Contos

Todos os dias bons

Minha irmã Ellen sempre foi muito organizada. Quando criança, eu não me preocupava em memorizar o dia da aula de Geografia porque ela colava um papel sulfite na porta da geladeira com todos os nossos afazeres. Segunda-feira, aula de inglês, quinta-feira, uniforme de Educação Física, sábado, catequese. Sempre foi um prazer pessoal dela se dedicar a deixar tudo em ordem. Liguei para Ellen na sexta-feira e perguntei se gostaria de jantar comigo no restaurante novo do bairro, um mexicano com luzes coloridas e música sertaneja.  – Hoje é dia do futebol do Érico, ele gosta que eu vá. – Nenhuma esposa vai assistir a essas coisas, não é o dia dele encontrar os amigos e fazer esses programas chatos de homens? – Mas ele gosta que eu vá, ele diz que eu dou sorte. – Por favor, tire um fim de semana para ver a sua irmã mais velha, faz tanto tempo que não batemos um papo. – Amanhã, pode ser? O Érico pode ir? Se bem que ele odeia comida apimentada, mas se pudermos ir em outro lugar… – Ellen, que tal deixar o Érico um diazinho sozinho em casa? Ele não vai morrer. Problema dele se ele não gosta de comida apimentada, é um bar mexicano que toca sertanejo, nada a ver com México, deve ser divertido. Ellen deu uma risada do outro lado do telefone. – Tá bom, tá bom. É que nós ainda estamos.. – Em lua de mel, eu sei. Ô lua de mel demorada, eu só quero ver a minha irmã – falei e ela riu mais uma vez, deixando o nosso jantar combinado. Ellen e Érico se conheceram na faculdade. Ele estudava Biologia e se interessava por botânica, ela fazia Matemática e se interessava por aritmética. Um dia, voltando para casa, o pneu do nosso carro furou e ele nos ofereceu ajuda. Usava uns óculos quadrados, estava ligeiramente acima do peso e era um sujeito extremamente simpático. Por algumas semanas, os dois se esbarraram nos corredores e trocaram sorrisinhos, ele a convidou para ir ao cinema, ela se apaixonou antes que o filme terminasse.  Leia também Fique na floresta – Como você está? – escolhemos uma mesa não muito perto da dupla sertaneja para evitar o som alto, mas também não muito longe para não desperdiçar o couvert. – Estou bem, animada com o novo emprego. – Achei que não gostasse de dar aulas para adolescentes – eu disse, bebericando minha caneca de cerveja. – O Érico tem mais paciência do que eu, é verdade, mas acho que posso me sair bem.  – O que tanto incomoda você? – Nos adolescentes? Eles estão sempre desesperados para chegar na vida adulta. Ficam conversando sobre coisas que não podem fazer, sobre a independência que não tem, sobre a pressão dos pais… tudo isso é nada quando comparado à vida adulta – subitamente, os olhos dela ficaram opacos e distantes, mas em um segundo recuperaram o brilho, ainda que fosse um brilho meio artificial – Mas o Érico me disse que se eu não der corda a irritação será menor. Eu abaixei o olhar e fiquei em silêncio, tentando deixar a voz dos cantores preencherem o espaço entre mim e minha irmã. – Sabia que ele vai iniciar uma pesquisa nova agora? – ela se expressou com bastante empolgação. – Quem? – perguntei, desinteressada. – O Érico, boba! Finalmente, ele conseguiu aquela bolsa científica que ele tanto queria. É uma pesquisa importante, o nome dele vai sair naquelas revistas que gente inteligente lê.  – O que acha de viajarmos? Só nós duas – a garçonete deixou dois pratos de nachos no meio da nossa mesa. – Vão querer algo para sobremesa? – a garçonete perguntou – Posso ir adiantando o pedido. – Acho que uma torta de limão – sempre foi a nossa sobremesa preferida, de todos os domingos na casa da vovó.   – Eu odeio torta de limão – Ellen enrijeceu os ombros e eu me desculpei instantaneamente, dispensando a garçonete. Ellen mastigou o nacho com o semblante nervoso e eu toquei a mão esquerda dela devagar, com cautela. – O que acha da Itália? Você sempre quis conhecer a Itália. Eu deixo você fazer o roteiro que quiser. – Acabei de me casar, não tenho dinheiro para ir até a Itália – ela respondeu com a voz seca. – Deixe comigo, eu consigo o dinheiro e você organiza tudo, metodicamente, como sempre fez. Prometo que não vou reclamar de nada – tentei parecer animada, mas por dentro ainda me sentia culpada pela torta de limão. Eu havia esquecido completamente. – Preciso ver com o Érico – ela relaxou um pouco e eu mordi os lábios, soltando o ar devagar. – Tá, tudo bem.  – Podemos ir? – certa vez, uma garota espalhou pela escola que Ellen fedia a estrume, por conta do nosso pai, que trabalhava em uma fazenda nos arredores da cidade. Um dia, ela saiu correndo da aula, me procurou e disse “Podemos ir?”, com o semblante choroso e as mãozinhas tremendo. Eu fui até lá e dei um soco na garota. Ellen fez aquela mesma cara agora e eu gostaria de dar um soco em Érico, mas eu não podia e nem era culpa dele. Durante o caminho, tentei conversar sobre amenidades, mas Ellen, monossilábica, olhava as ruas com o olhar vago e ansioso, como se quisesse chegar logo em casa. Antes de ela descer do carro, inventei uma desculpa. – Seria muito folgado da minha parte pedir aquele seu vestido emprestado de novo? – Não, eu pego num instante – ela não me convidou para entrar. – Ellen! Posso usar seu banheiro enquanto você acha o vestido? – Pode sim – ela respondeu, depois de hesitar por um instante. Ellen não convidava ninguém para entrar em casa, nem mesmo eu ou nossos pais. Tudo continuava exatamente igual como naquele dia, o par de tênis na soleira da porta, a camisa de time de futebol no braço do sofá, as …

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Bastidores

Mais aqui, menos acolá

Ser mais quem eu sou e menos quem eu gostaria de ser. Perdi muito tempo olhando para quem eu queria ser. Não de um jeito inspirador, como quem olha para uma estatúa e pensa: eu queria ser bom o bastante para merecer ter uma estátua, mas de um jeito fantasioso, infantil, como quem olha para um personagem de desenho animado cheio de poderes. Quero olhar mais para quem eu sou e para o que posso fazer a partir disto aqui. Jogar a régua fora, esquecer as métricas universais; meu caminho é só meu. Às vezes é cheio, às vezes tenho que abrir a mata fechada a machadadas, mas é meu. Olhar mais para o relógio e menos para o calendário. Um mês não é quase nada, mas até às 16h dá para fazer bastante coisa, é só reparar. Meu tempo também é só meu. Ser grata, humilde, realista. A vida nas revistas está a uma gota de chuva de se desintegrar. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Bastidores

Armários e Caixas

Numa caixa na prateleira de baixo guardei tudo o que me pertence, independente do valor. De uma marca-páginas marrom a um mouse quebrado. Também aquela saia laranja, aquele sonho para o qual me faltou coragem, os dias em que, ansiosa, não dormi, os itens que não pude comprar, os textos que não escrevi, as mágoas que engoli, o desespero que alimentei, os silêncios que não apreciei, as palavras que falei sem pensar, as belezas que não contemplei, os lugares aonde não fui, as flores que não plantei e muito menos colhi, as músicas que não ouvi, outras tantas que não cantei; o máximo que não fiz, os dramas que encenei, o muito que errei, o pouco que acertei, os vários que sequer tentei. Os dias que não vi, os sóis aos quais assisti, os nomes dos quais não me esqueci, as mensagens que não enviei e as que enviei, mas apaguei. As orações que não fiz, os perdões que não pedi, os remédios que não tomei, os sorrisos que escondi e os que ofereci. Os livros que li, os que quero ler, os filmes aos quais assisti e as fotos que tirei. É uma caixa bem grande e funda, pesada de tanta ausência, tanta supressão e covardia. Dentro, um pouco de exagero também. Tirei tudo e espalhei pelo chão como quem procura um pedaço de tecido bom no meio de retalhos. Não encontrei quase nada, então fui unindo os itens e tentando costurar alguma coisa para o ano novo.  A saia laranja fica, esse sonho parece realizável, vou pesquisar como que faz; respire fundo, conte até dez, nada vai ruir tão desastrosamente assim. Escrever mais, dar menos importância, não desesperar porque o poder de quem não desespera é enorme. Ficar em silêncio, reparar como o mundo é bonito que só. Plantar flores; não, não, comprar mesmo. Mais um, menos um. Comprar aqueles jogos de tabuleiro, deixar o sushi para a noite de sexta. Cantar em francês, italiano e latim. Dar o máximo e não se entristecer ao perceber que o máximo pode medir dez centímetros. Não ter medo de doer, tomar remédio. Olhar mais pela janela, o dia está passando. Enviar menos mensagens, receber, sim, e responder o quanto antes. Pedir e ouvir um sim, pedir e ouvir um não. Lembrar que tudo coopera. Agora a caixa está mais leve, posso mudá-la de lugar e pô-la para a prateleira de cima. A caixa de baixo agora é outra. Ano que vem eu conto o que tem dentro.

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Contos

[ Conto ] Um dezembro a mais

Naquele ano, ele apareceu na porta da casa dela com um buquê de oito gérberas e um livro de poemas. Na porta da casa havia uma guirlanda grande e desproporcional, ele observou, enquanto ela não atendia à campainha. Ele estava nervoso, namoravam há exato um mês e era Natal. Ele também levou um vinho para os pais dela, um vinho caro comprado com as economias de seis meses. Ela recebeu todos os presentes com o entusiasmo característico de quem está apaixonada. Era alérgica a gérberas, não gostava de poema e nenhum dos pais consumia bebida alcoólica, mas mesmo assim foi uma noite muito especial, ela o amava. No ano seguinte, viajaram para outro estado, onde os pais dele moravam. Ela comprou a camisa nova do time dele e ele usaria aquela roupa mais vezes do que ela gostaria. Ele deu a ela um dia em um spa chique da cidade. Acertou em cheio.  Naquele segundo ano de relacionamento, apaixonaram-se ainda mais, embora ambos fossem adeptos da teoria de que o primeiro ano era o mais bonito e intenso. Não foi. O primeiro ano foi corrido. Ela concluindo a faculdade, ele escrevendo a tese do mestrado. Entre uma linha e outra se falavam pelo telefone, saiam para caminhar na praia e visitavam o zoológico porque ela adorava girafas. No terceiro ano, ela foi pedida em casamento e dentro da caixa de alianças havia um tecido estampado de girafas. Foi tão engraçado, ela achou que ele não poderia ter sido mais inusitado, e foi no meio daquele risada, com o garçom procurando o melhor ângulo para registrar o momento, que ela se deu conta de que passaria a vida com aquele homem. Aquele homem bonito, engraçado e de muito bom gosto. Era antevéspera de Natal e o restaurante estava decorado com luzes delicadas e aconchegantes. Ela pensou que no ano seguinte gostaria de ter em casa uma decoração como aquela – a casa que também seria dele. Um ano se passou e eles foram juntos comprar os enfeites de Natal. Ela deu sorte, encontrou as luzes como queria. A cerimônia de casamento havia sido há dois meses e fizeram questão de receber a família para a ceia na casa nova. Como era bom vê-lo caminhar apressado pra lá e pra cá tentando deixar tudo pronto para o jantar. Ela se sentia em paz. Contudo, antes do primeiro aniversário de casamento descobriram que a teoria dos melhores dias não se aplicava muito bem quando a convivência era diária. Depois das semanas douradas, aqueles dias após lua de mel, depararam-se com as pequenas incongruências do dia a dia. Os defeitos alargados, as manias irritantes, os esquecimentos, às vezes a ponta de um desleixo surgindo aqui e ali. Nada que pudesse abalar o amor, apenas a vida acontecendo e a pouca experiência de lidar com ela num esquema a dois. Mas aquele Natal foi diferente. Ela não queria ver ninguém, ele queria ver os pais. Ela se chateou com o presente que ganhou dele, um vestido um número menor do que ela usava, e ele argumentou de maneira ríspida. Não houve ceia de Natal e dormiram brigados. Mais um ano. Ele recebeu uma proposta de emprego em outra cidade e ela não aceitou se mudar, ali estava perto da família, não queria se sentir só. Você não está só, ele disse, mas às vezes quero ter uma segunda casa para onde eu possa ir de vez em quando, ela rebateu. Ele não insistiu e recusou o trabalho. Tentaram se acertar, voltar a ser o casal que ia ao zoológico, mas nunca mais foram ao zoológico e ela deixou pra lá as girafas. De presente de Natal, ele deu a ela um anel, o anel que ela namorava sempre que ia ao shopping. Aquilo fez a diferença. Ela não havia comprado nada e chorou por isso, deveria ter se esforçado. Ele disse que não havia problemas desde que os dois continuassem bem e então o ano seguinte começou muito bom. Viajaram nas férias de janeiro e ela se sentiu cheia de amor outra vez. Experimentaram comidas novas, acamparam ao ar livre em uma cidade desconhecida e perderam um voo na volta. Foi muito divertido. Ela se sentiu agradecida por estar casada com ele. Foi um ano esplêndido. No Natal, ela lhe deu uma coleção de discos do seu artista preferido. Uma coleção rara, autografada, que ela havia arrematado em um leilão numa madrugada qualquer. Os olhos dele brilharam.  Mudaram-se para uma casa nova no primeiro dia do ano seguinte e ela manifestou o desejo de ser mãe, está na hora, está na hora, concordaram. Um ano que começou agradável, mas foi amargando com o passar dos meses. Ela não conseguia engravidar, ele não conseguia entender, os dois juntos procuravam respostas mas tudo que encontravam eram conflitos, autocobrança e desentendimentos que não levavam a lugar nenhum. A obrigação sufocou a esperança. A casa, antes atraente por ser espaçosa e bem iluminada, agora parecia grande demais e desesperadamente oca e obscura. Os cômodos eram tão distantes um do outro que passavam dias sem sequer se esbarrar. Em dezembro, ela recebeu uma carta anônima de uma aluna que confessava ter um caso com ele. Ele negou, a garota queria se vingar pela reprovação na matéria. Era uma justificativa plausível, mas ela também não acreditava totalmente na inocência do marido. Nunca soube se foi verdade ou não porque não resolveram esse impasse. Ela passou o Natal na casa da mãe, sozinha. Quando voltou, encontrou um presente que nunca chegou a abrir. O ano mais difícil e silencioso de suas vidas chegou. Não havia um casal, não havia uma família, havia duas pessoas dividindo as contas de casas. O plano de um bebê ficou para depois, talvez nunca mais, os planos de qualquer coisa se dissolveram como um recado na geladeira que vai perdendo a cor com o passar do tempo. Ele se aproximava, ela recuava, ela se arrependia do recuo, ele ignorava, ele se arrependia do orgulho, ela relembrava. …

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Bastidores

O que eu sei, o que eu imagino e o que eu invento

Suponho que eu saiba um terço sobre você; o outro terço eu imagino e o outro eu invento. Sei que você é contido, talvez tímido, mas não retraído. Imagino que olhe para as pessoas com o semblante sério, não zangado, e que quando está sendo simpático mexa os lábios ligeiramente. Abrir um sorriso, esse sorriso do qual eu tanto gosto, só quando vale muito a pena – isso eu inventei. Eu sei que seu paladar não é muito dado a doces então imagino que você aceite aquele pedaço de pudim por educação. Em minhas invenções, porém, sei que você não recusa mesmo é uma boa fatia de goiabada. Leia também O pedido Sei que seus braços são fortes, que seu corpo é ereto e que seus olhos estreitam quando você sorri. Eu imagino que se entrasse na minha sala agora, o ar daria licença para você passar. Tenho uma convicção quase concreta de que se me olhasse de perto, ah, se você chegasse bem perto, eu faria minhas malas e voltaria para casa com você. Mas essa casa não é minha. Eu não tenho uma cópia da chave pendurada em um chaveiro comprado numa loja de souvenirs, eu não tenho nada além de algumas informações coletadas aqui e ali, um sem-número de suposições e várias invenções irresponsáveis. Na minha cabeça, um dia você vem me buscar, mas sei que não vem.

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Bastidores

Estética, poesia e avós

Algumas pessoas nascem com a alma naturalmente poética. Por ‘naturalmente” eu quero dizer sem investir tanto esforço a ponto de ficar artificial, sem autenticidade e humanidade. Falo da avó que cuidava da flor mais simples do quintal, aquela que nasce em qualquer canto, e não do universitário que faz dois riscos tortos na face e chama de arte.  Penso nas referências estéticas dessa avó sem Pinterest e sem Instagram com filtro do Vsco Cam. Ela achava uma coisa bonita e ficava lá olhando. No máximo, fotograva com uma câmera analógica, mas só se realmente valesse a pena, para não gastar o filme. Talvez foi assim que surgiram as fotos de vó com plantas. Minha avó tinha um quintal muito bonito. Era bem verde, com coentro, babosa e umas florezinhas coloridas. Lá no final, um pé de juçara. Minha avó sabia mexer na terra e isso fazia toda a diferença. Se ela tivesse um perfil no Pinterest, seria muito aesthetic. Ela tinha uma estante vintage de cor escura e um porta-joias com a cabeça de uma bailarina. Tudo muito caro se fosse vendido hoje no Mercado Livre. Naquela época, bugiganga. O cabelo da minha avó era ondulado e brilhoso, e tudo o que ela usava era um creme amarelo da Neutrox. Ela quase sempre saía com um conjunto comfy e combinando. Acho que nunca a vi com muitos acessórios, no máximo um brinco. Minimalista.  Sei lá, minha avó tinha um bom senso estético. Acho que tudo que ela fazia era observar. Gostou do meu conteúdo? Inscreva-se e não perca nenhuma novidade. indicates required Email Address *

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Bastidores

Uma questão de sorte

A Lindsay Lohan faz um filme muito bonitinho em que a personagem principal, Ashley, é uma baita de uma sortuda que depois de beijar um grande azarado troca de sorte com ele. Antes disso acontecer, em um dia de chuva, Ashley sai de casa e o porteiro do seu prédio a espera com um guarda-chuva na rua enquanto pede um táxi. Assim que ela põe os pés na rua, o céu abre e o dia cinza se transforma em um lindo de sol. Lembrei-me dessa cena ao ler em 1 Timóteo 6:8 que se temos alimento e vestuário, contentemo-nos com isso. Mais do que um impulso ao comodismo, pensar que em tudo Deus nos provê tira metade da ansiedade que paira sobre nós – quiçá toda. Até mesmo aqueles desprovidos de bens materiais estão assistidos se os que estão ao seu redor têm o bastante para dividir. Leia também Uma beleza calculada Se a sorte é o mesmo que Providência, a cena em que Ashley pode contar com um gentil porteiro, e também é presenteada com o céu limpo, é um ótimo exemplo. Ela está amparada, não precisa ter com o que se preocupar, nem mesmo se irá chegar ensopada no trabalho. E, de fato, não se preocupa. Tanto que responde “Eu preciso mesmo de um guarda-chuva?”, quando o porteiro questiona se ela irá sair de casa sem um. Tudo vai dar certo. Quando Jake rouba sua sorte com um beijo, ele passa a ser o contemplado com tantas bençãos enquanto ela irá passar por maus bocados, igual a qualquer um de nós, com dias de sol e dias de chuva. Ainda assim, ela não está só, pois Jake está habituado aos azares do cotidiano e acaba sendo seu par. Ela continua com sorte, afinal. Esse nome civil da Providência.

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Contos

[ Conto ] Arquivo

O pacote chegou em uma sexta-feira. Quando ele entrou em casa, lá estava uma caixa pequena, do tamanho de um celular, em cima do aparador. – O que é? – ela perguntou. – Um brinquedo novo. – Outro jogo? – ela deixou transparecer uma ligeira irritação. – Mais ou menos – e ele estava ansioso demais para se importar com a reação dela. Edgar sentou-se no sofá enquanto abria o volume. Dentro havia um par de fones de ouvido e uma pulseira digital, ambos na cor branca. Ele leu ligeiramente as instruções, pôs a pulseira no pulso, os fones no ouvido, e ouviu uma voz suave e feminina: Seja bem-vindo ao Salt. A mulher fez uma pausa enquanto algo no sistema iniciava. Escolha um lugar confortável e selecione uma data no seu relógio. Edgar ainda não havia decidido qual seria a sua primeira visita, queria que fosse algo especial, marcante, e tentou se lembrar de algo bom.  13 de abril de 2003 Ele deslizou os dedos sobre a tela digital da pulseira e a voz da mulher soou novamente, agora mais animada, como se fosse uma guia turística conduzindo-o a um museu. Você será levado ao dia 13 de abril de 2003 e toda a sua vida nesta data passará diante dos seus olhos. Você verá as mesmas cenas, sentirá os mesmos cheiros, ouvirá os mesmos sons e dirá as mesmas palavras. Nada pode ser mudado, apenas contemplado. Para avançar, movimente a palma da mão para a direita, para retroceder, movimente a palma da mão para esquerda. Você pode fazer isso quantas vezes quiser. Para sair, abra e feche a mão duas vezes. Para ouvir as instruções novamente, clique no botão laranja, se você entendeu tudo, clique no botão verde. Edgar clicou no botão verde e se ajeitou no sofá. Ouviu um som novo, uma espécie de onda tranquilizante e logo tudo ficou escuro, clareando lentamente em seguida, como se ele estivesse acordando de um sono profundo. Estava de volta na casa dos pais. Reconheceu o antigo quarto, com suas paredes azuis e pôsteres, seu velho computador de mesa e camisas de bandas penduradas na poltrona. Era o dia da sua entrevista de emprego e ele mal havia dormido de tanta expectativa. Ficou de pé, entrou no banho e logo se lembrou de que nada de extraordinário aconteceu até ele sair de casa. Assim, avançou as cenas até estar em frente ao prédio por onde passou tantas vezes, ansiando pelo dia em que entraria lá como funcionário, e, um dia, quem sabe, como ocupante de um cargo importante. Avançou mais uma vez até o momento em que a chefe do Recursos Humanos lhe parabenizou pela conquista da vaga e apertou sua mão com confiança. Ele podia sentir com absoluta fidelidade o mesmo furor no peito, a mesma alegria, a mesma sensação de vitória. Como fazia tempo que não sentia aquilo, como era bom se sentir capaz outra vez. Revivendo aquele momento em todos os detalhes, retrocedeu a lembrança e reviu tudo de novo. E de novo, e de novo. Até sentir uma mão pesada sacudindo seu ombro. Leia também Fique na Floresta – As crianças estão prontas, estou gritando há horas – a voz estridente dela invadiu os ouvidos de Edgar assim que ele tirou os fones. Ele havia esquecido que prometeu levar os filhos para a casa da avó e ir ao cinema com a esposa. Arrependido do compromisso, chamou-a no canto da sala e cochichou: – Será mesmo que temos dinheiro para ir ao cinema? Ela o fitou com o semblante sério e frustrado, e só então ele se deu conta de que ela já estava arrumada, com um vestido cor de vinho e sapatos altos. – Edgar, tome um banho e vá se arrumar. Deixaremos as crianças com a minha mãe e vamos ao cinema. – Claro.  No cinema, Edgar não conseguiu dar atenção ao filme, ocupado em selecionar mentalmente quais datas visitaria ao chegar em casa e resgatando na memória os momentos de excitação que valiam a pena ser vividos novamente. Já de volta, esperou a esposa dormir e voltou para o sofá. Descobriu que no Salt também era possível fazer uma pesquisa digitando o nome de alguém na tela da pulseira.  Mariana. A primeira década de Edgar no emprego dos sonhos foi fascinante. Sucessivas promoções, prestígio, admiração dos colegas e uma posição de respeito dentro da hierarquia. Naquela época, envolveu-se com uma de suas estagiárias. Uma moça ruiva, de sorriso aberto e um ar universitário e juvenil irresistível. Ele propôs deixar sua esposa, na época noiva, por ela. Ele ofereceu o mundo inteiro e ela aceitou. Um ano de relacionamento às escondidas, em moteis caros, jantares discretos, viagens curtas, e uma vontade insana de jogar tudo para o alto e apresentá-la como sua futura mulher. Foi nisso que ele pensou ao digitar o nome dela. Reviveria cada dia daquele ano, exceto o último, quando procurou sua esposa para uma conversa e ela anunciou que estava grávida antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.  Mariana foi embora, magoada, triste, alimentando um ódio visceral do amante, e ele ficou com a vida que deveria ficar. Mas se o Salt pudesse descobrir onde ela estava agora, no presente, se ele pudesse discar o número dela, ele ligaria mais uma vez, nem que fosse para ouvir sua voz por alguns segundos. De uma forma ou de outra, foi com ela que ele passou aquela e tantas outras noites. Deitado no sofá, digitando as sete letras do nome dela, negando dormir com a esposa enquanto relembrava, com a tecnologia do Salt, os dias com Mariana. Nada pode ser mudado, apenas contemplado. De contemplação em contemplação, Edgar esqueceu a demissão ocorrida há alguns meses e continuou revisitando os dias em que outrora foi aplaudido. Passava horas de pijama no sofá, com os fones de ouvido e os olhos fechados, a expressão sempre tranquila e feliz. Ali dentro, só coisas boas estavam acontecendo.  No meio do dia, procurava por Mariana. À …

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Contos

[Conto] O cliente da mesa cinco

A gerente entrou na cozinha e imediatamente todos adquiriram uma posição de prontidão. Ela olhou o grupo de dez pessoas, um por um, e eles se entreolharam entre si, ansiosos. – Por favor, eu não, eu não, eu não – Valmir disse, baixinho, enquanto prendia o avental ao corpo. – Valmir e Brenda, a mesa cinco hoje é com vocês – e saiu. No fundo do grupo, Valmir bufou e fez uma careta enquanto o restante dos garçons se espalhava pela cozinha.  – Isso é culpa sua, você me dá azar – ele disse à Brenda, que achou graça. – Pense pelo lado positivo, mesa grande é igual à gorjeta maior. – Vai sonhando. Eu aposto que vai chegar um grupo de adolescentes barulhentos que não sabem o que pedir e, quando finalmente escolhem, em cinco minutos pedem para cancelar o pedido e mudam tudo. “Eu vou querer uma costela com fritas / Julinha, você voltou a comer carne? / Ai, me esqueci, sou vegana! Ei, garçom, eu quero uma salada, mas tire o frango, o queijo, o molho, o sal, o azeite e o talo das alfaces” – ele imitou a voz de duas jovens – E a gente tem que ficar lá, fingindo que gosta deles e que atura eles, e no final recebe a pior gorjeta da noite.  Leia também Petrúcio da Casa Azul Brenda soltou uma gargalhada alta.  – Pois eu aposto que serão trinta senhorinhas simpáticas, gentis e de mão aberta. – Trinta?! – ele arregalou os olhos – Achei que fosse uma mesa para dez, no máximo. Brenda cruzou os braços e balançou a cabeça em negativo. – Acho que o anfitrião chegou – Valmir e Brenda se aproximaram da porta da cozinha e através do vidro redondo espiaram a mesa comprida no canto do salão onde um homem de mais ou menos trinta anos ajeitava a gola da camisa, empolgado. – Eu vou – Valmir saiu em direção ao homem e Brenda permaneceu no lugar. – Ele pediu um chopp, mas não quer comer nada ainda, vai esperar os amigos chegarem.  – Ele é todo bonitão, deve ter uma namorada. É aniversário dele? Trouxe bolo? – Parece que sim, mas sem bolo. Quem tem trinta amigos nessa idade? – Valmir pegou uma caneca grande e limpou com um pano úmido. – Acho que eu tenho – ela parou para pensar enquanto conferia nos dedos – as amigas de baile, de trabalho, do curso… se não dá trinta, chega perto. Vinte minutos depois de servir o cliente, Valmir e Brenda continuavam espreitando pelo vidro, confabulando teorias sobre a vida do homem. – Ele tem cara de advogado – ela disse. – É melhor você ir até lá e conferir se ele quer outro chopp.  Brenda voltou com uma resposta em afirmativo e olhou o relógio. – Eles estão bem atrasados. – Aposto que estão dando as desculpas mais cretinas para não vir. Olha lá, ele não para de olhar o celular e responder mensagem. – Isso é tão triste, não vir ninguém no seu aniversário. – Não se você for um cretino também. – Não acho que seja o caso. Brenda saiu para servir a bebida e Valmir observou o homem sendo gentil com ela. Ele puxou um assunto com a garçonete e os dois conversaram por alguns minutos. – E então? – Valmir mal esperou Brenda entrar de volta na cozinha e a interpelou, curioso. – Eu não disse que ele era advogado? Chamou todo mundo do escritório, até os estagiários. Uma porção de arancini! – ela gritou em direção aos cozinheiros enquanto prendia um papel na bancada. – E onde eles estão? O coitado já está esperando há quase quarenta minutos. Brenda levantou os ombros. – Sabe no que estou pensando? Pior do que atender a uma mesa de trinta pessoas impacientes, é passar a noite inteira atendendo a uma pessoa só – Valmir deixou transparecer a sua frustração. – Sem grandes gorjetas hoje, meu amigo – ela fez uma pausa e esticou o pescoço – Mas estou começando a ficar com pena dele. Será que ninguém vem? Ao passar uma hora que o cliente esperava seus convidados, a gerente entrou na cozinha e procurou Valmir e Brenda. – Vão até lá e peçam uma daquelas mesas. O salão está cheio, tem uma fila imensa lá fora e este cara está segurando cinco das minhas mesas. Vão. Os dois garçons se entreolharam e Valmir se adiantou para cumprir a ordem da gerente. Pela porta entreaberta, Brenda viu o homem assentir com um semblante já menos empolgado e Valmir afastar uma das mesas, deixando o cliente na ponta, olhando para um estirão menos comprido, mas ainda vazio. – Alguém ainda vem? – Brenda quis saber assim que o colega voltou do salão. – Ele espera que sim. Entre idas e vindas à mesa do cliente, ora para saber se ele estava bem e confortável, ora para oferecer o prato principal da casa, ora para levar mais uma bebida, Valmir e Brenda acompanharam o tempo passar e o homem permanecer sozinho. Conferia o celular, recebia uma ligação, ouvia uma mensagem em áudio, tudo indicava que todos os seus convidados desmarcaram o convite. Outros clientes entravam e saíam, mas ninguém se dirigia até lá para sentar com ele e dar-lhe um feliz aniversário. – Estou tão triste. Por que será que ninguém veio? – Brenda lamentou. – Vai saber. Está cheio de filho da puta no mundo.  – O que você faria no lugar dele? Acho que eu já teria ido ao banheiro chorar. – Ele já foi ao banheiro, mas não dá pra saber se chorou.  – O que você faria?  – Levantaria e iria para casa. Ele deveria ter comprado um bolo, pelo menos teria um doce para comer. – Talvez estivesse esperando que algum amigo trouxesse. A gerente entrou de supetão e deu de cara com os dois encostados na bancada. – Por que vocês dois estão aí parados?? O cliente …

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Contos

[Conto] Em outra vida, quando formos gatos

Às sete horas da manhã eu já deveria estar pronto para sair. Normalmente, Tobias me acorda antes disso, mas não dá para culpá-lo agora. “Tobias! Cadê você, seu gato sem vergonha?” – chamo por ele enquanto calço as meias e os sapatos – “Não está com fome, hein? Será que você morreu?” – fiz piada e imediatamente me assustei ao pensar no meu gato morto. Ligeiramente frustrado pela ideia de tomar café na padaria em frente ao trabalho – a padaria com seus ovos mexidos cheios de gordura e o pão dormido -, saí em direção à cozinha na esperança de encontrar uma fruta perdida na geladeira e qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma tigela cheia de leite e cinco ou seis biscoitos de água e sal boiando dentro. Além de não gostar de leite, eu não sabia que havia biscoitos de água e sal no meu armário. Eu também não sabia como aquele café da manhã – era um café da manhã, não era? – tinha parado ali se eu moro sozinho. Meu relógio emitia um bip de meia em meia hora e às sete e meia eu já sabia que meu chefe não sairia do escritório até ter certeza que eu compensaria aquela hora de atraso ficando até mais tarde. Disposto a pensar sobre o mistério da tigela depois, apanhei as chaves de casa e saí. No metrô, pensei em algumas possibilidades: aquele drink com a Teresa pode ter ido além do necessário e nós passamos em uma conveniência e compramos leite e biscoitos. Eu me lembrava do seu “melhor não” ao ser convidada para entrar, mas não me lembrava da conveniência. Antes de elaborar outro cenário plausível, dei-me conta de que não havia encontrado Tobias e muito menos deixei ração e água para o pobre coitado. Tudo errado para uma segunda-feira. A conversa de duas senhoras atrás de mim me distraiu. “Está uma confusão dos diabos lá na casa do patrão. Ela não quer mais voltar para casa, disse que não confia mais nele e ele insiste que foi um caso de uma noite. Mas se fosse a primeira! Dona Lily não aguenta mais tantas mentiras”. “Quem me dera se Bartolomeu tivesse uma companheira. Ele só fica enfurnado naquele quarto. Outro dia, dei de cara com uma saindo do apartamento. Ela era bonita demais, com o pêlo tão macio e limpo… Pena que nunca mais a vi. Ele é muito exigente para um bichano vira-lata qualquer”. Desisti de entender o diálogo antes que fizesse algum sentido para mim. Uma dor de cabeça começou a surgir e eu vi que o dia seria longo. Amélia, a secretária com a língua mais comprida do escritório, esboçou um sorrisinho debochado assim que me viu saindo do elevador. “Você está em maus lençóis, querido”, ela disse, mordendo a tampa da caneta. “Bom dia, Amélia. Seria ótimo se você não me dirigisse a palavra hoje”. “Vai logo na sala dele, nem respira”. A sala do chefe ficava em frente à minha, mas a dele tinha uma porta grossa de madeira e a minha apenas um umbral. Tudo o que eu queria era tomar uma xícara de café na minha mesa enquanto o computador levaria dez minutos para ligar, mas bati na porta do chefe e esperei qualquer coisa acontecer. “Pode entrar”, uma voz arranhada saiu lá de dentro. “Perdão pelo atraso, eu…” “Tenho impressão de que em 45 minutos do seu atraso eu já fiz mais do que você faria o dia inteiro”, a cadeira estava de costas para mim e quando ela girou na minha direção, o meu gato, Tobias, estava sentado nela, com uma expressão não muito amigável. “Às vezes, me pergunto se você quer mesmo esse emprego”, ele uniu as duas patinhas em cima da mesa de vidro e continuou a falar. Ele vestia um terno e falava, o meu gato. “Amélia!”, eu gritei, sem tirar os olhos dele. “Amélia!”. Ouvi o barulho do salto fino vindo pelo corredor. Ela me olhou, olhou para o meu gato, e ficou lá parada, como se nada estivesse acontecendo. “Ele fala”, eu sussurrei, trêmulo. “Querido…”, ela continuou confusa. “Sr. Tobias, preciso lembrá-lo que às nove horas o senhor tem uma videoconferência com…”, ela passou o dedo pela tela do tablet que carregava nas mãos e Tobias revirou os olhos. Juro que vi o meu gato revirar os olhos. “Com Thor e Frajola, eu sei. Se vocês fizessem seus trabalhos, eu poderia fazer o meu. Para quê ter uma secretária ?”, resmungou. “Vem!”, ela me puxou e fechou a porta com o devido cuidado. Eu continuei boquiaberto e atônito. “Preciso tomar um ar”, eu saí de supetão pela porta da frente e apertei o botão do elevador cinco vezes seguidas. Ao abrir, dei de cara com dois humanos e três gatos, todos eles sobre duas patas, alguns com uma malas pretas e uma gata de salto alto usando uma roupa formal cor de rosa e uma fivela brilhante ao lado da orelha. A única expressão nos humanos era de irritação, por eu ter chamado o elevador e não entrado. A gata de roupa cor de rosa fixou os olhos em mim e apertou um botão qualquer. Ela me olhou com desprezo enquanto a porta fechava. Sem saber se havia ficado maluco de vez, desci pelas escadas e fui embora. Na rua, notei que muitos veículos levavam gatos no banco do passageiro e que muitos outros felinos dirigiam, sempre um carro bonito e de luxo. E que eles falavam ao telefone, comiam com talheres, davam ordens a garçons e estampavam outdoors pela cidade.  O único lugar seguro era minha casa, mas quando voltei à ela, a tigela com leite e biscoito me lembrou de aquele foi o primeiro sinal de que o dia estava desequilibrado. Cheguei mais perto e vi um papel dobrado embaixo da louça. “Não é porque você mora comigo que pode se atrasar para o trabalho. Coma esse café que preparei e chegue o mais rápido …

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