrir o caixão dela e cavar ali do lado o lugar onde ele próprio queria ser enterrado. A obra de Emily Brontë também apresenta algumas nuances da Escola Gótica como atmosfera melancólica e eventos atrozes. O livro ainda teria uma pontinha ali de Realismo, dada a construção dos personagens. Uma história de amor? Há controvérsias. Pessoalmente, eu diria que de amor tem muito pouco nessa história. Na verdade, trata-se mais de uma vingança estimulada por um sentimento desprezado. Podemos perceber que a maldade de Heathcliff começou como uma resposta ao que ele sofrera na infância. No afã de retornar o mal que lhe fizeram, ele acabou dando abertura para uma geração tão perturbada quanto, uma vez que ele educou Harenton com …

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[Resenha] Sempre A Mesma Neve e Sempre O Mesmo Tio – Herta Müller

Resenha Premiada com o Nobel de Literatura em 2009, Herta Müller reúne nesse livro uma coletânea de ensaios sobre sua vida de enfrentamento e resistência à ditadura romena. Perseguida, investigada, suspeita, Herta rebateu o regime com sua melhor arma: a literatura. Sinopse Talvez essa resenha fique curta para o que foi de fato a leitura desse livro para mim. Acontece que prefiro me preservar nas palavras do que correr o risco de dizer coisas que não estão à altura da obra de Herta. O regime do ditador comunista Nicolae Ceausescu durou anos no país e durante esse tempo Herta foi recrutada como espiã e ameaçada de morte depois da sua recusa. Do outro lado, era afastada dos colegas de trabalho por acharem que ela tinha, de fato, aceitado espionar. Enquanto isso ela e os próximos lidavam com o medo constante, a vigilância repressiva, os interrogatórios frequentes e o medo da morte, que era real. “[Saudação] A literatura fala com cada um individualmente – ela é propriedade privada que permanece na cabeça. Nada mais fala de maneira tão incisiva conosco que um livro. E não espera nada em troca, exceto que pensemos e sintamos”. Nos seus textos Herta traduz toda essa atmosfera em frases às vezes complexas, mas às vezes tão simples que nos arrebata pela poesia e metáforas certeiras. As palavras que ela escolhe para dar o tom são de uma genialidade e inteligência incrível. Ela quer nos contar o que aconteceu, quer contar para o mundo, quer externar, gritar, mas, por outro lado, parece que não quer nos chocar. Quer preservar o leitor da brutalidade escancarada. E para isso ela abre as próprias feridas, mas aguenta firme na dor. Leia outras resenhas A mãe de Herta passou cinco anos em trabalhos forçados na União Soviética, e seu pai fora membro da SS, o que fez com que ela alimentasse a figura do Estado como um inimigo, como uma sombra que rondou sua vida, escureceu o céu e impediu o sol de entrar. Um dos trechos em que isso fica claro é quando ela diz que lia os seus livros da maneira mais rápida possível, os engolia sem mastigar porque a qualquer momento um agente do governo poderia entrar e levá-la, e ela nunca saberia se iria voltar depois e terminar aquele livro. “[Na beirada da poça cada gato pula de um jeito diferente] Um dos meus amigos que cometeu suicídio gostava mais de viver do que eu e todos os amigos juntos. Ele procurava mais do que eu pela felicidade. Ao saltar pela janela, ele não procurou pela morte, mas apenas pela saída da infelicidade constante da vida. Quero não me esquecer dessa diferença”. Herta se exilou na Alemanha, onde também sofreu desconfianças, e seguiu sua vida denunciando um regime que tanto roubara dela e dos seus. Os amigos e personagens que aparecem em seus textos foram embora, alguns por atos externos, outros por atos próprios, e tudo que ela podia fazer era continuar escrevendo. Por isso seus textos são tão vivos e reais, porque ali está a história do lado que testemunhou e sobreviveu para contar o que viu. Sem dúvidas Sempre A Mesma Neve e Sempre O Mesmo Tio merece uma releitura, mas também quero conhecer a obra inteira de Herta e absorver pelo menos um pouco de tudo que ela tem a dizer. Sobre a autora Nasceu em 1953, na Romênia, e é escritora, poeta e ensaísta. Ainda jovem foi perseguida pelo governo de Nicolae Ceausescu ao recusar-se a colaborar com o serviço secreto e precisou mudar-se para a Alemanha, onde vive desde 1987 (Fonte: Site Companhia das Letras) Sobre o livro Título: Sempre A Mesma Neve e Sempre O Mesmo TioAutora: Herta MüllerEditora: Biblioteca AzulAno: 2012Páginas: 248Avaliação: 5/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui Essa publicação contém links afiliados e comprando através deles eu ganho uma pequena comissão sem custo adicional para você. Obrigada!

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[Resenha] Sangue na Neve – Jo Nesbo

Sinopse Olav é um matador de aluguel que presta serviços a Daniel Hoffmann, um dos maiores criminosos de Oslo. Todas as ordens são executadas prontamente até Hoffmann encomendar a morte da própria mulher, por quem Olav se apaixona instantaneamente. Resenha Meu primeiro contato com Jo Nesbo foi digno de colocá-lo entre os favoritos sem muito medo de me arrepender depois. A construção do personagem leva em conta não apenas a sua profissão, ou o que decorre dela, mas envolve traços de pessoas comuns, como ser um frequentador de bibliotecas públicas. Algumas outras características peculiares em Olav: ele é disléxico, não sabe dirigir devagar, é muito sentimental, se apaixona fácil e é ruim em matemática. O livro é narrado em primeira pessoa, então é o próprio Olav quem nos apresenta seus defeitos e qualidades logo no início, e cada uma delas acaba aparecendo em algum momento durante o livro. “E, de acordo com um tal de Hume, o fato de até agora eu ter acordado toda manhã no mesmo corpo, no mesmo mundo, onde o que aconteceu de fato aconteceu, não era garantia de que a mesma coisa voltaria a ocorrer na manhã seguinte”. Dirigir rápido é uma atitude suspeita, e se você está roubando algo é melhor disfarçar o quanto puder. E por falar em roubo, essa é uma das “profissões” que Olav experimentou e descartou da sua lista de habilidades por sentir um remorso muito grande com relação às vítimas. Ser cafetão também não era pra ele, uma vez que ele se afeiçoava às prostitutas e não admitia bater e nem vê-las apanhando. E traficar drogas é um ofício muito ruim para quem tem dificuldades com cálculos. Por isso, entre as atividades ilícitas de Daniel Hoffmann, sobrou uma vaga de matador de aluguel, que, para surpresa de Olav, ele conseguia executar muito bem. Assassinar a mulher de seu chefe parecia só mais um trabalho, por mais estranho que fosse, mas se tornou uma questão pessoal quando ele viu a linda Corina caminhar “como um gato” em seu apartamento e deixar seus sentidos bagunçados. Ele não era mais um homem a mando de um criminoso, mas alguém cuja disciplina foi transformada em compaixão e, em seguida, em paixão. “A vida parece ser simples quando você está doente”. Corina fora jurada de morte por estar traindo Daniel e a ideia de matar o amante, em vez da traidora, pareceu mais inteligente para Olav, que com essa simples decisão tomada por conta própria gerou consequências inimagináveis e selou seu destino num caminho sem volta. A partir daí sua vida dá um giro e ele se vê obrigado a partir em outra direção e com outros objetivos. Olav é um assassino por encomenda, mas adquiriu princípios que se transformaram em um código de ética inviolável, e seus sentimentos, mais do que sua razão, acabam guiando suas ações, não só no núcleo que envolve Corina, como nas lembranças da sua juventude, onde tudo começou, com o pai meliante e uma mãe alcóolatra. Minha conclusão sobre Olav é que ele é uma consequência do meio, e não exatamente uma vítima, porque teve oportunidades de não enveredar pelo caminho do crime. Por outro lado, não o vi como um monstro, irrecuperável e irredimível, e sim alguém que decidiu explorar suas habilidades, mesmo sabendo de sua imoralidade e ilicitude, e aceitou as consequências disso. Leias outras resenhas O desenvolvimento do personagem e o equilíbrio na exposição dos detalhes foi muito bem executado pelo autor. Olav tem como livro de cabeceira Os Miseráveis, e conta como é para ele, na sua condição de disléxico, se conectar com as palavras. Ele chega até mesmo a fazer um paralelo de sua história com a de Jean Valjean mostrando como absorve a sua vida num contexto que vai muito além dos crimes. Certamente uma leitura e tanto para começar a conhecer as obras de Jo Nesbo. Esse e muitos outros livros estão disponíveis no catálogo do Kindle Unlimited, o serviço de assinatura de livros da Amazon que custa apenas R$ 19,90 por mês. Para assinar clique aqui. Sobre o autor Nasceu na Noruega em 1960. É músico, compositor, economista e um dos escritores de policiais mais elogiados e bem-sucedidos da Europa (Fonte: Site Fnac). Sobre o livro Título: Sangue na NeveAutor: Jo NesboAno: 2015Editora: RecordPáginas: 154Avaliação: 4/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui. Esse post contém links afiliados e comprando através deles você colabora com o meu trabalho sem custo adicional no seu produto. Obrigada!

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[Resenha] Transgressões – Uzma Aslam Khan

Sinopse Paquistão, década de 90. Dia é a herdeira de uma fábrica de seda e de uma fazenda criadora de bichos-de-seda. Depois que seu pai foi morto em condições desconhecidas a administração dos negócios ficara a cargo dela e de sua mãe. Daanish é um jovem paquistanês que estuda nos EUA e volta para a cidade natal para o funeral do pai. Os dois se conhecem casualmente e começam um relacionamento às margens das regras e da verdade. Resenha No instante em que Dia e Daanish se conheceram, mais da metade do livro já tinha se passado e eu aceitado que essa história tinha um ritmo próprio. Antes que os dois se encontrassem muita coisa aconteceu, tanto no presente quanto no passado, e esses eventos precisavam ser contados. O livro é dividido por seções e cada seção comporta uma série de capítulos encabeçados por um personagem em questão, todos em terceira pessoa. Dia está na faculdade, mas não muito empolgada com seus estudos. Reprova disciplinas, é desleixada com as provas, e parte disso se deve ao fato de que algumas semanas antes o corpo do seu pai fora encontrado no rio com sinais de tortura. Mansoor era um dos homens mais ricos do Paquistão, e sua fábrica de seda a maior fornecedora do país, o que leva a família de Dia a achar que o crime tenha relação com inimigos políticos ou financeiros. Quando Riffat, sua mãe, assume a direção dos negócios, ela é alvo de críticas severas por parte da sociedade e de seu próprio núcleo familiar, que estranha uma mulher com tamanhas responsabilidades e coragem de aceitá-las. Porém, parte da prosperidade de toda a fortuna veio de sua inteligência e audácia. “O que mais a história tinha mostrado? Que os rios sempre desembocavam no mar e era irrelevante saber qual braço chegava primeiro”. Daanish é um muçulmano nos EUA com a Guerra do Golfo ainda fervendo na memória. Ele estuda jornalismo e usa esse contexto para criticar a imagem que os americanos fazem de si mesmos através da mídia. Contudo, todos os seus posicionamentos são taxados como falta de profissionalismo e que nessa profissão não há espaço para parcialidades – a ironia. Ele volta para casa e encontra uma mãe em luto que passa a direcionar suas emoções para um controle incisivo sobre a vida do filho. Daanish também começa a estranhar os costumes conservadores e a dinâmica das coisas em um país que sofre com a falta do básico, uma vez que ele vivia em uma sociedade onde as coisas são complicadas, em certo nível, mas desburocratizadas em outro. Salaamat é um personagem secundário, porém de suma importância. Ele vem de uma vila de pescadores muito pobre e adquiriu uma deficiência auditiva depois de uma surra que levara na infância de homens da região. Na cidade grande ele começa a trabalhar em uma oficina de decoração de ônibus, uma paixão particular sua. Depois de três anos trabalhando apenas em troca de comida e de um cubículo para dormir, ele entra em contato com um grupo armado que defende a liberdade do Paquistão e o atrai para fazer parte da organização. “[Dia] As histórias de amor não passam de um esporte de grande apelo popular”. A autora costura esses três personagens até eles se encontrarem em um ponto comum que gira em torno do relacionamento de Dia e Daanish. Os dois se conhecem no funeral de Shafqat, pai de Daanish, depois de Nini convidar sua melhor amiga, Dia, para acompanhá-la a um evento que envolve seu futuro pretendente. Dia é terminantemente contra casamentos arranjados, e acha que essa é uma das formas mais claras de opressão às mulheres, pensamento incentivado por sua mãe. Nini, romântica e receosa da solteirice que leva a uma imagem mal falada, quer apenas cumprir com seu destino. Destino esse com o qual Anu, mãe de Daanish, está muito interessada em ajudar a construir. Eu vejo que o livro de Uzma está ancorado em três pilares: a política (as questões militares dos EUA, o sistema paquistanês), a opressão contra as mulheres e os costumes muçulmanos, esses dois com mais força e o primeiro como pano de fundo em algumas cenas e diálogos que Daanish tem em seu núcleo. A narrativa critica muito o valor dado às mulheres. Tão protegidas, tão bem cuidadas (quando dentro de casa), e tão lapidadas para o casamento. Mas se saírem às ruas sozinhas são alvos de comentários grosseiros e assédio escancarado. Quando Dia e Daanish burlam as regras e queimam etapas, para ela é um crime muito maior, enquanto para ele, aos olhos alheios, é apenas um inconveniente no caminho da sua relação arquitetada com Nini. Leia outras resenhas Contudo, as Transgressões que o título adianta vão muito além desse sentimento que se esconde em lugares sabidos apenas por Salaamat. Começa muito antes dos dois nascerem, antes dos bichos-de-seda saírem de seus casulos e antes dessas famílias serem o que são. Dia e Daanish transgridem o que sabem e o que não sabem, e a consequência de erros passados acaba respigando em todo mundo, até nos mortos. Além de falar bastante sobre o processo de produção da seda, desde a criação dos insetos, o livro também ambienta muitas cenas no mundo marinho, um lazer que Daanish dividia com o pai. Os dois sabiam identificar conchas, moluscos, e outras riquezas do oceano. Eu achei que a escolha de não tornar o relacionamento de Dia e Daanish o ponto alto da trama deu equilíbrio à história, que soube dar o peso e a influência certa a cada personagem. Até mesmo Khurram, amigo e vizinho de Daanish, que aparentemente não tem uma função muito clara além de emprestar seu carro para os encontros do amigo, tem, na parte final, seu papel explicado. Também gostei que o casal não foi exatamente um símbolo do amor desesperado e dramático, mas uma relação usada para explicar outros pontos ao redor e mostrar como as expectativas mudam a depender do lugar onde você está. Sobre …

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[Resenha] O Círculo – Dave Eggers

Sinopse Mae é uma jovem recém contratada pelo Círculo, a maior e mais poderosa empresa de tecnologia do momento, cujo objetivo principal é unificar em um só sistema todas as transações do mundo virtual. Sinopse Há muitos pontos a serem discutidos sobre esse livro, vamos um por vez. Eu compreendo a empolgação de Mae em trocar seu emprego em uma repartição pública de interior por um cargo “pequeno”, porém dentro da empresa mais badalada do país, como se ela estivesse indo trabalhar no Google ou no Facebook. Mas o Círculo é tão mais grandioso que desbancou as duas. Por isso, a primeira frase do livro é “Meu Deus, pensou Mae. É o paraíso”. Ela se deslumbra com a arquitetura moderna, tecnológica, e sente o clima de futuro que paira sobre ela. Mae mal pode acreditar na sorte de ter uma amiga como Annie ali dentro, a ponte entre seus sonhos profissionais mais ousados e a realidade acontecendo. “[Annie] É melhor estar no primeiro degrau de uma escada que a gente quer subir do que no meio de uma escada que não interessa, certo? Uma escadinha de cagões feita de merda”. Mae começa no departamento de Experiência do Cliente, um setor que cuida basicamente do atendimento e pesquisas de satisfação – aquelas que as empresas sempre pedem que façamos no final de uma compra – e aqui ela descobre que trabalhar no Círculo significa correr atrás da excelência, por isso ela mesma está sendo avaliada o tempo todo, e sua meta é estar o mais perto da nota 100 possível. Com o tempo, o que era uma tela de trabalho vai se transformando em duas, três, quatro, cinco, até chegar em quase dez. Uma para trabalhar com os atendimentos, outra para interagir na rede social da empresa (sim, é obrigatório), outra para postar na rede social pessoal (também é), outra para ajudar os estagiários e por aí vai. Mae, acha o máximo, pois quanto mais telas, mais ela se sente importante. Ah! Quanto mais os funcionários interagem online, mais eles sobem no ranking e estar dentro dos 2000 primeiros é importante, por isso Mae se esforça em responder, comentar e curtir o máximo de publicações possíveis. Aqui começa a primeira crítica do autor. A exploração que existe por trás das empresas “cool” e suas salas de jogos, seus sofás coloridos e sua política juvenil e despreocupada, mas que tem como principal objetivo manter o funcionário o maior tempo possível dentro da empresa. O Círculo tem áreas para esportes, dormitórios, bibliotecas e piso com ladrilhos motivacionais, tudo para fazer o empregado se sentir mais em casa do que em sua própria casa. Aliás, a primeira advertência que Mae recebe é justamente por ter passado o fim de semana com os pais em vez de aproveitando as atividades extras do campus, sob a máscara de que todos ali fazem parte de uma comunidade e devem participar. O leitor já sente um clique na cabeça, mas Mae se desculpa e promete ser uma funcionária mais ativa. “[Mercer] O que eu devia dizer é que espero o dia em que alguma minoria barulhenta finalmente se levante para dizer que isso foi longe demais e que essa ferramenta, que é muito mais insidiosa do que qualquer invenção humana criada até hoje, deve ser inspecionada, regulamentada, contida e que, acima de tudo, precisamos de opções para ficar de fora”. A outra crítica se refere à obrigatoriedade de compartilhar tudo que se faz, e é a segunda advertência de Mae, que passeou de caiaque e não postou nenhuma foto ou comentou nada no Zing (uma rede social semelhante ao Twitter), algo inadmissível para um círculeiro. Mais uma vez, ela se retrata e diz que vai ser melhor. E assim, aos poucos, Mae vai sendo envolvida naquele universo de modo tão sutil, tão atrativo, que sua cabeça vai sendo moldada a pensar como eles. Até a metade do livro eu achei a narrativa muito lenta e senti falta de mais cenas de ação, mas depois entendi que isso acompanha o ritmo da imersão de Mae naquele ambiente que vai sendo construído como perfeito, e que precisa dela, uma jovem visionária, esperta, inteligente, para fazer o mundo um lugar melhor. Então, o que antes era uma ideia espantosa, mas simples, de unificar transações bancárias online, compras, redes sociais, vai se transformando em algo que invade a liberdade individual das pessoas e as faz acreditar que a privacidade não deve ser um bem próprio, mas sim comum. Afinal, o que você faz quando todo mundo está vendo? Nada de muito errado, não é? Esse é o argumento base do Círculo. Leia outras resenhas Os poucos personagens lúcidos dessa trama, os pais de Mae, seu ex-namorado e um amante misterioso que aparece em sua vida, são perseguidos e taxados de antiquado, como se viver off-line não fosse mais uma opção. De repente, as pessoas sentem necessidade de acompanhar tudo, explorar tudo, saber tudo, perguntar tudo e ter respostas sobre tudo. O autor usa um recurso muito bom para satirizar os digitais influencers, que filmam praticamente cada segundo do seu dia (está lá pela parte II do livro) e como isso acaba sendo tão natural que passa despercebido pela racionalidade. O final não tem nada de heroico, mas sim de muito realista – e que eu já imaginava que iria acontecer, embora esperasse também por um desenrolar clássico -, porque, afinal, que sinais nós temos de que estamos recuando nesse processo? O Círculo foi adaptado para o cinema em 2017, com Emma Watson e Tom Hanks no elenco. Sobre o autor Dave Eggers nasceu em 1970, em Boston. É jornalista, escritor e editor-fundador da McSweeney’s, editora independente com sede em San Francisco. É autor dos livros Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, O Que É O Quê (finalista do National Book Critics Circle Award de 2006), Os Monstros (versão romanceada do roteiro que originou o filme Onde Vivem os Monstros) e Zeitoun, além do romance Um Holograma para o Rei. Sobre o …

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[Resenha] O Mundo Conhecido – Edward P. Jones

Sinopse Henry Townsend e sua família foram escravos de William Robbins, um rico e poderoso fazendeiro da região da Virgínia, EUA, por muito tempo. Augustus, pai de Henry, trabalhou em serviços externos até conseguir comprar sua liberdade e a de sua família, fazendo do seu filho um homem livre ainda na juventude. Porém, Robbins seguiu como mentor de Henry, principalmente nos negócios. E fora ele quem vendeu a Henry uma fazenda e seus primeiros escravos. Resenha Vamos por partes. A primeira coisa que Edward P. Jones consegue fazer com maestria nesse livro é mesclar passado, presente e futuro não só na mesma história, como na mesma cena, e, às vezes, no mesmo parágrafo. Isso pode parecer estranho e confuso no começo, mas depois você pega o ritmo e acha a estrutura narrativa genial porque dá ao leitor uma visão ampla dos personagens, antecipando eventos que são tão importantes de serem conhecidos que não podem esperar por uma cronologia tradicional. Logo no início acompanhamos a reação de um escravo à morte de Henry, e você se pergunta qual o motivo de revelar na primeira página que o personagem central morre e tudo o que eu peço é apenas que confie no autor, siga em frente. O segundo feito de Jones é uma aula de introspecção nos personagens, a escolha ideal para mostrar como o sistema escravocrata suborna até mesmo aqueles que são vítimas dele. “Sou imperfeito, ele [John Skinffington] dizia a Deus todas as manhãs quando se levantava da cama. Sou imperfeito, mas ainda sou barro em vossas mãos, andando da maneira que quereis que eu ande. Moldai-me e ajudai-me a ser perfeito a vossos olhos, ó Senhor”. Quando Augustus tem conhecimento de que seu filho, negro, ex-escravo, vai seguir com a escravidão, ele se choca. E sua mãe, Mildred, revive na memória os conselhos que deu ao filho ao longo da vida e não se lembra de nenhum deles ser comprar escravos. Porém, para Henry, não há nada de errado em ter seus próprios crioulos, a lei permite, e se a lei permite, ele não deve ser punido ou criticado. Leia outras resenhas A ausência dessa brecha para autoconsciência é um reflexo de uma sociedade que valorizava as pessoas pela cor da pele e pelo tamanho de suas propriedades. Ainda que um negro estivesse bem abaixo dos brancos na escala social, se ele fosse livre e tivesse um ou dois escravos, ele era um pouco mais respeitado, sendo, inclusive, abrangido pelas leis que protegiam os “patrões”. “Um escravo fujão era, na verdade, um ladrão, já que há via roubado a propriedade de seu dono – ele mesmo”’. E Henry não é o único na região nessa condição. Negros que eram escravizados por outros negros estranhavam, mas até mesmo suas capacidades de reflexão foram roubadas, então o pensamento parava mais ou menos em “bom, isso não é normal, mas eu sou apenas um escravo, não tenho muito o que dizer”. O livro se passa ao redor da fazenda de Henry, mas não se limita à sua história. Moses, seu capataz, sua mulher Priscilla, Elias e sua mulher Celeste, e Alice, a escrava “louca”, são personagens profundos que compõem a narrativa no mesmo grau de importância que Augustus e Mildred, os pais de Henry, Caldonia e Calvin, sua esposa e seu cunhado, e muitos outros familiares e sujeitos próximos, como o xerife, os patrulheiros, e, claro, William Robbins. Outra característica interessante é que os capítulos, longos, são nomeados com três frases que funcionam como uma espécie de resumo do que está por vir. Em um primeiro momento parecem palavras soltas, sem sentido, mas quando você termina o capítulo e volta para o começo, vê que nada ali foi escrito aleatoriamente. Essa é uma história que me remexeu por dentro e me tocou profundamente. A última frase quase me fez chorar, embora se tratasse de um personagem não muito amigável durante a trama. Aliás, é importante pontuar que aqui ninguém é totalmente ruim (bom, ok, alguns são), ou totalmente bons. Não há heróis ou salvadores da pátria. Existe a escravidão, a injustiça, a inocência, a culpa, a redenção e o sistema. Sobre o autor Edward P. Jones ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção em 2004, o PEN/Hemingway Award e foi um dos finalistas do National Book Award por sua coleção de histórias de estreia, Lost in the City. Beneficiário da Lannan Foundation Grant, Jones mora atualmente em Arlington, Virgínia. O Mundo Conhecido é seu primeiro romance. (Fonte: Ed. José Olympio 2006) Sobre o livro Título: O Mundo ConhecidoAutor: Edward P. JonesAno: 2006Editora: José OlympioPáginas: 404Avaliação: 5/5 Você pode encontrar esse livro clicando aqui (esse link leva à loja da Amazon e comprando através dele eu ganho uma pequena comissão sem custo adicional para você).

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Para Escritores

3 dicas para escrever bons personagens YA

Você certamente conhece livros como Harry Potter, Crepúsculo e A Culpa das Estrelas, certo? Esses são exemplos famosos da chamada literatura YA. YA quer dizer Young Adults, ou jovens adultos, e se refere a pessoas entre 14 e 18 anos. Livros são classificados como YA quando seus personagens principais estão nessa faixa etária e lidam com problemas típicos dessa fase: bullying, sexualidade, vida escolar, drogas, conflitos de personalidade, etc. Seu público mais ativo são os adolescentes, mas isso não é uma regra absoluta. Parte do sucesso desses livros deve-se ao fato de que pessoas de todas as idades estão lendo e falando sobre eles. Se você está enveredando por esse caminho e quer construir uma história juvenil cativante, confira essas 3 dicas para escrever bons personagens YA: 1. Leia bastante literatura YA Como todo bom escritor, eu suponho que você seja um excelente leitor. Onde mais encontrar referências senão nos próprios livros? Acompanhe os últimos lançamentos desse gênero, fique atento aos sucessos, aos best-sellers, siga páginas de editoras voltadas para o público YA, veja o que elas estão publicando e mãos aos livros! Observe como são construídos os personagens, que tipo de conflitos eles enfrentam, quais são seus contextos e em que universo eles estão inseridos. Faça uma imersão nesse tipo de literatura e extraia o melhor que puder sobre ela e aplique na sua escrita. Leia também 4 dicas para ser um escritor melhor 2. Pesquise com quem entende Se você quer atingir o público jovem você deve ir até ele e entender o seu mundo. Converse com adolescentes, leia revistas de adolescentes, saiba sobre o que eles estão conversando, do que eles gostam, do que eles não gostam, onde eles vão, o que eles buscam em suas vidas pessoais, quais seus problemas e dificuldades. Enfim, aproxime-se. Isso vai dar a você um bom panorama e uma ótima base para construir seus personagens com verossimilhança. 3. Preencha o personagem Vamos considerar essas dicas como passos, e se você seguiu os anteriores quer dizer que não está mais tão cru sobre o universo juvenil. Assim, utilize sua pesquisa para preencher o personagem na sua personalidade e no envolvimento com o enredo. Quais serão os desafios que ele enfrentará na história? Qual o objetivo? Onde ele quer chegar e quais problemas encontrará no caminho? Por que ele quer/precisa chegar lá? A motivação é salvar alguém? É conquistar algo? É impedir algo? Veja o exemplo da Bella que precisa escolher entre uma vida comum ou a vida ao lado de um vampiro, cheia de perigos. Ou do próprio Edward, que não sabe se se entrega ao seu amor ou desiste dele para protegê-la. Estruture a sua história de modo que o adolescente, por essa condição, não encare apenas situações comuns ou pouco instigantes. Dê um pouco de emoção a ele. O que acharam das dicas? Se você escreve literatura YA, como cria seus personagens? Conte pra gente nos comentários e compartilhe esse post com outros escritores. Clique aqui para conhecer meus livros

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