Desde criança, a avó dizia que aquela casa seria dele. Uma casa grande, afastada da cidade, com trejeitos coloniais, paredes centenárias e colunas que viram gerações subirem as escadas e atravessarem a varanda. Quando tomou posse, percebeu que os corredores conservavam o cheiro da avó até o quarto que por toda a vida foi dela. A cômoda de cor escura prostrada no lado esquerdo guardava perfumes, colares e uma foto da família em um porta-retrato. A poltrona de leitura simbolizava um privilégio, os tapetes coloridos e bordados foram presentes de uma prima distante e as pantufas ainda estavam ali, na entrada do banheiro, de onde ela saía com uma toalha…
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Deus está prestando atenção?
Por muito tempo eu imaginei as minhas orações, ou melhor, os meus pedidos, como ligações que eu fazia a um serviço de atendimento no qual os atendentes me jogam de uma central para outra até a ligação cair ou uma moça da voz cansada me informar que o meu problema não tem solução. Ou às vezes eu também imaginava como se estivesse naquela situação constrangedora em que você precisa, por força da circunstância, pedir um favor a quem você não tem tanta intimidade. Pouquíssimas vezes eu me senti pedindo algo ao meu Pai. Leia também O Pedido Pai é uma palavra forte, de autoridade, presença e segurança. “Vou chamar o…
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Borrões
Nós, os nascidos nos anos noventa para trás, crescemos com todo tipo de suporte físico de conteúdo: livros, jornais, revistas, fitas cassetes, DVD’s, CD’s, um objeto para cada tipo de informação. Com a popularização da internet, muitos desses conteúdos migraram para o digital e então passamos a usar um site, plataforma, software, ou aplicativo, para cada conteúdo. Um lugar para ler jornais online, outro para ouvir música, outro para ver filmes. Nesse processo, o texto, digo o texto escrito, as palavras passando na nossa frente, foi ocupando um espaço cada vez menor, e o vídeo, assim como o áudio, ficaram cada vez mais presentes, mais curtos e mais rápidos. Antes…
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Memórias que não estão no histórico do navegador
Um dia, eu li que algumas pessoas sentiam falta de pesquisar sobre um conteúdo na internet, mais especificamente no Google, e encontrar respostas escritas, como em um blog, em vez de vídeos, como no Youtube ou no Tiktok. Seria uma demanda nossa, dos millenials, que vimos o search se popularizar, mas antes dele tínhamos que nos virar? Nasci e cresci em uma cidade no interior do Maranhão onde havia uma única biblioteca, no centro de uma praça, e na minha memória era um prédio grande com uma rampa comprida que levava ao andar superior; mas sei que, na realidade, é um prédio modesto com umas janelas de vidro voltadas para…
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[Conto] Amanhã talvez
No escuro do teatro, enquanto um ator declamava um poema, ele segurava a mão dela com leveza sem imaginar que o pensamento dela havia voado para longe dali. Ao fim do espetáculo, ele seguiu com os comentários. Elogiou a atuação da companhia, mas ressaltou que na gestão do diretor anterior eles eram ainda melhores, mais concentrados e com peças mais inteligentes. Ela não disse nada, não sabia quem era o diretor anterior e tampouco se o grupo era melhor ou pior. A noite havia esfriado e ao dobrar a esquina ele ofereceu um casaco e ela respondeu algo que ele não havia perguntado. Ela disse que não gostaria mais de…
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Todos os dias bons
Minha irmã Ellen sempre foi muito organizada. Quando criança, eu não me preocupava em memorizar o dia da aula de Geografia porque ela colava um papel sulfite na porta da geladeira com todos os nossos afazeres. Segunda-feira, aula de inglês, quinta-feira, uniforme de Educação Física, sábado, catequese. Sempre foi um prazer pessoal dela se dedicar a deixar tudo em ordem. Liguei para Ellen na sexta-feira e perguntei se gostaria de jantar comigo no restaurante novo do bairro, um mexicano com luzes coloridas e música sertaneja. – Hoje é dia do futebol do Érico, ele gosta que eu vá. – Nenhuma esposa vai assistir a essas coisas, não é o dia…
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Mais aqui, menos acolá
Ser mais quem eu sou e menos quem eu gostaria de ser. Perdi muito tempo olhando para quem eu queria ser. Não de um jeito inspirador, como quem olha para uma estatúa e pensa: eu queria ser bom o bastante para merecer ter uma estátua, mas de um jeito fantasioso, infantil, como quem olha para um personagem de desenho animado cheio de poderes. Quero olhar mais para quem eu sou e para o que posso fazer a partir disto aqui. Jogar a régua fora, esquecer as métricas universais; meu caminho é só meu. Às vezes é cheio, às vezes tenho que abrir a mata fechada a machadadas, mas é meu.…
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Armários e Caixas
Numa caixa na prateleira de baixo guardei tudo o que me pertence, independente do valor. De uma marca-páginas marrom a um mouse quebrado. Também aquela saia laranja, aquele sonho para o qual me faltou coragem, os dias em que, ansiosa, não dormi, os itens que não pude comprar, os textos que não escrevi, as mágoas que engoli, o desespero que alimentei, os silêncios que não apreciei, as palavras que falei sem pensar, as belezas que não contemplei, os lugares aonde não fui, as flores que não plantei e muito menos colhi, as músicas que não ouvi, outras tantas que não cantei; o máximo que não fiz, os dramas que encenei,…
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[ Conto ] Um dezembro a mais
Naquele ano, ele apareceu na porta da casa dela com um buquê de oito gérberas e um livro de poemas. Na porta da casa havia uma guirlanda grande e desproporcional, ele observou, enquanto ela não atendia à campainha. Ele estava nervoso, namoravam há exato um mês e era Natal. Ele também levou um vinho para os pais dela, um vinho caro comprado com as economias de seis meses. Ela recebeu todos os presentes com o entusiasmo característico de quem está apaixonada. Era alérgica a gérberas, não gostava de poema e nenhum dos pais consumia bebida alcoólica, mas mesmo assim foi uma noite muito especial, ela o amava. No ano seguinte,…
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O que eu sei, o que eu imagino e o que eu invento
Suponho que eu saiba um terço sobre você; o outro terço eu imagino e o outro eu invento. Sei que você é contido, talvez tímido, mas não retraído. Imagino que olhe para as pessoas com o semblante sério, não zangado, e que quando está sendo simpático mexa os lábios ligeiramente. Abrir um sorriso, esse sorriso do qual eu tanto gosto, só quando vale muito a pena – isso eu inventei. Eu sei que seu paladar não é muito dado a doces então imagino que você aceite aquele pedaço de pudim por educação. Em minhas invenções, porém, sei que você não recusa mesmo é uma boa fatia de goiabada. Leia também…

























