• Contos

    [Conto] Tudo em ordem

    Lembro quando os abraços foram oficialmente proibidos. Depois os beijos, os afagos, e as mãos dadas. Apenas apertos de mãos eram permitidos, e em situações muito específicas, como ao fechar um negócio. Eu fechava muitos negócios na minha padaria, mas nunca havia abraçado meu filho de cinco anos. Antes dos decretos, meu avô aparecia na porta da minha casa aos fins de tarde e me levava para passear na pracinha do bairro. Ele nunca soltava a minha mão e me dava um abraço de despedida ao ir embora. Nenhum exame médico poderia comprovar, mas o fato de ele ter morrido um ano depois das proibições me leva a crer que…

  • Bastidores

    Infortúnio nosso de cada dia

    Na fila do supermercado, a moça do caixa passava os produtos pela registradora com uma certa morosidade. O sujeito na minha frente começou a se queixar, primeiro murmurando sozinho e depois para mim, que nada podia fazer por nenhum de nós dois, senão procurar outro caixa ou desistir da minha compra e ir embora. Mas a necessidade de ter uma mostarda e um desinfetante na minha casa era maior que o aborrecimento da fila que andava devagar. O sujeito, porém, embalado pela primeira reclamação, emendou outras em seguida. Ele estava atrasado para o aniversário da sobrinha e a esposa já havia ligado duas vezes pedindo que ele se apressasse, mas…

  • Bastidores

    A Copa do Mundo ainda é nossa

    Foi uma Copa do Mundo que me fez gostar de futebol. Era 2006, eu tinha 12 anos de idade e só se falava disso por todos os lugares. Para quem foi educada na TV aberta, sem internet (nem a discada) e privada das opções dos canais fechados, restava-me passar o tempo consumindo o esporte mais popular do planeta. Aos poucos, fui entendendo como as regras funcionavam, aprendendo os nomes dos jogadores e de quais países eles eram, e internalizando o significado de “todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta”. Compreendi como éramos grandes e como era bom ser brasileira. De lá para cá, esse é o meu esporte…

  • Contos

    O Natal da Senhora Deise

    Aquela hora do dia sempre chegava. Eu estava sentado no sofá, no meio da tarde chuvosa, com minhas velhas e confortáveis meias, quando minha mãe me mandava ao mercado comprar algum item que havia esquecido para o jantar. Era a tarde mais preguiçosa e aconchegante do ano, não fosse a bendita caixa de leite que escapara da lista de compras no dia anterior e agora cabia a mim e ao meu irmão buscar. Ainda havia isso: era preciso ir na companhia de Marcos. Por um lado, era justo, pois nenhum de nós dois seria beneficiado enquanto o outro fosse punido a sair sob a chuva. Por outro, meu irmão caçula…

  • Contos

    [Conto] Último dia

    Eu estava atrasado quando entrei na sala de reuniões e coloquei, discretamente, a bandeja de sanduíches sobre a mesa, ao lado da torta de frango que eu sabia ter sido feita pela Norma, do setor de Recursos Humanos. Ela era uma senhora que quase sempre vinha trabalhar com o mesmo tipo de roupa: calça jeans, alguma blusa estampada, cabelo preso e sapatilhas. Tinha muitos vídeos dos netos no celular, e eu os assistia com atenção e paciência, pois gostava de receber, às segundas-feiras, um potinho com as sobras do almoço dela de domingo. Por isso, eu reconhecia aquela torta pelo cheiro. Ela estava do outro lado da sala, empolgada, filmando…

  • Bastidores

    O que estou fazendo por Jesus?

    No último sábado, assisti ao filme Silêncio (Martin Scorsese), que trata da perseguição aos cristãos no Japão, no século XVII. É, sem dúvida, um filme voltado ao público católico, e muitas cenas apertaram fundo o meu peito, despertando em mim compaixão por aqueles que, até hoje, são perseguidos por causa da fé, além de me fazer refletir sobre o privilégio que é poder manifestar minha religião sem sofrer represálias — ou, pelo menos, sem sofrer represálias que atentem contra a minha vida. Em determinado momento do filme, camponeses são impelidos a pisar em imagens de Cristo e a maldizer a Virgem Maria, como prova de que não são cristãos. Eles…

  • Bastidores

    Literatura longa para uma vida breve

    Um dos grandes pesares desta vida finita é a certeza de que não teremos tempo para ler todos os livros, assistir a todos os filmes, ouvir todas as músicas, contemplar todas as pinturas, esculturas e arquiteturas. Dançar todas as danças também não. Das sete artes, precisaremos escolher duas ou três que nos despertem maior interesse e nos concentrar nelas. Ou, se gostarmos de todas, usufruir um pouquinho de cada. Eu, por exemplo, debruço-me sobre a Literatura, o Cinema e a Música. É o que preenche a minha semana, e, às vezes, tenho a oportunidade de cruzar com a Arquitetura. Escultura quase nunca, Dança idem. Dentre todas, porém, a Literatura é…

  • Bastidores

    O dia depois de hoje

    No início do mês de julho, o mundo do futebol foi surpreendido pela morte do jogador Diogo Jota, e do seu irmão, o também jogador André Silva, em um acidente de carro na Espanha. A notícia chocou todos os que acompanham não só o futebol, mas amantes de esportes por todo o mundo, pela violência da tragédia e pelo contexto em que ela aconteceu. Diogo, de 28 anos, havia acabado de se casar com a companheira de sua vida, Rute Cardoso, com quem tinha três filhos pequenos; havia sido campeão da Premier League, a competição mais popular do planeta, com o Liverpool; e também venceu a Nations League, com a…

  • Bastidores

    Como você faz qualquer coisa é como você faz tudo

    Para mim, um dos serviços domésticos mais chatos de executar é a limpeza do fogão. Não é um trabalho para se fazer de qualquer jeito. Se você quer que fique bem limpo, é preciso passar a esponja nos cantinhos, nas curvas das grades, e em todos os lugares onde porventura a gordura tenha respigado. Ninguém nunca está animado para limpar um fogão, é sempre “caramba, ainda falta o fogão”, e às vezes o que sai é uma limpeza meia-boca. Mas você faz desse jeito mesmo porque precisa se arrumar para sair para o trabalho. Coloca uma roupa, um sapato, prende o cabelo em um rabo de cavalo e pega a…

  • Bastidores

    Onde crescem os leitores?

    Ontem, deparei-me com a seguinte publicação da PublishNews: Com dificuldades históricas e estruturais, Brasil vive impasses na construção de uma nação de leitores. Essa matéria foi muito eficiente em elencar pontos problemáticos no processo de formação de leitores no Brasil. Logo no início, o texto aborda o papel fundamental dos mediadores, na escola, em ONGs, em projetos sociais ou na família. Pra mim, tudo começa dentro de casa. Na minha percepção, não tem projeto de leitura, ou professor, por mais bem-intencionado que esteja, que supra um núcleo familiar que entende a importância da leitura.  Evidente que não é regra — eu mesma não vim de um lar leitor —, mas…

Sabryna Rosa