A Inteligência Artificial está entre nós há um tempo considerável, mas apenas nos últimos tempos ela tem se sentado conosco para fazer as refeições. Como o personagem David em A. I. Inteligência Artificial (2001), um garoto-robô adquirido para substituir o vazio no coração de uma mãe.

O que antes era uma ferramenta operacional, usada para fazer cálculos, montar tabelas, fazer pesquisas, agora é um interlocutor com quem o usuário se senta para conversar, tirar uma dúvida objetiva (qual desses sapatos combina mais com esse vestido?) ou complexa (como eu sei se ainda amo meu marido?), trocar receitas, pedir conselhos, e até se apaixonar.
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Há alguns dias, algo curioso aconteceu na minha região. Um sujeito saiu de sua cidade para encontrar uma mulher que conheceu na internet. A moça gravava vídeos em que dizia ser viúva, mãe solteira, dona de uma fazenda, e que estava em busca de um companheiro com quem pudesse dividir a vida e compartilhar carinho e afeto.
Evidentemente, ela era muito agradável esteticamente, do tipo que chamaria muita atenção se fosse real. Mas não era. O cabelo loiro, a pele clara, a camionete robusta e os animais ao fundo do vídeo eram virtuais. Uma criação fácil de identificar, mas não para homens de pouco discernimento da realidade. Antes eles eram seduzidos pelas sereias, agora a voz aveludada é da inteligência artificial.
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Assim como no filme Ela (2013), o homem do nosso causo tinha uma lacuna emocional que foi, ou seria, preenchida por um robô projetado para oferecer o que ele precisava, e o que muitos de nós precisam é de uma relação afetuosa onde os defeitos humanos não existem. São os defeitos que estragam tudo. Se você pudesse consertar o código operacional do seu marido para que ele fosse mais atento, mais engraçado, mais prestativo, você não faria? Se pudesse deixar a sua mulher com a cintura mais fina, o quadril mais largo, quem sabe erguer os seios dela um pouco mais, você não compraria esse pacote de ajustes? Por que estamos julgando o sujeito que viajou dois mil quilômetros para se casar com uma mulher imaginária se faríamos o mesmo se a loucura fosse socialmente aceita?

A inteligência artificial nos proporciona uma mente perfeita. Inteligente, rápida, perspicaz, divertida, espiritual, com potencial para sempre ganhar, nunca perder. Agora imagine todo esse desempenho em um corpo atlético, simétrico, forte e juvenil. Ou em uma criança doce, comportada e angelical. Você não ficaria tentado a comprar?
É preciso um tanto de coragem para, como Ulisses, se amarrar ao mastro enquanto as sereias cantam. Como nem sempre somos, que pelo menos usemos as ceras no ouvido.
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