Aquela hora do dia sempre chegava. Eu estava sentado no sofá, no meio da tarde chuvosa, com minhas velhas e confortáveis meias, quando minha mãe me mandava ao mercado comprar algum item que havia esquecido para o jantar. Era a tarde mais preguiçosa e aconchegante do ano, não fosse a bendita caixa de leite que escapara da lista de compras no dia anterior e agora cabia a mim e ao meu irmão buscar. Ainda havia isso: era preciso ir na companhia de Marcos. Por um lado, era justo, pois nenhum de nós dois seria beneficiado enquanto o outro fosse punido a sair sob a chuva. Por outro, meu irmão caçula…
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[Conto] Último dia
Eu estava atrasado quando entrei na sala de reuniões e coloquei, discretamente, a bandeja de sanduíches sobre a mesa, ao lado da torta de frango que eu sabia ter sido feita pela Norma, do setor de Recursos Humanos. Ela era uma senhora que quase sempre vinha trabalhar com o mesmo tipo de roupa: calça jeans, alguma blusa estampada, cabelo preso e sapatilhas. Tinha muitos vídeos dos netos no celular, e eu os assistia com atenção e paciência, pois gostava de receber, às segundas-feiras, um potinho com as sobras do almoço dela de domingo. Por isso, eu reconhecia aquela torta pelo cheiro. Ela estava do outro lado da sala, empolgada, filmando…
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O que estou fazendo por Jesus?
No último sábado, assisti ao filme Silêncio (Martin Scorsese), que trata da perseguição aos cristãos no Japão, no século XVII. É, sem dúvida, um filme voltado ao público católico, e muitas cenas apertaram fundo o meu peito, despertando em mim compaixão por aqueles que, até hoje, são perseguidos por causa da fé, além de me fazer refletir sobre o privilégio que é poder manifestar minha religião sem sofrer represálias — ou, pelo menos, sem sofrer represálias que atentem contra a minha vida. Em determinado momento do filme, camponeses são impelidos a pisar em imagens de Cristo e a maldizer a Virgem Maria, como prova de que não são cristãos. Eles…
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Literatura longa para uma vida breve
Um dos grandes pesares desta vida finita é a certeza de que não teremos tempo para ler todos os livros, assistir a todos os filmes, ouvir todas as músicas, contemplar todas as pinturas, esculturas e arquiteturas. Dançar todas as danças também não. Das sete artes, precisaremos escolher duas ou três que nos despertem maior interesse e nos concentrar nelas. Ou, se gostarmos de todas, usufruir um pouquinho de cada. Eu, por exemplo, debruço-me sobre a Literatura, o Cinema e a Música. É o que preenche a minha semana, e, às vezes, tenho a oportunidade de cruzar com a Arquitetura. Escultura quase nunca, Dança idem. Dentre todas, porém, a Literatura é…
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O dia depois de hoje
No início do mês de julho, o mundo do futebol foi surpreendido pela morte do jogador Diogo Jota, e do seu irmão, o também jogador André Silva, em um acidente de carro na Espanha. A notícia chocou todos os que acompanham não só o futebol, mas amantes de esportes por todo o mundo, pela violência da tragédia e pelo contexto em que ela aconteceu. Diogo, de 28 anos, havia acabado de se casar com a companheira de sua vida, Rute Cardoso, com quem tinha três filhos pequenos; havia sido campeão da Premier League, a competição mais popular do planeta, com o Liverpool; e também venceu a Nations League, com a…
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Como você faz qualquer coisa é como você faz tudo
Para mim, um dos serviços domésticos mais chatos de executar é a limpeza do fogão. Não é um trabalho para se fazer de qualquer jeito. Se você quer que fique bem limpo, é preciso passar a esponja nos cantinhos, nas curvas das grades, e em todos os lugares onde porventura a gordura tenha respigado. Ninguém nunca está animado para limpar um fogão, é sempre “caramba, ainda falta o fogão”, e às vezes o que sai é uma limpeza meia-boca. Mas você faz desse jeito mesmo porque precisa se arrumar para sair para o trabalho. Coloca uma roupa, um sapato, prende o cabelo em um rabo de cavalo e pega a…
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Onde crescem os leitores?
Ontem, deparei-me com a seguinte publicação da PublishNews: Com dificuldades históricas e estruturais, Brasil vive impasses na construção de uma nação de leitores. Essa matéria foi muito eficiente em elencar pontos problemáticos no processo de formação de leitores no Brasil. Logo no início, o texto aborda o papel fundamental dos mediadores, na escola, em ONGs, em projetos sociais ou na família. Pra mim, tudo começa dentro de casa. Na minha percepção, não tem projeto de leitura, ou professor, por mais bem-intencionado que esteja, que supra um núcleo familiar que entende a importância da leitura. Evidente que não é regra — eu mesma não vim de um lar leitor —, mas…
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Quem escolhe os livros que você lê?
A pauta da semana na bolha dos leitores é a lista dos melhores livros brasileiros do século que a Folha de S. Paulo publicou há alguns dias. A partir da eleição de professores, donos de livrarias, críticos e outros profissionais do mercado editorial, 25 títulos compuseram uma seleção que gerou alguns burburinhos. Elaboro este texto a partir de um desses comentários. Um determinado leitor apontou a presença significativa da editora Companhia das Letras, que, segundo ele (eu não fui conferir a informação, espero que não cancelem minha carteirinha de jornalista, esse número apenas não é relevante para o que eu quero abordar aqui), publicou 17 dos 25 livros eleitos. O…
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[Resenha] Dom Quixote – Miguel de Cervantes
Sinopse Alonso Quixano, inspirado pelos romances de cavalaria, decide sair pelo mundo em busca de aventuras. Sob a alcunha de Dom Quixote, e ao lado de seu fiel escudeiro Sancho Pança, ele desfaz injustiças, salva donzelas e combate o mal. Resenha Antes de ler Dom Quixote, eu havia ouvido muitos comentários sobre ser um livro arrastado, chato, difícil de concluir – e, por isso, com frequência abandonado; e devo dizer que eu mesma passei pela tentação de deixar a leitura, não fosse a minha regra pessoal de nunca abandonar livros. Porque sim, eu também achei arrastado, chato e penoso de concluir. Isso parte, contudo, da ausência de uma inclinação pessoal…
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Janelas
Entre o fim de fevereiro e o início de março, eu mudei de apartamento. Mudanças não são o meu forte, em nenhuma categoria. Gosto de morar no mesmo bairro (meu endereço ainda é na mesma rua), de trabalhar no mesmo horário, dos móveis no mesmo lugar, de malhar na mesma academia e de pegar o mesmo caminho pra ir e vir – embora esse não seja o melhor recurso de segurança quando se mora em uma cidade como a minha. Mas, por força das circunstâncias, não foi possível permanecer no mesmo apartamento e precisei encaixotar meus pertences e transportar de um imóvel para o outro. Na casa anterior, a primeira…


























